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Haddied Kaptan; Irae
Topic Started: May 8 2013, 02:46 PM (1,047 Views)
Maeveen de Sagitario
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O Mais Veloz entre os Cavaleiros

[align=right]INFORMAÇÕES BÁSICAS[/align]


Nome: Irae [ (Mun Si Jiayi ("Auspicioso Sonho Lírico") ]
Idade real: 102 anos
Idade aparente: 25 anos
Data de nascimento: 08/06/1446
Signo: Gêmeos
Local de nascimento: Jamiel
Local de treinamento: Ilhas Penglai, Cemitério de Armaduras, República Florentina (Ducado de Florença, posteiormente)
Raça: Lemuriana
Idiomas falados: Lemuriano (fluente), Lemuriano antigo (fluente), Mandarim (avançado), Latim Vulgar (Avançado), Latim clássico (fluente), Grego (avançado), Italiano (intermediário)


Aparência:
Consideravelmente alta, a estatura de Irae chega aos 1,78 m e seu peso, 60kg, aproximadamente. Sua tez é alva e seu cabelo acompanha o aspecto cândido, furtando a brancura da neve (ou seja, o cabelo é branco); liso, o comprimento alcança a altura dos joelhos, quase, sendo mais comprido ao centro do que nas extremidades ( formando o aspecto similar à um V ). Em contraste, as cores intensas se reuniram em seu semblante: olhos cálidos, em nuances de rubro, vívido e atraente (ou seja: são vermelhos os olhos). Menos ardente é a cor que recobre naturalmente seus lábios. Estes, cheios e delicadamente demarcados, possuem um tom róseo. As marcas de sua raça possuem uma coloração próxima a de sua pele, apenas levemente mais coradas [Imagem]. Os contornos de sua face são delicados e precisos e costuma ser vista com um sorriso marcante e algo lascivo. Coroando este conjunto, sua voz possui um timbre melodioso e calmo, que pode soar sedutor em muitos momentos.

O corpo é perfeitamente proporcional; uma compleição bem formada, entre o esguio e o atlético. Sua silhueta é acentuadíssima, possui uma elegante cintura que une o torso - de seios fartos e colo delicado - ao quadril, de proporção generosa. Fortes e bem torneadas são as pernas, deixando o aspecto delgado para ombros e braços. Mãos pequenas, de dedos finos e delicados tanto quanto os pés completam a formação corporal. Quanto à cicatrizes, apenas uma macula realmente seu corpo, ficando sobre as costelas, no lado esquerdo do corpo. A pele também possui três tatuagens: uma mandala alquímica identificando-a como Haddied Kaptan na cor negra, situada no centro de suas costas e outros símbolos também alquímicos na mão (também em preto) e ombro direito, em vermelho.

Quando em Jamiel ou arredores - fora de suas obrigações - costuma vestir-se com vestidos de ornatos suaves e belos. Muitas vezes estes tendem a deixar as formas de seu corpo à mostra. Forjando (independente do território) suas vestes são similares, porém o vestido torna-se ainda mais delicado e puramente branco, com estreitas e longas escarfes. É preso ao corpo unicamente por um medalhão dourado com o símbolo pertinente ao seu posto; como uma veste sacerdotal, tal vestido não possui costuras ou emendas. Contudo, quando em outros territórios, Irae mantém como critério para vestir-se: o próprio humor, a situação e sua própria vaidade, aparentemente - sendo o primeiro dos aspectos o de maior peso, na maioria dos casos. Ainda quando em alguma missão de campo, convém ressaltar, as vestes adotadas incluem um capuz branco e vestido em mesma cor. A recobrir o tronco, algum artefato justo e em suas mãos haverão braceletes, do mesmo material usado para recobrir o tronco.

[spoiler=Referência para aparência, vestes e voz (links)]
Veste
Veste
Tatuagem
Tatuagem
Tatuagem
Voz
[/spoiler]




Personalidade:
Irae é autista. Porém, com o desenvolvimento, atingiu uma capacidade de inibir os efeitos desta anomalia genética sobre sua psique; contudo, as experiências pelas quais passou a fizeram adotar uma personalidade com três níveis de profundidade, sendo o primeiro amplamente difundida quando no convívio social, enquanto os demais são restringidos à pequenos grupos, conforme maior a afinidade com aqueles que a cercam. Isto é similar à teoria de psicanálise, a qual sustenta que a psique humana é composta por três elementos: id, ego e super-ego.

Excêntrica, petulante, imprevisível e desagradável podem ser as primeiras palavras a definir superficialmente a personalidade da jovem lemuriana. Seu olhar e língua afiada muitas vezes parecem lançar um silencioso desafio ou alguma ironia e sarcasmo, embebidos em suaves requintes de volúpia e maldade. Apesar deste conjunto nada promissor, não é algo que impeça Irae de ser - em momentos distintos - gentil com os outros, quando sentir-se a vontade. Entretanto, caso a gentileza não seja recíproca, a lemuriana saberá retribuir a falta de afinidade com um jeito bastante marcante, a variar conforme a cena. À exceção do Ancião e figuras equivalentes, não fará distinção quanto à hierarquia, também. Ou seja, há de tratar da mesma forma um aprendiz ou um guerreiro mais experiente: sempre o respeito que achar cabido, merecido. Possui também uma sinceridade notável (muitas vezes empregada de uma maneira extravagante), transparecendo facilmente reações e emoções para observadores mais atentos - e pode utilizar os mais variados meios para demonstrar o que pensa; vez ou outra pode sentir a necessidade de amenizar verdade para não ferir ninguém, mas isto é incomum. Não obstante, repudia veemente aqueles que mentem, enganam.

Cultiva - visível em um nível de profundidade intermediário da sua personalidade - um forte senso de justiça e acredita que todo pequeno gesto é significativo para que a mudança ocorra; seja para uma pessoa ou para o mundo. Isso agrega à Irae uma busca por agir sempre com sensatez e calma, nas situações mais adversas, pois inconsequência é algo que considera uma perigosa fraqueza. Isto significa que até mesmo decidir ser desagradável ou não é pesado antes que efetivamente interaja com outros. Já no nível mais profundo, é possível ver que Irae é uma moça gentil, que ama verdadeiramente a vida e é sensível à ela. Sendo autista, seu mundo era diferente e por ele ela passava indiferente; agora deseja, profundamente, preservar o que conquistou; a vida e personalidade que adquiriu. Se age de maneira menos agradável ou boa, foi a medida que adotou para proteger a si - seus sentimentos e coração - das decepções que ocorrem ao longo da vida. Queria, genuína e inocentemente, acreditar que esconder-se assim dos outros é desnecessário, porém não tenciona mudar sua atitude, até que esteja provado que age erroneamente. Portanto, os excessos que pode eventualmente cometer, são decorrentes também da negação à indiferença, na qual viveu seus primeiros anos e que são os de maiores reflexos e influência quando na idade adulta, psicologicamente.

No que tange, todavia, o convívio voltado à batalha, seu comportamento é bastante (e diferentemente) definido: por seus aliados e aqueles que cativarem seu afeto, dedica sua amizade e lealdade - além de evitar destilar a acidez de seus pensamentos neles. Já em prol de uma boa causa, Irae oferece humilde sua vida embora há de lutar com todo seu fervor para não perecer, pois é isto o que deseja a todo custo evitar. Ao inimigo pouco oferece. Prefere, obviamente, não confrontar-se diretamente com o mesmo, mas tem a noção de que nem sempre os impasses podem ser resolvidos sem um combate. No entanto, jamais desfere palavras ofensivas - à exceção de seu sarcasmo - não importa a quem esteja enfrentando. Pode chegar a responder com ira em sua voz, se a situação conduzi-la a isso, é claro.
Orgulhosa de sua raça, aprecia aqueles que a conhecem ou que estimam seu povo. Sua conduta também cativa vaidade, fazendo-a ser severa caso necessite corrigir alguma atitude alheia ou sua própria. Uma pessoa que ignora o mínimo sobre a raça de Irae, por certo, terá maiores dificuldades em com ela lidar.

Um adendo interessante é que, como qualquer pessoa, Irae gosta ou desgosta daquilo que a cerceia; e seu agir será sempre um reflexo dos sentimentos que a ocasião despertou ou de seu humor.




[align=right]COSMO[/align]


Manifestação:
Em níveis baixos e medianos, o cosmo é vislumbrado como uma leve aura branca ao redor do corpo de Irae para os aliados, mesmo se vir a confrontá-los a fim de treinar ou medir aptidões, pois não são verdadeiramente inimigos. Pequenos feixes e pontos brilhantes parecem circundá-la e bailar ao redor de seu corpo.

No entanto, para os reais inimigos, a manifestação dessa energia é completamente oposta, fazendo jus ao seu nome. Uma lúgubre aura em tons rubros pode ser vista, algo que somente o opositor poderia sentir, sendo desconhecido até mesmo pela jovem ferreira.

Essa dicotomia é explicada por sua gentileza para com aquilo que concorda e a rechaça àquilo que discorda e que a ameace, de alguma forma. Portanto, a percepção cósmica que os outros têm é forte o bastante para "corar" o brilho de cosmoenergia da ferreira, numa "tradução" da condição que ocupam: aliados ou inimigos. Fato curioso é que, em momentos em que for necessário manifestar e elevar ao máximo sua energia, ambas formas irão se mesclar e os tons passarão para nuances da cor laranja. Outro fator observado durante a elevação máxima, é o desenho de sua mandala (tatuada nas costas: Imagem) abaixo do corpo da jovem, formada pelo reflexo visível de seu cosmo.


Sensação:
Diferente de qualquer outro usuário de cosmo, a energia emanada pela jovem é sentida pelas armaduras (e armas, quando houver) daqueles que a cercam, sejam inimigos ou aliados - independente da maneira com que são criadas, desde que contenham algum tipo de energia própria ou vida. Essa sensação é passada por tais artefatos - tão vivos quanto seus portadores - através de vibrações que são captadas pelos sentidos aguçados de quem as usa, de acordo com o nível de sintonia deste com o objeto.

Quando em meio aos seus, amigos e/ou aliados, a sensação é de segurança, proteção, conforto e fortalecimento (para as armaduras e artefatos). Uma calma indescritível transborda da ferreira e emana até tocar suavemente aqueles que a circundam amigavelmente; isto é, toca suas armaduras e pode ser sentido igualmente por eles.

Já para seus opositores, o que captam seus artefatos é ira; um medo e insegurança significativos para as armaduras (e armas). Isso igualmente será captado por quem as porta e notará essa sensação pavorosa, inexplicável, proveniente do emanar do cosmo rubro de Irae. Algo similar à o que um humano normal sente antes da morte; o mesmo tipo de medo.
Pessoas que não estejam trajando qualquer tipo de armadura ou portando arma alguma, não fazem distinção clara da sensação que a cosmoenergia da ferreira produz.

No auge da expansão cósmica, as sensações redobram para ambos os lados; armaduras aliadas sentir-se-ão fortemente encorajadas e motivadas, enquanto as opositores sentirão uma ira incontrolável quase sufocá-las por sua pressão, similar à visão de um guerreiro em estado de frenesi.

Convém ressaltar que, quanto maior a diferença cósmica entre Irae e os demais, menor ou maior será a captação desta sensação. Ou seja: níveis acima do dela, captarão parcialmente a sensação e a definição disso ficará a critério do narrador, baseando-se naquilo que seria de maior consideração para os objetos envolvidos. É possível, contudo, que a sensação possa ser suprimida por completo, também (diferença grande de rank cósmico)



Motivação:
O combustível para elevar seu cosmo será sempre defender seus propósitos - aquilo que acredita que deve fazer - independente de como possa ser julgada pelos demais, mesmo que tenha que sacrificar algo para alcançar seu objetivo. Punição àquilo que discorda também é um fator influente. Cabe a ressalva de que altruísmo, por si só, não a faz expandir seu cosmo ao máximo, posto que isso será motivado pelo conjunto de aspectos propostos pelo Tao e a interpretação destes pela personagem.

Se algo trouxer dúvida à mente da lemuriana ou, por alguma razão suas convicções se mostrarem incertas ou errôneas, o cosmo abrandar-se-á e Irae estará sendo desmotivada. Se, em algum momento, algum sentimento ou ação parecerem contraditórios ou conflitantes, poderá - inclusive - abster-se da luta até que tenha o esclarecimento desejado. Logo, não é difícil que ocorra desistência do combate diante de uma simples interrogação. Além disso, outro ponto que a desmotiva são crença e comportamento alheio. Se o inimigo ou até mesmo algum aliado sustentar motivos vãos, Irae não permanecerá apta ao combate; por exemplo: alguém que se dispõe a lutar unicamente por cega lealdade, por qualquer tipo de competição, com ares de exibicionismo, simplesmente porque "parece o correto" ou para "provar" qualquer coisa.

Por estes aspectos, temos, por exemplo, que Irae não confrontaria algum inimigo apenas por se cruzarem e terem essa condição - de lados opostos. É muito improvável que ocorra, no que tange as crenças de Irae. Se, por outro lado, for uma ordem que considera coerente e racional, ela o fará independente da simpatia que possa ter adquirido pelo outro.

Por ser uma motivação tão complexa, no que compele embates e combates, a lemuriana por si só já desconsiderou por completo o caminho do guerreiro. Contudo, quanto à eventos alheios a confrontos, suas motivações e desmotivações diferem, passando para mais sentimentais. Por exemplo, quando na forja, sua motivação será sempre a criação de um novo ser, uma nova vida; algo novo e único que somente suas mãos são capazes de prover, ao se doar naquele gesto, ou a sustentação e restauração de uma que está fenecendo. Neste ponto, o que a desmotivaria, seriam interferências de terceiros, como um cavaleiro que possa vir a considerar indigno de tal artefato ou a quem desgoste de sua conduta. Ou simplesmente com quem não simpatize.


Domínio:
Rank de Poder Geral: Rank A+
Sentidos:
Domínio dos Cinco Sentidos: Domínio Pleno
Domínio do Sexto Sentido: Domínio Pleno (Telepatia, , Teletransporte , Telecinesia , Sincronia, Clarividência, Clariaudiência, Psicometria, Intuição, Sintonia)
Domínio do Sétimo Sentido: Domínio Pleno (Todos os 07)
Domínio do Oitavo Sentido: Nenhum
Domínio do Nono Sentido: Nenhum


[align=right]TRAJE [/align]

Mudanças: -
Rank do Traje: -
Características do Traje: -

Artefato:
Wu Long Ji (Alabarda Dragão de Batalha), Long Hu Jiao (Couraça Protetora do Dragão) - Imagem de referência

Uma arma forjada por Irae já quando em território lemuriano. Os materiais necessários para a forja - Gamânio e Oricalco - são provenientes de Penglai e seu desenho foi cuidadosamente elaborado pela própria lemuriana. A lâmina principal é circundada por um par de asas dracônicas - lâminas adjacentes - e é incrustada por um cristal vermelho, que reage conforme o emprego do cosmo de Irae sobre a lâmina. Ainda junto do conjunto de lâminas, um feixe trançado e adornado está anexado, com o intento de confundir à visão inimiga, como ocorre em geral com as alabardas chinesas. O longo cabo tem forma circular, com ditames entalhados em vívido dourado e, por fim, ao final do cabo existem duas pequenas lâminas - a cauda do dragão. Apesar do aspecto ornamental, sua eficiência é inquestionável.

De maneira similar, o peitoral fora forjado em tons prateados e em vermelho escuro, com detalhes menores dourados. Seu formato lembra um corselet, pois recobre e protege apenas o torso: seios e parte de seu abdômen. Embora tenha utilizado também os minérios raros encontrados e protegidos em Penglai, a defesa que oferece não é igualável à qualquer sagrado traje de Athena, pois não foi abençoado com a dádiva divina.

Contudo, mesmo com tamanha perfeição em sua confecção, estes objetos não são similares às sagradas armaduras de Athena, pois não possuem sua bênção, tão pouco um espírito que a habite.

  • Rank dos artefatos: C-;
  • Dano-base para mesmo rank: 3% a 4%;
  • Aprimoráveis, caso Athena ou alguma outra divindade participe do processo, concedendo-lhe sua graça
[/color]



[align=right]TÉCNICAS[/align]


Nome da Técnica:Firmandi Animo [Fortalecimento da Mente] -Imagem
Categoria: Suporte / Defensiva
Descrição: Uma vez que Irae adquiriu controle sobre seu autismo, percebeu que poderia se tornar um ponto vulnerável a ser explorado por aqueles que detivessem uma força psíquica mais desenvolvida que a sua própria. Esta percepção a conduziu para um novo e dedicado treinamento mental, a fim de que criasse uma defesa ou um reforço para esta característica. Embasando sua técnica em suas aptidões mentais - telecinese - bem como em sua habilidade de Supressão, a lemuriana instiga seu cosmo a reforçar sua psique. Em sentido figurado, enquanto o cérebro "normal" faz referência a todas as informações e as cataloga, quase com em uma biblioteca onde os assuntos são separados conforme a temática, na mente de Irae não há referência; todas as informações permanecem aparentemente desordenadas - ordenadas, na verdade, em uma lógica incompreensível - distribuídas aleatoriamente, tal qual folhas de diferentes árvores, flutuando na superfície de um lago, sopradas pelo vento: há possibilidade de identificá-las e as coletar por espécie, mas irá demandar muito mais tempo e trabalho do que se as juntasse quando reunidas sob a copa de onde caíram.

A evocação deste poder é realizada através de sutis e delicados movimentos, onde o primeiro aspecto visível é o aumento de sua aura cósmica, o que leva roupas e cabelo esvoaçarem suavemente. Abaixo do corpo da jovem, dá-se a concentração de seu cosmo, que haverá de brilhar na forma de uma mandala alquímica. Em uma leve pulsão, esta mandala se dissipa e a energia liberada sobe, focando-se na testa da jovem - mais precisamente entre as duas marcas de sua raça - onde irá descrever um símbolo alquímico, que desaparece a seguir, completando a formação de sua técnica.

Efeito: Agrega maior dificuldade para aqueles que tentarem invadir ou controlar sua mente, pois seus pensamentos passarão a fluir naturalmente, isto é, diferente de uma pessoa não-autista. Além disso, por seus pensamentos serem absolutamente lógicos, ilusões ou efeitos "irreais" tornam-se menos efetivos, dificultando assim que Irae seja afetada por eles e os danos do tipo psíquicos serão minimizados, uma vez que a técnica visa também o reforço mental (a cargo do narrador).

Sendo assim, personagens de rank igual ao da personagem, encontram muita dificuldade em usar técnicas que envolvam controle e leitura mental, além de ilusões e efeitos aproximados, enquanto ranks inferiores, se torna muito mais difícil, beirando a impossibilidade. Efeitos que visem corromper, atordoar, confundir ou simplesmente causar dano à mente da personagem sofrem redução ou até mesmo a anulação (a depender do entendimento do narrador e diferença entre poderes cósmicos). O efeito ainda pode ser reforçado, à medida que empregar maior gasto cósmico do que o normal. Esta técnica pode ser sustentada, desde que se mantenha um gasto cósmico para sua manutenção, a cada turno. Todos os efeitos - máximos e mínimos - a critério da narração, evidente.
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Nome da Técnica: Excelsum Corpore [Elevação do Corpo] - Imagem
Categoria: Suporte
Descrição: Com Ho Hsien Ku, Irae aprendeu a graça e a leveza, ensinamentos aprimorados depois por Li Tieh-Kuai. Baseando-se nisso, adaptou sua postura combativa de forma que exprimisse tal aprendizado, desenvolvendo assim esta técnica, que aumenta sua leveza corporal devido à união com seu espírito elevado. Através disso, a lemuriana reforça e eleva suas capacidades no que tange sua velocidade. Como a técnica está intrinsecamente ligada à elevação do espírito, apenas desestabilizando seu estado espiritual a técnica pode vir a sofrer penalidades ou até mesmo cessar, em casos extremos.

Enquanto executa essa técnica, visualmente o cosmo manifestado pela jovem adquiri o aspecto de graciosas e etéreas plumas que, a partir dos pés, sobem gradativamente pelo corpo, circundando-o sem o tocar, até chegar ao topo de sua cabeça, para então se dissiparem em pequeninos pontos luminosos.

Efeito:Enquanto a técnica estiver ativa, Irae terá maior agilidade em seus reflexos, deixando-a com velocidade igual a um rank acima ao dela, sempre (a considerar o gasto cósmico sugerido).
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Nome da Técnica: Aetherea Scuta [Escudo etéreo] - Imagem
Categoria: Defesa
Descrição: Conforme desenvolveu sua telecinese e a compreensão do seu sexto sentido sob a tutela de Chung-Li Ch'uan, que lhe ensinava sobre o equilíbrio das forças, passou a trabalhar nesta técnica que tem o fim de defender pre-emptivamente de agressões repelindo-as com sua telecinese. Polir esta habilidade levou anos, mas lhe permitiu ter um bom campo de alcance em que pode varrer intenções de adversários e projeções de poder físico em sua direção, para então responder com um impulso telecinético para deter, desviar ou pelo menos conter parte da energia do golpe lançado contra ela. Em se tratando de golpes corpo-a-corpo, a técnica pode arremessar ou empurrar o agressor, sem causar grandes danos (a não ser que o personagem atinja algo com a queda). Caso consiga se aproximar de Irae, esta parecerá estar defendendo usando seu próprio corpo ou sua arma, mas em fato estará aparando os golpes com a técnica - aproveitando-se da percepção antecipada para ter mais eficácia na defesa.

Ao ativar a técnica, Irae assume uma postura de guarda que não é estática, mas sim feita de movimentos fluidos, circulares, movendo os braços e o corpo de modo similar a uma dança, de modo que pode se concentrar melhor em perceber os golpes e repeli-los com as devidas respostas de seu corpo e mente, ao passo que fica iluminada e o piso sobre o qual começa a girar desenha um círculo que representa o equilíbrio de forças que ela pretende manter. Os golpes defendidos podem ser vistos no ponto de impacto onde são bloqueados como um clarão.

Efeito: A partir da ativação da técnica, qualquer ataque de natureza física ou de energia (que possa ser detido pela energia cinética da telecinésia, conforme entender o narrador) em um raio de 75m - ou seja, técnicas lançadas desta distância - será defendido assim que lançado, entrando na área de cobertura do escudo, que é de 3 metros de raio, apenas. Inclui tanto ataques de longo, como os de curto alcance, sendo particularmente efetiva contra projéteis, mas também contra golpes corporais. Contra energia pode reduzir ou desviar o rumo do ataque, permitindo que com alguma movimentação Irae saia ilesa. Deter ataques mais poderosos ou desferidos de uma distância superior a 75m demanda mais energia e concentração (conforme entendimento do mestre e sugestões abaixo indicadas). Esta técnica pode ser utilizada em união com Draconum Chorea, porém com reajuste de gasto cósmico para mais, a partir do momento que ambas técnicas estiverem ativas.
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Nome da Técnica: Mortiferum Blandire [Carícia Mortal] - Imagem
Categoria: Ofensiva / Estado
Descrição: Com Tung-pin, Irae obteve discernimento e doutrina guerreira, controlando assim seu cosmo de forma adequada quando em batalha, podendo concentra-lo da maneira que melhor servir-lhe em batalha, sem perder a característica de energia, que fluirá a seu critério - ou seja, concentrá-lo em diferentes proporções e pontos, mas sem que esta manifestação adquira qualquer aspecto rijo e específico. Anos depois, de Chang Kuo recebeu suas primeiras lições aprofundadas sobre a restauração e recriação das armaduras. Tendo Irae uma afinidade natural para esta tarefa, explorou todas as possíveis vertentes e deparou-se com o desejo de perverter este conhecimento, tornando-o maléfico aos artefatos. Unindo então o que aprendera de ambos tutores, a muito custo conseguiu elaborar uma técnica que não apenas vise ferir o inimigo, mas tenha também o intuito de atentar contra os itens - armas e armaduras - que este usar durante o combate.

Assim, quando na preparação da técnica, conforme Irae avoluma sua concentração cósmica - juntamente com sua afinidade cinética - a direciona contra o inimigo, caso esteja sem o Wu Long - o Ji. A energia se dividirá em cinco feixes que irão se espalhar conforme a vontade e controle da lemuriana. Caso esteja portando e decida usar a alabarda em combate, a energia se concentrará ao longo da lâmina e empunhadura da arma, recobrindo-a por completo.

Efeito: Os feixes procurarão acertar diretamente seu alvo, de cinco feixes, subdividindo-se em número conforme a vontade de Irae, tendo um limite de 10, no entanto. Caso seja evidente que não acertarão o inimigo, Irae procurará desviar a trajetória em último instante, a fim de que acertem pontos ao redor do único inimigo a ser afetado, criando assim uma pequena "névoa" cósmica; ainda agregará algum dano, mas ínfimo se comparado com o intento original (alcance de 150 metros - pois é um único alvo e o ataque é desferido em forma de feixe). Ao acertarem a armadura ou arma do oponente, a maldição tem início, sendo alimentada por Irae com gasto cósmico contínuo ou com novos ataques. No corpo do inimigo, o dano não agrega a maldição e será considerado dano mental/cósmico (as "rajadas" são compostas de cosmo + energia cinética).

Quando munida com o Wu Long, estando o cosmo e energia imbuídos na arma, somente locais que forem acertados sentirão o efeito da técnica, que será - neste caso apenas - composta de uma sequência de cinco golpes com a arma (equivalentes aos cinco feixes originais de energia).

Convém ressaltar que quanto maior a diferença de poderio entre Irae e seu oponente (favorável à lemuriana) maior será o dano infligido e menor o tempo para que a maldição atinja seu ápice. Para uma diferença desfavorável à ferreira, a tendência é diminuir o efeito. Esta maldição pode ser revertida a qualquer momento, por alguém que detanha o conhecimento de raparo e revive dos artefatos em questão ou alguém que tenha domínio e capacidade de absorver para si o efeito (neste caso, o usuário teria apenas danos até o final da contagem de turnos). Não é uma morte definitiva, mas uma anulação temporária, similar ao torpor. O mecanismo de seu funcionamento, para melhor entendimento, é similar à inalação de algum veneno: é danoso ao ser inoculado e passa a prejudicar a vítima, podendo levar à morte em seu efeito máximo.

  • O alvo é único: será visado apenas um usuário e seus artefatos, ao desferir o ataque. Quanto a seus artefatos, entende-se: as armaduras. Caso hajam armas, o intento em afetá-las também será evidenciado.
  • Um novo ataque pode ser desferido em outro alvo.
  • A técnica visa primária e principalmente afetar os artefatos, podendo o dano no usuário ser menor ou ínfimo (o dano só é causado uma única vez, quando e se a técnica o atingir)
  • Pode ser revertida com o conhecimento adequado, afinal é causada por um conhecimento específico, uma especialidade
  • Um personagem que alcance o milagre do cosmo (alguém que queimar o cosmo num nível acima do usado na técnica) pode diluir os efeitos da mesma, a cargo da narração, como se estivesse tentando evitar a ação de um veneno.
  • Todos os efeitos e características da técnica, a critério da narração.
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Nome da Técnica: Sublimis Immolatio (Sublime Sacrifício) - Imagem
Categoria: Suporte
Descrição: Enquanto ainda aprimorava seu dom para a forja, Irae despertou um sentimento elevado em relação ao seu sacrifício de cosmo e sangue, surgindo assim o mais sublime amor que poderia sentir. Tal sentimento a fez pensar e condoer conforme entendia que os artefatos que a tanto amava também ofereciam-se em sacrifício para proteger seus escolhidos. Portanto, decidiu à elas se dedicar, inclusive em batalha. Após anos de estudo e compreensão destes objetos, Irae entendeu que não havia como perpetuar um bem, uma proteção, confeccionado no calor da batalha, em pouco tempo que teria. Contudo, descobriu que poderia dar-lhes um novo ânimo e proteção por um curto período de tempo e decidiu que era válido e isto a deixou feliz. Portanto, sacrificando uma singela quantidade de seu sangue, com um pequeno corte, a lemuriana eleva seu cosmo e nele imbui o fluído de seu corpo, sua vitae. Uma vez dissolvido, dissipado, forma pequeninas esferas luminosas que irão se dispersar pelo ar, ao redor do corpo da jovem. Com graciosos movimentos - tal qual delicada e suave dança - Irae concentra e catalisa sua energia e dom, finalizando assim o preparo de sua técnica. Ao final, os pequeninos pontos luminosos são captados pelas armaduras - e eventuais armas - para por eles serem absorvidos.

Efeito: O sangue e cosmo da ferreira irão fortalecer momentaneamente as atribuições dos artefatos-alvo, ampliando assim sua defesa, no caso de armaduras, ou ataque, caso armas sejam também favorecidas. Isto fará com que adquiram estas atribuições similares à de um rank acima do atual (de cada item). Além disso, técnicas que visem quebra ou destruição destes equipamentos terão seu efeito minimizado enquanto a técnica estiver ativa. Ou seja, é improvável que ocorra quebra ou destruição, embora eventualmente ainda sofram danos. Para que aliados se beneficiem com a técnica, é imprescindível que estejam num raio de vinte metros de distância da Haddied Kaptan quando a Sublime Sacrifício for executada; após sua execução, não será necessário mais que permaneçam próximo da ferreira cessando o efeito após o tempo determinado. O efeito durará por três turnos (ou tempo equivalente em segundos / minutos) mesmo se houver distanciamento entre os beneficiados e Irae, isto porque a energia e sangue que doou ficam impregnados nos itens por este tempo, esvaecendo após, similar ao efeito que algum veneno ingerido ou imbutido teria.

  • Só afetará artefatos (a entender: artefatos significam armaduras - principalmente - e armas, quando houver; afinal, ambos são artefatos porém com orientações diferentes: defesa e ataque) que contenham nível cósmico igual ou inferior ao da ferreira;
  • Pode vir a reforçar a Wu Long Ji, já que é confeccionada de maneira similar - embora não seja "viva";
  • Dificilmente afete inimigos, uma vez que Irae foca e canaliza sua energia para determinados alvos, seus aliados apenas.
  • Todo conteúdo da técnica, incluindo efeito, a critério da narração.
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Nome da Técnica: Amplecti Ex Lege (Abraço da Lei) - Imagem
Categoria: Estado / Ofensiva
Descrição: Lei e Dever foram as primeiras lições a marcarem a vida de Irae e o que, de fato, imbuíram a vontade de lutar e defender aquilo em que acredita. Quando, porém, deparou-se com a possibilidade de que encontraria transgressores de sua concepção e crença, procurou um modo de expressar seu desagrado ante esta oposição. Com auxílio de Chung Li e Tung-pin, firmou seus pensamentos na confecção desta técnica, uma "chamado à lei", a fim de subjugar a rebeldia alheia com a sua convicção e força de sua mente.

Concentrando seu cosmo em uma das mãos, sua ira interior se manifesta, agregando um aspecto de raio ao seu cosmo, que há de se converter numa lança etérea, de energia cosmo-cinética pura, a ser lançada para os céus. Tal energia se manifesta de forma luminosa, clara, formandolinhas e caracteres antigos que transcrevem uma torrente de pensamentos que sempre estão a passar pela mente de Irae e representam tudo que aprendeu sobre Lei e Dever. Uma vez alcançando o espaço acima do inimigo, a lança subdivide-se em cinco feixes, com aspecto similar à dardos, que irão circundar o inimigo. A seguir, estes pontos de energia lançam-se impetuosamente ao inimigo, novamente semelhante à raios visualmente, envolvendo-o como uma serpente o faria a, cercando-o com os ditames da lei nos antigos caracteres lemurianos que compõem o corpo da energia que flui.

Efeito: Constrição a partir da diminuição da circunferência da energia que envolve o inimigo, agregando dano cosmo-cinético. Tal qual a constrição de uma serpente, por exemplo, a técnica pode levar a contusões, esmagamento e fraturas, conforme maior o tempo de atuação sobre o inimigo. Quanto mais este se expressar contrário à vontade de Irae, mais a técnica irá atuar sobre ele; sendo que o inverso também válido: ao abdicar de suas razões, tornando-se concordante com o ponto de vista da lemuriana - verdadeiramente diminuindo sua animosidade - a técnica abrandar-se-á até que dissolva-se, plenamente. Isto não quer dizer, obviamente, que ele precisa passar a vê-la como aliada, apenas que precisa dar mostras de considerar outros meios para a efetiva resolução de seu impasse. A técnica tem alcance de 75 metros e tem duração de três turnos.

  • A expressão da contrariedade ou concordância com a lemuriana não se dá por palavras, mas por sua manifestação cósmica. É clara a diferença entre uma manifestação hostil ou não e não há como imbuir o cosmo com intuito ofensivo sem que seja percebido. E, até que o inimigo entenda que este é o mecanismo de reconhecimento para afrouxar ou apertar os "nós da Lei", Irae já familiarizou-se com a energia alheia. Ou seja: palavras por si só nada fazem.
  • A técnica pode ser considerada perseguidora da hostilidade e rivalização contra Irae. Portanto, um teletransporte, mesmo sendo algo incomum e "imprevisível", não evitaria de o alvo ser alcançado, pois seria localizado pelo seu cosmo.
  • Se é, como já dito algumas vezes, alimentada pela hostilidade, apenas alcançando o milagre do cosmo pode vir a romper os laços, afinal quanto mais o inimigo expande o cosmo, mais é clara sua hostilidade.
  • Teletransportando-se para uma zona que seja considerada "fora da área de combate", as correntes afrouxaram e desaparecerão, afinal o alvo não estará mais diante de Irae a emanar seu cosmo para confrontá-la. Dentro, entretanto, da área de combate, enquanto o cosmo emanar hostil haverá o enlace, como já dito.
  • Todas as caracterizações a critério da narração.
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Nome da Técnica: Draconum Chorea (Dança dos Dragões)
Categoria: Ofensiva / Estado
Descrição: Ainda que seus mestres não fossem todos voltados às artes marciais, mas certamente sua Sabedoria e Conhecimento podem ser vertidos para o aprimoramento dos dons para o combate de Irae. Compreendendo seu poder e suas habilidades melhor, Irae desenvolveu esta técnica que aplica conforme a oportunidade uma sequência de golpes com a finalidade de driblar a guarda do adversário e lhe atingir pontos vitais.

A técnica se inicia com uma postura de guarda, na qual Irae irá se movimentar em torno de um círculo; alternativamente a técnica poderá ser lançada a partir da performance de Aetherea Scuta, uma vez que a postura é a mesma. O círculo e o pentagrama sob seus pés, bem como a emanação de seu cosmo por seu corpo alertam o adversário, mas o primeiro golpe da técnica sempre vai ser diferente, procurando abrir a guarda do oponente pelo seu lado mais frágil - a movimentação tem por base ajustar a energia e a posição de Irae conforme a disciplina do Tao divide as forças do mundo, os cinco elementos que se destroem, ofendem e recriam entre si - por isto é comum que a cor de sua aura altere conforme cada movimento e golpe. De posse da alabarda, Irae lança ataques com a mesma em grande velocidade e estende seu ponto de impacto revestindo a haste com telecinésia, aumentando o alcance efetivo da técnica; sem a alabarda, seus golpes serão lançados a partir de suas próprias mãos e pés, sendo um pouco mais leves, mas tendo um pouco mais de velocidade e alcance (já que são energia projetada, projéteis), bem como são mais luminosos em razão da explosão cósmica que usa para promover seu impacto.

O primeiro golpe pode ser frontal, pode partir de um ataque pelos flancos ou ataques descendentes, mais longos e pesados. A partir do primeiro, Irae irá lançar vários outros ataques, se deslocando em torno dos cinco pontos de sua base a fim de romper a guarda ou atingir mais pontos vitais: fígado, pulmões, coração e o crânio. Após a célere sucessão de golpes, Irae investe contra o oponente a fim de aplicar um golpe com o ânimo do "fogo" (não se trata de fogo real, apenas uma intensa explosão de seu cosmo) contra o coração do oponente, causando uma grande explosão em sua carga. Mesmo que não o perfure, o impacto teria condições de parar o coração de um adversário à sua altura.

Efeito: Como foi dito na descrição, é uma técnica adaptável à cada oponente, mas em essência, trata-se de uma sequência de golpes, com a alabarda - ao usar a alabarda, deixa-se de fazer ataques telecinéticos (de longo alcance) e focar no poder e velocidade dos ataques com a arma reforçada por seus poderes -, socos ou chutes, sendo que os socos podem ser aplicados com várias maneiras de se fechar o punho (neste caso, o ataque é projetado; sendo como um projétil, explica o longo alcance). O movimento do corpo de Irae é imitado pela sua telecinésia, fazendo uma projeção do golpe sobre o inimigo, assim, exceto pela luminosidade do golpe, o ataque é "fantasma", pois não é feito necessariamente no curto alcance do combate corpo-a-corpo, embora possa ser aplicado com até mais eficácia neste caso.

É um ataque estratégico e convém não ser usado sem antes alguma observação do método de combate do oponente, ou pelo menos, de alguma percepção de como este se entrega à luta para haver uma resposta adequada. Por isto uma das formas ideais de lançar o ataque é a partir da postura defensiva do golpe Aetherea Scuta.

Os danos causados pelos primeiros golpes são leves, embora possam ser mais efetivos conforme a guarda do inimigo não seja muito elevada, ou caso ele esteja sem o benefício de usar uma armadura poderosa. No entanto, o golpe final é sempre de poder bem elevado, que se contar com os outros para romper as defesas do oponente, pode ser um golpe definitivo (a critério do mestre).

Outra característica dos efeitos é a possível mescla com Mortiferu Blandire, a fim de além de abrir a guarda do inimigo, prejudicar-lhe os equipamentos (similar à Mortiferum Blandire; neste caso, o custo cósmico pode ser reajustado para mais). Esta técnica tem alcance de 50 metros de raio.

  • Afeta apenas um usuário por uso;
  • Não possui efeito cumulativo, progressivo ou uma sequência obrigatória, ou seja: se um golpe é defendido, perde-se aquele dano, mas ainda podem ser desferidos os golpes restantes. São como os kati no Kung Fu: um número X de posturas que, se defendidas, podem ser continuadas sem reiniciar o kati por inteiro.
  • Caso não utilize a alabarda, pode-se recorrer a projetar os ataques a partir de socos ou chutes, atingindo assim uma distância maior do que estes membros cobrem.
  • Os ataques atingem um alvo "a frente", mas não em uma só direção, com o uso da telecinésia várias forças em vetores diferentes podem ser voltadas contra o alvo.
  • Esta técnica pode ser utilizada juntamente com Aetherea Scuta e refinada em comunhão com a Mortiferu Blandire.
  • O grau de dificuldade na esquiva do alvo, bem como demais características da técnica, a critério do narrador.
  • Esta técnica tem alcance de 50 metros de raio (menor que o pertinente ao rank); ou seja UM alvo dentro deste limite. Não é um ataque de área, porém é descrito em raio pois como já foi dito, não é apenas um feixe em linha reta. Mas é somente um alvo.
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[align=right]HABILIDADES[/align]


Nome da Habilidade Supressão
Descrição: Irae é autista, isto pode ser constatado logo nos primeiros anos de vida, em sua história. Como autismo não é uma doença, logo não há cura; se tratando, portanto, de uma anomalia genética, onde o cérebro - com um número exponencialmente maior de pontes neurais - identifica a realidade de uma forma diferente, com um número igualmente superior de possibilidades, incompreensíveis à pessoas que não tenham esta diferenciação neural. Contudo, é estritamente lógico o modo como pensam e é esta lógica tão peculiar e intrínseca que tolhe o entrosamento social - por não parecer algo imprescindível para a manutenção da vida. Portanto, o autista define que certas convenções sociais (abraços, um aceno, uma risada, a vontade de passear, de estar com alguém) parecem ilógicas e, consequente, dispensáveis; porém não indica déficit mental - embasado e defendido por geneticistas em todo o mundo - indica, no entanto, que focam sua capacidade cognitiva em poucas tarefas, que haverão de executar com primor e genialidade (artes e alquimia lemuriana, no caso de Irae).

Com a ajuda de uma mestra de sua raça, que sofrera com um problema equivalente, Irae conseguiu desenvolver uma habilidade que é capaz de suprimir as possibilidade e flexionar sua lógica, condicionando-a à uma similaridade com a mente de um não-autista. Contudo, alguns pontos foram completamente suprimidos, enquanto outros apenas parcialmente.Irae compreende e atua como qualquer outro dentro da sociedade e consegue divisar o valor que cada ato e demonstração emocional possui, sendo recíproca à isto. Não sente ainda plenamente a dor, o que pode ser perigoso para sua vida; isso não significa que ela é resistente à dor, efetivamente; apenas que seu cérebro interpreta de forma diferenciada este estímulo - uma das possíveis e reais consequências do autismo. Lembrando a importante consideração de que: o melhor uso de sua cognição foi por completo voltado às artes, o que demonstra e embasa sua genialidade no que tange à alquimia lemuriana. Por isto, é possível que as aptidões de Irae em outras áreas seja menos proeminente, medianas ou inexistentes.

Para um entendimento e explicação abreviados, podemos simplesmente afirmar que a mente de uma pessoa possui X caminhos, que usa para determinar sua participação no mundo e qualifica suas aptidões. Um autista - qualquer deles - possui X*K caminhos (a variar, de genoma para genoma que apresenta a anomalia). Quando Irae desenvolveu esta habilidade, fez com que os caminhos se convergissem até alcançar um número suficiente para que não atrapalhasse sua interação social. Mas isto pode, efetivamente, ser desfeito pois trata-se de uma habilidade.

Efeito: Permite a Irae interagir normalmente com a sociedade e compreender a importância deste convívio, dos gestos e demonstração de emoções e sentimentos; assim como alguém precisa aprender a ficar de pé para andar, ela aprendeu a usar esta habilidade para interagir, não ficando necessária e irremediavelmente exposta e vulnerável. Esta habilidade está sempre ativa e, como qualquer outra habilidade, pode ser subjugada por alguém que além de possuir um nível cósmico maior, compreenda com precisão o que a habilidade faz e quais os mecanismos que garantem sua eficiência - a critério da narração. Sendo uma habilidade passiva, não possui gasto cósmico.


Nome da Habilidade Maestria Alquímica
Descrição: Com os Pa Hsien aprimorou seus dons psíquicos e, após, iniciou a aprendizagem da Alquimia Lemuriana e conhecimentos específicos na transmutação de matéria – considerada um processo natural, acelerado pelos alquimistas . É possível transmutar metais e substâncias, a fim de purificá-los, separando mineirais agregados, além de deter a ciência sobre elementos e materiais (a cargo do narrador), sendo uma das bases para a restauração de armaduras, mas podendo ser utilizada para outros fins na forja/alquimia. Tendo uma aptidão inata para a restauração, seu olhar e espírito reagem natural e passivamente aos equipamentos, fazendo com que seja da ciência de Irae o que é necessário por eles fazer, bem como identificar falhas e pontos frágeis.

Na arte da Restauração de Armaduras emprega, além dos estágios básicos da Alquimia, a transmutação e sacrifício de sua própria essência através do sangue, reavivando o espírito da armadura. O processo todo exige força – mental e espiritual – por parte do forjador que precisará centrar-se para que, com tal dedicação, consiga despertar a armadura ainda mais refinada do que outrora foi, caso esteja completamente arruinada ou morta (recriação/revive da armadura). É possível reparar danos pequenos, como rachaduras – leves ou profundas – com um tempo muito curto, a definir pelo narrador. Para fissuras e outros danos leves, a restauração leva cerca de 15 minutos. Como já citado, o tempo é relativo ficando a critério do narrador com base nos danos da armadura a ser restaurada. Contudo, é imprescindível ressaltar que Irae dedicou sua vida única e exclusivamente à forja, o que agrega maior rapidez para concluir a restauração e menor desgaste de Irae, gastando metade da energia e tempo (ou menos, a cargo do narrador) para concluir o trabalho, pois é a Haddied Kaptan.

Para a efetiva restauração, por considerar um ato magnífico restaurar uma vida como a das armaduras, Irae desenvolveu sua forja de maneira que não seja necessário o emprego ferramentas brutas; as que eram necessárias foram, a muito tempo, imbuídas no corpo da jovem, em perfeita comunhão, fazendo parte assim de seu corpo e sangue. Isto foi possível unicamente com a união da sabedoria, energia e direcionamento de Chang Kuo ao longo do ritual. Portanto, a energia, sangue (e materiais, quando indispensáveis) são fundidos ao equipamento utilizando sua maestria, visto que transmutação é uma vertente inata à alquimia; logo, os movimentos que ela executa são gentis e suaves, quase como uma dança onde os véus de suas vestes envolvem os objetos envolvidos, como numa carícia. Isto é possível observando as leis da própria alquimia e a reação da infusão de energia sobre a matéria. A alteração de átomos e moléculas, bem como seu estado físico e o que as determina ligantes ou não à outros compostos é causada pelo emprego de energia - sendo o calor o exemplo de mais fácil compreensão e ebulição, fusão e liquefação exemplos de transmutações simples e reais. Então, se a energia infundida for mais forte, como tende a ser a cosmo energia que permite aos humanos os milagres que executam, não é difícil visualizar os efeitos descritos nesta habilidade, sendo assim possível moldar novos equipamentos, recriá-los ou apenas restaurá-los. Quando, entretanto, houver a necessidade de uma manipulação dos elementos envolvidos por algo rígido e físico, a lemuriana emprega sua telecinese a fim de enrijecer as longas escarfes das quais faz uso, para melhor moldar o seu trabalho.

Outra peculiaridade é a facilidade que Irae possui em compreender o funcionamento dos mais diversos equipamentos, a critério da narração. Pode inclusive (a cargo do narrador), saber de detalhes de sua confecção e restauração. Uma afinidade natural e muito forte que a lemuriana possui com artefatos forjados, independente de sua origem (a ser limitado pela narração). Logo, com empenho e tempo empregados – a cargo do narrador – a ferreira pode aprimorar os mais diversos itens, desde que dentro de suas capacidades e relacionado à forja. Lembrando que estes efeitos são possíveis com o emprego das limitações e critério do narrador, também.

Efeito: Danos das armaduras são restaurados e, quando necessário, a armadura é revivida. O tempo de execução e conclusão da habilidade fica a critério do narrador, observando que esta é a especialidade da Haddied Kaptan, sendo sugerido que para uma restauração simples, o tempo transcorrido seja de poucos segundos a minutos, enquanto um revive ou uma completa restauração demande um pouco mais. A habilidade pode, também, oferecer um discernimento quanto à origem e confecção de artefatos em geral, com efetiva análise. O gasto cósmico, quando há emprego de maior energia, varia conforme a necessidade expressar, chegando à um máximo de 15%, em casos extremos.(Também a critério da narração quanto a gasto cósmico, quando houver).


Nome da Habilidade Maldição do Criador
Descrição: Enquanto aprimorava-se na arte da alquimia lemuriana para trabalhar - restaurar e recriar - armaduras, Irae considerou necessário entender todos os detalhes que faziam esta realização possível. Compreendendo, portanto, amplamente os complexos mecanismos, ocorreu a ela que o processo reverso - como as armaduras se arruínam - era igualmente importante e passou a estudá-lo com igual empenho. Ao longo dos anos, conforme seus conhecimentos alquímicos amadureciam, desenvolveu uma habilidade que lograsse a capacidade converter seu cosmo em algo maléfico aos artefatos, análogo ao que o álcool faz com um verniz, a fim de que não ofereçam mais ao usuário as mesmas propriedades que outrora, quando intactas. É importante observar que ativar esta habilidade não significa inibir a habilidade Maestria Alquímica, nem contamina o sangue da Lemuriana com estas propriedades negativas. Apenas o cosmo que é retirado sob o uso da Maldição do Criador é que tem o poder de conspurcar o artefato-alvo. O processo é similar àquele em que emprega para tornar o cosmo capaz de restaurar as armaduras, mas neste caso, impregna com a energia para degradar o artefato, fazendo a energia espiritual abandoná-lo aos poucos. Impregnando sua cosmo-energia com sangue - isto é, diluindo em meio ao cosmo - potencializa os efeitos em menor tempo. (Tudo a critério do narrador, é claro.)

Efeito: Transmuta o cosmo de Irae para que seja possível infligir uma maldição no artefato que estiver em contato com a cosmo energia da lemuriana. Tal qual um letal veneno, agirá gradativamente sobre o item, até que o leve a "morte". Caso empregue também uso de sangue, os efeitos podem vir a ser potencializados ou reagir em menor tempo. Afeta somente armaduras com um rank inferior ou igual ao da ferreira e, diferente da técnica, para o uso desta habilidade requer maior proximidade e, por isto, menor gasto cósmico. Visualmente, o equipamento permanece intacto, isto é, não inflige rachaduras ou quebra; a única alteração é que progressivamente o equipamento passa a perder sua coloração e brilho, caso o equipamento venha a sofrer o máximo efeito passará à um tom opaco e levemente mais escuro do que antes. (Gasto cósmico e efeitos a cargo do narrador, uma vez que conforme o rank, a chance de sucesso varia e isto implica na quantidade de cosmo a ser usada).
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Nome da Habilidade Ecos do Passado
Descrição: Um dom psíquico peculiar em Irae a que chamou Ecos do Passado enquanto a aprimorava, pelo que significa - posteriormente chamado psicometria no século XIX . Sua sensitividade permite que capte impressões e lembranças – em instantâneos flashes isolados - de pessoas que já morreram mas que tiveram uma relação com um objeto ou lugar. Conforme mais intensa a emoção daquele que possuiu o objeto ou ali esteve presente, mais clara é a reminescência que Irae recupera. Locais de situações ramáticas ou objetos importantes podem mesmo repetir cenas, como se fosse a visão de fantasmas, para Irae, repetindo a situação que ocorreu, como um eco (a cargo do narrador). Por serem flashes e não imagens claras que há a impressão de que são fantasmas. As visões não são claras com frequência. Muito menos é claro o motivo pelo qual aquelas lembranças retornam. O grau de complexidade para decifrar depende de como o narrador dispor estas informações. É óbvio, também, que o objeto tem de estar em contato ou muito próximo da personagem. Se for um local, é necessário estar nele, no ponto onde se concentrou o fato no passado. (a cargo do narrador).

Efeito: A cargo do narrador, Irae vislumbra o passado que envolve um objeto ou lugar. Podem ser apenas flashes do acontecido ou cenas inteiras, conforme a energia espiritual reminiscente no local. Em razão das reminescências não aparecerem só sob buscas ativas, é possível que elas possam surgir em situações impróprias, distraindo ou mesmo ocupando os reais sentidos de Irae, que deverá se guiar quase que exclusivamente por sua consciência do que é real e de seus outros dons psíquicos, o que pode vir a prejudicar suas habilidades defensivas, a menos que esteja em pleno uso de seu 7º Sentido. Ecos do Passado é mantida em uso de modo constante, passiva e sem significativo gasto cósmico, como consequência da sua própria percepção extrassensorial, podendo ser cessada, caso venha a interferir no atuar da lemuriana, com gasto cósmico muito baixo para tal.


Nome da Habilidade Sincronia
Descrição: O que para muitos poderia ser perturbador – ouvir constantes lamúrios e sussurros - Irae conseguiu transformar em um dom muito peculiar. Tendo a compreensão de que nem tudo que ouvia provinha de uma manifestação física ou mental dos vivos que a cercavam, decidiu explorar essa particularidade, tornando-se capaz de ouvir e ver os espíritos que vagam ou se manifestam ao seu redor. Entende o que falam e esse entendimento é recíproco, aplicando-se também e principalmente aos espíritos das armaduras. Com Irae, estas irão se comunicar tão eloquentes quanto qualquer pessoa, inclusive demonstrando personalidades e conhecimentos distintos, a cargo do narrador. Conforme adquiriu maior experiência em sua vida, criou meios que garantam a ela um maior contato com estas almas, sendo possível inclusive invocá-las (sucesso a critério do narrador, sem propósitos de combate).

Chamar um espírito, no entanto, pode ser perturbador para aqueles que não são acostumados com esse tipo de contato. O ente invocado poderá responder ao que for perguntado ou até mesmo lograr alguma ajuda, como mensageiro ou assombração, ficando a manifestação e disposição do espírito para com ela a critério da narração. Outro aspecto importante é que o contato pode ser espontâneo por parte das almas; para elas, a lemuriana é aprazível, quase um íma; alguém que pode ligá-las ao mundo dos vivos (sempre a critério da narração). Portanto, é natural que surjam próximo à ferreira e não queiram mal a ela, pelo contrário, simpatizem com Irae.

Efeito: Permite que a jovem se comunique amplamente com os espíritos que a cercam e, mediante concentração, pode conjurar um alma e dela usufruir (a cargo do narrador, conforme na descrição, no caso de armaduras a invocação não significa trazer o espírito até si, mas apenas despertá-lo para a conversa; ou seja, a lemuriana deverá estar próxima do equipamento). Enquanto o contato com um espírito ou fantasma for mantido, as percepções, ações e movimentação da personagem permanecem reduzidas à metade. O gasto cósmico para a conjuração varia conforme a dificuldade da mesma, sendo também definido pelo narrador (muito baixa a medianda). Não representa artífice para batalha pois não afeta inimigos e, tão pouco, privilegia a personagem para o combate, por si só.


Nome da Habilidade Telecinese
Descrição: A capacidade nata de mover objetos de acordo com sua vontade, através de domínio telecinético, inerente a Irae. Aos observadores, o objeto parecerá deslizar pelo ar, como se a gravidade fosse anulada sobre aquele corpo. Para que seja eficaz a habilidade, o objeto precisa estar no campo de ação de Irae (raio 75 metros) e ser conhecido pela lemuriana. Entretanto, convém ressaltar que o tamanho e peso do objeto implica diretamente na velocidade de sua “levitação” e até mesmo no sucesso da mesma. Assim, objetos excessivamente grandes ou pesados, podem exigir um esforço descomunal ou ser impossível de mover, a critério da narração.

Efeito: Move objetos conforme seu desejo, desde que observados os limites impostos pelo narrador. Para mover objetos com o peso igual ao próprio da lemuriana, não há gasto cósmico, contanto que a distância entre os mesmos não supere 25 metros, e que a área total afetada não seja superior a 75 metros de raio. Como há relação gasto cósmico x volume do objeto-alvo, o consumo de cosmo-energia também fica a critério do narrador, quando acima do proposto.


Nome da Habilidade Teletransporte
Descrição: Aptidão racial de Irae, permite teletransportar objetos, a si mesmo (ou mais pessoas) de um ponto a outro. O "teletransporte pessoal" é simples, bastando conhecer o lugar. Obviamente, não representa que o personagem em questão pode transcorrer um ponto a outro do globo instantaneamente. Contudo, para grandes distâncias pode ser preciso parar em algum ponto familiar no caminho ou desprender muita energia. Visualmente, a imagem dos alvos dessa habilidade desaparece, deixando uma pequena ondulação no local onde estavam, como a que é vista na superfície de um lago quando uma gota precipita-se nele, como se o espaço ondulasse perante aquele movimento paranormal. Locais sagrados estão restritos à esta habildade; a personagem só poderá adentrar os domínios de uma divindade na Terra (como o Santuário de Athena ou o Castelo de Heinstein) com a permissão da divindade em questão.

Efeito: O(s) alvo(s) é movido e realocado conforme o destino traçado por Irae, observando os limites e gasto cósmico sugerido abaixo e as restrições quanto à lugar, conforme descrição da habilidade. Objetos envolvidos, são caracterizados conforme seu tamanho: aqueles que possam ser carregados, acarretam o mesmo gasto definido como "Solo". Maiores que isto, passarão ao gasto "Área", conforme entendimento do narrador.

Gasto Solo
Distâncias pequenas e médias – Não gasta cosmo.
Distâncias acima de 500km – Gasta 0,002% do cosmo vezes a distância.

Gasto em uma área de raio de 50 metros.
Distâncias inferiores a 500km – 50% do cosmo.
Distâncias superiores a 500km – 100% do cosmo.


Nome da Habilidade Telepatia
Descrição: Esta racial permite o personagem “escutar” passivamente pensamentos dos que o cercam, desde que num raio de 75 metros. Capta os fragmentos momentâneos – pensamento atual, em poucas palavras – do(s) alvo(s) desta habilidade e a capacidade aumenta conforme mantenha um único foco, até que tenha acesso ao ponto mais íntimo da mente alheia. Convém destacar que a força de vontade do alvo opõe restrição natural a tal leitura de pensamentos, a cargo do narrador. É possível proferir palavras simultaneamente a um pequeno grupo de pessoas – sendo 4 o número máximo - em até duas áreas adjacentes a sua ou – caso haja outro telepata – o alcance tem seu limite aumentado ao alcance de uma região inteira ou reino, a cargo do narrador. Outra possibilidade é comunicar-se com pessoas que não estejam próximas de si. Contudo, será possível o contato com apenas uma pessoa por vez, mediante concentração e é imprescindível que Irae já a tenha visto.

Efeito: Permite a comunicação com pessoas conhecidas por Irae, observando as peculiaridades citadas na descrição. Por ser inata da personagem, não agrega gasto cósmico. Numa tentativa de leitura mental mais profunda e forçada, agrega um gasto cósmico de 5% por turno, aproximadamente. Demais determinações necessárias competem ao narrador.[/color]
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[align=right]História[/align]


[align=right]Jamiel
1549
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Irae fala:

"Dos eventos que rodeiam meu nascimento, apesar de ouvi-los repetidas vezes, eu nada lembro. Isso me torna normal, como qualquer outra pessoa. Foi a normalidade que busquei durante muito tempo e, mesmo após compreender que o destino jamais permitiria, ainda questiono o porquê de ser negado a mim e, no lugar, haver sido entregue às provações pelas quais passei. Podem não ser as piores; bem sei que existem muitos outros que enfrentaram momentos terríveis, em condições inimagináveis. Mas, como alguém sabiamente disse, recebemos o que cabe a cada um e o transbordo é igualmente proporcional à pessoa. Cada sofrimento é único e impossível de ser medido ou sentido por outrem na mesma intensidade.

Apesar disso, continuei cultivando um objetivo. Nascida da loucura, ressurgida dos braços invisíveis da desilusão, dos gritos ecoantes de sonhos desfeitos e da dor de um coração partido; acima de tudo, sou aquela que fora forjada pela vontade de viver e afiada pela ira e pela decepção. Não arrependo-me do que fiz, tão pouco do que serei ainda capaz de fazer. Por ora, no entanto, deixo minhas lembranças aqui transcritas, para que saibam de onde vim e por onde andei. Somente assim compreenderão para onde vou e os motivos que me guiam.
Os fatos que aqui se encontram narram tudo o que precisam de mim saber. O que vi e o que senti até regressar... E descobrir que só há vazio..."




[align=right]Jamiel
1451[/align]


O pôr do sol estava esplêndido, em suas nuances que tingiam o céu de um vermelho vívido, pontilhado de dourado, como se coroado estivesse. Uma pena que não tardaria para que a escuridão da noite surgisse e engolisse tamanha e rara beleza, sufocando até o último suspiro de calor. Helath contemplava isso com o mesmo interesse que contemplaria uma pedra qualquer, que surgisse em seu caminho. A indiferença era sua maior característica e uma constante em sua vida. Não obstante, tinha especial gosto em demonstrar sua falta de fascínio. Notável era que mesmo com tais predicados, era um dos designados a ensinar os filhos de Jamiel em seus primeiros passos, descobrimentos e experiências. Ainda mais surpreendente era não sentir absolutamente nada pelo que acabara de fazer. Nada além de alívio, algum prazer e incompreensão por ter hesitado e demorado tanto.

Há algum tempo, Helath fora incumbido de ensinar uma criança bastante incomum para seu povo. Era nascida de uma mulher - talvez a única que o homem tinha por verdadeiramente amiga - que estava cronicamente doente, perdendo aos poucos sua sanidade. E isto acontecera desde que a pequena idiota viera ao mundo, como ele fazia questão de lembrar.

Ananke fora sua amiga desde a juventude e pensara, não poucas vezes, que ela se juntaria ao templo e sua rotina ordenada e nobre. Seria, evidentemente, uma excelente companhia também. Isso nunca aconteceu, no entanto. Para que se conservasse a linhagem da qual descendia, a amiga foi dada em casamento. Uma vez desposada, logo a espera por uma criança se iniciou. Foi um período delicado para a mulher, principalmente pelo longo hiato entre as tentativas frustadas e, enfim, a concretização das expectativas e desejo. Fora, no entanto, uma gestação complicada, onde por vezes Ananke passava por crises de alucinação, histeria e depressão. Dizia que, quando sozinha, podia ver almas errantes visitarem-na e que acordara, inclusive, com uma destas formas espectrais a acariciar o protuberante ventre. Não haviam explicações aparentes para estes acontecimentos, bem como não houvera forma de cessar ou impedir sua continuidade. Para agravar ainda mais a delicada situação, Taliesin - o marido de Ananke - fora designado a ir ao Tibet. Ele era uma homem honrado e um guerreiro de boa reputação.

Aconteceu que, em determinada noite, as mulheres que cuidavam da saúde da lemuriana não a encontraram em sua casa. Iniciou-se uma longa e tortuosa busca, pois a noite possuía um clima selvagem, com seu frio ameaçador a rugir contra quem tivesse a ousadia de viajar naquele período. Após um longo tempo, a mulher fora encontrada no cemitério de armaduras, entre a vida e a morte. Em seus braços, colada a seu corpo, estava sua filha.

Quão irônico era relembrar isto naquele instante, pensou Helath. Com um sombrio sorriso, virou-se para regressar a Jamiel. Já era hora de voltar para casa.


[align=center]_______________________[/align]


- Acorde! Acorde! Você precisa acordar agora! - a voz delicada e quase infantil dizia incessante.

- Acorde, Irae! - Imperiosa, desta vez, era uma voz masculina e forte como um trovão a rugir nos céus.

Com muito esforço a menina, com então cinco anos, obedeceu e abriu os olhos. Enquanto a visão ainda acostumava-se com a claridade, Mun Si pôde ver a silhueta de um homem esvaecendo gradativamente. Tentou mexer o corpo e não compreendeu o porquê da resposta fora do tempo. Fixou o olhar no firmamento, que começava a diluir o negro da noite no celeste do dia. Estava amanhecendo. Fez um novo esforço para levantar-se e uma sensação incômoda percorreu o corpo; uma onda de algo que a perturbava, de alguma forma. Era dor, mas a menina desconhecia isso devido à sua natureza atípica. O que chamavam de doença, com que nascera, distorcia, privava e inibia algumas sensações. Uma delas era a dor. O corpo padecia, mas a mente - o cérebro - não reconhecia e gerava uma interpretação errada, quase nula. Portanto, por mais que se esforçava, era muito difícil levantar.

Permaneceu imóvel por mais um longo tempo, até que o frio se tornasse incômodo e a fizesse tremer. Após novas tentativas, conseguiu enfim se elevar. Olhou para baixo e viu suas vestes - a camisola branca de mangas longas - tingida de vermelho em muitas áreas. Não abalou-se com isso; suas emoções não costumavam ser expressas como a dos demais. Isso, aliado ao fato de não se comunicar de nenhuma forma, além de não demonstrar cognição, levou a cidade de Jamiel a crer que a garota não tinha inteligência; que era uma idiota. O que não fazia diferença alguma à menina, que agora olhava ao seu redor. Muito além de onde estava, pensou ver novamente o vulto do homem que a chamara. Ele era muito maior do que qualquer homem que Mun Si já vira. Parecia estar esperando, até que apontou em determinada direção. A pequena lemuriana virou a face na direção indicada e para lá seguiu, sem um motivo específico.

Adiante, já no caminho indicado, percebeu haver lobos mortos em meio às árvores. Eram cinco animais, dois cortados e outros aparentemente sem cortes. Parou junto deles e deixou que os olhos registrassem a cena. Como o corpo ainda sentia o frio, instintivamente moveu-se para tentar puxar um dos animais. Sem sucesso, acabou por aninhar-se colando o pequeno corpo na pelagem acinzentada. Longe de ser o adequado, forneceria algum calor. Mais tarde, naquele mesmo dia, descobriu outra utilidade para os corpos, quando teve fome.

Conforme o passar do tempo, outras vezes teve visões daquele mesmo homem próximo de si. No início, apenas indicava algo, desaparecendo em seguida. Depois, seus surgimentos ficaram menos curtos. Na medida em que esse contato progredia, indicava cada vez mais coisas com as quais Mun Si deveria interagir, bem como o que podia ou não comer dos lobos - evitando assim que as vísceras fossem ingeridas e pudesse se envenenar. Foi capaz, também, de arrancar toscamente parte da pele de um dos lobos parcialmente devorados e usar como grosseiro cobertor, após ser instruída adequadamente pelos gestos do desconhecido; assim conseguira se recobrir com a pelagem do animal diretamente sobre sua pele, o que fornecia uma proteção e calor maior. A baixa temperatura conservava a carne - assim como ocorria com a pele extraída - e, no primeiro dia, isto foi muito bom. Mas, quanto mais tempo se passava, o gelo sobrepunha-se às fibras musculares, tornando-as tão rígidas que não mais podiam ser aproveitadas; por outro lado, foi o que conservou a pele que a protegia do frio. Então, viu o gigantesco homem novamente, apontando em outra direção, para longe. A menina para lá seguiu, sem hesitar.


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No dia seguinte àquele pôr do sol, Helath relatara ao templo sobre o esforço desprendido para encontrar a pupila que se perdera e o infortúnio de não tê-la encontrado. Todos lamentavam a sorte da menina e com pesar realizaram uma última busca. Nada encontraram, embora tenham visto uma pequena alcatéia que foi aniquilada. Acharam estranha a presença de lobos num local como aquele, mas deduziram que talvez houvessem encontrado alimento e tentado permanecer naquela região. Com tristeza concluíram que, fosse o caso, não haveria como uma criança sobreviver à um ataque daqueles animais e encerraram a busca, portanto. Lannok fora o que mais se amargurou com isto. Ele era um jovem lemuriano, pouco mais velho que Mun Si, e que por ela tinha simpatia e afeição. Mesmo que não houvesse nenhuma comunicação - nem mesmo um indício de que ela considerava e gostava da presença do garoto - ele gostava dela. Talvez fosse o coração puro e bondoso que sustentasse essa ligação. E, por isto, não podia dar-se por vencido e acreditar que ela se fora, ainda por cima de uma maneira tão brutal. Um estranho pressentimento o assolou e olhou para Helath, contendo um estremecimento de pavor. O antigo tutor de Mun Si era o único que se mantinha inabalável e, não obstante, tinha a impressão de que ele não gostava da posição que exercia, por ter que dela cuidar.

Entretanto, não havia nada que indicasse uma ação maldosa por parte do homem. Dos poucos a quem confidenciou sua suspeita, ouviu que isto não passava de pensamentos infundados. Desencorajado, Lannok não viu mais a quem recorrer. Desanimado, a única coisa que pôde fazer era uma nova busca solitária. Mesmo que já houvessem passado quatro dias, o garoto recusava-se a desistir. Caminhando até o final da trilha antes usada, chegou ao ponto em que executaram os lobos. Olhou com tristeza para seus corpos, parcialmente cobertos por neve. Foi quando notou que estavam dilacerados. Ao examinar, percebeu que faltava a pele de um deles e porções de sua carne foram arrancadas e as mordidas - e marcas dos dentes - não eram grandes o bastante para serem de algum outro animal. A chama de esperança em seu coração ardeu ainda mais e correu para Jamiel. Não sabia se estava certo, mas queria estar. Queria que fosse Mun Si que estivera ali. Adentrou apressadamente a cidade e foi ao templo. Logo no salão de entrada, havia um pequeno grupo de pessoas conversando animadamente; todos lemurianos mais velhos e respeitáveis. Ao notarem a presença que chegara com ímpeto, viraram para contemplar o indivíduo e Lannok pôde ver, na ponta oposta, que Helath sorria, de maneira quase maligna.

- Eis que chega o filho de Beshm'udir. - falou em tom quase cerimonial - Lannok, parabéns. Foste escolhido para ir ao Tibet e lá aprender e crescer.

Os demais do aposento olhavam com satisfação e orgulho, pois aquele pequeno e dedicado garoto parecia promessor e merecedor desta chance, desta oportunidade inconcebível. Alguns dos que ali estavam, eram pessoas de muita estima a Lannok e a quem confidenciara seus temores. Com as forças fugidas de si, o jovem cedeu, indo ao chão. Sua face estava pálida e os olhos vidrados. Um único pensamento, mal formado, percorreu sua mente.

"Deusa não... Agora não..."


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Irae fala:

"Não compreendo até hoje que instinto me impelia a seguir o que aquele homem apontava, pois naquela época nada despertava em mim alguma vontade. Mas sou profundamente feliz com isso. Também não sei quanto tempo vaguei, após sobreviver à fúria de Helath. O erro dele, como admitiu mais tarde, fora nunca ter cortado minha cabeça ou arrancado meu coração. E mesmo assim, disse, talvez eu continuasse a assombrar sua vida até que morresse na loucura, como minha mãe. Para ele eu fui, sou e sempre serei uma aberração; uma sombra que veio a fim de macular Jamiel e torturar aquela que me gerou.

Minha mãe. Recordo-me vagamente de suas feições. Esta imprecisão pode ser fruto de devaneios e desejos de lembrar-me dela e do amor que me deu. Às vezes, ainda hoje, ao me recostar confortavelmente e me aquecer num aconchegante lugar, sinto que poderia ser assim - essa mesma sensação - quando ela cuidava de mim e me mantinha em seu colo. Inesperada por Helath, a morte de minha mãe ocorreu dias depois da notícia de meu próprio falecimento. Lançou-se aos gélidos braços de um abismo, despojando-se das dores que esta vida lhe impunha. Foi encontrada muito tempo depois, quando o gelo já havia a transformado num ser imutável e rígido.

Rogo todos os dias para que ela tenha encontrado o que buscava: a paz, o descanso. Um local onde possa viver sem dor alguma. E que de lá, olhe por nós, que continuamos a caminhar pela borda do inferno, até que alcancemos nosso objetivo e possamos também descansar, junto dela. "





[align=right]China
Província de Sichuan
1452
[/align]



- Ei, Huang!

- O que foi? - grunhiu o homem que tentava colocar a isca no anzol.

- O que aquela criança está fazendo?

Com alguma irritação, Huang baixou as mãos e olhou adiante. O inverno já havia passado e o pequeno riacho era atrativo para a pesca. Seria, se Wong calasse a boca por algum tempo, como pensou o homem. Cogitou, em seguida, se a claridade estaria atrapalhando a visão, o que justificou a estranheza em sua voz ao responder:

- Está... brincando... na água.

- Pois eu digo que está pescando! Veja bem! - Exclamou Wong, agitado com aquilo.
Verdadeiramente irritado, Huang ergueu a mão, projetando sombra sobre os olhos. Levantou e ficou observando por um longo tempo.

- É, parece que está pescando... - concordava - E melhor do que nós. - acrescentou ao ver um pequeno amontoado de peixes na beira do riacho, para onde a criança lançava mais um. Olhou para seu próprio cesto onde apenas três peixes havia. Por longos instantes, ficou intrigado com quem seria aquela criança.

Longe dali, Mun Si ignorava a presença e análise dos homens. Estava concentrada em pegar os peixes como Vasharti ensinara. No início fora muito difícil, mas o constante treino deixou os olhos aguçados e as mãos hábeis. Como a temperatura havia aumentado, não precisava usar mais a pele de lobo - que já estava num estágio avançado de decomposição, à esta altura, pela recente andança distante da neve - para se aquecer e fazia dela, então, o invólucro para sua comida, sem que o forte e pútrido odor significasse muita coisa a ela. Com a chegada da nova estação, também encontrava plantas que utilizava de diferentes maneiras; até mesmo para proteger os pés por algum tempo. Conquistou este grande avanço físico e mental - que permitiu que sobrevivesse - ao longo de quinze meses, os quais passou em peregrinação, andando a partir de Jamiel, e somente com a ajuda daquele que a acompanhava, em alguns momentos, quando a ensinava com gestos. Somente assim conseguira encontrar o suficiente para manter-se, como água e derivados da fauna e flora local, coletáveis, que pudesse ingerir. Desconhecia, entretanto, que estava muito longe de sua cidade e que viera parar ali por acidente. Numa noite, durante um pesadelo que fizera reviver a brutalidade de Helath e a ameaça contra sua vida, simplesmente acordou em um local novo e totalmente diferente. As emoções que despertaram em sonho trouxeram a vontade desesperada de viver e, instintivamente o corpo procurara forças desconhecidas e adormecidas para usar pela primeira e única vez a capacidade de projetar-se para um local distante, que seus instintos considerassem seguro; foi um esforço muito além do que uma criança poderia executar, mas a vontade de viver quando em situações extremas, podia operar pequenos e incompreensíveis milagres. Quando acordara, efetivamente, só percebera que era diferente o local, mas nada que a interessasse. Uma vez desperta, seus sentimentos e emoções foram novamente anestesiados pela sua doença. Portanto, estar próximo a um pequeno vilarejo chinês, após o último mês de sua peregrinação, fora apenas um golpe do destino. Depois disso, também, passou a ouvir a voz do homem e a ele responder, em pensamento. Não sempre, mas em algumas ocasiões e assim a instrução que ele dava a ela era maior e melhor.

Cansada da pesca e sem mais o que fazer, percebia agora os homens que caminhavam em sua direção. Seu olhar vazio e distante contemplou quando tentaram com ela falar. Mesmo se Mun Si entendesse o dialeto - o que não ocorria -, não responderia. Não via a necessidade sequer de exprimir qualquer som. Gesticularam a ela e mesmo assim nada fez, além de olhar para os homens. Quando tentaram pegar os peixes que estavam à beira do riacho, notaram que igualmente não havia resposta por parte da criança, que continuava na mesma posição - braços pendendo ao lado do corpo, olhar vago. Chegaram então à conclusão de que era doente. Condoídos por este fato, conduziram-na pela mão até a margem, com o intuito de levá-la até o pequeno vilarejo. Com sorte, alguém a procuraria. Ao juntarem os peixes, perceberam que estavam sobre o que parecia a pele de algum animal; pela tonalidade e aparência, de um lobo. Não havia, no entanto, lobos naquela região. Surgia agora a possibilidade de ela ser filha de algum caçador, o que explicaria a habilidade em capturar os peixes - muito embora o estado precário da pele colocasse dúvida neste pensamento. Obviamente, esta parecia uma possibilidade muito remota, mas preferiram adotá-la; havia muitas coisas estranhas na criança, a começar por suas feições incomuns: olhos vermelhos, cabelos tão brancos quanto a neve do inverno. Afugentaram estes pensamentos, como se fossem mau agouro, e seguiram o caminho. Impelida pela mão de Huang, Mun Si os acompanhou; porém, somente quando Vasharti assentiu a isso.


[align=center]_______________________[/align]

- Sim, ela tem o mal do nascimento vazio. - concluía uma das anciãs, que sempre executara os partos das mulheres da pequena comunidade e agora, com a idade avançada, era frequentemente consultada quando uma criança parecia doente ou aparentava algo de errado.

Huang expirou ruidosamente, impaciente. Esperava que não fosse esse o caso e condenou-se por haver trazido a menina. Ninguém se prontificara a dela cuidar e já se passara uma semana desde que chegara. Igualmente, ninguém a procurara. Por ser doente, as mães desencorajavam as crianças a ficarem perto de Mun Si, entretanto, isto não impedia a menina de ser alvo de brincadeiras maldosas. Pensando sobre isso, Huang decidiu ele mesmo cuidar da menina. Com seus vinte e oito anos, ele era ainda solteiro. Morava em uma pequena construção de três peças, as quais dividia com seu pai - um velho inválido de uma das pernas e cego. Entre os dois, pai e filho, não existia uma boa relação. Fruto da amargura de Huang pelos maus tratos recebidos, quando criança. No entanto, como nenhum dos irmãos se apresentara, restou a ele cuidar do pai.

Quando não estava pescando, cuidava do pequeno e limitado cultivo de legumes ou fabricava cestos, que levava até a cidade da província para serem trocados por alimentos ou pertences para o casebre. Era uma rotina cansativa, mas Huang era um homem persistente e bom. Para onde quer que fosse, Mun Si o seguia e observava em seu habitual silêncio. No início, desacostumado, Huang assustava ou irritava-se ao se deparar com aqueles olhos vermelhos em sua direção. Isto apenas reafirmava que a criança era mesmo estranha, como um fantasma das lendas chinesas. Contudo, ela nunca fizera nada que indicasse um resquício qualquer de inteligência ou mesmo maldade; então, viu-se obrigado a relacionar os traços estranhos à doença que a afetava.

Ocorreu, no nono dia, a necessidade de Huang ir até a cidadela de Chongqing. Haviam coisas das quais precisavam e alguns alimentos - como o arroz - já tinha acabado. Explicou secamente ao pai e deixou provisões para que passassem bem até o dia seguinte, ele e a menina. Quando saiu pela porta, e já à alguma distância da casa, percebeu que de alguma forma a criança o havia entendido, pois não o seguia desta vez. Manifestou um breve sorriso diante disso - ou a tentativa de um - ao pensar que nem tudo estava perdido para a menina. Impelido por bons pensamentos, iniciou sua viagem.

Na casa, a lemuriana olhava o horizonte sem a nada se apegar. Iria abaixar-se e abraçar os joelhos como fazia quando estava cansada. No entanto, a aparição de Vasharti a impediu de concluir o movimento. Olhou-o distante, ao longe, e até ele foi.

No dia seguinte, ao retornar, Huang tivera uma imensa surpresa ao encontrar tudo em ordem e Mun Si a trançar cestos. Observou que ela cuidara do ancião também e isso trouxe alegria ao coração do humilde homem. Aproveitou e tirou aquele dia para si, deixando a menina livre também dos cestos. Não havia diálogo, mas a companhia silenciosa já era reconfortante. Este vínculo perdurou por dois anos, até que num dia, Mun Si apenas se foi. Enlaçou Huang em um abraço e simplesmente seguiu para a estrada. No ímpeto de impedi-la, seu pai interveio:
- Deixe-a ir, meu filho. Deixe-a. Existe um destino traçado para a menina e este não é o lugar...
Sem saber o que fazer, se rugia em revolta para o pai ou o ignorava, apenas sentiu o coração apertar e orou para que os deuses dela cuidassem.




[align=right]China
Estrada do rio Yangtze
Arredores de Chongqing
1454
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Os olhos vagos reluziam enquanto Mun Si andava pela precária estrada. Com sua mente complexa e fechada, não temia o que pudesse acontecer; ignorava, na verdade, que alguma coisa ruim poderia ocorrer. Vasharti indicava o caminho - além de, como outrora, garantir que a menina tirasse proveito de fauna e flora, sendo possível sua sobrevivência a base que pequenos frustos silvestres e raízes que pudesse desenterrar, nos dias seguintes. Gradualmente, as passadas da pequena se distavam da estrada original, andando agora por uma pequena trilha quase invisível. Ao longe era possível avistar um grupo não muito grande de pessoas que descansavam à beira de um córrego. Parecia um lugar bastante confortável. Com fome - e já sem comida – Mun Si foi em direção à uma porção de frutas contidas num cesto.

Um homem, percebendo o intento da garota, a empurrou, lançando-a ao chão, para longe das frutas. Logo começara um alarde para que todos cuidassem pois havia uma pequena ladra. Muitos olhares de censura recaíram sobre Mun Si, que agora levantava-se e permanecia com os braços soltos ao lado do corpo, perdida em seu olhar parvo.

- Hehehe, tenham calma. – dissera uma voz que se aproximara, conforme abriram o caminho – É apenas uma criança perdida que está com fome. – concluíra o ancião. Ele era um homem muito, muito velho. Seus olhos quase não eram visíveis, tão espessas e caídas estavam suas sobrancelhas. Ainda assim, era possível vê-las franzir enquanto observava a garota.

- Não! É uma ladrazinha! Aposto que a mandaram aqui! – vociferara aquele que a descobrira.

Um burburinho tomou conta do ar, até que o ancião elevou seu bastão de apoio e solicitou o silêncio.

- Ora essa... Pois então diga o que ela roubou para que tenha a sentença que cabe. O que foi roubado? – indagou calmamente o velho.

- Nada... – foi a relutante resposta.

- Então, o que foi tentado pegar? – indagou novamente o ancião.

- Bem, uma fruta... Mas-

- Mas nada. Agora voltem a descansar, porque devemos partir em breve para que consigamos chegar antes do anoitecer. – retornou brando, para apaziguar a tensão. Pensou por alguns instantes e logo acrescentou: - E não se preocupem. Tomarei a menina e seus atos por minha responsabilidade.

Satisfeito por perceber que não havia necessidade de falar novamente, o ancião aproximou-se da garota e estendeu-lhe um formoso pêssego. No mesmo instante, Mun Si pegou a fruta e a mordeu, comendo-a com vontade. O velho homem ainda tinha o olhar pousado na criança; crispou-o novamente e alisou sua longa barba. Expirou e amansou a expressão.

- Como conseguiu chegar até aqui, filha de Jamiel...? – Falou para si mesmo, embora os ouvidos da garota captassem sua voz. E, pela primeira vez, a lemuriana parou o que fazia e o olhou, como se o houvesse compreendido.

Depois da confusão inicial, Mun Si ganhara mais algumas frutas e um chá, que sorvia com gosto. Agora caminhava saboreando outro apetitoso pêssego, ignorando o trajeto que faziam. Ao seu lado, o ancião de compleição frágil montava sua pequena e desgrenhada mula. O animal parecia acostumado à viagens, pois mantinha cadência e calma em suas passadas. Não demorou e a menina compartilhou uma das frutas com o animal que, atento e sempre receptivo à comida, pegou a generosa oferta e mastigou tão preguiçosamente quanto andava.

O ancião em nada intervinha; achava que a menina entendia muito mais de fome do que ele e, por certo, saberia quando parar como ela o fez em seguida. O olhar terno do velho pousou sobre a menina uma vez mais e ali se prendeu. A mente dela era tão incomum; não era difícil ter acesso aos seus pensamentos, mas eles não tinham lógica alguma. Bem, nenhuma que o ancião identificasse. Até mesmo para morder a fruta de antes, a mente distorcia-se em mil formas, que culminavam num único ponto: comer o pêssego.

Foi possível ao ancião, também, reparar que gestos simples, como sorrisos e acenos, de fácil entendimento, para a pequena lemuriana se tornava ilógico; e não havendo sentido nisso, não correspondia. Concluiu o ancião, portanto, que na mesma medida em que a mente da criança se abria a um leque de possibilidades para a execução de determinadas coisas, ela fechava-se por completo para outras. Compreendeu, enfim, que se ela não falava era porque não via a necessidade desta interação social.

- Bom, se eu estiver certo, sei bem quem nos ajudará. – comentou alegremente o ancião, para si mesmo.

Algum tempo depois chegavam ao vilarejo. Uma vez em seus limites, o ancião agradeceu pelos cuidados recebidos e companhia na viagem e se afastou, em companhia da criança desconhecida, para alívios dos demais viajantes. Progrediram sem empecilhos até a outra saída da pequena vila, tomando a estrada novamente. Tão logo distavam das pessoas, o ancião adotava uma postura diferente, altiva e firme. Parou e acomodou Mun Si consigo, tornando a montar a desgrenhada mula. No instante seguinte, não havia mais estrada. Estavam em um lugar diferente, rodeados pela maresia.

- Bem vinda a sua nova casa, menina: o lendário monte Penglai.


[align=center]_______________________[/align]


A chegada ao novo local não despertara Mun Si da inércia em que sempre estivera mergulhada. A falta de reação também não fora diferente do esperado pelo velho. Ele podia ver o que se passava na mente da menina, se quisesse, mas deduzia que era efeito de sua estranha natureza. Não gostava desta situação, mas não havia o que fazer a respeito, por enquanto. Conduziu, portanto, Mun Si para sua casa e a deixara descansar pelo resto do dia.

As ilhas Penglai, isto é, as pequenas ilhotas que circundavam o gigantesco monte de mesmo nome, formavam a morada dos Pa Hsien. A ilha central, donde se erguia o monte Penglai, possuía uma paisagem encantadora, com uma vegetação bem desenvolvida, embora rochas ricas em minérios pudessem ser encontradas, ao se procurar mais a fundo. Circundando o monte, em sua encosta, existe uma discreta escadaria cuidadosamente entalhada e invisível a quem observasse o monte à distância. Percorrendo seu trajeto, chega-se ao cume do monte, ou onde deveria haver um. Pois, no alto, a montanha parece ter sido cortada, possuindo um agradável local plano. Isto não foi obra dos Pa Hsien, já havia toda essa estrutura quando chegaram, inclusive o pessegueiro que se encontra bem ao centro desta área. Uma vez no ponto mais alto do monte, é possível ver as ilhotas que circundam a central, num total de oito. Este pequeno refúgio está situado no ponto de encontro entre o Mar Amarelo e o Mar Bohai, ao norte da elevada torre a que chamam Pavilhão de Penglai e não obstante a miragem de sua existência é buscada, embora exista uma distância considerável entre o ponto onde o fenômeno natural exibe a miragem e a real localização do pequenino oásis - e isto é o que dava segurança e privacidade aos oito moradores, além de uma boa dose de misticismo.

Dados a uma forte crença, embora conhecessem a localização - da miragem, que dista da real localização das ilhas -, não há habitante chinês que tenha interesse em visitar este pequeno arquipélago. Para o povo, aquele era o local mais próximo do que eles têm por céu e, como dizem as lendas, é o lar dos Pa Hsien e onde jaz o pessegueiro da imortalidade. Claro que nem todos acreditam nas lendas, mas os demais não vêem um atrativo que justifique o uso da área: as ilhas são muito pequenas para construções e o monte, muito alto e sem riquezas naturais, afinal a pesca não precisava ser realizada ali, tão distante da margem. Estes fatores todos contribuíram para que os Pa Hsien pudessem viver em paz, no que parecia realmente um pequeno paraíso na terra. No anonimato completo, os lemurianos ali viviam em paz e harmonia, alimentando as inúmeras lendas a seu respeito.

- Impressionante! – a exclamação vinha do pequeno circulo formado sob a copa do pessegueiro – É curioso que isso tenha se repetido: outro lemuriano vagando pela China! – comentava um homem que podia ser tomado por jovem - quando entre os demais -, de nobres feições e delicado aspecto. Sua roupa era perfeitamente alinhada e em seu colo repousava um guqin, uma espécie de alaúde chinês.

- Humpf! Impressionante nada! Já era mais do que tempo de acontecer! Estava a ponto de levar Tung-pin para procurarmos caras novas, hahahaha! – respondia gracejando um lemuriano mais velho, com sua roupa desalinhada e uma saliente barriga à mostra. Abanava-se incessante com um leque tradicional do povo chinês.

No lado oposto, Tung-pin apenas baixava a fronte e ria abertamente. Ele era jovem, como o músico, mas sua postura era mais firme e séria. Próximo dele estava uma jovem, possuidora de grande beleza. Estava com seu semblante em visível preocupação, quando começou a falar:

- Mas... É apenas uma criança, não?

- Sim, bem jovem realmente. – tornou o velho que trouxera Mun Si. Permaneceu com a expressão também preocupada, enquanto alisava sua barba, pensativo.

- E isso não é tudo, pelo jeito... – comentou outro homem, jovem como os outros.

- Não é, de fato... – respondia novamente o velho, cansado – Ela não é uma criança... Normal. Não pelo fato de ser lemuriana como nós, mas existe algum problema. Não se comunica e não há reações advindas dela. Seus pensamentos não seguem uma linha, como ocorre com todos os outros; parecem mais... Objetos dispersos e boiando na imensa superfície de um lago, sem ligação aparente. Se misturam e se confundem, impedindo que eu consiga compreender plenamente o que se passou com ela. – calou-se e olhou para uma mulher que estivera quieta até então. Esta mulher, levantou-se e disse altiva:

- Basta-me, ancião. – Era uma mulher alta e de rude aspecto, com seus cabelos desgrenhados – Irei ajudá-la, já que sei o que a castiga. – fez uma pausa e então continuou: - Posso trazê-la à consciência, mas o que ela poderá se tornar, está além das minhas capacidades, pois não sabemos pelo que ela passou e o que restou com ela.

Quando concluiu, não houve resposta alguma. Todos permaneceram emudecidos pela informação. Somente o ancião assentiu: ele preferia arriscar despertar uma mente insana e cruel à nunca tentar ajudar.


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[align=right]Ilhas Penglai
China
1454
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[align=right]Posted Image[/align]

- Escute bem - falava a voz rouca e desafinada - você, menina, conhece a verdade que poucos vislumbram. E como todos, é incapaz de dela se desapegar para que possa amar a vida e as tolices que nela se encerram - o hesitar das últimas palavras delatava o sentimento de angústia que ia em Lan Ts'aiho naquele momento. Estava prestes a executar algo que mudaria por completo a vida da menina desconhecida e sentiu medo de esta ser a escolha errada. Porém, não voltaria com sua palavra; apenas oraria pelo melhor.

Embora os olhos de Mun Si estivessem na mulher, a mente vagava pelas brumas como em qualquer outro momento. Seguia seu rumo em desapego à tudo. Foi quando um grande impacto atingiu seu corpo e, estremecendo, sentiu um peso em sua fronte, que irradiava para toda sua cabeça. Entrementes, o ar fugia de seus pulmões e não tardou para que a menina caísse inconsciente. Ts'aiho havia adentrado de forma tão brusca e significativa na mente da pequena, de forma a controlá-la, que desacordá-la foi a medida que considerou como mais indicada para ambas adaptarem-se e começarem a trabalhar em cima desta característica.

- Não se envergonha pelo que fez, Ts'aiho? - perguntava uma jovial voz, num tom de delicada censura.

Em resposta, a lemuriana apenas sacudiu os esqueléticos ombros. Depois de conjecturar, finalmente respondeu:

- Foi melhor assim. A sanidade da pequena poderia fenecer se permanecesse consciente. Ela possui um modo diferente de ver o mundo, como um distante espectador que permanece a observar a vida dos peixes no fundo do lago. Portanto, tudo que a ela acontecia, não era verdadeiramente sentido e sua mente não se apegava a nada.

- Acho que estou começando a entender...

- Para uma criança - interrompeu Ts'aiho - ela já passou por muitas coisas e todas estas emoções e sentimentos, uma vez libertos, poderiam sobrecarregar o frágil corpo. Seria tão desastroso quando a queda inesperada de uma represa. Agora, tudo será processado lentamente; primeiro em sua mente, depois conforme sua consciência retornar. Como se houvesse diluído esta torrente de sensações.

- Mas... Ts'aiho... Haverá alguma sequela disso tudo?

- Não sei, Kuo-Chiu. Esta resposta pertence somente aos deuses. Mas tenha certeza que seremos os responsáveis pelo que acontecer, de agora em diante.


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Duas fases lunares completas se passaram, até que um urro agonizante e selvagem rasgou a noite. Os Pa Hsien, instintivamente, entreolharam-se e também ao céu: aquela era a fase negra da lua, na qual ela se recolhe dos olhos dos homens para que possa voltar a ser radiante e bela, em seu próprio ouroboros. E para eles, aquilo era um mau presságio.

- Eis que nasce a Ira. - Falou Ts'aiho, que já se levantava para deixar o local. Porém, seu corpo retesava inesperadamente. Diante dela estava Mun Si, irreconhecível: seu peito subia e descia, num arfar violento e um olhar ardente em fúria. Impetuosamente a menina lançou-se contra eles, mas logo foi contida e novamente caía na inconsciência.

-Irae. Dê-lhe o nome de Irae. - falou um dos mais jovens, que estava com seu guqin. Chang Kuo fez menção de questionar, contudo Han interrompeu sua iniciativa: - Sim, também vi isso, no Som de Todos.

Aquela foi uma noite de inquietante silêncio para os lemurianos. Há muito não tinham contato com outros e aquilo mudaria, certamente, o rumo das coisas. No final, entretanto, todos adormeceram; não havia o que ser feito.


[align=center]_______________________[/align]


Irae acordou somente ao amanhecer, já mais calma. Em seu cômodo um incenso de agradável odor exalava também sua fumaça, dando ao lugar uma aura quase mística. Sentia sua cabeça estranha e, embora não sentisse, latejava. Cenas do que passara até então fluíam em sua mente e descontroladas lágrimas rolavam por sua face. Naquele dia, não saiu de sua cama e apenas chorou; chorou o suficiente para uma existência inteira.

Somente no dia seguinte começou sua readaptação ao mundo. Os sons, por menores que fossem, a atraíam e até mesmo a tonalidade da relva parecia fasciná-la, posto que a tocava com insistência. Ts'aiho deixou que ela redescobrisse livremente as coisas, até que o restante do ciclo lunar se encerrasse. Foi quando seu treinamento começou.

- Uma mente inerte, Irae, é a condenação do mundo que a cerca, pois cada suspiro é necessário ao equilíbrio da vida, sua manutenção. Se um ser permanece alheio, enfraquece a essência das coisas, como um elo rompido numa corrente. Por isso estou tentando ajudá-la a manter sua mente focada; foi por isso que não hesitei em ajudar.

Tudo ainda era confuso para Irae, mas ela consentia pensativa. Ts'aiho era uma mestra paciente e queria ver a pequena criança florescer em espírito, até que não precisasse mais de sua ajuda para conter a mente e assim desfrutar normalmente do mundo, de tudo que a vida a ela reserva. Se pensasse bem, Ts'aiho perceberia que era, na realidade, um deleite poder presenciar aquilo: o renascer da pequena lemuriana. Lembrou-se de si mesma e de como foi igualmente difícil libertar-se da insanidade. A diferença era que Irae teria uma vida inteira pela frente. E isto fez com que a mestra sorrisse, genuinamente.

Com o passar dos dias, a mestra ajudou a entender detalhes da sociedade e o significado de uma vida coletiva. Também instruiu quanto as regras universais dos bons tratos sociais, entre outros aspectos, até que o ano se encerrasse. Este acontecimento marcou uma nova fase do treinamento, onde finalmente Irae iria aprender o que significava ser um lemuriano e quais eram os predicados a que isto levava.

Pouca coisa Irae lembrava, dos ensinamentos do templo. Foi preciso, portanto, de um ano inteiro para que toda a teoria fosse compreendida. Depois, com a vinda da prática, a complementar a teoria, os Pa Hsien ganharam um novo divertimento. Com a inocência infantil que possuía, o leve tremular de uma folha que conseguisse mover já era motivo de alegria e comemoração. Contudo, o que mais gostava de fazer era caminhar por entre os vilarejos e tentar escutar os pensamentos superficiais das pessoas. Não havia maldade no ato, apenas curiosidade. E com alguma frequência, a pequena se irritava ou entristecia com algo, como se as lembranças pertencessem a ela. Aos poucos, Ts'aiho foi ensinando que agir assim era ofensivo, pois as pessoas têm o direito de conservar exclusivamente para si os momentos, pensamentos e sentimentos. Quando Irae compreendeu isso, outro ano se encerrou.

Os demais anos passaram igualmente rápidos e quando se davam conta, já havia seis anos desde que vivera exclusivamente ao lado de Ts'aiho. Durante este tempo, a menina se desenvolveu, forte em suas bases. Restava apenas uma única tarefa a cumprir, e sem sombra de dúvida, a mais difícil: aprender a selar sua mente, de modo que não voltasse à sua natureza, exceto quando desejasse.

Fora complicado e o esforço era imenso, para Irae. Porém, ainda mais firme era sua força de vontade: de viver, de continuar a apreciar o mundo deste jeito. Após muito tempo - meses - a pequena lemuriana superou suas capacidades e executou o selo, galgando sua primeira habilidade - e única, até onde ouviu-se falar. Neste dia, depois de longos anos, foi o primeiro em que contemplou novamente a silhueta de Vasharti, no horizonte. E, para sua surpresa, ele sorria.




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China
1460
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Irae se preparava para sair das acomodações de Ts'aiho. Já sabia que com ela o seu treinamento acabara por ora e o próximo seria na companhia de Ch'uan. Este fato não entristecia a menina, pois não estaria longe de Ts'aiho, por quem nutria uma grande afeição. Apenas a casa e os afazeres mudariam, bem como as lições; mas ainda seria residente de Penglai. Portanto, apenas sua ansiedade era exibida, livre de qualquer temor.

Junto da antiga mestra, caminhou até chegarem ao frondoso pessegueiro, que parecia ser o ponto favorito dos lemurianos para se reunirem. Depois de alguma espera, Chung-Li Ch'uan se aproximava com o costumeiro jeito caricato: roupas largas, com sua avantajada barriga à mostra e o leque sempre em movimento. Sentou-se e uma amistosa conversa perdurou até o entardecer. Agora diferente, Irae tomou a liberdade de contar o que aprendera e suas impressões do mundo até então. Aquele clima agradável apaziguava qualquer dor, a criança imaginava. Sentiu-se feliz por ter chego até ali, anos atrás, trazida por Chang Kuo. Dada a hora, Ts'aiho despediu-se e deixou Irae junto do novo tutor. Ch'uan espreguiçou-se e distraidamente iniciou o caminho para casa, seguido de perto por Irae. Até a hora de dormir, houve nova e amistosa conversa, criando uma aproximação entre os dois.

Antes do primeiro raio solar surgir, Ch'uan acordou a criança. Sonolenta, ela foi buscar água para o chá enquanto o homem preparava o desjejum A refeição fora silenciosa, em parte pela sonolência de Irae, em parte pela seriedade atípica do mestre. A aparência dele também destoava e muito da que a pupila lembrava: suas roupas estavam alinhadas e eram de uma confecção diferente, que remetia à um uniforme. Não que a criança chegasse a essa conclusão, mas estranhava e muito o feitio daquelas peças. Esquecida na análise, seus olhos pousaram nos de Ch'uan e acabou por fazer a menina constranger-se, percebendo que talvez ele soubesse de seus pensamentos. Tratou, então, de terminar a refeição para começarem a instrução.

Os primeiros ensinamentos abordaram o equilíbrio no mundo e as forças que o afetam. Sobre os propósitos individuais que devem, via de regra, andar junto do papel do indivíduo na história. Novamente, para aprender a base teórica sobre as leis que regem a existência, transcorreu um ano inteiro. Houve também tempo para que fossem explorados os comportamentos da sociedade neste sentido - e isso deu aval para que o treino liguístico da moça se iniciasse, primeiro habituando-se com palavras e expressões em outros idiomas, como o latim e o grego, além de aprofundar-se mais no mandarim. Depois, Ch'uan começou a ensinar sobre a força que move o universo e que habita até o mais pequenino dos seres: o cosmo.

Com árduo treino prático, Irae conseguiu manifestar sua energia; primeiro ela veio quase imperceptível, mas adquiriu uma força voraz que foi muito além do que a criança conseguiria conter. Isto a assustou e por muitos dias se negou a prosseguir com o treinamento. Ch'uan fora paciente e dera tempo para que os temores desaparecessem; não evitava, no entanto, de sentir uma pontada de orgulho por ver que ela cresceria forte e poderia ser uma grande lemuriana, no futuro.

Passado o episódio do inicial temor, Irae voltou a treinar. Desta vez, arduamente para conter sua energia; esta era bravia, portadora de uma ira primordial, inata, mas que também possuía beleza. Um tipo de beleza inefável, que é mais intima dos guerreiros e mais propensa à honrar a vida. Esta descoberta apenas instigou ainda mais o ânimo de Ch'uan em treinar a criança. Ensinou a ela tudo que podia, que sabia. Em dados momentos se perguntava se não havia perdido o bom senso, mas seu coração o impelia a continuar e assim o fez. Muitos anos se passaram durante estas ações e decisões; outros seis, na verdade. Chegava, com isto, o tempo de Irae atestar que aprendera e dominara sua energia. Para tanto, seu espírito deveria despertar ainda mais refinado, alcançando um novo limite: o sexto sentido.

Por longos dias Irae se perguntou como isto seria alcançado. Sem a resposta imediata - que deveria alcançar por si só, com base no que aprendeu - foi meditar em busca do adequado discernimento. Esta disciplina fora incitada por Ch'uan e a jovem absorvera de tal forma que parecia nunca ter existido sem ela. Aconteceu que, durante sua concentração, lembrou dos lobos mortos na estrada aos arredores de Jamiel e pensou, então, ter encontrado a resposta que buscava. Levantou-se e desceu a colina em direção aos pequenos barcos que possuíam para ir até o continente - afinal, nem todos eram detentores do teletransporte - e subiu num deles, impelindo-o como faziam, utilizando uma longa vara.

- Não vai impedí-la, Ch'uan? - perguntou Tung-pin, preocupado.

- E porque deveria? - Perguntou enquanto se remexia e mexia em suas roupas - Ah! Bem melhor assim! - exclamou ao afrouxá-las, expondo a grande barriga.

- Bem... Ela pode se machucar... - respondeu Tung-pin, reticente pelo jeito de Ch'uan. Em seguida, cedendo ao tom reprobatório, concluiu: - E por acaso, isso não é hipocrisia não? - Falou referindo-se aos modos desleixados do antigo tutor.

- O quê? Deixá-la ir? - Inquiriu Ch'uan, dissimulado.

- Ora essa! Falo da sua falta de postura... - mas, antes que concluísse, era interrompido.

- Bah, deixe de falatório e vamos segui-la, Tung-pin! Estou curioso... - e saiu, concluindo: - e traga pêssegos!

Restou a Tung-pin suspirar, meneando a cabeça, enquanto seguia os passos de Ch'uan.

Alheia a tudo isso, Irae chegava em terra. Procurou muito, mas não encontrou lobo algum. Nem tigres ou qualquer animal que pudesse cumprir o papel esperado. Embora compreendesse inúmeras coisas fantásticas, sua noção geográfica era precária, bem como seu conhecimento sobre a fauna local. Andou por muitas horas e mesmo assim, nada encontrara. Afogada em sua decepção, a jovem ignorou o que a cercava - e os perigos que aquele lugar ainda representava. Portanto, não percebeu as figuras que se aproximavam sorrateiramente. Somente quando o braço foi violentamente puxado é que se deu conta do que acontecia.

Contorcendo e debatendo-se, conseguiu se desvencilhar das mãos opressoras e correr, mas logo a alcançaram e a derrubaram. Irae estava mergulhada em desespero o bastante para não conseguir manifestar qualquer traço de energia. Os captores a levantaram do chão e então aquela estranha sensação veio: dor. Bateram-lhe no estômago e quando ela se curvou, abraçando o corpo, chutaram-lhe a face. A lemuriana cambaleou com uma das mãos ainda sobre a região atingida e a face voltada ao chão. Os homens já projetavam-se na direção dela quando um riso abafado e insano foi emitido. Por um instante eles hesitaram e logo uma energia opressora crescia ali.

Irae cuspiu o sangue acumulado e os olhou, num olhar que parecia arder em chamas iradas.

- Heh, um bom animal... Para caçar.

Foi a última manifestação da garota, antes de seu cosmo explodir em feixes rubros. Como os captores buscavam fugir, ela os perseguiu e acertou numa fúria descontrolada. Somente quando viu os dois corpos ao chão é que parou. Seu peito subia e descia, numa respiração violenta, e o coração batia numa velocidade opressora. Aos poucos, estes ares foram se abrandando e sendo substituídos por um tremor incontrolável; agachou-se, ao perceber que perdia a força das pernas e cairia. No olhar, ia um misto de terror e espanto, a deixando em estado de choque, com o corpo a sacudir com os soluços.

- É, você terá muito trabalho, Tung-pin. Muito mesmo. - dizia Ch'uan enquanto descia da árvore donde observara a tudo.

Com um salto, Tung-pin parou ao lado dele e o fitou, repreendendo, enquanto envolvia os ombros da menina, abraçando. Os homens estavam mortos realmente e não havia mais o que fazer por eles. Mesmo sem saber lutar coordenadamente, o impacto na cabeça fora forte o suficiente para que não aguentassem.

No trajeto de volta, não demorou muito para que o corpo exausto fizesse Irae adormecer. ao chegarem em Penglai, a visão do pequeno corpo sendo carregado atraiu a atenção de Chang Kuo, Han Hsiang Tzu e Li Tieh-Kuai, que conversavam descontraidamente. Tung-pin prosseguiu o caminho enquanto Ch'uan foi até os outros.

- O que houve com Irae? Ela passou? - perguntou bastante intrigado o ancião Kuo.

- Ela... sim, passou.

- Mas? - questionou Tieh-Kuai, ante a hesitação de Ch'uan.

- Bem... ela matou dois homens. Ladrões.

O silêncio recaiu sobre eles, repentinamente, numa força inestimável.

- Conte absolutamente tudo o que houve. - concluiu Chang Kuo.

Ch'uan assentiu e sentou-se entre eles, para narrar em detalhes os acontecimentos. Dentro da casa, Tung-pin acomodava a criança em seu leito, limpava-lhe a fronte e a cobria. Permaneceu por algumas horas olhando para ela, até que simplesmente se teletransportou dali, evitando contato com qualquer outro dos Pa Hsien.

Houve o período de uma semana desde aquele dia e muitas tentativas de fazer Irae compreender que não fora culpa sua, que em alguns momentos o espírito dominava o corpo de uma forma tão forte e extrema, que respondia de formas inimagináveis. Aqueles que se foram atraíram a morte para si, através de sua conduta desvirtuada; foi, portanto, uma consequência inevitável, que entrelaçou o caminho que ambos trilhavam: mortos e vivos. Irae dizia entender, mas isto não aplacava a tristeza e remorso. Afinal, embora o acontecimento fosse irreversível e terrível, os Pa Hsien conheciam intrínsecamente a índole da pupila, além de eles próprios terem direcionado seus ensinamentos até ali. Era certo admoestá-la, mas não aplicar-lhe alguma sentença, uma vez que o que ocorrera fora uma reação instintiva muito forte de sobrevivência e não alguma motivação mundana ou maligna - além de eles próprios abominarem a redenção pelo castigo. Acabavam, então, por reconhecer que partilhavam também de culpa pelas vidas que se foram, ao negligenciar que algo assim pudesse acontecer ou imaginar o quão lacerado realmente estava o espírito da pequena lemuriana, quando recordando-se da experiência de quase morte. Porém, mesmo com esta situação, uma nova lição seria aprendida - e não só pela moça, desta vez - sendo sensato então um melhor preparo espiritual, a fim de que o erro não se repetisse e tudo caminhasse para a sua normalidade, retornando ao Tao. Portanto, seu treinamento recomeçou e foi então enviada aos cuidados de Tung-pin.




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China
1466
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Enquanto fazia o trajeto para a morada de Tung-pin, sozinha, algo atraía a atenção da jovem; ao olhar para o horizonte, via Vasharti a esperando. O coração estremeceu, apertou-se, e Irae largou suas coisas correndo até ele impetuosa, num misto de desespero, saudade e conforto. Ao longe, Hsiang Tzu viu a garota em disparada e permaneceu a observá-la, curioso. Ao vê-la parar e conversar – o que parecia, daquela distância – crispou o olhar, numa interrogativa. Porém, instantes após, lembrou-se de algo e sorriu; deu de ombros e foi cuidar de seus afazeres.
Quando retornou da conversa com o velho amigo e protetor, o espírito da jovem lemuriana estava mais leve e seu ânimo fora readquirido. Vasharti conseguia tranqüilizar sua alma como ninguém em Penglai seria capaz, naquele tempo. Ao chegar na casa de Tung-pin, foi recebida com uma expressão de curiosidade, mas nenhuma pergunta fora feita. Fosse o que fosse, pensava o lemuriano, não iria inquirir para não reabrir uma ferida que parecia estar curada. A convidou, então, para um chá enquanto organizavam o cômodo onde Irae ficaria pelos próximos anos. Igualmente tranqüilo foi o restante da semana, onde apenas conversavam ou passeavam, criando um laço mais estreito, antes que suas lições efetivamente começassem.

- Entender seu papel neste mundo é imprescindível, mas executá-lo é fundamental. Portanto, ninguém deve se omitir do dever e subjugar a lei, Irae.

- Consigo compreender a magnitude imbuída nisto, contudo como descobrir o que é meu dever e qual papel devo eu desempenhar? – Questionou a jovem, de modo reflexivo.

Tung-pin sorriu, antes que a resposta fosse lançada:

- Não há medida que avalie isto, mas acaba evidenciado, de alguma forma. Isto é mais como uma filosofia que deve ser aceita e mantida em seu íntimo e, quando a hora chegar, estará preparada para fazer aquilo que só você poderá realizar, independente de ganhos ou perdas. -notando que a garota assimilava e refletia sobre suas palavras, ele apenas prosseguiu – Você está aqui pois tem um importante dever a cumprir e isso faz com que o nosso dever seja prepará-la da melhor forma que pudermos. Por isso, durante estes anos, estás apenas absorvendo o que passamos.

- Guerreiros, Irae - Tung-ping continuou ao vê-la assentir às palavras anteriores - são muito mais do que combatentes. Suas aptidões combativas devem ser uma pequena parcela do que sua essência traduz.

Sentada à frente dele, a jovem lemuriana parecia sequer respirar, como se o simples inflar de seus pulmões pudesse quebrar a aura pertencente àquele momento. Observando a lemuriana, Tung-pin sorveu um pouco de chá antes de prosseguir. Era o início da manhã e o ar fresco fazia seus pêlos eriçarem a cada brisa, enquanto os tons dourados do sol ainda nascente constituíam a promessa de mais um dia de beleza sem igual.

- Um bom guerreiro deve ser também versado em outras artes, conforme sua vida progride, a fim de compor sua estrutura final, uma base sólida. Filosofia é igualmente indispensável, embora muitos a achem inútil para aqueles que vivem pela espada. Mas, como pode o homem honrar o dever e obedecer a lei se não possui um caminho espiritual, que constrói e trilha? Donde extrairá sabedoria nos momentos de intempérie que não da filosofia e espiritualidade? Sem isso, a base é fraca e irá lograr dúvida e hesitação num momento crucial, que certamente será aproveitado por seu oponente. Além disso - seguia ministrando - não podemos esquecer de edificar e alimentar o conhecimento e a sabedoria; uma mente pobre jamais favorecerá o corpo. Estes todos são aspectos que compõem um bom guerreiro e o transformam num excelente estrategista. E, sem dúvida, é um ponto que muito admiro nos povos da China, que geraram admiráveis homens de guerra, com estratégias memoráveis. Quando falo disso, não me refiro a Sun Tzu apenas, que tanto conhecem o nome; refiro-me àqueles que o antecederam, cujas ações, pensamentos e deveres trouxeram mudanças grandiosas à esta terra.

Um nova e demorada pausa houve; Tung-pin tomou o que restava do chá e levantou-se, pedindo a companhia da pupila com um gesto. Irae imediatamente obedeceu, enquanto refletia sobre o que ouvira. Dava-se conta que nunca antes pensara no que definia um guerreiro, Apesar de todos os anos de treinamento. Antes, contudo, que continuasse a divagar, Tung-pin prosseguiu falando:
- Portanto, minha jovem pupila, após esta breve idéia que apresento, quero que leia, estude e assimile o que passei, até que obtenha plena compreensão. Para tanto - continuou - atrás dessa porta encontrará meu tesouro: centenas de pergaminhos dos mais diversos guerreiros e suas batalhas, que muito me custaram e que tanto cuido para preservar. Relatos e observação de conquistadores e também dos conquistados. Começará, obviamente - acrescentou ligeiramente ao contemplar a confusão surgindo na face de Irae - a partir da China. Aqui existe uma base sólida que me inspira. Leia, em especial, sobre as seis dinastias e sua desunião, que resultou em três reinos e alguns grandes embates. Ali encontrará, entre outros, cinco grandes estrategistas que se destacaram por suas ações e decisões durante este conturbado período. Analise-os e às suas motivações, não apenas aos resultados; procure os dilemas pelos quais passaram e o peso de cada decisão. Somente após estar segura sobre estes aspectos venha ter comigo. Então, se a julgar pronta, prosseguiremos com seu aprendizado.

Dito isso, Tung-pin pousou a mão no ombro de Irae, encorajando-a, sem mais nada falar. Em seguida, foi saindo do local e a deixou diante da porta que dava acesso à biblioteca, a cargo de seu próprio julgamento. Com um tanto de confusão, a jovem contemplava a passagem ainda fechada. Sua dúvida consistia em crer que era somente aquilo que deveria fazer, aquela tarefa simples de entrar e ler. O bom senso a impeliu a entrar, pois não descobriria permanecendo ali parada. Depois das primeiras horas no novo ambiente, Irae teve certeza: não havia nada de simples naquela ordem.

Durante muitos dias a jovem aprendiz frequentou a biblioteca para estudar. E, embora a história não fosse realmente complicada, os relatos eram muitos e bastante diversificados; alguns divergiam, inclusive, no que tangia a metodologia empregada e até mesmo à descrição dos estrategistas e guerreiros. Portanto, teria que buscar tudo, em absoluto, a respeito daquela era. Graças a isso, tomou conhecimento dos reinos de Wei, Han e Wu melhor do que o que possuía sobre a dinastia Ming e Jamiel, talvez.

Passados três ciclos lunares completos, Irae sentiu-se apta a apresentar-se para Tung-pin, após a leitura de quase trinta pergaminhos. Este, por sua vez, pediu que Irae narrasse o seu estudo, interpretando as ações e apresentando argumentos que sustentassem sua opinião. Também pediu uma avaliação dos estrategistas que indicara, claro. O mestre queria ver as coisas pelo prisma da jovem e ver o quanto ela refletiu antes de se apresentar; a falta de uma interpretação significaria que não havia conseguido alcançar um bom discernimento através de seus próprios esforços. Isso era deveras importante. Porém, após longas horas escutando e agregando pequenas observações para mostrar-lhe onde haviam pontos frágeis, o mentor decidiu prosseguir com o treinamento.

Tung-pin possuía uma metodologia diferente dos outros mestres e logo começaram a intercalar momentos de teoria e prática. Ele apresentava uma análise política e militar de diversas sociedades, onde uma a uma Irae estudava e conjecturava a respeito, ao passo que o mentor buscava aprimorar ou corrigir algum julgamento. Com o tempo, chegaram a pergaminhos que continham línguas desconhecidas para jovem e ela viu a necessidade de aprendê-las; Tung-pin ensinou o básico para que conseguisse decifrar os relatos e com muito esforço e dedicação, Irae conseguiu aprimorar-se gradualmente nos idiomas, necessitando apenas de supervisão de seu tutor. Assim, a lemuriana intensificou o estudo em outras línguas, como o latim – vulgar e clássico – e o grego, conforme houve necessidade. E, ao longo deste tempo e experiência, não uma vez Tung-pin exibira - entre outras características - sua veia guerreira e seu gosto por esta condição. A pupila apenas não entendia o porquê de morar ali, então; mas concluiu que o dever destinado a ele já havia se cumprido e ele podia gozar do descanso.

Muito da personalidade do lemuriano Irae acabou absorvendo, inconscientemente, o que a fazia treinar o corpo além do que o mestre impunha. Ao longo dos anos que com ele passou, dominou finalmente a habilidade de teletransporte. Fora uma dificuldade e cansaço imenso, mas depois de muitas tentativas conseguiu. Não era algo de que gostava, porém Tung-pin afirmou que poderia vir a ser útil no futuro e, se os deuses deram esta capacidade a ela, deveria aprender a usar.
Quando enfim o treinamento se encerrou, Irae já havia tornado-se uma mulher, em aparência. Gostava, entretanto, de não pensar nisso; sentia-se feliz por ser capaz de lutar, ter adquirido conhecimento quanto à arte guerreira, mesmo que suas qualidades não fossem excepcionais. Depois destes seis anos, sua mente havia amadurecido bastante, assim como sua concepção sobre o mundo. Conseguira até mesmo conter seu espírito, para que não mais ficasse fora de si, como anos atrás. Contudo, como Tung-pin observou, só aprenderia reprimir isto verdadeiramente com os ensinamentos de Ts’ao Kuo-Chiu.

Quanto à provação final, esta fora a mais simples e agradável possível: uma boa e amistosa partida de weiqi e outra de xiang qi, acompanhada de uma longa conversa e chá (de pêssego, claro). Isto foi o suficiente para Tung-pin avaliá-la, posto que sabia em seu íntimo que ela não era destinada às linhas de frente de nenhuma batalha; não uma batalha física. Portanto, Tung-pin a liberou de sua tutela, não sem alguma hesitação: a companhia havia sido mais aprazível do que jamais imaginara.




[align=right]Ilhas Penglai
China
1472
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Fazia um dia espetacular, calmo e de límpido céu. Irae estava às margens de uma das ilhas menores, em pé, olhando para o mar. Não entendia, na verdade, o que fazia ali. Junto dela, sentada em uma das rochas, com os pés na água, estava Hsien Ku. Já permanecia no local há algumas horas e nada fora falado até então.

- Já deve estar cansada de ouvir os velhos e suas teorias, não? – Falou docemente a mestra, enquanto balançava graciosamente os pés.

- É uma dádiva poder aprender e... – a fala fora interrompida com o vislumbre do rosto de Hsien Ku, que virando-se, exibia um sorriso astuto. Desencorajada a sustentar o argumento diante disto, concluiu abreviadamente: - Mas sim... um pouco...

- Entediante, às vezes, não? – completava a lemuriana mais antiga, sem hesitar, e coroou sua afirmação com um melodioso riso. Voltou a contemplar as azuladas águas enquanto prosseguiu: - Ora,vamos... Não sou tão boa quanto os demais, pois nunca ensinei a ninguém. Portanto, cheguei a essa opinião por experiência própria.

Irae fora pega de surpresa e surpreendida permanecia; jamais imaginou ouvir algo assim de Hsien Ku, que sempre pareceu tão cerimoniosa. Mas ficou feliz com a descoberta; realmente feliz.

- Quando cheguei aqui... – iniciou a tutora, o que absorveu a total atenção de Irae – ainda era muito jovem. Saí de Jamiel por covardia. Somos um povo que sobrevive em um número tão reduzido e, ainda assim, entramos em guerras, derramamos sangue e perecemos. Naquela época, não compreendia que este é um preço muito pequeno a se pagar por nossa liberdade, pelo sol que todos os dias se levanta e pelo firmamento que aos nossos sonhos vela.

Concluindo, olhava para Irae. Esta, imóvel ficara, a contemplar o horizonte, absorta nele. Hsien Ku sorriu e viu a cena quase como lírica; tivesse ela os dons artísticos de Han, uma pintura derivaria. Diante disso, ousou apenas prosseguir com seu relato.

- Então eu fugi. Mas não conhecia nada além dos limites de nossa cidade e me perder foi a consequência. Vaguei por muito tempo até encontrar Tung-pin, próximo a um pequeno vilarejo. Ele trouxe-me para cá a apresentou-me aos demais; naquele tempo, ainda não éramos oito. Passei a residir aqui e andar por entre o povo chinês com uma grande freqüência, até que entre eles morei. Queria conhecer o que chamam de Tao e este foi o melhor modo. Contudo, este convívio fez com que percebessem que não partilhava do envelhecimento com eles; foi quando começaram a me associar com os outros de Penglai, os lemurianos. Assim, derivaram-se muitas lendas a meu respeito, como fizeram também com aqueles antes de mim.

- Lendas? – perguntou Irae, regressando de sua contemplação.

- Ora, sim! – tornou Hsien Ku, com seu gentil sorriso. Até que este feneceu e deu lugar a uma expressão de incredulidade: - Não me diga que durante todos estes anos ninguém contou nada a respeito?!

Como Irae não respondeu, apenas meneou a cabeça confirmando a suspeita, Hsien Ku suspirou e sorriu, conformada.

- Existem muitas lendas que cercam os lemurianos daqui, mesmo que fôssemos apenas oito, até pouco tempo atrás. Se andares muito entre o povo chinês, não duvido que novas lendas se criem, a seu respeito. É um povo supersticioso e a criação das lendas parece fazer parte da vida deles.

A pupila permaneceu com os olhos fixos em Hsien Ku durante todo o relato. Embora houvesse vivido muitos anos, para um lemuriano ainda era muito jovem. Não compreendia, portanto, plenamente as ações dos Pa Hsien e que espécie de ligação possuíam com o povo chinês.

- Mas chega de histórias, né? - Interveio Hsien Ku, interrompendo os pensamentos de Irae. - Quero que você traga um pouco de peixe para nosso almoço. Sou um pouco desastrada para isso e ouvi dizer que você não o é. - Acrescentou com alguma leve animação.

- Claro... - A resposta foi mais vaga do que pretendera a pupila. Levantou-se e começou a se dirigir para outro ponto da ilhota, onde geralmente havia melhor chance de pesca.

Hsien Ku ficou a observar a jovem se afastando, enquanto apoiava seus cotovelos nas pernas, formando um descanso para a face com as mãos. Uma sombra logo surgia atrás dela, porém a lemuriana pareceu não se importar com isso.

- Seu jeito de tutelar me intriga, Hsien Ku.

Com um riso bastante jovial, ela logo tratou de responder:

- Honrado ancião, que querias que eu fizesse? Desde que ela chegou, apenas nos ouve e segue o que é ordenado, num conjunto de gestos quase automáticos. Como ensinar a aprimorar o que nem sabemos ao certo que ela pode fazer? Nossa presença inibe os seus sentidos e dons mais íntimos e nem mesmo citou sobre Vasharti até então. Ela precisa de espaço para querer descobrir além, assim como precisará de espaço para saber quem é; para gerar uma personalidade, o que ainda não tem.

Chang Kuo franziu a testa pensativo, enquanto Hsien Ku continuava apresentando sua justificativa:

- É possível ensinar a lutar, usar os dons raciais que foi concedido a ela pelos deuses. Igualmente pode-se conhecer histórias, lendas, sociologia, filosofia e teologia. Contudo, não podemos inferir algo que só ela tem e do que apenas um vislumbre - quando muito - possuímos. Sabemos de sua forte ligação com o que vem do espírito, entretanto acabamos por afastá-la disso, sem perceber e sem a intenção. Resta agora recuperarmos o tempo perdido e deixar que ela se descubra e nos procure, se julgar correto.

- Compreendo seu ponto, Hsien Ku. No entanto, o tempo que nos foi dado é deveras curto; tens seis anos para edificar o que desejas, não mais que isso. - Falou Chang Kuo, com um tom de leve cansaço em suas palavras.

- Mais importante que isso é saber se contará a ela sobre-

- Ainda não decidi. - Interrompeu Chang Kuo, como se a simples menção do assunto o desagradasse - Não é algo substancial e estou ponderando. Enquanto isso, faça o melhor por ela e já será uma grande conquista.

Sem permitir que a conversa se prolongasse, Chang Kuo retirou-se, algo desagradado. Hsien Ku não tivera a intenção disso, porém fora inevitável. Agora analisava a situação e se descobrira responsável por uma tarefa bastante complexa.


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Um ano depois, as duas lemurianas já partilhavam de uma amizade sólida. Ficar ao lado de Hsien Ku dava à Irae a oportunidade de experimentar uma liberdade nova, de muito tempo livre e poucas ordens. Após tantos anos de exclusivo e intensivo estudo, momentos de calmaria eram bem-vindos. Aproveitava para dar continuidade aos aprendizados anteriores - marciais e linguísticos - mas principalmente conhecer melhor o mundo no qual estava inserida, bem como o povo por quem os Pa Hsien nutriam afeto. Graças a esta atitude, Vasharti voltou a com ela conversar, reavendo os antigos laços.

Nos primeiros encontros, a falta de tato de Irae a levou a se comportar como a criança que ele salvara e protegera. Contudo, aos poucos, sua afeição fora aflorando e com isso, parte de sua personalidade era moldada. Já não sustentava mais o olhar neutro, de alguém que nada sabe sobre a vida; agora possuía em sua face uma moderada seriedade e seus olhos ostentavam um brilho com nuances de altivez e enlevo. Junto com isso, veio o prazer com a companhia de Vasharti, que apenas crescia. Com ele passava longas horas, em passeios diversos; gostava de ouvi-lo, de vê-lo e senti-lo perto. Simplesmente gostava dele, mais até mesmo do que tinha ciência.

Em determinada noite, no entanto, após um dia inteiro afastada de Penglai, onde conversara com sua adorada companhia - o homem de feroz aspecto, Vasharti - Irae levantara-se para contemplar o firmamento. Haviam dúvidas em sua mente e algum receio. Hsien Ku, sensitiva, levantou-se pois preocupada ficara e para junto da pupila fora. Antes que qualquer coisa dissesse, entretanto, a jovem lemuriana começara a falar:

- Existe algo que até hoje não compreendia e do que preferia não falar. Mas os últimos meses serviram-me para que preparada estivesse, à encarar minha natureza e o que a ela se liga.

Uma pausa ocorreu. O tom de preocupação de Hsien Ku, neste ponto, já era visível e sentido. Ela não soube formular sua pergunta, mesmo que soubesse o que gostaria de falar, portanto apenas repousou sua mão na mão de Irae, que logo prosseguiu, encorajada pelo gesto.

- Desde antes de sair de Jamiel eu já podia vê-los; vê-los e ouvi-los. Isto nunca deixou de acontecer. Pelos lugares que ando, quando existem, acabo os encontrando - ou eles me encontram. Refiro-me aos espíritos que vagam ainda neste mundo, ou que aqui se manifestam. Podia, inclusive, ouvir o lamento das armaduras encerradas no cemitério e os espíritos que ali ficaram, errantes.

Por um longo tempo o silêncio reinou entre as duas lemurianas. Irae nada mais acrescentara, por não saber se deveria realmente fazê-lo, ao passo que Hsien Ku não conseguia decidir-se quanto a melhor maneira de abordar aquilo. As mão permaneciam unidas e a mestra apertava suavemente a mão de sua pupila, como quem gostaria de doar força - espiritual e física - a outrem. Foi com cuidado que começou a falar, como se temesse afugentar um animal arisco:

- Imaginava que havia algum dom além dos raciais dentro de você, Irae. Desde que chegou, na verdade, pensava sobre isso. Porém, como não tinha certeza do que se tratava, esperei paciente até que se manifestasse. E parece-me que já o conhece bem, a este dom.

Um suspiro foi a única resposta audível que Hsien Ku obteve. Isto fez com que suas sobrancelhas se crispassem, novamente preocupada. Continuou a falar, posto que foi a única coisa que conseguiu fazer, naquele instante:

- Não posso dizer que compreendo em absoluto pelo que passa, ou indicar uma forma mais branda de abordar ou até mesmo amenizar isso, caso a incomode a tal ponto. O que posso oferecer, de toda minha alma, é alguma ajuda para direcionar sua aptidão de modo que não seja exaustivo conviver com isso. Creio que é... Complicado, ter essa clareza dos mortos vagando por entre os vivos.

Embora assentisse às palavras, Irae não elaborava nenhuma resposta em palavras. Era impossível. Contudo, a simples menção do assunto aliviava o peso que carregara até então, do qual apenas Vasharti tinha conhecimento. Se Hsien Ku oferecia-lhe amparo, aceitaria de bom grado e com alegria. Portanto, os anos seguintes foram empenhados em alcançar uma sintonia nova, que transcendia o contato visual, partindo para um contato mais íntimo com estes seres espirituais que encontrava. Sempre os compreendera, mas não ser compreendida que tornava aquilo tortuoso e fazia com que fosse, até mesmo, perseguida por estes fantasmas; definição esta que Irae abominava, pois para ela, eles nunca deixaram de ser almas como ela e terem uma identidade, um nome, uma vida e um carma. Aos poucos, Hsien Ku passou também a compreender donde vinha esta consideração pelos errantes e tratou de melhorar sua postura ante isso, pois jamais intuíra desrespeitar sua pupila ou aqueles com os quais ela tinha.

Ao final dos seis anos que passara com a tutora, Irae conseguira ampliar sua ligação com o mundo espiritual e controlar esta afinidade, a fim de não ser prejudicada. Aprendera a ignorar a presença dos espíritos quando isso interferia em suas ações e concentração. Obviamente, isso a exauria ao máximo no início; a prática, no entanto, diminuíra o fardo. Também, ao final desse período, seu domínio sobre os idiomas havia progredido muito, alcançando um nível bastante avançado, o que veio a ser confirmado por Tung-pin, posteriormente.

Entretanto, no que tangia ao tipo de ligação espiritual que a jovem expressara durante o treinamento com Hsien Ku, não havia como medir a performance e exatidão comportamental de sua pupila; não havia, então, nenhum teste que pudesse aplicar para medir o quão pronta estava Irae; ela teria que seguir a diante sem isso. E foi o que aconteceu.



[align=right]Ilhas Penglai
China
1478
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[align=right]Posted Image[/align]

Da graciosidade de Hsien Ku e se toque aprazível, de sabedoria e mansidão, passar para a sombra de excentricidade que se projetava de Kuo-Chiu era muito mais exótico do que Irae poderia conceber. Duas luas já haviam se passado desde que chegara à casa do novo tutor e ainda havia algum desconforto quando em sua presença. Não era, de fato, por se tratar de um homem - o mais jovem dentre os Pa Hsien - e terem um convívio tão familiar; Irae não fazia outra referência aos lemurianos das ilhas que não como mestres. Porém, aquele homem a fazia sentir-se de maneira quase incômoda, por vários motivos: ele era inquieto, de espírito agitado, por mais que seus gestos fossem controlados e calculadas as palavras. Ainda havia o divertimento com histórias de cunho moral questionável, assim como as poucas obras de arte que adquirira em suas andanças. Se os outros eram admiradores do Tao, por certo Kuo-Chiu não nutria tal semelhança. Porém, pelo que viera a saber, ele podia dar continuidade e finalmente garantir a Irae a fluência nas línguas que estudava; e isto fora, no mínimo, animador.

- Arrume suas coisas; vamos passar alguns dias fora destas ilhas que mais parecem um pedaço de outro mundo, tão distante da realidade estão! - disse certo dia, o lemuriano mais velho, enquanto adentrava a saleta onde Irae estudava.

- Aliás - interveio tropeçando em suas próprias palavras - leve apenas o que considerar essencial e não se preocupe com roupas ou adereços. - e sumiu pela porta, em meio a resmungos.

Uma saída de Penglai não era novidade para a aprendiz, que já o fizera inúmeras vezes nestes muitos anos; mas algo nos trejeitos de Kuo-Chiu ao fazer sua demanda a deixou inquieta. E não estava errada em sentir-se assim.

No mês seguinte estavam em um lugar completamente diferente do protetor arquipélago e alguma coisa ali revoltava o âmago de Irae, de tal maneira, que por muitos dias permaneceu acamada e febril; ora delirando, ora apenas com indisposição para qualquer coisa que fosse. Essa situação deixou Kuo-Chiu com curta paciência, que não uma vez, praguejou a céus e terra, em resmungos. Não havia uma explicação lógica para o mal estar da lemuriana; era apenas uma reação do corpo à estranheza do lugar, com suas muitas, barulhentas e movimentadas ruas, além da visível e acumulada sujeira. Aquela era, em verdade, a primeira vez que a jovem era inserida num ambiente assim. Embora a China possuísse lugares populosos, o ambiente menos pavimentado e com maior proximidade com a natureza inibia a sensação de quase claustro, como a que sentia Irae naquele momento. O remédio, portanto, não fora outro que não tentar habituar-se com os ares daquele território, a república florentina.

Enquanto em período de repouso e devida adaptação à nova rotina, Kuo-Chiu contou a ela histórias daquelas terras e demais adjacentes. A pupila não pôde deixar de notar, enquanto cuidadosamente ouvia, que seu tutor dava uma ênfase especial para a personalidade daqueles que faziam parte destes relatos. Diferente de como aprendera com Tung-pin, o atual mentor focava-se no objetivo idealizado por cada um, mas não de maneira estratégica, mas sim emocional. O que as impelia a agir daquela forma, as razões que sustentavam e orquestravam a tudo. Portanto, afinal de um considerável período, Irae sabia muito das figuras históricas, mas pouco dos detalhes acerca de estratégias ou poderio a que tivessem feito uso, efetivamente. E, para frustração da moça, donde podia extrair tais informações e complementar o que ouvira, que eram os livros e manuscritos, aos que tinha acesso os encontrava numa língua a qual ainda não compreendia ou, aos que podia ler pelo seu conhecimento em latim, estavam sob o poder da igreja. Aliado a isso, a falta de paciência de Kuo-Chiu impedia que a ela ensinasse o tal idioma local.Porém, desde que começara a apresentar melhoras, o tutor começou a ausentar por períodos mais longos e maior frequência; tomara, no entanto, o cuidado de deixar uma senhora encarregada das refeições de Irae; algo similar à uma serviçal. Isso, somado ao evidente conforto nas acomodações, intrigava a aprendiz. Contudo, não via um momento oportuno para sanar sua curiosidade junto ao lemuriano mais velho, principalmente agora que ele mais e mais se ausentava. Focou, então, em apenas manter-se no avanço de sua recuperação, sem exaurir suas forças.

Em certo dia, Irae foi acordada, não pelo aroma da refeição matinal, mas por um suave toque na maçã de seu rosto, uma carícia inefável. Ao abrir os olhos, descobriu a imensa e sólida figura de Vasharti, curvado a afagando; ele havia velado seu sono e num descuido acabou por despertar a moça.

- Parece que a viagem roubou-lhe o ânimo, minha senhora. - disse de uma maneira que sua voz - sempre forte e austera - soou agradável e surpreendentemente branda. - Dessa vez, foi mais difícil vir ao seu encontro. - completou dando mostras de um breve e discreto sorriso.

Contemplar a face de Vasharti, num semblante tão dócil, iluminava a manhã de Irae, como ela veio a pensar. Num ato desmedido, afastou-se e sentou na cama, dando espaço para que o homem se acomodasse ali, ao seu lado, caso desejasse. Ao vê-lo aceitar, foi difícil deixar de perceber todo o cuidado empregado para não perturbar o equilíbrio da jovem, enquanto sentava. Tão logo estavam lado a lado, Vasharti passou o imenso braço pelos ombros da lemuriana, aconchegando-a junto de seu corpo, num gesto protetor. Quando, entretanto, adquiriram tamanha intimidade, os dois jamais saberiam responder. O contato entre eles vinham tão natural que escapava à própria percepção.

Irae dera-se conta do enlace somente depois que o desjejum fora servido, ao contemplar o espanto no rosto da serviçal, através do dossel da cama. Obviamente, tentou esconder o constrangimento que corava suas faces; porém, de algum modo, Vasharti conseguiu captar sua emoção e não tardou para que se levantasse.

- Estás deveras próxima das terras onde vivi e onde também aprendia a lutar. Uma civilização de longa e rica história. Visite Roma, caso teu mestre permita. - Disse sério e reflexivo, antes de encaminhar-se para a porta e dali desaparecer, sem mais nada falar.

Irae estava impressionada com aquilo e, é verdade, já estava acostumada com as partidas de Vasharti, para não importar-se com a falta de uma despedida ou fazer algum comentário. Ficou imaginando como era Roma, pois o que tinha de informação, apenas relatava ser um território da Igreja e esta, não parecia ver com bons olhos pessoas com talentos especiais, como usuários do cosmo, pelo que pudera entender. Portanto, motivada por esta revelação, saiu da cama para trocar s roupas e desjejuar. Antes que sua refeição estivesse terminada, Kuo-Chiu entrou impetuosamente pela porta e, ante a visão da pupila fora da cama e com visível melhora, exclamou animado:

- Magnífico! - em euforia, adentrou e com o pé puxou a porta, a fechar com vigoroso estrondo ´Vejo que milady Irae já possui forças. Perfeito! - concluiu para si mesmo mais do que para a jovem.

Em lado oposto, estava a lemuriana, estarrecida e sem saber ao certo como reagir. Receosa, apenas assentiu ao comentário do homem, com o esboço de um sorriso.

- Fantástico! Fantástico! - Enfatizou animadamente o tutor, que continuava a falar: - Finalmente será preparada para este mundo novo, minha querida! - Continuou o falatório por horas a fio, discursando sobre uma lista imensa de afazeres que deixou Irae confusa e tonta. Kuo-Chiu, no entanto, garantiu a ela que a tudo conseguiria fazer.

Na primeira semana, a movimentação era intensa: alfaiates a mediam por completo, fazendo-a provar, tirar e reprovar moldes de todos os tipos; das roupas mais íntimas às mais suntuosas. Isto fora perturbador, para a moça: mãos e olhos desconhecidos ao seu redor, analisando a tudo. Entretanto, notando isso, seu mentor trouxe também lentes de linguística e história, para que fosse-lhe ensinado o essencial para o bom convívio por entre aquele povo, quando enfim saísse do quarto, logrando assim os primeiros conhecimentos quanto ao idioma local.

Cumprida esta primeira onda de eventos, vieram as aulas de etiqueta - que lhe eram complexas e tediosas; contraditórias em alguns pontos. Porém, logo aprendeu que questionar era perda de tempo, pois nem quem a ensinava, nem Kuo-Chiu davam atenção aos comentários. Por fim, mulheres de aparência exótica ensinaram a realçar suas feições, com objetos estranhos, de cores intensas e belas, que passavam por seus lábios, olhos e unhas; a face também adquiria alguma tonalidade uniforme. Tudo fazia parte do que Irae julgava ser uma ilusão bem-vinda, pois em seu aspecto tão peculiar, sentia-se quase um fantasma: pele e cabelos alvos, que a deixavam muito parecia com uma escultura em mármore, não fosse o brilho vívido e rubro de seus olhos. Além disso, como a lemuriana pôde notar, elas não estranhavam alguns detalhes peculiares quanto à sua fisionomia, sabendo inclusive contornar o que a evidenciava como diferente dos demais. Notou, também, que fazia algo similar por Kuo-Chiu e isso trouxe ao conhecimento de Irae que aquelas eram pessoas já conhecidas de seu mentor, de outras vinda a este local. Nem todos eram efetivamente amparados e assistidos pela Igreja, embora sua conduta fosse oimplacávelmente medida por esta. Kuo-Chiu trazia, de uma maneira sutil e muito bem dissimulada, alguma ajuda e esclarecimento àquelas pessoas, quando precisavam, mesmo que isso fosse um risco que todos corriam. Portanto, não apresentarem nenhum grande espanto quanto à peculiaridade daqueles dois e os ajudarem a melhor se inserirem no ambiente era plausível.

Então, após longo e árduo mês, Kuo-Chiu a considerou preparada para andar por entre aquele povo. Irae, temerosa, perguntava-se o que havia ali que se fazia necessário tamanho trabalho para entre eles andar. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que nada havia! Absolutamente nada.

Nos primeiros meses, encantou-se pela arte que se difundia e um tanto arrogante - do ponto de vista da moça - se auto-denominava Renascimento. Irae não conseguia concordar de todo com sua filosofia - voltar-se ao homem e desviar-se dos deuses - mas o talento era inegável. Contudo, além da arte, poucas outras coisas a cativaram, no início, o que a manteve mais ligada ao aprendizado do idioma do que às pessoas. Haviam, no entanto, muitas festas e, em diversas Kuo-Chiu a levou; ele parecia desenvolver-se bem diante daquelas pessoas estranhas e extravagantes, que o chamavam de Coccius. Os lugares amplos e a própria decoração eram belos, ricos em detalhes - quase tão ricos quanto os bolsos dos convidados. Porém, Apesar da beleza, a lemuriana via aquilo como algo de profundo mau gosto, quase uma vulgaridade: enquanto eles ali banqueteavam e festejavam, lá fora tantos morriam de fome e frio, mergulhados na pobreza e marginalizados. Nem mesmo no território chinês via tamanho descaso, embora fosse inegável que havia disparidade de posses.

Por mais que resignasse, no entanto, Kuo-Chiu sempre a levava nestas reuniões. Em algumas, inclusive, pedia que a jovem ouvisse os pensamentos alheios para melhor conhecer as pessoas e sua maneira de pensar. Mais por curiosidade do que serventia, Irae procurava obedecer a isto melhor do que qualquer outra instrução. Aos poucos, sem perceber, começou a se habituar com aquela vida: os costumes, as preferências e influência que este convívio agregava. Tornou-se alguém bastante diferente e em pouco tempo - não mais que dois anos, tempo que a ajudou também a apresentar um domínio considerável sobre o idioma. Já não questionava os motivos do que faziam, apenas aproveitava deliberadamente, como se houvesse crescido naquele meio, ou absorvida pela luxúria que dali emanava. Percebendo isso, Kuo-Chiu decidiu dar-lhe algum tempo longe desta agitação; após alguns dias de descanso e ócio, com ela foi conversar. Ele estava apoiado ao marco da janela, olhando a movimentação da cidade, quando ela veio do cômodo adjacente.

- Chamou-me, Kuo-Chiu? - Disse-lhe a moça, com curiosidade nas voz. Vestia-se conforme aprendera ali, fazendo com que seus traços alvos se destacassem no carmesim do vestido - sua cor favorita.

- Sim, minha querida. Sente-se.

Com graciosidade, ela obedeceu e deixou-se cair num confortável divã, acomodando-se prazerosamente.

- Minha adorável Irae, tens gostado de nossa prolongada estadia? Ainda acha este lugar odioso?

- Não, não acho. - Respondeu sem demora e, é verdade, sem aprofundamento.

Um tanto surpreso, Kuo-Chiu permaneceu a observá-la com curiosidade. Em resposta, a jovem apenas ficou inquieta e ele então prosseguiu: Ora, isto é muito bom!- Respondeu com um sorriso que aos poucos adquiriu leve maldade. Contemplando isto, Irae deu-se conta que caíra em uma armadilha. Só não fazia ideia de qual era, efetivamente.

- Então diga-me, meu anjo, além da arte, o que aprendera que torna este lugar tão agradável?
A lemuriana teve o ímpeto da resposta, mas não havia o que dizer. Não verdadeiramente. Começara então a refletir sobre tudo, desde que chegara. Parecia o início do entendimento sobre a pergunta, isto é, seu real intento, e enxergava agora seu erro. Quando achou possuir uma resposta para Kuo-Chiu, a tarde despedia-se e ele estava distante, acomodado enquanto lia. Percebendo que Irae o olhava com alguma insistência, enrolou o papel, pegou seu chá e a olhou, sorrindo.

- E então? - perguntou com um sorriso que parecia mais perigoso do que amigável. Como o silêncio permaneceu ainda, ele desfez o sorriso e falou em tom de zombaria, já sem muita paciência: - Ora, não me olhe assim ou tomarei isto por flerte!

Irae voltou seus olhos para o chão, hesitante. As maçãs de seu rosto coraram levemente, num misto de vergonha e raiva; tinha sim que admitir o erro para com ele aprender, mas aquele jeito de Kuo-Chiu parecia além do cabido.

- Agora vejo que nada aprendi, pois deixei-me seduzir pela rotina daqui... - começou a responder, quando foi interrompida pelo tutor.

- Não, não Irae. - disse, deixando de lado a xícara e sentando-se mais próximo da pupila - Deixou-se levar por uma vida cômoda de luxos e nenhuma preocupação, a não ser com qual roupa vestir-se e se estava bela ou não. A rotina deste lugar envolve trabalho, injustiça, miséria, desigualdade e fome, enquanto, com hipocrisia, alguns apoiam o Renascimento. E porque isto aconteceu com você, me pergunto. Você, que durante anos aprendeu com pessoas que renegam estas coisas e a ensinaram o supra-sumo do conhecimento que levaram anos para aprimorar. Centenas de anos! E o que faz, diante do imprevisto? Perde o foco prematuramente, por uma vida de diversão e majestade! Não foi para isso que a trouxe, embora isto fosse também parte da avaliação de seu conhecimento e capacidade. Desde que a trouxe, era óbvio que tinha uma lição a ser aprendida, mas sua mente fugiu, abrigando-se no despropósito de toda aquela futilidade! Diga-me, que razão os faz viver aquela vida? Não há beleza no que fazem, apenas profanação à tudo que é sábio e justo! - concluiu com visível indignação. Em se rosto alterado, Irae via as veias que saltavam-lhe também pelo pescoço. Acuada, pois nunca antes fora repreendida com esta ênfase e aspereza, permanecia com o fito preso ao chão e o olhar turvado por nervosismo e receio.

Ver aquilo apenas inflamou ainda mais a raiva de Kuo-Chiu, que ao contemplar o leve tremor no corpo da jovem durante a tentativa de dela se aproximar, apenas cerrou os punhos, saindo porta a fora, como um trovão. Ainda nervosa, Irae jogou o torso para frente e amparou a face com as mãos, ocultando-a no ato. Mas mesmo assim, não chorou.

Três dias depois, Kuo-Chiu ainda não havia retornado ou enviado qualquer mensagem. A jovem não compreendia que não fora o seu erro o que mais o fazia explodir em fúria, mas questões mais antigas, de quando ele renegara esta vida de luxúria e que continuava a seduzir os homens, apagando qualquer brilho em suas vidas. Porém, para Irae, que desconhecia o fato, podia apenas culpar a si mesma, enquanto ouvia burburinhos aos corredores que diziam ser ela uma bruxa, que levara o amante à loucura com seus atos e perversões. Diante daquilo, só conseguia desejar uma coisa: voltar para casa.

E foi então que aconteceu: Han Hsiang Tzu a buscou.

Um ano mais tarde, Irae compreendeu o que havia de fato acontecido e o que perturbava tanto a mente do mestre Kuo-Chiu, mesmo após tantos anos tentando curar esta mágoa e apagar o ódio, que perpetuava-se em sua alma, embora tanto houvesse recebido de doutrina e disciplina dos Pa Hsien. Então, uma vez que tudo estava esclarecido - embora não tão bem compreendido - a jovem pediu ao tutor que concluísse seus ensinamentos, pois faltavam-lhe ainda dois anos. Portanto, os meses seguintes foram gastos em compreender a razão que motivava cada pessoa e que, como consequência, acaba por mover o mundo, também. Sempre que possível, Irae retomava cuidadosamente a experiência em território florentino, já que ali experimentara uma vida leviana, sem razões que fossem exploradas e, tão pouco, sua própria razão enriquecida.

Após este tempo, Irae já não sentia saudade ou nostalgia por nada que deixara para trás. Porém, como Kuo-Chiu havia notado, seu jeito e a própria aparência mudara bastante. Não era algo ruim, agora que considerava a jovem instruída e livre desta influência desastrosa; podia manter o cuidado com uma parcela bem dosada de vaidade, afinal, era uma moça bela. Mal não faria.


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Maeveen de Sagitario
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O Mais Veloz entre os Cavaleiros

[align=right]Ilhas Penglai
China
1484
[/align]


[align=right]Posted Image[/align]


Desta vez, quando questionou, Irae jamais imaginou que não haveria um próximo mestre; haveriam três. Surpreendida, pensou nas dificuldades pelas quais passou e triplicou-lhe o número; o resultado foi um pessimismo sem precedentes. Contudo, era apenas exagero. Diferente do que acontecera das outras vezes, não precisou se habituar à presença daqueles homens, pois já lhe eram familiar, cada qual a sua maneira: Chang Kuo fora aquele que a encontrara vagando, quando ainda criança. Li Tieh-Kuai, bem, este era uma figura que lembrava-lhe Lan Ts'ai Ho, pelo aspecto menos cuidado. Por fim, havia Han Hsiang Tzu, que sempre fora o primeiro a surgir em sua defesa e proteção, quando necessário. Outro ponto inusitado, era que não ficaria nas acomodações de nenhum deles, mas nas suas próprias. Irae já era parte da pequena comunidade lemuriana, não fazia sentido não possuir sua própria morada. Isto foi o que a deixou mais feliz: tornar-se, em definitivo, parte deles. Então, depois de todos os preparativos e devida organização, começou efetivamente seu treinamento.

Os três homens, sentados cerimoniosamente, retomaram as primeiras lições sobre seu povo, o que representavam e como melhor serviam a Deusa. Lendas e fatos foram narrados com igual importância, pois era tudo o que tinham do tempo dos ancestrais de Jamiel. Neste tempo, foi que teve real entendimento de quão antigos eram seus tutores e espantou-se, em verdade, como a longevidade lemuriana conservava os traços joviais. Irae não, até então, noção de que Kuo-Chiu, sendo o mais novo dos Pa Hsien, já tivesse galgado três séculos de existência, quase. Este discernimento explicava, no entanto, como eles adquiriram tanta sabedoria ao longo de suas vidas e porque eram respeitados e lembrados, entre os chineses. Aperfeiçoaram, todavia, não apenas o conhecimento da aprendiz, mas também as habilidades e técnicas que já havia concebido, preparando-a para aquelas que ainda iriam despertar, ao longo do treinamento. Finalmente foi admitida como alguém que dominara plenamente os idiomas que há muito estudava e gradativamente adquiriu a consciência que isto a preparara que aprender uma língua muito antiga, porém desta vez, de seu próprio povo: o lemuriano antigo, como denominavam.

Aos poucos, foram conduzindo sua essência para o auto-conhecimento, de maneira que já não estranhava nada do que podia fazer. Faltava apenas que compreendesse seu propósito ali e logo descobriu-se atraída pelas armas e armaduras e também pela maneira com que eram criadas, sendo que seu primeiro contato com tais artefatos fora com a espada que Tung-pin possuía. Apenas a teoria estudou por alguns anos, para que antes de se lançar à prática, entendesse seguramente tudo que envolvia este pequeno milagre. Tinha, é verdade, natural talento em sua alma para aquela tarefa e não tardou para executar leves reparos com primor. Sua primeira experiência fora em 1492, com uma armadura que estava sendo guardada pessoalmente por Ho Hsien Ku: a armadura de Lótus. Embora a procedência da armadura fosse importante, Irae concentrava-se mais no artefato em si e saber de sua trajetória por ela do que por relatos dos Pa Hsien. Entretanto, disciplinada como era, ouviu atentamente sobre o que fora contato. Chang Kuo explicou que a armadura fora encontrada por Hsien Ku em território chinês, próximo de vilarejo por onde a própria Irae passara. Sem saber ao certo se levava a Jamiel ou ao Santuário, a lemuriana decidiu que era sensato consultar Chang Kuo, pois sendo o ancião, saberia a melhor forma de lidar com aquilo sem que fossem tomados por usurpadores. Quando analisada pelo lemuriano mais antigo, ele decidiu deixá-la em Penglai por um tempo indeterminado. Aquela fora uma armadura usada pelo Anzjani e fortemente ligada a ele. Merecia um adequado repouso e descanso, até que estivesse preparada para aceitar um novo usuário. E assim permanecera sob a guarda dos lemurianos de Penglai. Agora, no entanto, era um momento propício para prepará-la e devolvê-la ao seu local, em paz. Não havia, portanto, nenhum grande reparo a ser executado, porém a interação com Irae e dela com a armadura seria uma boa experiência. E realmente foi.

A seguir, vieram as armaduras de Lebre (reparada em 1493), Serpente (idem à anterior) e Urso (reparada em 1495), com avarias leves e pequenas rachaduras à danos mais profundos. Ao mostrar-se apta, passou a executar o conserto em armaduras superiores, como as de Escudo e Lagarto (ambas consertadas em 1497). Não houve, contudo, um relato detalhado sobre quais foram seus usuários e circunstâncias que as levaram àquele estado, embora Irae intuísse corretamente que se devia ainda aos ecos da última Guerra Santa. Sabia, entretanto, que se executavam aqueles reparos era com a aprovação de Jamiel, o que intrigava a menina - embora seus questionamentos fossem desencorajados, sob a escusa de que seriam sanados no futuro. Indiferente à isso, a verdade era que quanto mais fazia tais reparos, mais sua alma - seu coração - queria fazê-lo, como se pudesse sacrificar tudo o que era para dar vida àqueles artefatos. Uma vontade e satisfação inefáveis. Contudo, logo tomava conhecimento que estas características não eram mero acaso do destino.

- Você, Irae, descende de uma família que outrora - seus antepassados - foram agraciados com este dom e o mínimo de seu sangue significava um sopro de vida à uma armadura como esta ou superior. - Explicava Chang Kuo - Desde que perdemos nosso lar, procurou-se conservar esta linhagem e, quando recebemos a bênção grandiosa da Deusa, um novo lar e recomeço, esta família foi uma das primeiras a servir e dedicar suas habilidades unicamente à ela. Seu sacrifício deve ser feito com alegria, pois é pouco por tanto bem que ela continua nos provendo.

Irae permanecia calada; não conhecera direito sua mãe, tão pouco lembrava-se das feições de seu pai. Como poderiam desejar que ela simplesmente abraçasse este legado assim, de corpo, mente e espírito? A única família que conhecera foram os Pa Hsien e a eles podia corresponder, mas não a ancestrais que nunca vira! Diante do silêncio da jovem mulher, a única coisa que Chang Kuo fez foi suspirar. Han, que a tudo observava no que tangia o treinamento da jovem ao lado de Tieh-Kuai, sorriu e se aproximou.

- Ora, Irae, o que a deixa tão indiferente que nem mesmo um comentário nos apresenta? - perguntou conciliador.

- Não entendo. Não entendo porque devo aceitar uma herança daqueles que comigo nunca se importaram!

Tieh-Kuai ia intervir, também, mas o olhar de Han o fez desistir.

- Mas, minha criança, teu coração não se enche de alegria quando realizas este pequeno milagre? Não foi tu mesmo que disseste que tua alma anseia por fazê-lo, Irae? Se tens o dom e isto bem te faz, não o renegues por um passado desconhecido, mas àquilo que verdadeiramente amas. E, acima de tudo, não honrarás ancestrais de faces esquecidas, mas somente à Deusa e tua causa, que é o mais nobre motivo que encontrarás para te moveres enquanto viva.

A face da lemuriana, antes mergulhada em angústia, começava a se abrandar, conforme as palavras do mestre adquiriam sentido. Afinal, não era a vida o que ela mais amava, perguntou a si mesma; doar a vida à outrem, à um propósito, era igualmente belo e louvável, se não ainda mais. Lembrou-se, então, do que aprendera sobre o dever e a razão; a lei. A verdade que nega-se à visão ao hesitar e, acima de tudo, a graça que há naquilo que é único em cada um: a vida e o que dela extrai. Quando enfim compreendeu que tudo está ligado e a tudo faz parte, não houve mais sombras em seu coração. Nascia, assim, uma nova ferreira para Jamiel, para Athena.



[align=left]1498 - Altruísmo[/align]


- Não, não, Irae. As pessoas não nascem más. - Falou Tieh-Kuai, levantando a mão para impedi-la de retrucar quando inspirou para fazê-lo: - Todos os seres são bons; nascem assim, bem como dotados da capacidade de não o fazer e é isso que os torna ruins. Mas seu espírito nasce e é apto a fazer o bem, sempre, por mais difícil que seja enxergar isto.

- Mas, se é assim, Tieh-Kuai, como pode tanto sangue ser derramado, muitas vezes sem motivo? - perguntou ela, que embora já intuísse a resposta, se negava de a aceitar.

- Há muito tempo foi observado que era mais simples ignorar seus semelhantes do que ajudá-los à transcender e, com isso, difundiu-se o egoísmo, enquanto a ganância envenenava seus corações. Poucos são os que ainda acreditam em propagar o bem, pura e verdadeiramente. Pensam que isto cabe à religião, mas crença alguma detém a verdade que nasce com cada alma.

Irae contemplava em silêncio as feições do tutor, enquanto refletia sobre isso. Ela bem sabia que o caminho que ele estava propondo era longo, perigoso e, acima de tudo, solitário. Contudo, entendia também que não conseguiria dar às costas a isso, simplesmente. A própria arte alquímica de restaurar armaduras era parte e disto não queria distar-se; seu coração jamais seria capaz. Chegando a este ponto, compreendeu plenamente o que Tieh-Kuai dizia sobre o abandono do corpo e elevação do espírito. Agora não havia mais regresso e aceitou-se à doação com amor.



[align=left]1499 - Cortesia Ritual[/align]


- De que adiantará propagar o bem se o faz com descaso? - falou Han, com um sorriso.

Irae, ao mesmo tempo em que ouvia sobre as virtudes que surgiam através de ações bem ordenadas e respeitáveis, aprendia com ele a pintar e os mistérios da música, também. Olhava, ora ou outra, para as paredes da pequena e humilde casa e contemplava as belas telas do mestre. Transmitiam um ar de verdade que por vezes a distraía. Ali haviam pinturas de partes do que parecia ser a China, cenas de majestosos combates, imagens de Jamiel - que erguia-se triunfante sobre o alto da montanha - e, em um dos cantos, desenhos de cada um dos Pa Hsien e da própria Irae criança, como quando chegara.

- Ah sim, preciso refazer seu retrato; já não é mais a criança desgrenhada que aqui chegou - comentou Han, olhando na mesma direção que a jovem diante de si.

Olharam-se e, após a troca de um sorriso, voltaram ao que faziam antes; o tutor achava engraçada a inocência da garota, que jamais questionava insistentemente acerca de algo e, tão pouco, imaginava que as pinturas eram fruto de seus dons oraculares, mais do que sua afeição pela arte. Não era, no entanto, hora da aprendiz disso saber. Portanto, apenas continuou a ensinar-lhe sobre a busca pela perfeição, desde o menor, mais simples e corriqueiro gesto. Ensinou-lhe que tratava-se de muito mais do que disciplina, era questão de embelezar cada momento a fim de torná-lo único em todos os sentidos, para que quando eternizado nas lembranças, fossem acalento e alegria para a alma, sem que a sombra do arrependimento chegasse à eles. Era custoso para a lemuriana, mas não podia dizer que, ao final do dia enquanto aguardava que o sono a tomasse, não se sentia realizada e satisfeita.



[align=left]1500 - Sabedoria Moral[/align]


Com Chang Kuo, as horas pareciam não passar e esta sensação, de fuga temporal, era agradável. Da mesma forma quando como o conhecera, ele mantinha-se em ares meditativos embora, como Irae já tivera a má sorte de verificar duas ou três vezes, permanecesse amplamente ligado ao que acontecia ao seu redor. Quando sob sua tutela, muitas vezes, ele a fazia ler seus antiguíssimos pergaminhos - de seus ancestrais - em voz alta; uma forma sutil e adorável de ensinar-lhe a escrita antiga de seu povo - que já dominara o suficiente para que pudesse compreender a maioria das palavras e expressões - ao mesmo tempo que embalava-se pelas lembranças. A jovem não importava-se com a dificuldade no exercício e muito gostava de executá-lo, de ser parte dos momentos importantes, mesmo que apenas como narradora. Podia voar livre, para distante, lá no passado, imaginando e remontando cada cena que surgia. E, é claro, servia para tomar conhecimento da história dos lemurianos e sua luta.

- Sua voz vacilou, minha criança. Há algo a perturbando? Ou está cansada de ler?

Nem mesmo Irae havia percebido a oscilação em sua voz e isto a impressionava: era incrível a concentração que o ancião alcançava e perguntava-se o que não seria capaz de fazer com tamanha força de vontade. E muito embora Chang Kuo pudesse saber dos pensamentos da pupila, muito mais o interessava aquilo que ia-lhe no coração daquela que, para ele, ainda era apenas uma menina. A cada dia aproximavam-se mais do momento para o qual tanto a preparavam e, como Han já o havia advertido, o coração dela seria irremediavelmente partido. Chang Kuo, sensato, procurava não afastar-se da advertência, pois afinal Han possuía o dom oracular; instável, mas certeiro.

- Não, não. Na verdade, apenas refletia sobre as palavras que pronunciava.

- Entendo. Talvez seja bom que façamos uma pausa. Vamos caminhar um pouco.
Levantaram-se e, antes que Irae pudesse calçar suas sandálias, Chang Kuo já os havia levado para uma praia, na costa chinesa. A água estava gelada, mas era agradável a sensação quando acompanhada pelo calor do sol, como naquele instante.

- Sabe, gosto de quando pede que eu leia sobre Jamiel e os lemurianos. Posso imaginar como ela é e também como são as pessoas de nosso povo. Como de lá saí muito cedo, é a melhor forma de conhecê-la e aos que já se foram. - comentou a pupila, com gentileza.

Chang Kuo suspirou e apresentou-lhe um sorriso forçado. Às vezes, sentia o ímpeto de revelar à garota tudo que ela sabia. Porém, era também sabido que, se quisesse que ela cumprisse fielmente com seus desígnios, haveria de poupá-la deste perigoso conhecimento. Conseguiu apenas responder, em tom reflexivo:

- Minha pequena, estas histórias retratam uma Jamiel do passado e ela muito mudou. Não sei se ainda a veríamos com os mesmos olhos.

- Ora, meu mestre, quando foi que nós mudamos, para que acontecimentos e decepções endureçam nosso coração e adquira resistência à beleza que há em nossa história? - sorriu com genuína inocência.

Chang Kuo nada respondeu, apenas voltou a face aos céus, desejando ardentemente que isso nunca mudasse, mesmo que aquela fosse a justa ira, a andar por entre os homens.



[align=left]1501 - Integridade e Fidelidade[/align]


- Então todas as coisas retornam ao seu estado completo, íntegro, independente do caminho que se siga? - perguntava Irae em meio à confusão que lhe causaram os ensinamentos de Tieh-Kuai.

- Sim e não, minha cara. - respondeu com tranquilidade e algum desleixo.
Como a pupila apenas arqueou as sobrancelhas e suas bochechas coraram um tanto com a resposta, indicando leve impaciência pela falta de sentido no que ouvia, Tieh-Kuai só pôde rir em meio a situação.

- Hahaha! Não se zangue, Irae. A vida é complexa em seu andar! Não culpe este pobre e infeliz homem!

Irae, por outro lado, apenas inspirou de uma forma que fez o mestre lembrar-se de histórias de dragões e suas baforadas. Depois, a viu expirar ruidosamente - fechando os olhos durante o ato - e cruzar os braços a seguir. Diante daquilo, sentiu-se plenamente aliviado de que ali, em frente a ele, era apenas uma mulher irritada, não um dragão que antes havia preparado seu sopro.

- De pobre e infeliz nem mesmo o humor... - comentou entre resmungos a moça, que começava a dar mostras de uma personalidade mais vívida.

- Hahaha! É verdade! - deixou-se gargalhar livremente o tutor, para depois aprumar-se e continuar com a instrução. - Mas o que dizia, antes, se refere ao aperfeiçoamento da unidade, que há de refletir no todo. Agora ela pode parecer incompleta e torta, mas ao final da jornada, há de alcançar sua plenitude.

Irae pensou em questionar, mas percebendo que Tieh-Kuai apenas fizera uma breve pausa, conteve-se para ouvir a continuação:

- Isso ocorre a tudo; com você, por exemplo: tudo que aprende serve como meio à galgar a perfeição - sua integridade. Existem ainda muitos pontos a melhorar, coisas a aprender e muitos erros que comete e ainda cometerá, porém sabemos que no final estará pronta; não mais errará, como antes, alcançando assim a completude.

Assentindo, a aprendiz decidiu que não era sensato uma nova pergunta; a lição ainda teria que ser reanalisada e muito refletida, antes que a considerasse assimilada o bastante para um novo inquirir. E isto levaria algum tempo. Contudo, lembrou-se de um outro ponto que ainda era um tanto obscuro e poderia impedir de alcançar o esperado entendimento:

- E a fidelidade? Que tem com isto, afinal?

Com um sorriso no rosto, o tutor preparou-se para responder. Sentia-se alegre em contemplar como a mente da garota respondia bem - e rápido - ao que era ensinado, muito diferente do que quando chegou, que nada parecia importar. Agora seu rosto possuía brilho e vivacidade em suas variadas expressões.

- A fidelidade é uma virtude que promove as outras. Por meio dela, se restaura a integridade, por exemplo. Sem fidelidade, não é possível a integridade entre os homens, a meu ver. Além do mais, uma mente volúvel se dispersa correndo atrás dos ventos, enquanto aquele fiel à si - seus preceitos - sempre seguirá por reto caminho, independente das adversidades que surgirem.
Isso pelo menos, pensou Irae, parecia ser de mais fácil compreensão. Parecia, também, ser premissa para eleger-se fiel a alguém - um propósito maior - e a ele entregar-se inteiramente, sem conflitos interiores. Pensando sobre isso, acabou por perguntar qual seria, afinal, seu propósito e o de tantos ensinamentos que em Penglai recebia.



[align=left]1502 - Justiça, Retidão e Honradez[/align]


- Haja sempre de forma que propagues a justiça por teus atos, para que conserve-se honrada e íntegra, minha querida. - falava Han, mansamente.
- Mas Han, se a mim for delegada tarefa que não parece justa, devo eu executá-la ainda assim por ser fiel à quem a delegou e à minha honra, na condição de obediente serva? Pois, se desobedeço, sou igualmente transgressora da honra!

Perguntou a pupila, com anseio, pois viu-se na possibilidade de cair em falha ante uma situação como a cogitada e ela bem sabia que a escolha errada significaria não apenas desonrar seu nome, mas também aos daqueles que a ensinaram e esta possibilidade enchia seu coração de pesar. Captando a temeridade na jovem, Han segurou-lhe a mão protetoramente e respondeu tão gentil quanto lhe era possível:

- Minha pequena, se esta hora chegar, fazes o que tu'alma decidir e serás reta e fiel ao que acreditas, mesmo que à vontade de outrem contradiga. Porém, tua honra não sofrerá dana algum e estarás sendo justa, da maneira que te cabe, não pelas medidas mundanas, mas unicamente àquela que em teu coração habita.

Ainda havia alguma sombra no olhar da jovem mulher, contudo Han sabia que seria compreendido em seu devido tempo. Por ora, apenas achou sensato aliviar o clima apreensivo que se instaurara com uma melodia, das lições que a ela passava. O sopro da jovem, na artesanal flauta, afastava os pensamentos turvos, deixando sua mente límpida como a superfície de um cristalino lago, o que era bem vindo.


[align=center]_______________________[/align]

Após dezenove anos treinando, Irae conseguia executar com agilidade e rapidez os exercícios em busca do aperfeiçoamento alquímico para restaurar artefatos. Entretanto, por mais que se empenhasse, começava a perder o ritmo do avanço gradativamente. Chang Kuo, aquele que era o único a lapidar diretamente este dom, sabia muito bem qual era o motivo, porém ainda considerava muito cedo para forçar-lhe o espírito. Ele fora, outrora no passado, um grande ferreiro de Jamiel. Chegou, em seu tempo, a ocupar o título a que chamam de Haddied Kaptan, portanto era o mais indicado a avaliar a jovem. Sentia a necessidade de despertar-lhe o sétimo sentido para que pudesse ultrapassar a barreira que já se apresentava. Sabia, também, que sem isso estava apenas deixando-a estagnar, pouco a pouco, no seu conhecimento. Contudo, seu coração ainda dizia que não era tempo; não era a hora. Ou apenas não havia decidido como efetivamente conduziria o treinamento de maneira que ela superasse os limites que agora possuía, embora Han já houvesse dado mostras de que isso estava já pré-destinado, independente dos esforços do ancião. Portanto, como não havia encontrado o meio adequado, deixou-a mais livre ao longo do tempo que ainda restava, distando um pouco o tempo de uma lição a outra. Além do mais, haveria de sondar, também, junto a Jamiel se uma pupila sua seria bem vinda.

Para Irae, esta liberdade - como fora em outro tempo, com Hsien Ku - era estranha, mas muito bem aproveitada. Tinha sua curiosidade ainda pelo mundo e pelas mudanças que nele ocorrera enquanto esteve em Penglai e também distante, naquele território estranho que lhe parecera Florença. Além disso, aproveitava também este ensejo para passar mais tempo com Vasharti, companhia da qual sentia cada vez mais falta. Em algum momento, sem que a lemuriana tomasse conhecimento, seus sentimentos em relação a ele começavam a mudar. Afinal, ela não era mais a pequena e indefesa criança que ele salvara e ajudara. Era uma mulher - já bem formada e apessoada - e seu corpo começava a dar mostras deste conhecimento. Contudo, como sempre estivera envolvida pelos ensinamentos dos Pa Hsien, a jovem não sabia discernir e definir o que vinha sentindo pelo amigo nos últimos anos, desde a estadia na terra florentina.

Entretanto, quando com ele, começava a notar detalhes em sua fisionomia que a atraíam, como o rosto que antes parecia fechado e ranzinza, adquiria agora um ar mais envolvente e misterioso. Havia também o fato de que muitos anos se passaram e isso afetava de maneira diferente os humanos, o que parecia não ocorrer a Vasharti. Também, pelo que já vira dele e de seus repentinos desaparecimentos, era levada a crer que como ela, havia algo a mais em sua essência. Pensando a respeito, chegou ao ponto crucial: por que, afinal, ele a ajudara no passado?

- Vasharti... - Perguntou a moça, enquanto caminhavam por uma estrada arborizada, no interior do território chinês, sem importarem-se com a direção - porque, quando era criança, me ajudou e protegeu? E, além disso, foi a sua voz que me despertou no abismo, não? Foi o primeiro a chamar-me Irae.

- De onde venho, Irae, a cor de seus olhos têm muitos significados; alguns contraditórios e dependentes do contexto. O vermelho, além de nobreza de espírito, era facilmente atribuído ao bravio, indômito. Assim, chamá-la de ira, me pareceu bastante condizente. E creio que, pelas circustâncias que se apresentaram em Penglai, seus mestres foram de uma opinião similar, não?

O homem, que estava com as feições abrandadas, firmou-as inconscientemente e refletiu muito antes que continuasse a responder, sobre a ajuda e dedicação - o que fez com muita cautela:

- Não podia simplesmente deixá-la morrer... E, além disso, sabia que não era uma criança comum; sabia que era especial e sua vida deveria ser preservada.

"E que precisaria de você, no futuro..." continuou mas somente para si, reflexivo. Não havia, fora sua conclusão, a necessidade de falar isso a ela. Não queria que parecesse apenas movido por um interesse, embora tenha sido exatamente isso naquele tempo. "Mas quando mudou? Aliás, nem imaginava que isso pudesse mudar...", pensou ainda. De certa forma, se havia sentimento por parte da lemuriana, parecia ser correspondido pelo homem. E mesmo assim, nada se desenvolvia entre eles, o que deixava o coração de Irae em dúvida e com alguma tristeza à noite, enquanto relembrava os bons momentos que surgiam durante o dia.

Seus olhos, pensamentos e corpo pediam, exigiam, proximidade com Vasharti e não uma vez fora assolada por sonhos que a faziam despertar, ardente em desejo que fenecia em gotículas de suor, em seu corpo. Parecia uma situação insustentável, mas a falta de jeito para lidar com a situação e o constrangimento de revelar isto a qualquer um, a fizeram mergulhar profundamente em seus ensinamentos e, consequente, adormecer seus desejos. E assim, aprisionando os sentimentos ao fundo do peito, deixou que os anos por ela passassem, enquanto dedicava-se fervorosa e com entusiasmo renovado à alquimia lemuriana. Neste interím, um novo dom dava mostras de existir, mas ainda sem forma definida e, por consequencia, inominável. A única manifestação que dele sentia era ouvir e ver, vez ou outra, acontecimentos ligado à algum objeto. Contudo era algo tão disforme que não sabia como o aprimorar, considerado ainda imaturo pelos seus tutores.




[align=right]Ilhas Penglai
China
1516
[/align]


[align=right]Posted Image[/align]

Passados muitos anos, finalmente Chang Kuo decidia avaliar a maturidade de habilidades de Irae, submetendo-a à provação que apontaria, em definitivo, o curso de seu treinamento final. Para isto, foi levada - em companhia dos Pa Hsien - a um lugar que há muito fora devastado pelas enchentes: o Monte Erimanto e as ruínas de sua antiga habitação. Lá disseram-lhe para encontrar a armadura de Centauro, que após seu antigo usuário - também um lemuriano - rejeitá-la, foi tomada por uma vontade residual - de todos aqueles que um dia a portaram e com ela morreram - e, incerta sobre seu destino, refugiou-se naquele que considerou o local de seu próprio gênese, onde segundo narram as lendas, um dia fora um dos altares de Arcádia. Além de não haver um novo usuário desde Numus, o espírito da armadura permanecia inquieto e indomável. O céu, naquele dia, estava cerrado por nuvens densas e não havia vestígio de onde estava a armadura, exatamente. Se saísse da região, seria considerada desistente. A chuva começou e então fora deixada só.

Sob a chuva, Irae se concentrou e tentou alcançar as lembranças daqueles que estiveram com a armadura naquele local - uma vez que não havia nenhum outro sinal, nem do seu Cosmo. O que escutou todavia foram os gritos desesperados. A enchente tomando o vale. Os animais presos pela lama. Confusão. Quando percebeu, a água caía severamente sobre ela, vítima tanto quanto aquelas pessoas no passado foram. Então escutou o uivo, não sabia se era real ou não, mas assim como os árcades de outrora, o seguiu. O caminho tomava rumos íngremes, embora ela talvez pudesse transportar-se para o topo do monte, não sabia se isto impediria de descobrir a localização da armadura, então teve de sofrer como os outros para subir com suas próprias forças.

Conseguiu chegar, seguindo os tais uivos que vinham da montanha, até às ruínas, no platô do Monte Erimanto. Cessaram os uivos e imagens do passado, como também os efeitos da enchente, que não afetava ali do mesmo jeito que nas terras baixas. Explorando o lugar, encontrou o templo que fazia referência à Hércules, o provável local onde estava a armadura. Adentrou e desceu às câmaras interiores, onde avistou a Caixa de Pandora de Centauro. Um passo adiante em sua direção e um estrondo. A parede cedia e a lama invadia o subterrâneo do templo, rasgando a terra e carregando na enxurrada a mulher e a armadura. A força que Irae detinha sobre a telecinese não era a mesma quando envolvia mover toneladas de terra e água. Estava para ser soterrada e afogada ao mesmo tempo. A pressão sobre ela e a desorientação se tornavam mais graves, o ar escasso e a situação difícil de suportar. Girava em sua orbe de proteção e se perdia nos confins da montanha ferida. Se fosse para escapar com o teleporte, nunca mais iria encontrar a armadura, devorada pelo monte.

Concentrar-se era preciso e na falta de outras guias, recorreu mais uma vez à memória. Aos uivos, de curiosa coincidência em sua passagem pelas montanhas. Procurou escutar a armadura de prata, como não conseguia com seus seis sentidos, teve de explorar ao máximo o que chamam de sétimo sentido. Abaixou a guarda de sua telecinese e foi carregada pelas voltas das águas, não podia temer por sua vida se esperava superação. Deixou-se ir e focou-se em sentir. Ser parte daquela torrente e assim, irradiando seu cosmo, sentia através das águas, até tocar a armadura de prata com a sua energia e senti-la. Era o sétimo sentido que alcançava, a beira de sua própria morte.

A esperança queimou em seu coração quando a encontrou. Era o que precisava, com o Sétimo Sentido desperto, paralisou-se nas águas e iniciou um movimento nas mesmas, formando uma nova onda que a lançava para cima, até encontrar a armadura. Então libertou as águas para saírem de dentro da montanha, antes que uma boa parte da mesma desabasse - levando também as ruínas do templo. As águas barrentas romperam uma fenda e desceram até se encontrar com as outras que acumulavam-se no vale e sobre elas, Irae seguia a enchente até que ela se espalhasse de maneira calma pelas planícies sem oferecer perigo a outros seres, apenas as plantas, que com aquela boa oferta de água, haveriam de reerguer-se em paz. Triunfante e exausta, a jovem lemuriana estava abraçada àquela armadura, sem se importar com a lama que recobria seu corpo. Ao longe, os Pa Hsien contemplavam satisfeitos, embora uma sombra de pesar pairasse sobre eles, que já sabiam do que viria a seguir.

Diante de Irae, surgia a enorme figura de Vasharti, que se aproximava com calmos passos, até ficar frente a frente com ela.

- Você conseguiu, afinal. Muito obrigado, Irae. - Falou ele, com um alívio estranho em sua voz.

Suspirando ante o cansaço, a jovem abria os olhos para responder a ele, mas ante que o fizesse, seus olhos refletiram o espanto que ia-lhe na alma e ela nada conseguiu dizer. Ao contemplar as feições do amigo, o que vira estava muito longe daquilo que lembrava. Agora que seu corpo despertara um sentido muito mais amplo, a lemuriana vislumbrava a forma do grande homem como algo que, apesar do aspecto físico, parecia etéreo, com a mesma aura que tantos outros espíritos que já vira. Pensou com otimismo que fosse, talvez, a exaustão misturada com a visão turvada por lama, mas então o ouviu:

- Desde que percebi que conseguia com os espíritos falar, vi em você a ajuda que me faltava para que pudesse considerar meu dever cumprido, ao ver a Armadura de Centauro em boas mãos.

Como Irae não dava mostras de sair de seu estado de assombro, o espírito do guerreiro apenas prosseguiu:

- Ocorreu que esta armadura também alcançou um estado de perturbação e sem o auxílio de um mestre na arte de restauração e que também pudesse escutá-la como a qualquer outro ser que vive, levaria muito tempo até que fosse resgatada. Prevendo isso, os mestres em Penglai a prepararam para este momento e além, tornando-a apta a resolver estes pontos soltos no tear do destino, já que além de mim, alguém de seu povo também contribuiu para este estado em que ela se encontra até os dias de hoje. Agora, enfim, poderei descansar, certo de que a armadura ficará sob bons cuidados, até que regresse em segurança ao Santuário. E, é claro, uma vez que intercedi por ela, já não me sinto perdido. A ti, Irae, meu espírito só tem a agradecer.

Disse e se aproximou, abaixando-se e tocando a Caixa da Armadura como se pudesse sentir-lhe a textura. Um leve brilho surgiu e a energia que restava do antiguíssimo Cavaleiro de Centauro se dissipou, juntando-se ao seu corpo etéreo. Incrédula, Irae não se mexia; queria gritar, mas a voz parecia sufocada em sua garganta e apenas lágrimas corriam soltas por sua face, deixando um traçado por onde passavam, levando consigo os resquícios da lama. Vasharti baixou-se e simbolicamente beijou a fronte da mulher, levantando-se e deixando que a mão tentasse uma última carícia, enquanto sua alma se dissipava, regressando ao cosmo, numa despedida definitiva. Foi quando, no ápice da exaltação de seus sentimentos e o despertar do novo sentido, enquanto que em contado com a armadura, Irae teve um vislumbre do passado: via Vasharti trajando a armadura e combatendo em nome da deusa e, por instinto, sabia que aquilo fora há muitos, muitos anos antes. Séculos. Soube que ele morrera distante do Santuário e próximo de onde estavam agora, pelos ferimentos sofridos. Sua vontade, contudo, de retornar para junto dos seus, foi o que imbuiu tão intrinsecamente a energia do cavaleiro na armadura, a ponto de deixá-lo vagar por tanto tempo. Entendendo isso, a lemuriana voltava a si.

E a única reação de Irae, presenciada até mesmo pelos Pa Hsien que muito distavam, foi um grito de agonia e lamento; mas também um grito de pura ira, que dominava, enfim, o coração da jovem que sentia-se não mais do que um artifício, manuseado ao bel-prazer de outros. Pelo menos, naquele momento, foi assim que ela se sentiu. Passou pela provação, mas não havia vitória alguma no ato.


[align=center]_______________________[/align]

Após recuperar e restaurar a Armadura de Centauro, naquele mesmo ano, Chang Kuo e Han, acompanhados por Irae, a levaram ao Santuário. Como lemurianos e aliados à frente de Athena, embora parecesse estranho surgirem assim com a Caixa da Armadura, não foram tomados por inimigos, principalmente após explicar que a encontraram no interior do Monte Erimanto. Han e Irae, após cumprido o ato, logo se retiraram e voltaram a Penglai. Chang Kuo pareceu ficar um pouco mais, pois imaginava ter que explicar-se para algum eventual lemuriano que estivesse por ali e o questionasse.

De volta à pequenina cordilheira, Irae isolou-se em sua casa. Não via ninguém e os mestres pareciam respeitar sua vontade, afinal compreendiam que a revolta podia habitar seu coração por algum tempo. Ela sempre fora bastante obediente e nunca antes dera mostras de rebeldia; portanto, este momento seria respeitado também. Sozinha e incrédula, Irae repensava sobre o que acontecera e a explicação de seus mestres, posterior à provação. Em choque, antes, não compreendia porque não fora capaz de identificar Vasharti como uma das almas errantes, mas sim uma presença tão forte que jurara que mantinham contato físico. Contudo, Tieh-Kuai explicou-lhe que o espírito daquele guerreiro estava ainda fortemente ligado ao seu dever e, desde que Irae nascera, ele se manteve também ligado a ela, que haveria de libertá-lo; havia, no entanto, a sensação de que não o vira como realmente era, também, porque sua alma assim quisera. Então, ao despertar o sétimo sentido, isto tornou-se insustentável, até mesmo pela vontade intrínseca na jovem.

Agora, cinco anos após o ocorrido, a tristeza ainda a afligia, ora ou outra, mas decidiu continuar o treinamento para retornar a Jamiel. Ficar ali nas pequeninas ilhas parecia avivar as boas lembranças das quais Vasharti fazia parte, além de fazê-la lembrar que os mestres sabiam da verdade e não a alertaram. Parte da garota compreendia que ela deveria alcançar esta verdade por si mesma, porém outra parte gritava que isto fora cruel e contradizia o que lhe era ensinado. Então, antes que estes pontos conflitantes a afetassem além, optou por concluir o treinamento e retornar à terra natal. Se iria tornar-se ferreira, dedicaria o que sabia à Jamiel ao invés de apenas contemplar as eras passarem, em Penglai. Havia, é verdade, uma chama de esperança de que o regresso seria alegre, pois lembrava-se ainda do amigo de infância e, mesmo que desconhecido, seu pai habitava a cidade. Não estaria completamente só, pensou.

Ao mesmo tempo que retomava seus estudos, agora com um avanço maior pois dominara o sétimo sentido - e isto influenciava diretamente sua capacidade reparadora - Irae também procurou aprimorar a habilidade que despertara também durante a provação. Era algo estranho e diferente; oposto ao que Han era capaz de fazer com seus dons oraculares: ao invés da jovem ter acesso ao que aconteceria, quando em contato com algum objeto, ela via o que ocorreu a ele no passado, bem como as pessoas que com ele interagiram. A isso chamou Ecos do Passado e, de certa forma, não parecia-lhe mais perturbador do que outras descobertas anteriores.

Ciente do desejo de Irae, Chang Kuo enviou uma mensagem ao conselho de Jamiel. Dada à vida reclusa dos lemurianos em Penglai e ele próprio, que antes não regressara oficialmente à cidade, imaginou que haveria alguma resistência quanto à aceitação da moça como ferreira e além, pois tencionava indicá-la para o cargo de mestra da forja; além de considerá-la capaz e sua opinião tinha algum peso, pois já estivera neste patamar no passado, nos últimos anos dedicara um rigoroso treinamento, de maneira que isto era o que melhor ela sabia fazer - sem mencionar o talento natural que herdara em seu sangue. Tinha ciência, no entanto, que sua indicação poderia pouco ou nada valer na atual Jamiel. Contudo, havia um fator importante a ser considerado: diferente deles, Irae - Mun Si, como fora chamada ao nascer - não saíra da cidade por vontade própria, mas fora consequência de um atentado contra sua vida. Portanto, o mínimo que deveria ser feito, na concepção do ancião, era reingressá-la na comunidade, posto que agora adulta e instruída, poderia conduzir sua vida sem agregar fardo a outrem. Entretanto, ainda que isto tenha sido revelado, o conselho haveria de analisar a situação, conforme a mensagem que recebera em resposta. Jamiel passava por momentos de importantes decisões, que exigiam máxima atenção daqueles que regiam a cidade e esta não era uma questão simples como fora o pedido anterior, de auxiliar no reparo de armaduras ainda avariadas na Guerra Santa - pois fora assim que tiveram acesso à elas. Logo, deveria ser aguardado o momento da convocação; e isto levaria tempo. Muito, muito tempo.

Neste período que se seguiu, para que não ficasse à mercê do tempo, pediu a Chang Kuo que intercedesse novamente junto à Jamiel oferecendo sua atenção para reparar artefatos que estivessem avariados. Porem, houve um longo hiato até que o pedido fosse aceito e, sabiamente, Irae utilizou o tempo para continuar aprimorando-se, novamente não apenas na arte marcial ou estratégica, mas para alcançar um nível fluente no idioma antigo de seu povo, o que poderia ser útil se voltasse a Jamiel e tivesse acesso à biblioteca ou algo similar. Em 1544 Irae teve novamente a oportunidade de interagir com outros artefatos santos e assim concluiu os reparos nas armaduras de Lince, Baleia, Cães de Caça e Auriga - sendo esta última a que mais dera-lhe trabalho. As lembranças contias nestes artefatos era fortes, mas Irae não expressou absolutamente nada em relação a isto. Seu silêncio era absoluto.




[align=right]Jamiel
1548[/align]



Finalmente, em 1548, Irae alcançou o pleno domínio de seus dons, inclusive no que tangia à recuperação e revive das Sagradas Armaduras - isto, galgado com dedicadas e discretas idas ao Cemitério de Armaduras, nos últimos cinco anos, para com os espíritos de lá também aprender. Lapidou, também, a alquimia quanto ao processo reverso: usar sua essência - tanto o cosmo quanto o sangue - para fazer com que a armadura fenecesse. Não lhe era uma idéia tão absurda, quando pensava a respeito: tal qual um médico tinha o poder e discernimento para curar, passara períodos igualmente longos estudando a morte. Chang Kuo achara estranho o pensamento, mas não se opôs, reconhecendo que era uma outra possibilidade de aprimoramento, bastante exótica, é claro.

Neste tempo, suas esperanças de retorno à cidade natal já haviam fenecido, pois de Jamiel não mais se tivera notícias ou mensagens. Embora os anciões de Penglai a advertissem de que o mundo passava por terríveis momentos, com a iminente guerra, era difícil manter o desejo vívido. Além do mais, depois destes anos, permanecer em Penglai não feria-lhe mais; havia ainda a mágoa, mas o lugar por si só não era desagradável. Procurava, no entanto, ainda manter-se distante do convívio com os mestres, porém passou a não evitá-los mais. Conforme o contato com estes fora retomado, outros detalhes sobre o tempo em que treinou vinham à tona, como as previsões acertadas de Han - o qual poderia tê-la melhor preparado - e ações premeditadas para que suas experiências a conduzissem para o conhecimento que possuía hoje, sem questionarem-se se este elo com aquilo que era espiritual lhe faria mal ou bem; visavam, acima de tudo, que ela chegasse à um estado de que poderia ser uma grande força à Jamiel nos tempos sombrios. Estas descobertas, somadas à mágoa anterior, aos poucos foram deixando Irae menos gentil, aparentemente.

É claro que esta era a visão e entendimento da mente ainda jovem de Irae - de seu coração ainda ferido - sobre o que ocorrera. Não estava, no entanto, tão distante da verdade em alguns pontos, porém os Pa Hsien a amavam e por ela tinham orgulho e afeição, genuinamente. Não ignoravam tais julgamentos sobre o que fizeram, contudo confiavam - em sua plena sabedoria - que esta tempestade haveria também de passar, e quando este tempo chegasse, Irae perceberia a verdade e voltaria a sorrir e se reunir normalmente com eles, como outrora fizera. Entretanto, por ora a jovem teria um longo caminho a trilhar, que começava a despontar com o início deste turbulento ano.

Passadas poucas luas do novo ano, Jamiel enfim convocava Irae para que se apresentasse à cidade - mais especificamente ao conselho - para corroborar com o que Chang Kuo havia relatado anos antes; este fora também chamado, como responsável pela jovem. Diante do conselho da cidadela, fora narrada toda a trajetória da pequena Mun Si até que fosse encontrada pelo ancião, que agora incluía nos relatos fatos outrora ignorados pela jovem. Contou que o sofrimento da menina fora visto através dos dons de Han, bem como previsto que com eles deveria ficar e aprender. Conforme a mente da garota ia se fortalecendo, tomaram conhecimento também de sua descendência e, uma vez que os tempos de guerra se aproximavam, Chang Kuo achou sensato passar seu legado à menina, o que nunca fizera a outro de seus descendentes. Era, portanto, uma dívida que possuía não apenas com a cidade, mas com a Deusa, sua família e a consigo. Prepararia com suas próprias mãos, sabedoria e experiência alguém para o cargo que há muito renunciara; se ela seria aceita ou não, cabia unicamente à Jamiel decidir.

Embora a declaração sobre a ligação entre Chang Kuo e Irae parecesse já ser deconhecimento do conselho, para a lemuriana fora tão desastrosa quanto um trovão, inesperado e devastador. Mesmo depois do que acontecera em sua provação e no tempo transcorrido até agora, jamais fora dado a entender que descendia do ancião e isto sequer fora por ela cogitado. Agora, diante do conselho, ouvia as palavras como se todos ali a considerassem ciente de tudo, pensou. Irae fechou os olhos, respirou fundo e usou de toda sua disciplina para não exibir reação alguma, embora seu coração estivesse a ponto de saltar-lhe pela boca, seguido pelo despejo da raiva crescente que ia-lhe no íntimo. Porém nada fez e igualmente nada demonstrou; apenas aguardou silenciosa e obediente. Ao final, fora aceita para retornar e permanecer em Jamiel. Contudo, se era ou não apta a exercer a posição recomendada, isto ainda seria devidamente analisado.

Quando enfim distante da sala de audiências, a caminho da casa que um dia fora habitada por seus pais, Irae seguia em total silêncio, a ponto de nem mesmo seus passos causarem ruído. Ao seu lado ia Chang Kuo:

- Certamente, o que quer que seja delegado como tarefa para comprovar suas aptidões, há de concluir com êxito, mostrando que mesmo um jovem pode alcançar a proficiência nesta arte, se bem instruído. Sinto orgulho do quão amadurecida estás! - comentou satisfeito o ancião, indiferente ao silêncio que se fazia até então.

- Orgulho? É isto o que você está sentindo agora? - perguntou entre um ranger de dentes - Salvou-me, é inegável; deu-me instrução e proteção. Filosofia. E agora aqui estou, sem acreditar que durante todos estes anos escondeu o fato de que sou de tua linhagem, que é também parte da família que nunca existiu senão em histórias! Sabe o quanto isto poderia ter significado?

- Irae, o sangue é forte, mas por si só não tem poder algum. Os laços que nos unem em Penglai, estes sim são para a eternidade. Saber ou não do passado não interfere no que se tornou, na jovem virtuosa que procura ser, onde mesmo mergulhada em fúria soube conter a impetuosidade com disciplina e sabedoria. E isto sim é alegria a todos que podem se considerar meio utilizado para alcançar essa realidade.

- Mas teria sido muito mais fácil se soubesse... - respondeu com visível amargura.

- O fácil, minha pequena, não a teria edificado tão bem em força interior num espaço de tempo tão abreviado. Se partimos hoje teu coração e despertamos a ira que existe em ti, é para que nada mais te atinja, que possa desviar-lhe do caminho, no futuro, independente da intensidade. - dizia com seriedade. Quando percebeu que ela haveria de responder, interveio despedindo-se prematuramente; continuar aquele assunto os faria andar em círculos apenas: - Concentre-se no que és, não no que é feito a ti. Adeus, minha pequena.

Sozinha e levemente atordoada, restou a Irae adentrar em sua nova casa e procurar se reestabelecer do choque que sofrera.


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Na semana seguinte à sua chegada, Irae já estava habituada a rotina da cidade, embora esta estivesse um tanto agitada com os rumores sobre a chegada guerra. Apreensiva e sem ter nenhuma atividade sob sua responsabilidade, resolver ir até o Cemitério de Armaduras; além de exercitar suas capacidades, a percepção espiritual daqueles que por ali vagavam podia ser de alguma valia. À caminho, no entanto, alguém a seguia e não tardou a ouvir o chamado, em uma voz que não reconhecera:

- Mun Si?!

Virou-se e contemplou a figura do homem - aparente guerreiro - e não o reconheceu; tão pouco sua voz parecera familiar.

- Disseram-me que um milagre ocorrera e voltou para nós! Pelos deuses, sou eu, Lannok!
Surpresa, Irae não soube como reagir, mas acabou sorrindo e gracejando:

- Perdão se não o reconheço, mas já não é o garoto magricela que conheci!

Algo constrangido - pelo teor da resposta e reação tão natural da moça que, quando criança, era silenciosa e indiferente - se aproximou e a ela abraçou, enquanto falava:

- Sabia que não havia morrido!

Irae permitiu-se uma leve alegria ante a resposta, enquanto soltava-se do abraço; o reencontro era bem vindo, afinal. Conversando, caminharam para longe de Jamiel e quando deu-se por conta, a lemuriana estava no ponto onde anos atrás havia encontrado os lobos mortos. Quando virou-se para contar isto a Lannok, notou que estava sozinha. Porém, antes mesmo que se indagasse, sentiu o sangue quente umedecendo a roupa e a dor intensificando-se, quando atingida em seu lado esquerdo. Com a guarda baixa, não percebeu o momento em que furtivamente Lannok se distanciara e preparara o ataque, desferindo rapidamente o golpe. Agora, num salto, o via já mais afastado e seu rosto expressava o rancor e ódio:

- Porque teve que voltar, porquê?! Porque acusar e exilar aquele que só fez o que achou certo? Ele foi o único que continuou a ensinar-me depois que nosso pais morreram e, diferente do seu mestre, ele nunca abandonou a nossa cidade! E agora você volta para lançá-lo ao exílio justo quando a guerra irá iniciar? Ele tem razão: você merece a morte! Você é uma maldição para nossa cidade e uma ofensa à nossa sabedoria!

Irae não conseguia entender aquilo tudo; não fora ela a quem jogaram aos braços da morte, perguntava a si mesma. Nunca desejou vingança, tão pouco sabia que Helath havia sido exilado. Parecia que, além da instrução, Lannok herdara a insanidade e o veneno do tutor. A lemuriana pensou em responder e esclarecer as coisas sem que se opusessem num confronto real, mas já era tarde: os olhos marejados fitavam o sangue - seu próprio sangue - a macular a neve. Então, como no passado, algo dentro de si despertou, no fundo de sua alma, e quando voltou o olhar para o amigo de infância, a ira ardia em seus olhos e fazia com que seu cosmo se expandisse hostil e selvagem, enquanto lançava-se impetuosamente contra Lannok. Lutava em quase frenesi; seus golpes possuíam a força da sua vontade de viver, a convicção de que não importa contra o quê, ela deve vencer para continuar viva. Não queria nunca mais cair no abismo da indiferença, que habitava os sombrios confins de sua mente e tão pouco desapegar-se da vida, tão prematuramente.

Impelida por tamanha vontade, venceu o combate, a muito custo, caindo exausta e tonta, a contemplar o firmamento, exatamente como fizera no passado também a beira da morte. Enquanto fechava os olhos, podia jurar ver as feições de Vasharti e ele a acomodava em seus braços, levando-a para casa. Para Penglai.


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Lentamente Irae abria os olhos, acostumando-se com a claridade do dia. Havia o inconfundível som do mar e os ventos marítimos que adentravam pela janela aberta. Estava realmente em Penglai. Tentou se levantar, mas sua força vacilou e quase foi ao chão; seu corpo estava dormente e fraco. Tentou calcular o que aconteceu e quanto tempo teria se passado, mas era impossível naquele momento. Ergueu à altura do peito a blusa que vestia e verificou o ferimento - a estocada que acertou ligeiramente acima do baço - e constatou que fora tratada e estava quase fechada, embora doesse e estivesse ainda avermelhada a cicatriz que se formava. Passou a mão por ali, como se o gesto pudesse trazer-lhe as lembranças do que aconteceu, mas nada veio-lhe à mente, de fato. Neste instante, Han adentrava pela porta; olhou para onde estava a mão da moça, porém seus olhos captaram as sinuosas formas do corpo antes mesmo do ferimento. Quando tentou mudar o foco, o tecido da blusa recaía e cobria-lhe a visão. Sorrindo, lembrou-se do que fora ali fazer:

- Trouxe algum cozido para alimentá-la, mas creio que não precise mais tanto de minha ajuda, não é mesmo? - perguntou com alguma alegria, ao que Irae apenas assentiu, antes de sentar e falar:

- Quem me encontrou e há quanto tempo estou aqui?

- Bom, Tung Pin a trouxe para cá há algumas semanas; um ciclo lunar inteiro, creio. Ele ia até você, oferecer a Chan-yao Kuai - a Matadora de Demônios - para caso precisasse se defender, mas chegou um pouco tarde. - respondeu enquanto alcançava-lhe a comida - A levamos até Jamiel, porém a pessoa melhor indicada para tratá-la por lá já não morava mais na cidade - uma mestra com nome Shiwa. Como a adaga que a feriu estava envenenada, pedimos permissão para cuidá-la aqui em Penglai. - concluiu, já acomodado em frente à jovem. - Logo poderá voltar a Jamiel.

Não havia nem alívio, nem pesar no rosto da jovem mulher, que conservava apenas uma serena feição no rosto. Como nenhum assunto fora iniciado, não demorou para que Han a deixasse só novamente. Ele sabia, por dedução, que agora não restava ninguém familiar à ela em Jamiel; porém não conseguiu intuir o que seria dela, de agora em diante.


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Duas semanas mais tarde, Irae já estava completamente recuperada. Usou este tempo, também, para meditar a fim de encontrar um ponto de equilíbrio ao qual se agarrar, para seguir adiante, buscando superar aquilo que sobre ela recaía - seu tormento. Quando finalmente saiu da pequena casa, estava completamente diferente: seu olhar parecia mais aguçado, astuto. O sorriso constante, junto do olhar, formavam uma expressão envolvente. Seus passos adquiriram alguma matura dignidade e em harmonia com sua aparência - remoldada e bem cuidada, com belas roupas e adereços. Por fim, sua voz vinha com uma suave e gentil cadência. Este conjunto quase podia aludir à uma armadilha; bem, talvez o fosse, no futuro.

- Estou pronta para regressar à Jamiel, finalmente.

Hsien Ku - que estava reunida com os demais, à sombra do pessegueiro, em uma de suas amigáveis reuniões - recebeu a notícia com animo, quase exultante, com visível empolgação com a mudança pela qual a jovem passara. No rosto de Ts'aiho, havia um sorriso que denunciava satisfação, enquanto Tieh-Kuai ri ao ponto de sacudir os ombros, quando Kuo-Chiu colocou a mão sobre a face, sem saber ao certo se aquilo era bom ou ruim. Por outro lado, Han sorriu e assentiu, aprovando sutilmente a mudança, com gosto. Tung Pin e Ch'uan estavam surpresos e foi o segundo a comentar, enquanto ajeitava suas roupas que incomodavam o conforto e liberdade de sua enorme barriga:

- Há! Bem melhor! Prefiro assim! - cutucou Tung Pin com o cotovelo e voltou a comer um dos pêssegos que estavam num cesto diante dele.

Chang Kuo fora o único a não se manifestar, mas quando seu olhar cruzou com o de sua bisneta, havia a serenidade da compreensão ali. Talvez ele entendesse que ela encontrara e aceitara seu próprio caminho, sabendo e decidindo qual seria a melhor maneira de trilhá-lo, independente do que os outros viessem a lhe fazer. E esta foi a última reunião com os mestres, antes de partir em definitivo para Jamiel.


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Desta vez, quando em Jamiel, não sentiu-se perdida quanto à falta de uma tarefa a executar. Pediu autorização para, enquanto ponderavam sobre onde alocar sua capacidade, para utilizar-se do que precisasse para a forja; nada grandioso, apenas um projeto pessoal. Então, em quanto o tempo passava, Irae ocupava-se em fazer o que desejava. Com algum esforço, conseguiu também que fosse cedido um cômodo em desuso - velho e em estado de abandono - o qual ficava escavado no subsolo e outrora fora usado para reuniões, posterior como depósito, até não mais haver uso, devido à ação do tempo e o clima diferente que as dependências possuíam, em seu silêncio e antiguidade. Este lugar ficava em um dos edifícios mais antigos e distantes, ainda dentro dos limites da cidade Passava, então, mais tempo lá do que em qualquer outro lugar e não obstante, encontrava-se em um estado de completa exaustão. Tamanho trabalho e empenho, a levaram à um estado de quase reclusão do que estava além das portas daqueles salões.

Já no último mês daquele mesmo ano, tendo passado os últimos dez apenas com seu trabalho, chegava ao fim deste. Ali, utilizando-se de toda sua capacidade e os materiais adequados - que buscara em Penglai, com a permissão dos Pa Hsien - fora capaz de criar dois artefatos para seu próprio uso: um peitoral adornado e uma espécie de Ji, uma alabarda chinesa, aparentemente usada apenas como um apoio, um cajado, pois sua estrutura parecia ornamental do que bélica - até que fosse-lhe descoberto o fio potente de sua lâmina - a qual chamou de Wu Long. Ambos itens a lemuriana procurara fazer por amor àquela arte, mais do que por estar efetivamente sem ocupação. Desde a coleta dos minerais, até a doação de seu sangue e cosmo, executou com devoção. Sabia que jamais chegaria à grandiosidade de algum artefato abençoado pela deusa, mas mais do que isso, Irae desejava apenas criar e ver nascer algo belo de suas mãos. Transmutar todos os componentes, juntá-los, reuni-los até que se confeccionasse o que desejava, nas formas que a agradavam, fora trabalhoso, principalmente pelo tipo de forja que a lemuriana desenvolvera - que não utilizava outras ferramentas que não suas longas escarfes, entrelaçadas também com fios de prata, presente de Kuo-Chiu. Igualmente como presente dele, foram as reluzentes orbes e cristais que adornavam os objetos e que davam-lhe o aspecto belo e não militar. Concluído o trabalho, apresentou-os aos anciões com o intuito de ter sua permissão e bênção para portá-los, uma vez que jamais os usaria contra Jamiel, mas apenas em favor de sua causa. Ao contemplarem tais objetos, o esmero e maestria empregada para confeccioná-los, uma vez mais reuniram-se e desta vez foram favoráveis em aceitá-la e à sugestão de Chang Kuo, dando-lhe a alcunha de Haddied Kaptan. Deixaram-na, entretanto, ciente de que ocuparia tal posição enquanto não houvesse alguém mais apropriado para tal. Aceitando com humildade e servidão, Irae alegrou-se com a decisão e, em sua sabedoria, entendia que aquilo era de fato necessário - alguém que se dedicasse exclusivamente à esta arte - em tempos de guerra. Assim, outros com aptidões combativas bem mais afiadas poderiam focar sua completa habilidade para aniquilar o inimigo.

Uma pequena, discreta e silenciosa cerimônia foi o que marcou sua passagem de aprendiz para mestra - ainda que muito jovem: Han até ela foi e a marcou, quase como um ritual, com a alcunha que carregaria e à qual deveria honrar, em nome da Deusa. Para concluir sua comemoração, Irae regressou ao vilarejo onde, muitos anos antes, ficou na companhia de Huang. Aquelas eram boas lembranças e sentiu algum arrependimento por nunca ter regressado ali antes - e principalmente quando ele ainda estava vivo. Ao ar livre, passou aquela noite a contemplar o firmamento, perdida em seus próprios pensamentos. Depois voltou a vagar pelo territóio chinês e acabou por adormecer sob um casebre velho e abandonado - que não era mais do que um precário telhado -, à beira do que parecia um grande lago. Se retorno à cidade dos lemurianos se deu somente na noite seguinte, a última do ano e com ninguém falou. Caminhou silenciosa e absorta em seus próprios pensamentos até sua morada, sem com ninguém conversar ou a nada contemplar. Incauto e negligente, talvez, Irae não percebeu ou ouviu sobre o ataque que a cidade sofrera, naquela noite de retorno. Assim, conquistou seu posto e sua pele fora marcada com tatuagens, para que jamais renegasse aquilo que era, em vida: a nova ferreira de Jamiel, a nascer com o novo ano.



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Maeveen de Sagitario
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O Mais Veloz entre os Cavaleiros

[align=right]HISTÓRICO DA ARMADURA[/align]


Nome do Usuário: Vasharti de Centauro Imagem
Período de uso: 422 ~ 436
Histórico resumido: Nascido em Esparta, Vasharti era um catafractario que, ainda muito jovem, fora enviado para lutar em nome de Bizancio - o qual recrutava soldados - para conter as invasões ao norte do Império. Porém, não muito tempo depois, o poder de Vasharti a que chamam cosmo aflorou, num dos combates. Um dos veteranos, então, o explica a respeito desta força recém surgida e conta-lhe que gregos a utilizam em batalha; conseguem canalizá-la e isso os torna potentes guerreiros. Com o desejo de tornar-se um combatente ainda melhor, Vasharti vai para o Santuário, onde recebe todo o treinamento que era possível e, ao final, ascende à armadura de Centauro. Contudo, ao chegar a Guerra Santa, foi delegado que rechaçasse as forças inimigas da região que lhe era familiar em Árcade. O inimigo fora mais forte do que o imaginado e, estando só em batalha, acabou perecendo antes que concluísse sua missão. Esta morte prematura e a vontade de continuar até que seu trabalho estivesse acabado, impregnaram a armadura com a energia espiritual do guerreiro, o que o fez permanecer sem descanso.
Situação Atual: Vasharti, depois de sua morte, acompanhou a trajetória da armadura e assim chegou à Jamiel, ficando preso ao Cemitério de Armaduras, quando a de Centauro foi levada para a restauração. A armadura, mesmo com suas lembranças, seguiu sua história possuindo eventualmente outros usuários - o que apenas agravou a situação da armadura.



Nome: Haddied Kaptan Chang Kuo Jiayi Imagem
Período de uso: 937 ~ 1013
Histórico resumido: A família Jiayi era proeminente na arte lemuriana alquímica e seus integrantes eram frequentemente preparados unicamente para exercer esta função, não sendo incomum que ascendessem ao posto máximo, como no caso de Chang Kuo, nascido em 880, que ainda jovem - aos 57 anos - o representava muito bem. Porém, anos antes da efetiva Guerra Santa, um pequeno destacamento de Jamiel fora atacado - que rumava para o Tibet - e quase todos mortos. Um dos que se perderam fora a esposa de Chang Kuo. Sua filha, entretanto, fora mantida e protegida na cidade lemuriana. Contudo, a dor da perda levou o lemuriano à dúvida e sua crença no futuro foi quebrada. Assim, Chang Kuo comunicou ao ancião que não havia mais como ajudá-los, pois se em seu coração residia a incerteza quanto ao que fazia, poderia ser um empecilho para os lemurianos, ao invés de uma ajuda. Abandonando o cargo, ele parte para o isolamento, onde começa a perambular pelos territórios vizinhos, acabando por permanecer na China. Após muito tempo, lendas foram se difundindo que narravam sua imortalidade e assim nascia Chang Kuo, o imortal. Isto foi benéfico, pois pôde encontrar paz em um recanto e construir sua morada, até que estivesse por completo restaurado. Foi assim também que teve seu contado com o Tao e a ele se apegou, posteriormente.
Situação Atual: Chang Kuo vive ainda em Penglai e o contato que mantém com Jamiel é limitado, sendo o mais recente quando retornou com Irae.

Quote:
 
Lendas contadas e difundidas a seu respeito:
Chang Kuo, o mais velho, teria sido um eremita durante a dinastia Tang. Ele era convidado a ir para a Corte, mas se recusava . Quando a Imperatriz Wu solicitou, ele consentiu, mas um raio caiu sobre ele na frente do portão do Templo da Mulher Invejosa. O corpo dele apodreceu ali, mas depois foi encontrado vivo de novo nas montanhas. Sempre montado numa mula, viajando longas distâncias em um só dia. Quando terminava uma viagem, dobrava a mula como uma folha de papel e guardava na carteira. Cuspindo água nele, voltava à forma de mula. O jeito como ressuscitou dá a entender que ele era imortal e controlava a morte de alguma forma, tendo uma suposta existência de mais de 2 mil anos. Outros objetos que possui, segundo a lenda, é uma pena de Ho-oh e um pêssego da imortalidade.
Outras lendas, contos e poemas foram escritos, mas esta é considerada a lenda báscia.



Nome do Usuário: Haddied Kaptan Irae
Período de uso: 31/12/1548 - XXX
Histórico resumido: Nascida em 1446, Irae - Mun Si, como era chamada na época - era uma criança silenciosa e indiferente, fruto de uma desconhecida anomalia que possuía (autismo). Aos cinco anos, o mentor Helath atenta contra a vida da menina, motivado por sua insanidade. À beira da morte, no Cemitério de Armaduras, Irae recebe ajuda de um desconhecido e misterioso homem, iniciando assim sua jornada que culminaria na descoberta de um refúgio lemuriano nas Ilhas Penglai, na China, onde passa a ser treinada e fortalecida, para que um dia assuma a posição de Haddied Kaptan - secreto intento de seus mestres. Já adulta e com treinamento concluído, retorna para Jamiel onde passa a morar, até que seu natural talento, lapidado por intenso treino, é aceito pela sociedade e eleita a nova Mestra Ferreira.
Situação Atual: Tendo acabado de ser declarada a nova Haddied Kaptan, Irae permanece em Jamiel.


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