ZetaBoards




Welcome to Forsaken Legends. We hope you enjoy your visit.


You're currently viewing our forum as a guest. This means you are limited to certain areas of the board and there are some features you can't use. If you join our community, you'll be able to access member-only sections, and use many member-only features such as customizing your profile, sending personal messages, and voting in polls. Registration is simple, fast, and completely free.


Join our community!


If you're already a member please log in to your account to access all of our features:

Username:   Password:
Locked Topic
Cefeu; Baltazar
Topic Started: Mar 18 2014, 04:19 PM (349 Views)
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=right]INFORMAÇÕES BÁSICAS[/align]


Nome: Baltazar
Idade real: 31
Idade aparente: 33
Data de nascimento:23 Dezembro 1522*
Signo: Capricórnio*
Local de nascimento: Ancona – Estados da Igreja
Local de treinamento: Roma – Estados da Igreja, França, Espanha, Luanda - Angola, Crotonia (Península Itálica), Grécia
Raça: Humano
Idiomas falados: Fluente: Latim, Hebraico, Italiano, Grego e Espanhol. Avançado: Francês, Português. Intermediário: Ambundu (angola) Básico: Árabe

*Possibilidade de Plot, vide história.



Aparência: A pele é branca com um leve tom morenado pelo tempo exposto ao Sol e lugares quentes. Os cabelos são loiros e um tanto esbranquiçados e compridos até o ombro, fazendo algumas vezes alguma mecha. Olhos azuis, severos e pesados, muito pensantes, mas com um tom carinhoso. 1,75m de altura com um corpo atlético de 80Kg capaz de levantar o próprio peso sem dificuldades. Suas roupas costumeiras são uma renovação do estilo Cruzado com as roupas de um Clérigo. É de costume usar botas de couro preto até as canelas, amarradas com fivelas e cadarços. Uma calça de cor escura, normalmente preta e por vezes branca, com um cinto de couro e uma fivela simples. A camisa normalmente preta não possui detalhes, senão as tiras de couro para amarrá-las. Por cima, um tipo de sobretudo branco, cândido, que ao se fechar aparenta uma batina, mas que na maioria do tempo é usado aberto. Este possui um capuz, com um recorte singular que permite cobrir todo o rosto, ou fazer uma boa sombra sobre ele, ficando o que resta na costura caída para trás. Normalmente não caminha com sua urna, mas tem sempre as manoplas com as correntes de Cefeu, já prontas, enroladas em seus braços e escondidas pela manga de suas vestes.
No andar é sempre altivo. Olha para baixo e para cima quando cai em pensamentos. Seus pés sempre pisam no solo com uma maciez e firmeza que torna surpresa sua chegada a um recinto.



Personalidade:

Justiça. Esta é a palavra que define o paladino que muito lutou e continua lutando por ela. Íntegro e resoluto, mantém a fidelidade em Deus, e sua lealdade para com Athena. Preza pela Ordem, assim como pela Verdade. Entende que sem estas a Justiça não pode agir de forma correta, sem arbitrariedades. Como clérigo aprendeu que a punição do crime é concreta, como rei aprendeu que preservar aqueles que são bons é um meio de manter um homem que tenha boas ações. A morte sempre virá, mas ela virá no momento certo para aqueles que se arrependem de seus crimes. E aos que não se arrependem, a punição no exato momento em que forem jugados. E para isso, Sapiência e Discernimento são outras duas palavras que complementam a personalidade de Baltazar, que somada a Integridade e a Firmeza, faz o que é necessário ser feito, sem misericórdia ou pena.

Contudo, para que não sofresse a represália da época de Inquisidor, se intitulou paladino e assumiu princípios para que sempre promovesse o meio de manter sua fé intocada. São eles:

Os 10 Princípios da Batalha
- Representarás o Bem: Sempre representará a moral filosófica e respeitará os direitos do homem e dos espíritos.
- Protegerás, primeiramente, os inocentes: Se a guerra é feita pelas injustiças dos Homem, não há motivo para sacrificar inocentes, sendo estes os primeiros a serem protegidos.
- Conhecerás o Inimigo: Conhecer o inimigo é necessário para entender suas motivações, e assim cumprir totalmente os princípios que venham em seguida.
- Farás o Julgamento Justo: O sentimento de Vingança é uma mácula a Justiça. O julgamento sempre será o mais justo possível a medida da capacidade de julgar. Sentimentos bons ou ruins não devem interferir neste processo.
- Darás a oportunidade de rendição: A todos cabe o arrependimento. A oportunidade deve ser dada a todos os homens, independente de seus males e de sua punição.
- Motivarás o arrependimento: Como paladino deve proteger o corpo sagrado, receptáculo da alma. Quanto antes fazer entender que a batalha e o derramamento de sangue são desnecessários, mais valoroso será o resultado da disputa.
- Farás cumprir a Sentença Divina: A sentença é una. O princípio do Crime X Punição deve ser cumprido por aquele que é competente. Se a morte for a sentença, ela poderá ser dada pelas mãos de Deus caso o homem se arrependa e agrega bons valores.
- Matarás se Justo ou em Último caso de necessidade: Tentar ao máximo converter a mente impura da vítima do pecado é Lei. Somente se não for possível, ou se justa a sentença, a vítima poderá ter tirada a vida.
- Não sodomizaras o corpo do inimigo: O corpo é como um artigo sagrado. Não deve ser imaculado por artimanhas ou sodomias. Da forma que receber a morte, deve ser preservado.
- Farás respeitoso ritual a morte: Independente daquele que cai, a morte deve ser tratada com respeito, e portando deve ser feita a cova e a reza, quando for possível, respeitando-se também as tradições peculiares das origens do corpo.

Assim sendo, sua atuação em batalha nunca será a de um sádico ou de um louco. Mas sim de um homem lutando contra outro homem, tentando esclarecer aquilo que vê àquele que está ludibriado. A única violência que poderia usar seria a psicológica, para provocar o arrependimento e evitar a queda de sangue.

Apesar disso, não deixa de ser um homem bom e caridoso. Sempre praticou a tal caridade, e viveu com o necessário, trazendo muito dos franciscanos para seu modo de vida. Costuma ouvir mais que falar. Não teme questionar, e o faz com humildade. Mesmo aqueles que poderiam lhe ser considerados inimigos tem com ele a oportunidade de explanar seus motivos e as cruzes que carregaram.

Quanto a hierarquia, Baltazar entende que os aliados Cavaleiros e Amazonas são santos, e independente de suas personalidades, estão ao lado do Bem. Se resume apenas a lembrá-los do caminho, uma vez que ainda sim são humanos, ficando atento a qualquer menção de cair para o outro lado, levando em conta sua experiência de vida. Contudo sabe que alguns destes estão mais próximos que ele da deusa, e os respeita pelo seu posto, assumindo o papel de subordinação, o que não o impede de analisar seus superiores. Os subordinados são tratados com clareza e objetividade, levando-os como subordinados mas também como irmãos. Em sua responsabilidade, tratará de cuidá-los, e tenderá a ser sempre o primeiro a levar a espada e prostrar o escudo em defesa destes.

Bipolaridade
Infelizmente, o dom com o qual nasceu proporcionou experiências não muito boas para uma criança que ainda estava em formação. Não conseguindo se comunicar, ou o fazendo com dificuldade, teve problemas que ficou para si, gerando alucinações. As alucinações lhe proporcionaram a tal doença psicológica que se resume em dois episódios.

- Maníaco: Normalmente se encontra no tal episódio quando se encontra motivado, com sucesso ou grande interesse. Os pontos mais comuns são a Autoestima Elevada, que o coloca sempre na posição de um verdadeiro anjo encarregado de um destino divino. Necessidade de Sono Diminuída, que o faz se sentir repousado com 3 a 5 horas de sono. E Inquietude, que o faz buscar várias atividades, quando não as tenta cumprir de uma única vez e ao mesmo tempo.

- Depressivo: Normalmente se encontra no tal episódio quando se encontra desmotivado e totalmente a mercê de problemas que não consegue resolver, ou então quando movido por maus sentimentos como culpa, pesar, entre outros. Os sintomas normalmente são Estado Deprimido, onde se encontra deprimido maior parte do tempo. Anedonia, que é o interesse diminuído e a perda de prazer para realizar atividades de rotina. Distúrbios de Sono, passando por insônias ou hipersonias. Sensação de Inutilidade, e a Idealização Suicida, bem combatida pela fé que possui, mas não anulada por esta.

Um destes episódios estará sempre ativo com maior ou menor profundidade. Outros sintomas podem surgir de acordo com a intensidade da situação. Cumprir e fazer cumprir a missão que tem normalmente trará o episodio maníaco, enquanto que lidar com problemas intensos que possam levar a própria aflição podem trazer o episódio depressivo.
Na batalha, o episódio Maníaco praticamente sempre o levará como um legítimo salvador, superando as dores e dificuldades como se fosse maior que tudo que pudesse sofrer, ciente que irá triunfar no final e que a morte ainda lhe dá tempo para correr pela conquista. Já o episódio Depressivo praticamente sempre o levará a pensar como um mártir. Sacrifício é a chave para o fim de sua missão e o início de sua paz. A libertação de seus problemas e enfim a chama da purificação. Se verá muito mais como humano, dependente de uma força superior para manter-se de pé, do que como anjo, que tem poderes divinos concedidos por Deus.



[align=right]COSMO[/align]


Manifestação:Para amigo ou inimigo, a visão de seu cosmo é sempre a mesma: Uma aura prateada envolta de lampejos e ondulações douradas bem uniformes se forma ao seu redor quando seu cosmo está elevado, lembrando chamas, principalmente pelas beiras criarem padrões como se o fosse. A armadura de Cefeu, comumente azul, altera sua cor para branca, tomando os detalhes talhados e as partes escuras um tipo de dourado que destaca no branco, levando um aspecto mais sagrado.
Quando voltando-se para o pico, a aura se expande mais larga, criando a ilusão de asas angelicais feitas de chama prateada rajada com dourado bem proporcionais ao corpo do cavaleiro. Atrás de si surge uma cruz de madeira que acompanha-lhe os movimentos como se estivesse amarrada às costas, embora quando vista de lado, é perceptível o vão existente entre o corpo e a cruz. Nela há correntes transadas, sobrando pontas nas extremidades.
Em seus punhos brotam o que parecem ser chamas cósmicas que ascendem até quase todo o antebraço, soltando suas últimas fagulhas à altura do cotovelo, também acompanhando a movimentação de seus membros, aparentando estar sempre em chamas. Na cabeça, toma uma coroa de fogo, circular e brilhante, que se mantém próximo a imagem de uma coroa de um rei, ostentando fagulhas douradas onde em tese se cravariam joias.
O corpo recebe um manto branco, tendo na cintura correntes em “X” que o prendem ao corpo. Abaixo dos pés, linhas de cosmo parecem formar ondulações semelhante a água do mar.

A Marca:
[spoiler=Marca Demoníaca]Posted Image[/spoiler]

Afixada por Torquemada, a marca se mostrará presente sempre que Baltazar rumar o cosmo ao pico. Ela se posicionará toda vez aos pés de Baltazar, abaixo das ondulações cósmicas que fazem parecer a água do mar. Contudo, só será visível para quem lhe olhar de cima.
Porém, caso o cosmo de Baltazar se coloque no 7º sentido, a marca se tornará visível de qualquer ângulo, exceto para Baltazar. Parecerá que o cavaleiro movimenta-se sempre em cima de um disco, fino, mas que parece arder como chamas.

Sensação:Um Rei é também um Juiz. Pois cabe a ele julgar cada pessoa e avaliar seu mérito e suas verdades, portanto, para amigo ou inimigo, a sensação é a mesma.
A cosmo energia de Baltazar, quando elevada, faz colocar a presença de uma forte aura de justiça, como se o Juiz do Céu e do Inferno ali estivessem para dar a sentença após fazer seu julgamento.
Há também uma forte aura absolutista, como os reis europeus, que tem sua palavra como única capaz de salvar e de oprimir a conduta, dando sua decisão como palavra final.
Neste estado, aqueles com grandes pecados, ou seja, que exacerbaram o comum e o aceitável e o tratam como normal, tendem a se incomodar muito mais com esta aura, que tenderá fazer lembrar as sensações de atos errados, quando praticados pela primeira vez, incutidos na memória de quem a sente, tentando trazer-lhes o arrependimento.
Já aqueles que já se arrependem, e buscam sua redenção, além das sensações descritas, sentem também algo apaziguando-os, como se um anjo estivesse próximo e pronto para levá-los ao purgatório.
Enquanto que os outros, cuja alma ainda tem a pureza livre da selvageria da vida, que os pecados foram-lhe mais aprendizados e reforçaram a fé na verdade, na devoção, na prática de bons atos, e tornam os conceitos de virtude algo prático na vida, sentem-se leves, como se a sentença já estivesse clara desde o início.

Quando o cosmo ruma para o pico, o aspecto Divino do Rei, escolhido por Deus e pelos Homens, como no absolutismo, se ressalta, e a sensação da presença de um Juiz torna-se avassaladora, tanto para aliados como para inimigos. O incomodo é profundo pois tem-se a expectativa de que a qualquer momento o Juiz baterá pesadamente o martelo, aplicando sua sentença sem compaixão ou misericórdia, fazendo jus ao Crime X Punição.
As asas da manifestação ressaltam o aspecto divino sobre o cosmo de Baltazar, aumentando a sensação de poder e controle que gerá pressão e atrapalha o ímpeto daqueles que sofrem sua presença. Já a Cruz sobrecarrega a consciência, pois trás a sensação de culpa em conjunto a vozes que falam em hebraico nos ouvidos, contando os pecados consumados e pensados. Essas vozes falam em hebraico, contudo podem ser entendidas por qualquer um.

Estas sensações independem de religiosidade. Cristãos (ou ex-cristãos ainda religiosos)terão grande influência por reconhecerem o significado. Outras pessoas de religiões que possuam céu e inferno também terão as sensações, contudo trazidas a lembrança da própria fé. Crentes cujas religiões não possuem tal separação terão para si o desdobramentos dos sentimento, embora não tão destacados. Ateus ou racionais extremos tem suas ideias confrontadas com as sensações do momento, dadas por Baltazar. Elas também independem de rank, mas podem se tornar mais brandas de acordo com o nível de elevação cósmica do oponente, perdendo ou sendo ineficaz para deuses despertos por estes serem, por si só, divinos.


Motivação:

Fé Verdadeira: A fé é fonte de grandes energias, e com ela se move montanhas. Traduzindo para o forum, a fé movimenta o cosmo de uma forma mais intensa, fazendo-o despertar. No caso, Baltazar é sensível a fé das pessoas, e quando estas tem nele a confiança e a fé, o paladino se sente motivado a defendê-los de toda forma possível, elevando seu cosmo. Esta motivação não funciona simplesmente, como um aliado dizendo que confia nele. A confiança e a fé deve ser sincera, e pode ser cativada por Baltazar.

Os 10 Princípios: Os 10 princípios de Baltazar são a forma de usar um processo justo dentro de uma batalha. É como um princípio divino que não o fará cair novamente na desgraça, como ocorreu quando Inquisidor. Portanto, sempre que conseguir cumprir passo a passo seus princípios, se motivará.
[spoiler=10 Princípios] Os 10 Princípios da Batalha

- Representarás o Bem
- Protegerás, primeiramente, os inocentes
- Conhecerás o Inimigo
- Farás o Julgamento Justo
- Darás a oportunidade de rendição
- Motivarás o arrependimento
- Farás cumprir a Sentença Divina
- Matarás se Justo ou em Último caso de necessidade
- Não sodomizaras o corpo do inimigo
- Farás respeitoso ritual a morte.[/spoiler]

Deus, Athena e a Justiça: Baltazar serve a três: O Deus cristão, simbolo de toda a bondade e amor; Athena, simbolo da guerra justa e da esperança; e a Justiça, ideologia criada por ele baseada nos intentos divinos. Quando estes três elementos estiverem harmônicos em suas ações, Baltazar se motivará, lembrando que nem todos podem merecer Perdão (Deus), nem todos serão combatidos justamente nas leis da deusa(Athena), e nem todos receberão o julgamento correto, seja por desconhecimento ou demasiada agilidade no processo para concretizar a Justiça (Justiça). A motivação se concretiza com a trindade.

Justiça, Verdade e Ordem: Nem sempre os afazeres são diretamente feitos para a construção do Bem, mas se a missão o levará a trazer estes três bens àqueles que encontrar pelo caminho, isso o motivará a fazer pela própria consciência, como se estivesse pregando a paz pelo mundo, assim o motivando no encontro de obstáculos e problemas.


Desmotivação:

Decadência: Não quebrar os 10 princípios, mas inverter a doutrina, colocando o pior lado. Baltazar se desmotivará cada vez que fizer o contrário daquilo que idealiza. Da mesma forma a motivação sobe conforme cumpre os princípios, a desmotivação aumenta conforme os inverte, assim sendo:

[spoiler=10 Anti Princípios]

- Representarás o Mal
- Sacrificarás os inocentes
- Subestimarás o Inimigo e Supervalorizarás seus Pecados
- Farás o Julgamento baseado no sentimento humano
- Não oferecerás Rendição
- Motivarás a má face do Inimigo (para assim se mostrar pecador)
- Farás cumprir a Sentença que achar Adequada
- Matarás em qualquer oportunidade
- Fará do corpo inimigo lixo ou objeto de “brincadeira”
- Deixarás o morto de qualquer forma indigna[/spoiler]

Tríade Quebrada: Se Baltazar tudo faz buscando os princípios de Deus, Athena e da Justiça, não conseguir fazê-lo por nenhum o fará se desmotivar. Desrespeitar Deus, contrariar Athena e agir sem a Justiça fará com que perca a mácula de seu cosmo, desmotivando-o. Portanto, durante seus processos de julgamento e sentença, Baltazar não pode permitir que a ira e outros sentimentos que deturpem suas ações. A desmotivação se concretiza com a trindade.

Descumprimento: Baltazar tem por si a missão de trazer a Ordem, a Justiça e a Verdade aos homens. Se não puder cumprir com isso quando solicitado, ou então lhe cair na consciência a necessidade de um auxílio que não foi prestado, o cavaleiro se sentirá desmotivado, precisando retornar e ao menos tentar resolver o problema que lhe cercava.

Fé Abalada: Se a confiança e a fé o motiva, criando um tipo de laço onde Baltazar intuitivamente se sente como protetor destes, ao passo que estes protegidos forem mortos ou então, quando não lhe for dado crédito e sim preconceitos, Baltazar se desmotivará. Como na Fé Verdadeira, não pode ser um simples “não gostar”. A pessoa tem de ter-lhe um ódio e um descrédito sincero, a ponto de talvez tratá-lo com preconceitos ou injúrias. Não cabe aqui inimigos ou pessoas julgadas como vil por Baltazar.

Domínio: B+

Rank de Poder Geral:

Domínio dos Cinco Sentidos: Pleno
Domínio do Sexto Sentido: Pleno (Empatia, Telepatia, Sintonia, Sincronia, Intuição, Radiestesia)
Domínio do Sétimo Sentido: Intermediário (Som, Ar, Terra, Fogo, Água)
Domínio do Oitavo Sentido: ---
Domínio do Nono Sentido: ---




[align=right]TRAJE [/align]



Mudanças: Seguindo o antigo portador, a armadura é a de Daidaros, com um tom mais claro nas partes escuras.

Rank do Traje: B

Características do Traje:
Correntes de Cefeu:Estas correntes, que se auto-restauram quando danificadas (na mesma progressão que o cavaleiro recupera suas feridas, mesmo que ela não esteja na Caixa de Pandora) vêm junto com a armadura de Cefeu. Elas são feitas de oricalco e possuem maior resistência que o restante da armadura (Rank A-). A corrente da mão direita possui a extremidade em forma de estrela de cinco pontas, sendo quatro na horizontal e uma na vertical (similar à ponta de um mangual leve) e serve para o ataque. Quando se sente ameaçada, aponta para a causa de seu temor. A corrente da mão esquerda possui a extremidade em formato de cruz. Ao contrário da outra corrente, esta serve para a defesa do cavaleiro. As Correntes de Cefeu também possuem a capacidade de se alongar e percorrer uma distância quase infinita (embora, na prática, possua limitações, determinadas pelo Narrador). Elas também podem canalizar a cosmo-energia do usuário, que pode utilizá-las para golpear com técnicas à distância conforme desejar.

Presença Real:Oponentes de Rank inferior ao da armadura, em uma área de até 50 metros ao redor do usuário devem ajoelhar e se render ao esplendor da armadura. Pode ser usado 1 vez por dia e dura dois turnos. Qualquer ação agressiva por parte do usuário da armadura quebra o efeito no agredido.



[align=right]TÉCNICAS [/align]


OBS: Danos relativos ao rank de Baltazar. Todos os efeitos secundários a critério da narração, assim como apreciações e depreciações de dano conforme diferença de Rank.

OBS: Para as técnicas que as usem, considera-se:
- Humanos Telepáticos Fechados: humanos que tem controle da telepatia, abrindo a mente para pensamentos de outrem apenas quando querem, de forma ativa.
- Lemurianos não telepáticos: lemurianos que não possuem a habilidade telepatia.
- Lemurianos de telepatia aberta: lemurianos que tem telepatia, mas por algum motivo ela é passiva e recebe quaisquer pensamentos que esteja perto, tornando assim uma mente de “portas abertas”.



Nome da Técnica:Caelo Caelestis Excusate(Perdão do Divino Firmamento)
Categoria:Ofensiva
Descrição:O cosmo de Baltazar se ascende numa imensa chama prateada com reflexos dourados. Suas mãos voltam-se para o céu enquanto acima de si surge um imenso olho espacial dentro de um triângulo com a ponta voltada para baixo. Abaixo dele, e atrás de Baltazar, um altar com uma mulher com véus suficientes apenas para cobrir suas intimidades e seus seios, presos por cordas de ouro, enquanto que na mão direita uma espada em guarda e na esquerda, esticada a frente, uma balança pendida. Os olhos de Baltazar brilham intensamente numa coloração dourada enquanto suas palavras soam pelo campo de batalha, forte e ecoante, como se viesse de muito longe: ”Sois mera sombra da Luz! E por ela será iluminada! Por meu julgamento, que o ímpio abandone seu caminho; o homem mau, os seus pensamentos! Que o Senhor tenha-te misericórdia! Volta-te a Ele, que de bom grado dará seu Perdão!... Caelo Caelestis Excusate!”. E assim o cosmo de Baltazar se levanta numa imensa onda enquanto a balança movimenta-se até a igualdade. A espada, antes em guarda, é levada para frente, apontando para o oponente, e de trás da mulher inúmeras correntes douradas se lançam com pontas de lanças romanas, serpenteando como víboras, avançando contra o inimigo, perfurando-lhe e atravessando-lhe enquanto uma imensa rajada de chamas faz-lhe subir para o alto enquanto queimam, tomando a forma de uma coruja que o solta.

Efeito:O oponente é envolto pelo cosmo de Baltazar e então atacado pelas correntes de Cefeu, havendo maior uso das pontas clavas, que são usadas para perfurar e o oponente em pontos específicos para aumentar seu sangramento, ficando a cargo da narração a possibilidade de atravessar algum ponto no corpo por conta da violência dos golpes. Junto a isso, o oponente é atacado também pelas chamas de Baltazar, que avançam como uma rajada levando o oponente para grande altitude, além de queimá-lo.
OBS: Como o ataque utiliza as correntes que possuem rank A-, o dano pode ser aumentado, a critério da narração, vide sistema.

Efeito Base: Perfuração/ Queima/ Queda*
Efeito Secundário: Fraqueza, dores localizadas, pressão baixa, hemorragia, alucinações, perda do tato.
Gasto: Mediano-Alto ~ Alto
Dano Base: Mediano-Alto ~ Alto + *Queda (de acordo com narração)
Distância: 50m de distância, máximo 2 pessoas.


Nome da Técnica:Sacratus Flamma(Chama Sagrada)
Categoria:Ofensivo
Descrição:O cosmo se eleva. Os olhos de Baltazar ficam dourados e focam o oponente. As mãos começam a inflamar-se. Os braços giram em forma circular, levando as mãos para frente até que se juntem. Então ele as trás para perto do peito com elas espalmadas para fora, tocando os indicadores e polegares, formando um triângulo. Dentro do triângulo surge uma chama, e assim o oponente é envolto de fogo de cor dourada com reflexos prateados.
Efeito:Balthazar evoca uma chama na posição em que seu inimigo se encontra fazendo o ar a volta entrar em ignição e misturar-se ao cosmo do cavaleiro. A chama se manterá perseguindo e queimando seu oponente enquanto o cavaleiro manter a posição das mãos e os olhos no oponente, ou então, na posição definida por ele.
Se Baltazar estiver cego, ainda é possível executar a técnica. Contudo não terá a mesma precisão do local exato onde será evocada a chama, podendo ser auxiliado por outro que informe a distância ou a posição do inimigo, fazendo, Baltazar, um mapa mental e aplicando a técnica, podendo levar em conta seus outros sentidos para auxiliá-lo.

Efeito Base: Queima
Efeito Secundário: queimaduras, flagelação da armadura, aumento da temperatura corporal, carbonização.
Gasto: 3% a 8%
Gasto p/ manter: 1% a 5% por turno
Dano Base: 10% a 17% como inicial, 3% a 11% na manutenção.
Distância: até 100m de alcance
OBS: Se houver mais de uma pessoa próxima ao foco este também poderá sofrer danos, de acordo com a narração.
O alvo poderá ser trocado, de acordo com Baltazar, se o atual se cruzar com outro, sem gasto inicial, porém não aplicará dano inicial, de acordo com a narração.




Nome da Técnica:Occulo Facies (Face do Oculto)
Categoria:Estado/Suporte
Descrição:Na forma Estado, Baltazar eleva seu cosmo de forma que toma todo o lugar em que ocorre a batalha. Os olhos do cavaleiro brilham, focando os olhos do oponente, e então somem. A visão ao redor torna-se a via láctea tingida de vermelho enquanto vários vórtices com máscaras de teatro surgem rodando caudas de energia ao próprio redor. As máscaras atacam o oponente, tomando conta de seu rosto e se partem ao meio, abrindo como uma janela, surgindo em seu meio um buraco negro inverso que cospe para fora todos os pecados cometidos pelo inimigo, mesmo aqueles cometidos em nome da justiça. Cada pessoa afetada e demonstrada nas memórias do oponente toma para si uma máscara. O corpo delas é transformado em tentáculos enquanto o inimigo tem o rosto liberado com aranhões. Seus olhos não conseguem se fechar, estando sem pálpebras, e as máscaras de seus pecados vestem-se nele uma a uma, fazendo-o reviver cada sentimento de cada uma das memórias, mas na pele daqueles que ele matou, enganou, extorquiu ou traiu.
Na forma Suporte, Baltazar tem o mesmo procedimento, mas ao invés da visão ao redor se tornar o espaço, ele se torna um mundo feito de luz dourada com inúmeras cruzes prateadas de formas e tamanhos diversos cercando o indivíduo enquanto movem-se circularmente. Cada cruz, ao passar pela frente dos olhos, torna-se o espelho de uma boa lembrança, refletindo como um filme os bons sentimentos e ações realizados por e para o foco da ilusão. Quando terminam de passar a lembrança, a cruz começa a se desfazer em focos de luz que tomam a forma de penas brancas que viajam levemente para trás do alvo, que somando as outras cruzes, formam grandes asas angelicais que envolvem o indivíduo e faz parecer esquentar o espírito.


Efeito:O inimigo é envolto pelo cosmo de Baltazar que ilude a mente do inimigo após fazer contato visual com os olhos da vítima.
Na forma Estado, faz trazer à tona todas as lembranças de seus maus atos, reproduzindo como um filme cada momento, mas lançando contra o oponente os sentimentos dos vitimados. Dependendo da intensidade dos sentimentos, o oponente pode vir a se autoflagelar ou cometer ações impensadas, inclusive deturpar o gasto cósmico. Para os mais fortes, pode vir o sentimento de arrependimento após um ataque de loucura, tudo dependendo da narração e das condições da vítima, baseando-se neste também o tempo que ficará acometido pelos efeitos, tomando como efeito regular de 2 a 3 turnos do oponente, de acordo com narração.
Na forma Suporte, faz retornar as lembranças do indivíduo, passando-as como um filme diante dos olhos, trazendo as boas lembranças do indivíduo, dando-lhe um porquê, trazendo leveza ao espírito e renovando a força de vontade, aumentando a motivação por 2 a 3 turnos, a critério da narração.
Toma-se por base os efeitos, lembrando da habilidade Mente Poderosa: Mesmo rank, raça humana e lemurianos não telepáticos, ou que possuam telepatia aberta (mente aberta passivamente).

Efeito Base: -Estado:Descontrole Emocional / Dano Psicológico/ Gasto irregular de cosmo
-Suporte: Confiança em Convicções / Motivação Elevada
Efeito Secundário: -Estado:Paralisia, Loucura, Atos impensados, Danos psicológicos permanentes, Esquizofrenia, Bipolaridade, Depressão, Multipersonalidade, entre outros.
-Suporte:Recarga Cósmica, Aumento de Dano (Motivado)
Gasto: 6% a 8% por alvo. (10% a 12% para um rank acima, humanos telepáticos fechados ou lemurianos não telepáticos ou de telepatia aberta)
Distância: 30m raio





Nome da Técnica:Caelestis Amictus (Manto Celeste)

Categoria:Defensiva/Ofensiva

Descrição:Uma cruz se eleva da terra logo atrás de Baltazar com aproximadamente 3 metros. Das pontas, um grande manto aparenta mover-se com o vento e cobrir o cavaleiro e quem mais estiver em seu alcance. O manto se movimenta em ondulações e tem um brilho intenso que corre do prata ao dourado. Cada ataque desferido contra o manto faz nele aparecer um filete ou uma mancha de sangue, até que todo ele esteja vermelho e rasgue-se, desmoronando a cruz que toma aparência de madeira velha logo em seguida. Quando a cruz cai, o oponente pode ouvir um intenso grito agudo, diabólico e sofredor, oriundo debaixo da terra.

Efeito:Baltazar manipula as correntes de Cefeu para que criem um pêndulo de círculos concêntricos ao redor de si e protegidos, formando uma defesa esférica, e ramos ao redor deste(basicamente a imagem de um polvo de cabeça para baixo) que ondulam e chicoteiam de forma hábil e agilidosa, sustentando o cosmo do clérigo ao redor do pêndulo, e sendo responsáveis pelo efeito de deflexão e reflexão. O ataque desferido pelo oponente retorna em parte contra o próprio ou para outro local, dependendo da vontade de Baltazar e narração, mas sem que o inimigo perceba, o que dá a crer que o sangue no “tecido” é da própria cruz, quando na verdade simula o dano aferido no oponente, ou recebido pela técnica.
O Escudo possui 30% de vitalidade com resistência rank A- (nível de resistência das correntes). Baltazar não pode desferir ataques enquanto a sustentar, nem se mover, ficando o escudo em pé enquanto tiver vitalidade, ou cessar por parte de Baltazar.
Efeito Base: Defesa, Reflexão, Deflexão, Hesitação
Efeito Secundário: Reflexão e/ou Deflexão Total. Distração. Sentimento de culpa intensa. Retorno de memórias ou sentimentos não agradáveis.
Gasto: 10% a 14%. (dura 4 turnos)
Distância: 5m raio de área protegida.
OBS: diminuindo o raio, pode-se diminuir o gasto cósmico inicial proporcionalmente, de acordo com a narração.



Nome da Técnica:Saeviter Catena (Correntes de Fúria)
Categoria:Ofensivo/Defensivo/Estado
Descrição:Baltazar concentra o cosmo em suas correntes que começam a arder em chamas vermelhas com reflexos prateados e dourados. Logo então as lança em direção ao oponente. As correntes voam arrastando as chamas com elas e abaixo delas, criando um rastro de fogo no solo quando passam a menos de um metro de altura, mesmo em rochas. Elas tomam qualquer forma necessária e efetuam qualquer curva para que chegue até o inimigo, podendo simplesmente atingir ou chicotear, enrolar ou amarrar e então esmagar, ou simplesmente fazer um movimento circular ao redor Baltazar para desviar ou defender algum ataque.

Efeito:Uma técnica genérica de uso das correntes de Cefeu, cuja manipulação depende da vontade de Baltazar, podendo mudar de direção, sentido e forma.

Efeito Base: Queima, Contusão
Efeito Secundário: flagelação da armadura, queimaduras de primeiro a terceiro grau, ferimentos contundentes ou perfurantes (ponta clava com pontiagudos)
Distância: até 125m de distância para alcance + narração, por conta da habilidade de armadura das Correntes de Cefeu.

Ataque Direto (Ex: contusão, perfuração, etc)
Gasto: 0% a 5% (utiliza os efeitos de fogo ao atingir. A chama desaparece a 0% de gasto, quando é usado como golpe comum.)
Dano Base: 1% a 11%
OBS: Como o ataque utiliza as correntes que possuem rank A-, o dano pode ser maior, a critério da narração.

Ataque Sustentado (Ex: enrolar, pressionar, amarrar, segurar, etc)
Gasto: 0% a 3% por turno (A chama desaparece a 0% de gasto, quando é usado como golpe comum.)
Dano Base: 1% a 7% por turno

Defesa (Ex: defender um ataque)
Gasto: Equivalente, até dano Mediano-Alto (Ex: gasto Mediano para Dano Mediano), tendendo as porcentagens para a menor possível por conta do rank das correntes, de acordo com a narração.
OBS: Não necessariamente será feita defesa a altura do ataque defendido, cabendo a narração verificar na interpretação.



Nome da Técnica:Archangelus (Arcanjo)
Categoria:Suporte
Descrição:Ao som das palavras “Et Exstitit Caelo Pugna; Michaelus et Angelus tuus Pugnare contra Draco, et Pugnare Draco et Angelus tuus.”(E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos”, Ap 12.7.) que surgem e ecoam como se anjos falassem do firmamento, o cosmo de Baltazar se eleva criando uma forte aura angelical. As correntes de Cefeu começam a entrelaçar-se em volta do corpo do cavaleiro, tomando uma cor dourada. A ponta clava se conclui com elos restantes na mão esquerda. A ponta cruz se conclui na mão direita, segura firmemente pela mão de Baltazar. Então as correntes tomam uma coloração dourada, expandindo uma forte luz que ao diminuir transforma-se numa malha prateada que reluz como uma armadura divina.
A malha tem o mesmo formado de uma malha medieval, usada por templários nas cruzadas, entre outros guerreiros. Recai sobre ela um manto puramente branco, deixando canelas e braços expostos, com uma cruz dourada que se conclui desenhada próximo as extremidades, desenhada no peito.
A cabeça, também coberta pela malha, tem uma coroa dourada com pontos vermelhos como rubis, que a decoram.
A Ponta Cruz, anteriormente defensiva, é envolta por chamas que tomam a forma de uma espada de fogo, relembrando a espada de chamas divinas, presentes nas inúmeras camadas da Criação, portada por Miguel Arcanjo. Espada que se assemelha a um montante, tendo quatro metros de comprimento, cuja lamina tem um brilho específico, próximo ao dourado solar.
A Ponta Clava, simples, também é envolta de chamas, tomando cinco vezes o tamanho original, aumentando os cravos e o tamanho dos elos, deixando um ar mais intimidador.
Nas costas, asas douradas que lhe permite planar, seis no total, mas feitas de fogo, que movem-se como se fosse parte do corpo do cavaleiro de Athena, concluindo assim a técnica.

Efeito:Baltazar eleva seu cosmo, e faz com que as Correntes o envolvam, entrando em sintonia com o cosmo do cavaleiro e a própria armadura. Cria-se assim uma armadura externa, além do fortalecimento das armas. Assim sendo, o ataque que utilize as armas recebe um aumento de dano, de acordo com a narração. A duração pode variar para cada gasto cósmico conforme descrito abaixo.
Gasto: 15~20%
Bônus Ataque: 3~5%
Bônus de Defesa: 25% Vitalidade (prioritariamente atingida)
Duração: 2 turnos se psicológico Depressivo, 3 turnos se psicológico Maníaco (acredita ser um anjo)

Correntes de Cefeu: De acordo com a narração, por possuir rank A, quando usada a técnica com as correntes de cefeu, pode ser atribuído bônus a defesa e ao ataque. Caso Baltazar esteja no episódio maníaco, o turno de duração também pode ser aumentado em 1 pela narração.



[align=right]HABILIDADES [/align]


Nome da Habilidade:Potens Mens (Mente Poderosa)
Descrição:Baltazar nasceu com um dom, uma mente mais evoluída e aguçada e um espírito mais ascendido que os demais. Tendo os lóbulos temporais desenvolvidos por característica física, sua audição tem a capacidade de definir melhor os sons que ouve (não uma audição mais aguçada), destacando-os, o que facilita também a linguagem. Por conta dessa área desenvolvida, sua memória é mais hábil, guardando sons e lembranças com mais detalhes do que uma pessoa comum, lhe tornando um hábil estudante. Essa área desenvolvida também lhe permitiu o desenvolvimento da telepatia, embora não tão eficiente como a de um lemuriano, mas superior, em mesmo nível, a de um humano com o cérebro normal.

Efeito:Baltazar tem facilidade para aprender novas habilidades mentais relacionadas a telepatia, além de linguagens novas e códigos. Tudo que depender de audição e memória será facilitado por esta habilidade. Ilusões que não sejam perfeitas podem ser quebradas pela percepção do cavaleiro em ouvir as coisas que o cercam, além de que o conhecimento prático lhe auxilia ser mais realista com as próprias ilusões. Também é uma superioridade mental em relação ao cérebro comum. A conclusão dos efeitos ficam a cargo da narração.


Nome da Habilidade:Videre Veritas (Ver a Verdade)
Descrição:Baltazar nasceu com um cérebro mais desenvolvido que os humanos normais, tendo as regiões do lóbulo temporal desenvolvidos. Isso tornou possível, fisicamente, o surgimento da telepatia, que somada ao cosmo, cria uma ligação mental que o permite ver e principalmente ouvir a mente das pessoas a sua volta, uma vez que aprendeu a seguir o fluxo de energia mental do indivíduo. Além deste recurso, Baltazar também olha os olhos e ouve com atenção as palavras do indivíduo, somando a tonalidade e os gestos, o que lhe faz ter certeza do que está observando.

Efeito:Baltazar pode distinguir o que é mentira e o que verdade, olhando nos olhos do indivíduo, ou para o indivíduo. Ele precisa focar na pessoa para conseguir fazer isso. Caso deseje buscar alguma informação, a pessoa precisa estar pensando ou tentando se recordar daquele determinado assunto para que crie um caminho mental onde ele possa seguir e “cavar” a informação. Por conta disso, a habilidade telepática ainda não lhe permite a leitura geral da mente do usuário, ficando restrito ao “assunto” daquele momento. Mas uma vez pensado e captado, mesmo que a pessoa tente mudar, a linha permanece aberta como uma porta ao corredor, até que Baltazar saia dela. Contudo não é possível fazê-lo enquanto ouve a mente das pessoas ao redor. Deve focar em um único indivíduo.
Mentes antes exploradas ficam mais fáceis de serem visualizadas, como se a cada vez que entrasse, aumentasse a margem das linhas de pensamento. O sucesso dependerá, quando houver, da narração.

No caso de uma resistência, Baltazar pode usar cosmo baixo para manter “pescado o corredor que encontra aquilo que deseja”. Em caso de resistência significativa, poderá ser usado mais poder cósmico.


Nome da Habilidade:Caelestis Sanatio (Cura Divina)
Descrição:Curar é uma habilidade ensinada por Jonas que foi aprimorada nos anos seguintes que rumava para ser um clérigo consagrado. Além da habilidade cósmica ensinada por Jonas, Kalil, um amigo muçulmano e médico, lhe ensinou um tanto de enfermagem e primeiros socorros, um relevante conhecimento de medicina para a época, além de Ling Pá, budista e lutador kung-fu, lhe mostrar pontos de pressão. Também obteve conhecimentos de ervas medicinais com Héstia e sua filha Luna.

Com isso, usando o poder da fé que lhe incentiva o poder cósmico, o cavaleiro consegue usar sua energia para curar ferimentos. Normalmente parece sair de suas mãos uma baixa luz prateada perceptível em escuridão ou por sensíveis a cosmo energia. Por conta de seus conhecimentos, Baltazar age no local correto, e toma os procedimentos corretos.

Efeito:Baltazar cura pessoas usando a energia de seu corpo. Faz sem gasto com ferimentos leves como ralos, machucados, luxações, inchaços e coisas mais superficiais.
Dependendo da intensidade, da fé e motivação dele e do enfermo, pode utilizar de zero a dois por cento da energia para curar de um a cinco por cento de vitalidade a cada momento, dependendo da narração, incluindo ferimentos graves.
Venenos não podem ser curados com essa habilidade. O que pode ser feito é fortalecer a vítima para eliminar e neutralizar a substância, necessitando acompanhamento contínuo, cujo tempo dependerá da narração.
OBS: Diké é a deusa da Justiça, e como tal pode considerar o desejo daquele que é curado. Se justo e necessário, Baltazar pode acessar inconscientemente o poder que a deusa ceder a ele, dependendo exclusivamente da narração, por meio da habilidade Fé Mútua.



Nome da Habilidade:Ignis (Ignição)
Descrição:Derivada da habilidade transmutação, Baltazar treinou o suficiente para levar o ar ao ponto de ignição de forma instantânea, sem dificuldades. Esta habilidade não altera o elemento, mas faz qualquer gás entrar em ignição num raio de 30m.

Efeito:O ar entra em ignição, explodindo ou virando chama. Diferente da técnica “Chama Sagrada”, Baltazar simplesmente acende, e não controla, não envolvendo cosmo com o fogo, tornando-o apenas o “isqueiro que faz o papel pegar fogo e deixa este se alastrar sozinho”. Não há gasto cósmico para até 1 metro cúbico, sendo necessário 1 minuto de descanso para usar novamente. Caso contrário, o novo gasto consumira 0,5% do cosmo para cada metro cúbico, aumentando 2 minutos de descanso para cada um até que possa fazê-lo novamente sem gasto. Sem uso cósmico, o máximo de temperatura que as chamas criadas podem chegar é 500ºC.
OBS: Ressaltando: O fogo gerado é fogo Comum, ficando danos, quando houver, a cargo da narração.


Nome da Habilidade:Transformatio(Transmutação)
Descrição:Baltazar conheceu os efeitos da transmutação e como fazê-la. Ele sabe os princípios que regem a matéria e os entende de forma clara o suficiente para manipular e recriar sua forma e estrutura. Com um intenso poder, o cavaleiro pode mudar elementos mais pesados, mas atualmente suas facilidades são apenas com gases.

Efeito:O cavaleiro consegue manipular a matéria alterando sua forma e seu estado com o dispêndio de cosmo, aquecendo e pressionando o material com o poder mental que possui aliado do poder cósmico.
Materiais sólidos: apenas tem sucesso quando motivado, sendo 1 grama para cada 1% de cosmo para torná-los gases, passando-os no processo pelo estado líquido. Há mais facilidade para moldá-los, usando 1% para cada centímetro cubico.
Gasto Máximo por Turno: 15%
Distância para Transmutação: até 1m

Para gases: a transmutação pode ser feita quase que instantânea em seu estado.
Para mudar o elemento químico, a relação é de 2% de cosmo para cada metro cúbico de gás.
Gasto Máximo por Turno: 16%
Distância para Transmutação: até 10m

De acordo com o elemento, as coisas podem se tornar mais fáceis ou mais difíceis, usando por base esses valores com o Oxigênio e o Ferro.
Baltazar ainda não tem capacidade para transmutar metais, senão para colocá-los em estado gasoso.
Os efeitos dependem da narração.



Nome da Habilidade:Conjunctim Fides (Fé Mútua)
Descrição:Baltazar, sensível a fé das pessoas, as coloca consigo enquanto sente a energia cósmica elevada pela fé da pessoa. Ele então toca, ou é tocado, pela pessoa e uni a energia que possui com a da pessoa, criando uma pequena aura prateada que envolve ambas as pessoas.

Efeito:Baltazar é sensível a fé das pessoas, sendo esta um dos principais combustíveis motivadores do cosmo.
Sentindo a energia que emana da pessoa, Baltazar pode canalizá-la, se permitido pela pessoa, com a própria força e aumentar o poder de suas habilidades enquanto estiver junto desta. Basta que a pessoa acredite nele ou em um ser superior que os auxilie, independente da crença ou religião. Basta ser motivada pela fé, o que tornará o cosmo palpável para Baltazar.
Essa energia pode ser usada para recuperar a própria energia, usar para cura, combater ou simplesmente melhorar o estado psicológico de alguém. O efeitos finais ficam a cargo da narração.



Nome da Habilidade:Professionem (Maestria)
Descrição:Destrinchando a habilidade Mente Poderosa, a habilidade Maestria é fruto de sua mente assimilar mais rapidamente informações e recriar padrões, principalmente no que tange a teoria. Habilidades práticas, como manipular o chicote ou correntes, e a espada, são facilitadas por Baltazar conseguir mapear a forma como a pessoa executa o movimento, possibilitando que o cavaleiro treine para fazê-lo da mesma forma. Posteriormente pode sofrer modificações.

Efeito: Baltazar consegue assimilar mais rapidamente a teoria, e a teoria da prática, podendo praticá-la e melhorá-la, o que o faz evoluir muito em pouco tempo, tornando-se assim melhor que a média, tomando a Maestria. No caso atual, Baltazar tem maestria com Chicotes e correntes, ensinado por Ling Pá e Aquiles, que são manipulados da forma que o cavaleiro deseja, e o estilo de luta de espada italiano, ensinado por Manoel.



Nome da Habilidade:Abdicatio (Submissão)
Descrição:Baltazar teve de aprender que, um homem que fosse, poderia gerar uma ação motivadora da massa para o desejo de linchamento. Por isso teve de firmar sua posição e criar uma aura que ao mesmo tempo o colocasse de forma superior e colocasse as pessoas ao redor em submissão. Criado no tempo de Inquisidor e aprimorado posteriormente como Rei e depois com Aquiles, esta aura lhe trás um aspecto divino reforçado pela forma de seu cosmo, causando hesitação naqueles que o cercam.

Efeito:Baltazar torna sua aura sublime. O aspecto divino e rei se ressalta em suas características fazendo com que as pessoas hesitem e temam, normalmente parando para ouvi-lo e acatando ordens. Níveis mais baixos evitam atacá-lo instintivamente, ou então acatam suas ordens sem questionamentos. Níveis iguais sofrem hesitações em suas ações, e mesmo que questionando, se sentem aptos para cumprir a ordem. Níveis maiores tem um pequeno atraso em suas ações, como que um “pensar duas vezes”, ou então tendem a dar a voz para o cavaleiro. Deuses não sofrem qualquer influência desta habilidade pois já possuem uma aura divina.

Se aliada com a habilidade da armadura de Cefeu, Presença Real, a influência aumenta um rank além da armadura; dois se houver algum motivo de temor por parte do oponente ou presente. O limite é o rank de Baltazar.

Todos os efeitos ficam a critério da narração, levando também em conta a personalidade dos envolvidos. Personalidades mais fracas, caóticas (por não ter algo definido) e submissas tendem a sofrer os efeitos descritos (por vê-lo mais forte, ou mais sábio, ou mais intimidador ou então com liderança), as vezes considerando-se com um rank abaixo do que possui. Enquanto que personalidades mais fortes, concretas e convictas tendem a superar os efeitos, as vezes considerando-se com um rank acima do que possui.

Gasto: Muito Baixo ~ Baixo
Área: 50m de raio, podendo, a cargo da narração, considerar até onde possa ser visto e ouvido, ou então visto e compreensível suas expressões.

Offline Profile Goto Top
 
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=right]HISTÓRIA[/align]


[spoiler=Observação Da HISTÓRIA]
Alguns personagens, como Aquiles, sofreram lapsos de tempo, sumindo sem um motivo explícito e retornando, ou deixados sem um destino específico. O motivo de deixá-los em aberto é para criação de ganchos (plots) para a Staff. Questão já informada a ADM.[/spoiler]

[align=center]EPISÓDIO 1: PREFÁCIO [/align]


[align=center]Capítulo I – Um pedaço do Passado[/align]

20 de Dezembro de 1482. O sangue se estendia no solo. Uma batalha estava sendo travada. O urro de dor era ouvido por qualquer um que presenciasse, sem entender, a batalha de uma guerra mais santa que as santas guerras feitas entre religiões.

- Velho maldito!... Ele é muito poderoso, mestre Octavius!
- Não permita-te abalar, Aquiles! Lutaremos até que a vida deixe este corpo vil, cheio de pecados! Como cavaleiros não podemos tolerar que este ser continue com sua desgraça!

Aquiles levantava-se com dificuldade. As correntes de sua armadura de bronze se erguiam colocando a ponta machado e a ponta estrela em consonância, elevando o cosmo. Octavius também se levantava após o ataque de...

- Torquemada! Não sairás bem nesse embate! Hades não é quem pensais! - Disse Octavius enquanto fazia a corrente girar ao redor do próprio corpo com a ponta Cruz de sua armadura.

- Não sejais tolo, cavaleiro de prata! O Deus, Verdadeiro, é aquele que conduz a vida e a morte! Este é o verdadeiro Deus! Este é quem vê o mal humano e salvará apenas os escolhidos! Tu, herege, que defendes uma falsa deusa! Não ousarás contra o Senhor Deus, Aquele que julgará os vivos por meio de seus santos! Eu sou o escolhido de Deus para levar ao inferno aqueles que não merecem viver! Sou o Santo, e tu cairás perante meu poder!

E assim o campo ficou em meio a sombra. A pouca luz que tinha aquela tarde praticamente sumiu. Os únicos contrastes eram o cosmo prateado de Octavius e o cosmo azulado de Aquiles.

- Tu não segues Jesus Cristo, filho de Deus! Ele pregou o amor ao próximo, o auxílio, a caridade! Athena é como um de seus adeptos! Ela presa e luta junto de nós contra o maligno que te cegaste a ponto de crê-lo como teu Senhor! - Disse Octavius cujas correntes começavam a tomar a forma de fogo e a rodar.

- Cala-te filho indigno... Jesus Cristo ensinou o Homem a ser bom. O resultado foi o crucifixo. Portanto... Sou adepto da antigo testamento... E Como Deus, meu Senhor, fez com os infiéis, eu farei com vós... MORRAM, HEREGES!!

Então a sombra se tornou una. O cosmo do cavaleiro de prata explodiu juntamente com o de seu pupilo. Um grito de tortura, jatos de sangue, sons de corrente debatendo. O tintilar de armaduras...


[align=center]Capítulo II – Voltando ao Início: Prefácio de um Inquisidor[/align]

O que é a fé? O que é o Homem? O que é Deus? O que é uma religião?
Em 1420 nasceu um bebê. Um bebê que se tornou um homem tão ferrenho em suas crenças que mudou o rumo e instalou a fama que se arrastará por anos, senão séculos, de uma organização até então religiosa, e por vezes política. Mal poderiam saber que esse bebê que virou homem, levaria consigo diversas vidas por seus anseios, por sua fé, e por seus preconceitos. Sádico ou não, a vida o moldaria para fazer aquilo que o destino escreveu em suas estrelas. Esse bebê, nascido em Ávila, na atual Espanha, foi batizado como Tomás de Torquemada...

Católico Apostólico Romano, Torquemada foi um homem que degrau a degrau conquistou seu espaço. Sua fé se reforçava a cada dia de sua vida, assim como seus preceitos. O que fazer com homens que não acreditavam em Deus, ou que então, acreditavam em outro que não Deus? Queime-os...

A bruxaria era ruim. Mulheres eram seres que cativam o demônio dentro do homem. Homossexuais exauriam seus pecados em tavernas, indo contra a naturalidade da Criação. A luxuria dominava alguns homens, até mesmo chamados de santos. A gula. Quantos círculos no inferno seriam suficientes para punir estes homens? Como iria saber os pecados, e como saberia que cada homem que escutasse em seu confessionário estaria de fato confessando seus crimes?

Não tardou para saber...

O ano é 1450. 30 anos era a idade deste homem, que ainda em menor idade, foi visitado por uma sombra. Sombra tal que lhe aturdiu a mente até que entendesse: Quem controla a vida e a morte? Quem domina o anjo que carrega consigo a foice que sela o destino dos vivos? Só havia um no mundo. Esse era Deus. E não tardou para entender que esse Deus era ninguém menos, que aquele, chamado pelos gregos, de Hades. Zeus e Poseidon não tinham nada. Apollo e Artemis eram contos pagãos. Apenas Hades, esse Deus, que controla o mundo do mortos, que controla a Morte, e também a Ressurreição, que tem nas mãos o paraíso dos homens, é que de fato, existe. Apenas esse Deus Hades, chamado por este humano, de O Senhor, é que de fato tem o poder sobre os homens. É esse o Deus que vê a miséria humana. Que vê seus pecados. Que vê a chamada razão difamando a imagem daquele que cuida dos homens desde o momento da criação. E foi esse, que por algum meio ou que por alguém, trouxe essa sombra, que mais tarde lhe apresentou as asas que um dia sonhou ter. 1450 foi o ano que Torquemada, um homem ferrenhamente Católico, se tornou a Estrela Celeste da Maldade, o Espectro de Mandrágora!

E foi após esse fato, sentindo o poder do cosmo em suas mãos, desperto pelo treinamento de uma sombra, é que ele entendeu qual seria seu destino: Levar as almas que não fossem dignas de viver neste mundo para o inferno, para que não mais poluíssem com suas atitudes, com seus pensamentos, a terra sagrada criada até então para o Homem.

E foi a partir deste ano que sua motivação se tornou cada vez mais forte.

1452. Torquemava virava Prior do Convento de Santa Cruz em Segóvia. Prosseguiu os anos, sorrateiro nas sombras, buscando aqueles que fossem dignos de viver naquele mundo. Judeus... Raça maldita que a todo momento suga os outros homens. Além de gozar de Roma, agiam como baratas, infestando o local onde fossem. Mas não havia problema. O destino era certo.

1474. Torquemada vira confessor da Rainha Isabel. Enfim a confiança que precisava para conseguir conquistar seus objetivos! Ela era Católica ferrenha e seguia Roma, assim como seu consorte, Rei Fernando II. O destino ainda lhe sorria. E por quê não faria? Ele estava ao lado do Senhor, e este nunca pereceria, senão pela própria vontade! Torquemada aliciava a jovem com seus objetivos. Aproveitava-se de sua fé e de sua religiosidade. Aproveitou-se, por ela, aliciar o marido até que enfim, em 1478, o atual Papa, Sisto IV, escreve uma bula que consentia a Inquisição Espanhola. Era tudo o que precisava para começar a usar seu poder em massa, sem que precisasse se esconder. Demorou quatro anos, mas em 1482 Toquemada era, enfim, nomeado Inquisidor...



[align=center]Capítulo III – Voltando ao Início: Octavius, um Homem da Justiça e Aquiles, mais que um Homem, um Cavaleiro. [/align]

3 de Janeiro de 1452. Nasce um bebê em Âncona, um dos vários estados da Igreja. Mas não era um simples bebê como se pensava ser. Era um futuro cavaleiro, que com aquela humilde família, com o padre local, entenderia a verdadeira religião. A Justiça, a Caridade, o Amor ao Próximo. Estes eram seus ensinamentos. Essa era a doutrina. Tentar ser como Jesus Cristo, seguindo sua filosofia.

Aprendeu a falar e a rezar com seus pais. Gostava de acompanhar as missas que Padre Antônio fazia para aquele vilarejo pesqueiro. Contudo, acompanhando seu pai no mar, em Fevereiro de 1457, sofreu um naufrágio. Quando acordou, um gentil homem de armadura azul estava com ele. Vendo o pai ao lado, desacordado, entristeceu-se, e por isso o gentil homem, chamado Magnus, lhe contou uma história. Dizia que Deus havia feito um mundo muito bonito para o homem, mas alguns seres, receosos com a humanidade, quiseram destruir tudo. E entre estes seres, surgiu um, que de tempos em tempos, lutou contra os outros. Este acreditava na humanidade, e tinha fé que ela venceria seus males e conquistaria a bondade.

Octavius viu-se um tanto confuso, mas a história era bonita. Continuou ouvindo, e assim o homem contou-lhe que servia a este ser. Chamava-se Athena, uma deusa grega, deusa da Esperança, pois era isso que trazia aos homens...

No dia seguinte, já em casa com seus pais, dizia Octavius que queria ser um cavaleiro. O pai sorriu, mas só quando Magnus bateu a porta de sua casa é que entendeu. A princípio foi chamado de herege. Foi taxado de bruxo, mas Octavius, crente que o que o homem dizia era verdade, encontrou-se escondido com ele.

A mãe, Maria, suspeitou e seguiu o filho uma vez para ver o que estava fazendo. Demorou para entender o que estava acontecendo, mas sentiu-se bem. O cosmo de Octavius despertou com um tom tão pacífico que ela pôde compreender. E como o pai ia e vinha ao mar, nada soube até que...

25 de Março de 1468. Octavius tornava-se o cavaleiro de prata de Cefeu. Não que seja um lapso de tempo, mas as poucas coisas que se sabe é que o pai um dia descobriu e ficou furioso com o garoto. A mãe havia tentado acalmá-lo, mas não havia conseguido. Por conta disso, o pai voltou para o mar e por algum motivo não retornou, ao menos, antes que Octavius saísse de casa e deixasse a mãe e o irmão. Ele havia seguido viagem com Magnus, treinando na Grécia, dentro do Santuário, por algum tempo. Apesar de lhe serem oferecidas armaduras, nenhuma delas ressonava com seu cosmo. Somente uma que a princípio lhe rejeitou. Essa era a armadura de Prata de Cefeu.

Ela acompanhou o cavaleiro desde que havia ido para Ilha de Andrômeda. Contudo Octavius ainda era imaturo para entender o que era ser um Cavaleiro de Athena. E foi só a morte de seu mestre, numa luta que não estava presente, que pôde compreender seu sacerdócio. Estaria ele disposto para dar a vida pela deusa, dar a vida pela humanidade, ainda que pecadora? Estaria ele disposto a se sacrificar, com honra, em manter uma batalha justa, fazendo jus as leis de Athena, usando sempre de seu bom senso? Só quando foi capaz de responder sim, não só com a mente, mas com o coração, é que tornou-se, de fato, um Cavaleiro. E com o coração de um verdadeiro Rei, que tem como dever proteger todos aqueles que lhe são responsáveis a vida, é que a armadura de Cefeu brilhou como as estrelas de sua constelação e ficou tão leve quanto a pena de um pombo branco. E como Jesus Cristo, o Rei dos Judeus, Octavius devotou sua vida ao auxílio.

10 de Abril de 1478. Octavius já estava com 26 anos, e tinha um aprendiz. Este se chamava Aquiles, que com 11 anos, nesta data, havia conquistado a armadura de seu antigo mestre, a armadura de bronze de Cassiopéia.

Aquiles havia nascido em 15 de Dezembro de 1466. Os pais haviam sido mortos num roubo, deixando o bebê desprotegido. Foi até 1471 cuidado por uma senhora grega, cujo filho servia ao exército espanhol. Doente, a senhora passou a procurar alguém que pudesse cuidar da criança. Este foi Octavius, que com 19 anos, aceitou-o como pupilo, praticamente virando o pai da criança. Treinou-o enquanto vinha da Grécia para a Espanha, continuar aquilo que seu mestre, Magnus, estava fazendo. Tratou de ensinar o jovem até ter poder suficiente para conquistar uma armadura, ganhando-a lá mesmo no Reino de Castela.

Aquiles era um jovem sonhador. Apesar de tantos problemas, seu único desejo era salvar vidas inocentes para que não tivessem o mesmo destino de seus pais. Auxiliava Octavius com empenho e grande dedicação. Foi um dos cavaleiros que, em sua época, destacou-se pela responsabilidade e pelo prestígio. Ele e Octavius, juntos, conseguiram livrar muitas almas inocentes de carrascos da Igreja, assim como salvar muitos seguidores dela das mãos de temíveis homens que descobriram o poder e o usavam para fazer mal aos outros. Puderam, com as experiências, entender que nada e ninguém é absolutamente mau, ou bom. São emoções, são situações, e são escolhas que fazem o homem ser o que é e agir do modo que age.

E assim, quatro anos mais tarde, em 1482, mal sabia Aquiles que seria, este, outro ano de sofrimento.

Andavam buscando rastros de um homem, claramente um servo de Hades, que apropriava-se do poder que havia conquistado como homem, e escavava aos poucos suas maneiras de cumprir com malefícios. Passavam por florestas, por vilas, por cidades. Onde esse ser chegava, levava o mal, causava a morte, e derrubava lágrimas inocentes.

Foi neste ano, que um anúncio, feito pela Igreja, ao qual Octavius era tão ligado, descobriu: Torquemada havia se tornado Inquisidor da Igreja. Seu rosto, desenhado pelos artistas, foi reconhecido por ele. Este homem, que aliciou os reis Fernando II e Isabel I, usando a fé Católica para projetar seus anseios. Este que estava em quase todas as situações. Que estava em vários julgamentos tendenciosos. Que aceitava meras acusações com uma mínima prova. Este era o homem que estava levando consigo inúmeras almas para as sombras...


[align=center]Capítulo IV – Chegou a hora... Mas hora de que?[/align]


1482. Início de Dezembro.

Octavius e Aquiles percorriam a Espanha em busca do tal Inquisidor. Para este, bastava fracas denúncias para apresentar-se e punir o culpado, mesmo que mostrasse alguma inocência. Suas últimas vítimas haviam sido suspeitos de homossexualismo e de prática de rituais satânicos envolvendo luxúria. Octavius havia mandando cartas ao Papa Sisto IV, uma vez que o via como aliado de Athena. Mas ainda não havia recebido qualquer resposta. Ao menos os fatos iam correspondendo em sua mente: Torquemada era confessor de Isabel I, Isabel se casa com Fernando I de Aragão, e este pressiona o Papa Sisto IV para consentir uma Inquisição Espanhola, em 1478. Agora Torquemada era Inquisidor, e tinha apoio dos reis. Se aquele homem não estivesse envolvido com Hades, certamente seria alguém de muito desgosto.

Trataram de seguir os passos do fiel Católico. Vigiaram seus costumes, vigiaram sua rotina. Buscam alguma sensação ou poder cósmico, mas nada aparecia. Simplesmente o senhor, de aparentes 62 anos, parecia apenas um fanático religioso e sádico, certo que suas ações eram o que eram.

Mas isso estava prestes a mudar...

20 de Dezembro... Cuenca – Espanha, próximo a Catedral de Santa Maria y San Juán de Cuenca

- FACE!... DEMONÍACA!!

- AAAAAAHHHHHHHHHH!!!!

Este era o ataque vindo de Torquemada. E este eram os gritos de Octavius e Aquiles que eram lançados com uma rajada de demônios que atacavam seu ser e implantavam em suas mentes a dor de almas pecadoras. Caiam eles sobre o solo, trêmulos com o ataque, com o terror que o ataque os causara trazendo para eles as mais variadas cenas de torturas, de mortes e de desgraças...

...Alguns momentos antes, Octavius e Aquiles estavam preparando um cerco a carruagem do Inquisidor. Estando somente com capuz e capas, eles paravam os cavalos e faziam descer os homens. Octavius interrogava Torquemada enquanto os responsáveis por sua passagem iam embora, dispensados pelo próprio Inquisidor. A conversa se alongou por um bom tempo até que a paciência de Aquiles esgotou, partindo para pegar o velho pela gola e o jogar, com um único braço, o homem contra uma árvore. Octavius o repreendeu pela atitude desnecessária. O velho riu – Controle seu animalzinho, eu não sou jovem para sofrer esse tipo repreensão...

Octavius olhou o velho, e deu as costas. Aquiles “rosnou” e andou ao lado de seu mestre. Contudo o frio tomou suas espinhas, e ao virar para trás viram os olhos de Torquemada, que com um levantar de mãos, expandiu um cosmo violeta, esboçando uma face maníaca...

...Torquemada havia feito seu ataque com sucesso. A roupas religiosas, preta com contrastes vermelhos, destacando uma cruz dourada no peito, era suprimida por uma armadura púrpura, mantendo seu cosmo violeta elevado, criando uma intensa sensação de hostilidade. Eles saiam das ilusões de Torquemada, fazendo zunir o som de correntes sendo puxadas. Dois brilhos. Duas armaduras. Cefeu e Cassiopeia.

- Velho miserável! Eu devia tê-lo jogado mais forte e feito-te cair de cabeça! - Disse Aquiles.

- Não subestimes este corpo velho, moleque! Sou Torquemada! Espectro de Mandrágora, a Estrela Celeste da Maldade!! - Torquemava fazia outro movimento com a mão, lançando uma rajada de energia, arrastando os dois para trás, que até o momento, permaneciam de pé. - Dois hereges como vós não tem poder contra mim!

- Não baixes tua guarda, Aquiles! Este não será tão fácil! - Octavius elevava a corrente cruz, fazendo-a rodar em volta do corpo.

- Somos dois, mestre! Ele não terá chance! - Aquiles fazia rodar as correntes de Cassiopeia, elevando o cosmo. - Tu não terás perdão, velho! Correeeente Estelarrr!!

- Não! Aquiles! - Octavius explodia o cosmo, também executando um ataque. - Corrente de Cefeu!!

O cosmos de Cassiopeia fazia-se presente, ressaltando sua constelação cujas estrelas brilhavam mais forte, lançando uma chuva de correntes contra o inimigo. Já Cefeu mostrava atrás de si um ancião barbado, de físico atlético, com as mãos erguidas e um olhar sério enquanto ostentava uma coroa. O som do mar se ouvia e de trás de Octavius suas correntes surgiam avançando. Torquemada riu, estendendo as duas mãos. O que pareciam ser folhagens, cheias de espinhos, criavam um tipo de parede que repeliu ambos os ataques dos cavaleiros de Athena.

- Se são estes vossos poderes, cavaleiros do pecado, temam por tuas vidas! - Disse Torquemada.

- Eu sou o cavaleiro de bronze de Cassiopeia! Não terás força suficiente para vencer-me! - Disse Aquiles levantando novamente as correntes de sua armadura e cosmo, mesmo que sentisse o medo começar a atrapalhar-lhe as emoções. - Não sairás daqui, senão de volta para o inferno!

- HA! Um mero herege como tu não sabe o que fala. - O Espectro elevou seu cosmo em grande altura enquanto suas mãos começavam a girar.

- Cuidado Aquiles!! Ele não é tão fraco como parece!! - Cefeu expandiu seu cosmo mais uma vez, fazendo as correntes circundarem o corpo dele e do pupilo.

- Sofram... Meros mortais... Eu tenho sobre as costas o Deus que comanda a Vida e a Morte... - Uma imensa flor surgiu atrás do espectro. Suas pétalas iam se abrindo conforme o cosmo da estrela celeste se amplificava. Com as mãos juntas, e a frente, seus olhos tomaram uma forma reptiliana, e assim executou o ataque. - PÁGINAS... DO APOCALIPSE!!!

E assim uma nuvem negra se apossou do lugar. Páginas voavam como laminas, arrancando o sangue enquanto furava a defesa de Cefeu, atingindo Octavius e Aquiles com uma força incrível. Sombras de demônios, anjos caídos que caíram junto de Lúcifer, pareciam atravessar os corpos dos cavaleiros.

Sangue, gritos. A dor imperou nos corpos dos cavaleiros de Athena. E após o golpe, estavam os dois caídos. Aquiles com a armadura cheia de pedaços destruídos. Cefeu com várias rachaduras. Cassiopeia tremulava, embora mantivesse o espírito para a batalha, mas não demonstrava mais a mesma confiança. Se levantavam. Octavius tentava argumentar com Torquemada, mas ele estava já obcecado.*(Capítulo I)

Uma sombra os envolveu. O Inquisidor iria aplicar seu último golpe, transformando tudo em escuridão. Mais sangue, mais dor. A única coisa que se contrastava era o cosmo de Cefeu, e aparentemente, não era em defesa do ataque de Torquemada.

A cena após o escuro era o espectro, intocado e sádico, rindo com o sabor de mais uma vitória. O terreno havia sido destruído. Inúmeras árvores estavam caídas, arrancadas pelo poder do Inquisidor. Cefeu estava caído. Seu corpo estava sobre do de Aquiles, que aparentemente estava inconsciente. Torquemava chutava Octavius para o lado, tirando-o de cima do cavaleiro de bronze, começando a pisar-lhe no peito com um riso.

- Eu lembro-me da armadura de teu cão, cavaleiro de prata... Magnus, não é?... - Octavius virava o olhar para o espectro, ainda que sentisse todo o sangue escorrer pela boca. Pela primeira vez tinha o ódio no olhar. Torquemada continuava. - É... Você era o garoto que chorou ao ver aquele herege... E pensar que tu sofrerias o mesmo destino que ele... Morrer em minhas mãos...

Octavius segurava o pé de Torquemada com força. - Mise... Mise... Miserável... - O espectro forçava mais o pé, fazendo com que o cavaleiro de prata golfasse sangue. Mandrágora abria um sorriso de canto. - Terias mais ódio de mim se eu fizesse algo com teu pupilo?... - Octavius reagiu. A corrente de Cefeu amarrou-se no braço do espectro, embora sem força.

- Hahahahaha... - Riu com a voz de um velho – Dará tua vida, como Jesus, por quem ama, cavaleiro?...

- Ele... Ugh... Não tem... Culpa... - Octavius puxava a corrente. Torquemava baixava o corpo, e ria com as ações do cavaleiro.

- Criaste outro herege. E nestas terras santas, não há como poupá-lo... Permita-me levar-te diretamente para o inferno, onde tu mereces ficar a eternidade... Herege atheniense... - Torquemada levantava o punho. O cosmo violeta se elevava mais uma vez.

- Não! - As correntes de Cassiopeia amarravam o braço do espectro. Octavius ajoelhava-se.

- Ainda resistes, cãozinho miserável?! SERÁS ENTÃO O PRIMEIRO!!

Cefeu erguia-se, elevando todo o cosmo que ainda dispunha. Mandrágora virava-se cravando o punho no peito do cavaleiro, tirando—lhe o coração pelas costas enquanto uma imensa rajada de energia empurrava o vento com fúria, por conta de seu rápido movimento. - AQUILES! NUNCA DESVIE TEU CAMINHO!! EU VOLTAREI!! - Disse Octavius, segurando Torquemada com as mãos, explodindo o cosmo com toda a força de seu resquício de vida.

- CHEGA DE VIVER, HEREGES MISERÁVEIS!! - Torquemada.

Um conflito cósmico. Uma explosão. Torquemada respirava fundo, tendo o corpo de Cefeu, inerte e morto, pendurado pelo braço cuja manopla estava rachada e quase se estilhaçava. Do outro lado, pendurado por pedaços de correntes sobre uma árvore, estava o corpo de Aquiles, sangrando, em estado de choque. Mandrágora olhava para os olhos nulos de Octavius. Sua alma já havia partido. Portanto, jogava o corpo no solo, limpando o punho, se aproximando do cavaleiro de bronze. Olhava os olhos esbranquiçados do cavaleiro. O sangue pingando como a goteira incessante de uma torneira. Elevava o punho, pronto para tirar-lhe a cabeça. Mas algo o parou. Uma sensação estranha que o fez recuar, e então, a sombra, com quem sempre mantinha contato, com uma voz poderosa e sombria lhe ordenou sair. E assim o fez, voltando para seus serviços...

Offline Profile Goto Top
 
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=center]EPISÓDIO 2: VIVER OU MORRER? [/align]



[align=center]Capítulo V – Um estranho homem de Deus e de Athena.[/align]


1483, 1 de Janeiro... Vilar de Olalla, 9km de Cuenca.

Miguel. Este era o nome de um homem que surge pela primeira vez nesta história. Nesta data Aquiles acordava com imensas dores no corpo, cheio de ataduras. A cabeça doía. O corpo, então, nem se podia imaginar. Aos poucos ia relembrando as últimas cenas. Pressionava a cabeça, recolhia o corpo. De seus olhos, lágrimas. O que havia acontecido com seu mestre? Como um homem como aquele que enfrentaram poderia ter tanto poder? Chorava de raiva. Chorava com rancor. Chorava com desejo de vingança. Seu cosmo começava a expandir-se de forma violenta até sentir um toque em seus ombros. O homem era Miguel, que detinha uma aura limpa e fazia acalmar Aquiles.

- Eu sinto a tua dor, meu jovem... Contudo não tema... O bem há de triunfar se persistir em sua busca... - Miguel era um padre, senão algo ainda maior. Era perceptível sua energia cósmica, mas ele nada tinha haver com Athena, senão algumas relações amistosas. Diziam que este homem era capaz de muitas coisas, mas nunca fora visto fazendo nada que fosse além de rezar. Aquiles olhava para ele, praticamente agarrando sua vestimenta, derramando as últimas lágrimas que tinha naquele momento.

- Eu deveria tê-lo salvo!... Eu deveria ter morrido no lugar dele!... Não sou nada em comparação a ele!... Por que?... Por que ele tinha que morrer?... Era bom!... Ele tentava ajudar até aqueles que fossem maus!... Cuidou de várias pessoas!... Por que Athena deixou que ele morresse?... Por que Deus deixou que ele morresse?... - Aquiles dava socos no peito de Miguel, que o ouvia. Era clara a mágoa do jovem cavaleiro de bronze. Tentou reconfortá-lo.

- A morte não é o fim. O corpo é apenas um receptáculo que usamos para viver a vida, e retornar com experiências... A morte é só o começo de algo novo. Não prenda-te... Continua a lutar... Choras de saudade, e também de medo, e isto é totalmente normal, pois sois humano... Sinto que alguém há de vigiar a alma de teu mestre. Alguém que observa todos os santos de Athena para ver quão bem cumprem suas ações... - Aquiles olhou para o homem e sentou-se na cama, ficando com a cabeça levemente abaixada. Secou as lágrimas. Foi acalmando-se.

- Meu mestre disse que voltaria... O que ele quis dizer?...

- Que voltará, oras... Tu eras como um filho para ele, assim como também um irmão. Creio que ele te ajudará de alguma forma, mas neste momento, não posso dizer-te como, nem quando... Mas deves, manter-te firme... O inimigo ainda está vivo... - Disse Miguel.

- Tu és cavaleiro, como eu?

- Não como tu, mas sou sim um amigo, e irei auxiliá-lo nesta empreitada... Tenho comigo a carta de Papa de Sisto IV. Fora divulgado ano passado, contudo não tive tempo de passar para teu mestre. Ele tomou medidas para condenar flagrantes abusos da Inquisição, o que parece demonstrar que está de nosso lado...

- NOSSO lado???

- Achas mesmo que o Papa não saberias da guerra santa que se alastra? Posso dizer que nem todos, por seus perfis e motivações, não tiveram conhecimento, mas temos amigos em várias castas da Igreja. - Miguel sorriu levemente enquanto via o olhar surpreso do garoto. Era jovem, mas Miguel podia ver e prever seu futuro.

- Agora que percebo... Seus olhos... Eles... - Questionava Aquiles quando Miguel confirmou com a cabeça. - Sim, sou cego de nascença. Contudo posso ver o mundo de outra forma, mas essa forma não permite-me lutar. E confesso que nem gostaria, hahahaha. Gosto de auxiliar da forma que faço... A propósito, meu nome é Miguel. Nasci em Roma, e para lá pretendo voltar... Estive fazendo alguns trabalhos, e tenho a confiança de algumas pessoas... Por enquanto quero que descanses... Pelo ímpeto que tens, voltarás logo a lutar...

Assim Miguel se afastou, e Aquiles voltou a deitar-se, olhando para o teto. Aquele mundo era cheio de pessoas estranhas e odiosas. Seu coração ainda pesava pela ida violenta de seu mestre, e ainda naquele momento jurou que levaria Torquemada para o inferno. Respirava fundo, sentindo as dores no corpo. Havia se esquecido de perguntar o que teriam feito com o corpo de Octavius, e também com a armadura. Mas antes que pudesse chamar pelo cego, caiu no sono...




[align=center]Capítulo VI – Um sonho: Quem é você, é a Justiça?[/align]


O mundo é escuro. O som das correntes balançam. Um raio azul e prata se movimenta correndo atrás de um vulto. Esse vulto se torna a máscara de um demônio, e assim se expande tomando o tamanho de 10 carroças. Os dentes, pontiagudos como lanças se abrem. As correntes quebram, e o som para. Os dois raios são engolidos e tudo vira um redemoinho de gritos onde o azul tenta segurar o prata, tocando por um momento seus dedos, perdendo-o. A inconsciência, e então uma luz branca cresce sobre o vulto, que se afasta do corpo. O vulto desaparece, e a luz parecia levar algo para algum lugar. Então, o que se vê torna-se o que o raio azul enxerga, e voltando-se para trás, Aquiles vê uma mulher, de cabelos cumpridos e ondulados. Na mão direita uma espada, trazendo o aspecto da força; e na esquerda, uma balança, desequilibrada, trazendo o aspecto do julgamento ainda a ser feito. Os olhos, abertos totalmente, traziam o sentimento de busca pela verdade.

- Que... Quem és tu? - Questionava Aquiles.

- Sou aquela que viu tu e teu mestre, Aquiles... - Disse a mulher.

- E o que tu queres?... Isto é um sonho?

- Acalenta teu coração, cavaleiro. A vingança nunca é plena, e o mau sempre atrairá o mau... Teu mestre fora bom...

- Sim, como poucos puderam ser... Tu és um anjo ou algo assim?

- Eu sou aquela que se encontra no coração dos cavaleiros. Nas honrarias e nos juramentos. Nas leis, no julgamento, e na sentença. Sou aquela desenhada pelos gregos como vês, e idealizada junto à verdade absoluta. Sou também aquela que é corrompida por mentes criminosas. Que é arbitrariada em favor de poucos para que muitos paguem pelo erro de uno. Sou aquilo que não podes negar que é certo. E também aquilo que se mistura a cultura dos homens e dessa mistura fazem jus... Eu sou a...

- Justiça...

- Sim...

- Podes responder-me que foi justa a morte de meu mestre, pelas mãos de tão vil ser vivo, que muito matou e levou para as chamas, fazendo julgamentos movimentados apenas por seus anseios?

- Defina-me Justo, cavaleiro, e eu lhe direi se foi ou não...

- Se tu és a Justiça, por quê precisaria, eu, definir-te o que é justo?

- Porque cada homem tem sua justiça, cada homem tem sua cultura, cada homem tem suas leis, e também, seus valores...

- Justo, para mim, seria perecer o homem que matou meu mestre!

- Então por quê tu não o faz? Se esta for tua justiça...

- Porque... Eu não sei... Eu sinto raiva... Tenho ódio em meu coração, e uma imensa vontade de vingar meu mestre! - Aquiles apertava os punhos, forçava os dentes, imaginava formas de vencer o tal velho que matou Octavius.

- Falas em teu mestre como muito afinco... Terias ele te ensinado algo?

- ELE ENSINOU MUITO!... Muito... Ele era bom! Ele prezava a justiça! Ele presava o certo! Ele... Diria que vingança é um sentimento cego, que leva as pessoas para o abismo... Mas por que diabos tu estás a falar destas coisas comigo?!

- Pois tu ainda não cumpriu teu destino, e Octavius, tão pouco o dele... Como homem, ele mostrou-se um espírito forte. Sentimentos humanos são claros pela condição, mas ele conseguiu racionalizar e prezar sempre pelo mais justo possível. De fato, um homem merecedor de teu amor.

- Amo como um pai e um irmão! Foi nele que pude inspirar-me!...

- Então prossigas teu caminho... O destino está escrito, mas ele sofrerá uma nova provação... Se passar, há de receber no corpo um santo... - A imagem começava a desaparecer.

- Espere! Como assim?! O que quer dizer com isso?! Octavius voltará?!?! Justiça! JUSTIÇA!! ESPERE!!

E assim o branco se tornou branco. A imagem desapareceu com o som de pesos postos em pratos de ouro. Aquiles corria, corria buscando a imagem que havia se desfeito a sua frente, e então, como num estalar de dedos, acordava de sobressalto, acabando por elevar as pernas. Via Miguel, com a mão em sua mente, olhando para o alto, como se algo estivesse vendo.

- Miguel?

Miguel levantava-se e saia, ofegante. Parecia coçar os olhos e massagear as têmporas. Aquiles o olhava com expressão inquisitória mas nada saia da garganta senão sons guturais praticamente inaudíveis. Algo, além de sua compreensão atual, estava acontecendo ali, e quem sabe um dia iria descobrir...


[align=center]Capítulo VII – Aquiles: Rumando para um destino incerto.[/align]

Aquiles estava sozinho. Miguel lhe havia passado várias instruções. Passaram treinando mais um ano juntos a cerca de suas habilidades e técnicas. Neste meio tempo Torquemada era proclamado Inquisidor Geral espanhol pelo Papa Sisto IV, coisa tal que o cavaleiro não conseguia compreender muito bem. Os jogos de poder eram complexos, necessitavam tempo para compreendê-los totalmente, e quando parecia entender, algo novo acontecia. Miguel o auxiliava com tons metafóricos e proféticos. Não entendia bem onde aquele homem se encaixava. Parecia estar em uma zona neutra onde apenas lidaria com os interesses da Igreja que fossem coniventes com o bem da humanidade. Era um homem cheio de mistérios, métodos e pensamentos confusos que pareciam seguir sempre um padrão de ações muito bem disciplinadas, com perguntas filosóficas. “O que tu farias se visse o futuro e constatasse que ao passar por baixo de um telhado, uma pedra cairia e machucaria te a cabeça?”. Essa foi a questão que não recebeu resposta até dado momento, onde todas as ações do cavaleiro eram repelidas e rebatidas com tom de filosofia. Aquiles sempre respondia que “desviaria ou mudaria o caminho”. Insistiu nessa resposta até começar a treinar com o homem que, mesmo cego, movimentava-se mais rapidamente que ele, a ponto de derrubá-lo no chão por várias vezes com sua bengala. Miguel um dia lhe respondeu “Deus escreve teu destino, e as vezes fere te pouco para que não sejais ferido muito”. E apesar de compreender a resposta, não a entendia. Mas independente disso, o homem da Igreja havia ido embora deixando Aquiles com seus pensamentos.

Enfim sozinho, treinou-se e buscou a compreensão de seus desejos. Buscou entender o que havia na filosofia de Miguel. Não tratava-se de um pai ou um irmão. Era apenas um homem que ensinava-o como a vida ensinava as pessoas: através de enigmas e práticas.

Ficou sem conversar com ninguém por meses. Viajou pelos países. Mantinha-se apenas ciente do que acontecia com o tal espectro, que a cada momento se tornava mais poderoso. No ano de 1484 Torquemada promulgou 28 artigos que orientavam os inquisidores no julgamento de crimes de heresia, apostasia, feitiçaria, bigamia, usura e blasfêmia, autorizando a tortura para obter evidências, caso o acusado se recusasse a confessar. E após esse momento, algum tempo depois, no dia 12 de Agosto, Papa Sisto IV havia falecido sem uma causa aparente. E para piorar a situação, ainda naquele ano, em 12 de Setembro, assumia o papado um homem que tomou o nome como Inocêncio VIII, cuja uma das primeiras ações foi proclamar uma bula contra os bruxos, que relacionava os crimes praticados por estes, dando plenos poderes a inquisição para poder prender, torturar e punir aqueles que estivesse sob suspeita de Crime de Feitiçaria, o que era, de fato, um prato cheio para Torquemada, possibilitando que salvasse pessoas que pudessem se tornar espectros e matar aqueles que seguissem Athena, ou não acompanhassem sua visão.

E neste momento, ansiando pelo dia em que o enfrentaria, estava treinando, psico, mental, emocional e fisicamente. Abria as portas de seu cosmo conforme avançava a idade e a compreensão da vida e dos ensinamentos que teve. Aguentou todo o ódio. Aguentou toda a angústia e o rancor. Procurou a própria paz, lembrando dos ensinamentos de Octavius e Miguel. E a todo momento procurava entender qual seria seu papel.

Em 1490 Torquemada demonstrava seu domínio num julgamento público. Um julgamento espetáculo onde acusou e terminou por queimar suas vítimas. Coisa tal que deveria ocorrer em local isolado, no salão da Inquisição, e que provava que aquele homem estava em pleno gozo de poder, manipulando os reis espanhóis. Aquiles se via amarrado, mas seguiu seus pensamentos em não interferir. Tomou cada ação do velho Inquisidor como a pedra que caíra do telhado e atingisse sua cabeça. Não seria ela aquilo que o faria parar de andar e evitar que um cavalo o atropelasse? Ou então, não seria ela o motivo de ter abaixado e escapado de uma flecha que atingir-lhe-ia o coração? Suportar o mal menor, para que assim evitasse um maior. Se manteve recluso até o momento certo para tomar suas ações.

1492. Em 31 de Março o Rei Fernando e a Rainha Isabel publicaram o Edito de Expulsão que ordena que todos os judeus devem sair de suas terras. Muito saíram, outros ficaram como Cristão Novos, e muitos foram pegos praticando sua religião proibida e assim sendo colocados na fogueira por Torquemada. Houve contudo uma reviravolta: em 25 de Julho falecia o Papa Inocêncio VIII, e em seu lugar, em 10 de Agosto, assumia o então Papa Alexandre VI. A entrada deste papa parecia incomodar os ares que rodavam a Espanha. Fora compreensiva sua posição quando 23 de Julho de 1494 o atual Papa nomear 4 adjuntos com poderes iguais para atuar junto de Torquemada, limitando seus poderes...

A partir daí começou sua queda...

Os julgamentos arbitrários passaram a ser julgados por outros quatro que absolviam suas vítimas. Não era possível saber se ele os poderia matar, mas certamente não o fez por algum motivo que Aquiles desconhecia.

E após tanto tempo, Aquiles tendo mais de 30 anos, sentiu que o momento havia chegado. A armadura lhe vestia com um aspecto mais brilhante. As correntes tinham a pureza de seu sangue de cavaleiro, pronta e restaurada por mãos hábeis após retornar do Santuário...



[align=center]Capítulo VIII – É Chegada da Hora[/align]


1498...

Torquemada havia sido suprimido pelo poder do Papa que o afastou por suas atividades arbitrárias. Decidiu refugiar-se em Ávila, sua cidade natal, em um convento. Estava na clausura. Conversava com a sombra que tanto lhe auxiliava em decisões necessárias, e ele sentia que algo estava para acontecer. Algo fora de seu controle, que talvez iniciasse com uma surpresa e terminasse com o início de um novo ciclo.

Aquiles, treinado e adulto, cujo ímpeto agora controlado dava uma expressão bem mais séria, embora carregue nos olhos o carisma. Acompanhou os acontecimentos. Esperou o momento ideal. Sua força não poderia ser medida, e de certo, nem sua experiência em suas longas viagens pelo oeste e sul europeu. Caminhava parecendo sem rumo, mas o destino era o horizonte que o levava.

Estava desfeito de seus medos. Havia entendido sua missão. Missão que seu mestre e irmão havia lhe dado. Há muito não falava com Miguel, nem mesmo por cartas. Seguiu, passo a passo, de volta para a Espanha. O som das correntes. A porta logo a frente que se abria com o vento. Não havia ninguém, estranhamente. Apenas uma aura negra que muito bem conhecia. A armadura azul, posta em seu corpo, brilhava com o esplendor de sua constelação ocultado pela face do Sol.

Um homem, de praticamente 78 anos, carregando algo que dizia ser um chifre de unicórnio, surgia frente ao cavaleiro usando as roupas pretas e vermelhas. Torquemada, aparentemente decrépito, olhava para o jovem que havia crescido com uma expressão de surpresa e ao mesmo tempo de repulsa.

- Enfim... O cavaleiro retorna por vingança... - Torquemada tirava as roupas, mostrando a armadura de Mandrágora. O elmo vinha à cabeça, e o cosmo violeta se elevava lentamente.

- Quisera eu vingar de ti quando jovem... Mas pergunto-lhe: És tão cego a ponto de não arrepender-te de teus pecados? Trago-lhe a oportunidade de arrependimento... - Falava em tom suficientemente audível, com uma voz grave, relembrando as palavras de seu mestre que sempre, antes de qualquer ação, dava aqueles sua oportunidade de redenção, de arrependimento.

- Falas já trajado de tua armadura, herege... Tu vieste para matar-me, como muitos... Mas tenho comigo este chifre de unicórneo, que não permitirá que envenenem-me... - Segurava-o com força, abrindo um sorriso desconcertado.

- Por mim, merecias o próprio fogo. Mas consegues compreender que o deus que falas ser o Deus, não é aquele que diz ser?...

- Tu não me enganarás, mísero tolo! Como há muito disse a ti, Hades é o deus da vida e da morte, capaz de ressuscitar e julgar as almas! Ele é o verdadeiro Deus! A ele devemos rogar proteção e pedir perdão pelos pecados! Continuarás crente que Athena é uma santa? Ela carrega satanás! Deseja que a humanidade cresça com suas blasfêmias e injúrias pecadoras! Ao contrário deste Deus Verdadeiro, que escolherá, entre os mortos, os dignos que viverem neste mundo! Este era o Paraíso, até o Homem desvirtuar-se do caminho! Tu não me convencerás do contrário, alma condenada!

- Arrependa-te, tolo! - Aquiles expandia seu cosmo a um nível razoável. As correntes se elevavam e Torquemada, em sua loucura, ria enquanto sobrepujava o poder, manifestando sombras pelo ambiente.

- Não pude tirar-te a cabeça por conta do destino! Contudo, fá-lo-ei agora! Pois com este cosmo fútil, não poderás impedir-me! Selarei te o destino como de teu mestre! Sinta meu poder! PÁGINAS DO APOCALIPSE!!

O cosmo do espectro elevou-se num único estouro e avançou contra o cavaleiro que usava suas correntes para defender-se. Vários cortes eram feitos na pele do cavaleiro, que deixou-se, após um momento, ser atingido para atacar. Antes da sombra cessar um outro grito era ouvido, e além de Aquiles deitado no chão, estava contra a parede, golfando sangue, o Espectro de Mandrágora, sentado, encostado nas rachaduras.

- Mas como me atingiste?! Ora seu herege miserável!

- Arrependa-te! Peça perdão e Athena o julgará!

- Besteira!!!

Torquemada levantava-se levantando voo. O cosmo começava a concentrar em suas mãos. Aquiles levantava-se, com os olho semicerrados. As correntes começavam a vibrar como se se aprontassem para receber o ataque que viria. Um esfera negra avançou contra Aquiles, e tal esfera, envolta pelas correntes, virou-se e atacou o espectro que caiu contra o solo. Contudo, a técnica era demasiada poderosa, levando Aquiles contra o solo, arrastando-o por metros até que parasse em uma árvore, que rachava e caia para o outro lado.

- Co-Como pode... Um cavaleiro de Bronze... Ter tamanho poder...?

Estas eram as palavras ditas pelo ex-Inquisidor enquanto caminhava em direção ao cavaleiro de Cassiopeia. Este levantava-se, recompondo-se. A armadura mostrava-se rachada em várias partes, em parte pelo próprio cosmo do cavaleiro de Athena.

- Meu mestre ensinou-me a nunca desviar de meu caminho. Tu, em algum momento, fez isso em tua vida. É a última vez, antes que eu comece a lutar seriamente... ARREPENDA-TE, OU A MORTE HÁ DE ENCONTRAR-NOS NESTE DIA!!

Torquemada começa um riso e então começa a rir. O cosmo violeta começava a elevar-se conforme a risada ia se intensificando. Aquiles por um momento recuava, percebendo que o cosmo daquele homem começava a ficar mais assustador. Imaginava que o cosmo daquele homem deveria ter diminuído, mas não, ele havia aumentado. E a medida que se tornava mais forte, garras rubras iam surgindo nas mãos do espectro que tinha na expressão um sorriso sádico.

- A Morte há de encontrar somente a ti, cavaleiro de Athena... Eu terei a vida eterna!

E assim o velho avançou mais rápido do que Aquiles pôde acompanhar. Sentiu as garras rubras passarem por seu abdómem, ferindo-o. O cavaleiro caia ao chão, e o Mandrágora ria até ver seus pés amarrados pelas correntes de Cassiopéia. Uma expressão de surpresa na face do espectro. Um riso de canto na face do cavaleiro de bronze. As correntes elevaram-se com um leve mover de mãos levando o espectro para o alto. Contudo não conseguiu puxá-lo e sim fora puxado pela Estrela Celeste. O cavaleiro voou, indo mais alto que Torquemada que se soltava das correntes e seguia em direção a seu oponente. Mas não tardou ser surpreendido com um movimento.

- Turbilhão de Laminas! - Aquiles aplicava vários mortais, girando como uma roda, sendo acompanhado pela corrente. Esta, na ponta machado, virou um disco afiado que atingiu o meio do espectro, sofrendo um segundo ataque com a corrente estrela que vinha por cima como um martelo, atingindo-lhe o ombro. Os dois caíam. Torquemada de pé, limpando o sangue da boca, e Aquiles de joelhos, envolto pelas correntes.

- Pagarás por isso, herege... - Disse Torquemada.

- Como tu, ainda não elevei meu cosmo ao máximo... - Sorriu Aquiles.

- Veremos se falas mais do que podes fazer, cãozinho... - Abriu um sorriso de canto.

- É... Veremos... - Então a cosmo energia de Aquiles expandiu, e por baixo do solo as correntes se erguiam sob os pés do espectro, fazendo um ataque surpresa. Mandrágora olhou enraivecido, defendendo-se com as garras que havia criado. No ar, suspenso, a energia violeta se expandiu, formando apenas uma grande sombra que cobriu o ambiente. O cavaleiro trouxe as correntes ao seu entorno. Lembrava-se muito bem daquele golpe covarde. Podia ouvir vozes. Podia ouvir sons. Seus olhos se fechavam para que não lhe pregassem peças. Contudo, a sensação de sufocamento da pressão do ar, e então novamente as garras passavam por seu corpo, arrancando o sangue, estilhaçando um tanto da armadura de bronze, cortando as correntes do meio. Tudo continuou escuro até a sombra desaparecer e mostrar Aquiles ajoelhado, com a armadura fragmentada em partes e rachadas em outras. O sangue escorria. As correntes estavam em pedaços. Quando retomou-se, percebeu o inimigo, virando-se. Contudo, a única coisa que tivera tempo de fazer foi ver o coice que lhe era desferido na face, levando a cabeça contra o chão, afundando-a nele, enquanto que num salto, Torquemada se posicionava do outro lado.

- Eu não tenho limitações... Tua armadura é fraca... Tu és fraco... Teus golpes são inúteis... Não vejo mais que um cavaleiro de prata experiente... Isso é tudo que podes fazer, verme inútil?... Isso é tudo que tua deusa herege podes lhe dar? Tu não sairás......

Torquemada sentiu o coração bater forte, como se estivesse na garganta. Não conseguia mais falar. Seu corpo estremeceu. Os olhos, com dificuldade, olharam para baixo, podendo ver a ponta estrela da corrente de seu inimigo cravada no peito, perfurando a armadura e atingindo-o. Aquiles levantou-se com extrema dificuldade. O sangue lhe abandonava o corpo por inúmeros ferimentos.

- Um homem um dia contou-me... Que as vezes o destino causa-te uma pequena dor para que não sofra algo pior... Além de enxergar isso literalmente, eu também enxergo que meu destino é morrer... Levando-o comigo... Pois assim evitarei que causes male pior do que já fizeste... Eu sou um cavaleiro de Athena, e luto também pela Justiça. Meu mestre sacrificou-se para que eu sobrevivesse e treinasse para derrotar a ti. Agora eu sacrifico-me pelo mundo, para que este continue da forma mais pacífica que lhe for possível...

E assim Aquiles foi retirando peça a peça de sua armadura. A cosmo energia, intensa, começava a se tornar dourada. As mãos do cavaleiro exalavam uma luz tão forte que materializava-se formando novas correntes luminosas. Numa ponta havia uma lamina, como a de uma espada. Na outra, uma cruz. - É hora de lutar sério... - A corrente cruz começava a rodar o corpo do cavaleiro, e assim, expandindo a luz, ela se tornava uma armadura etérea dourada, próxima a forma da armadura de Cassiopeia.

- Ha!... Vamos ver o quanto aguentas, tolo! - A energia de Torquemada aumentava, criando ramos próximos aos punhos. De seu cosmo vários focos de luz se soltavam, como se fossem um tipo de pólen. O espectro ria enquanto Aquiles poderia perceber o leve incomodo. O cavaleiro avançou, assim como Torquemada. A corrente de ponta espada passava pelo tronco de Mandrágora, e as garras deste passavam pelo peitoral da armadura criada pelo cavaleiro. O barulho era estridente, riscando ambas as armaduras.

Embora parecesse que estavam equivalentes, a diferença, para olhos atentos, era evidente. Aquiles obteve um grande desenvolvimento, de fato. Contudo Torquemada não havia parado de crescer, embora em menor velocidade. Aquiles sacrificava-se em cada golpe para atingir seu inimigo em algum ponto que lhe causasse mais dano que o oponente. O pólen, oriundo da armadura de Mandrágora, aos poucos começa a fazer seu efeito mortal. Entre golpes, os dois se atingiam de formas eficazes, Torquemada cedendo aos danos, Aquiles sedendo ao poder superior que enfrentava...

- Estás cansando, velho? - Perguntava Aquiles, ofegante, sentindo a dificuldade de sua respiração. Sua armadura cósmica era renovada, mantendo sua proteção.

- Tu já estás morto, herege miserável!

Torquemada avançava com agilidade, aplicando uma joelhada contra o abdomem de Aquiles, que se curvava. Preparava um ataque por cima, pronto para cravar as garras nas costas do cavaleiro, mas antes que executasse, a corrente subia cortando-lhe o rosto, acabando que o movendo para trás. Então voltou com um chute giratório que era defendido pelo antebraço de Aquiles, que segurava-o e socava atrás da canela. O espectro sentiu-se dolorido, mas rodou o corpo atingindo com outro chute o rosto de Aquiles, fazendo-o girar e cair contra o solo. O inquisidor foi as costas do cavaleiro, mas este levantou num impulso, aplicando uma cotovelada contra o peito, já ferido, do espectro que urrou de dor por um momento, até que movesse os braços e passasse as garras pelas pernas do dito pecador.

O espectro estava ofegante, mas via Aquiles ajoelhar, faltando-lhe o ar. Riu de leve, exibindo um olhar vitorioso.

- Como eu disse, cavaleiro, tu já estás morto...

- Não... Enquanto meu cosmo se elevar, e ainda houver um suspiro de vida, irei enfrentar-te até a morte!

E nisso o cavaleiro pôde sentir a energia de alguém. A imagem de Octavius, vestido com a armadura. Ele dava a mão para seu pupilo, auxiliando-o a levantar e virava-se para o espectro com um sorriso no rosto. Torquemava ficava furioso, avançando, conseguindo por atravessar as garras no corpo do cavaleiro de bronze, sussurrando em seu ouvido.

- Tu... Não vencerás... Ao lado dos mortos... Cãozinho...

Aquiles golfou sangue, mas não parou. Abraçou o espectro e começou a elevar seu cosmo assustadoramente alto. Sentia no ombro a mão de seu mestre, apoiando-o.

- Não, espectro de Hades... Tu que não ficarás aqui para vencer com os vivos!

A energia do cavaleiro tirava os dois corpos do chão. Torquemada ia se preocupando a medida que o cosmo do cavaleiro mostrava-se mais poderoso. Estaria ele queimando sua vida? O corpo de Aquiles tornou-se luz. O espectro tentava se soltar, mas apenas sentiu o corpo parar e começar a formigar.

- Irás mesmo matar-me, incrédulo? Hahahaha!! Hades retornará com seus poderes, e eu voltarei para criar outro tão bom quanto eu! Hahahahaha

- Não, espectro! Eu estarei lá para evitar que isso aconteça! - Dizia a voz que vinha do além, enquanto surgia a face de Octavius a frente de Torquemada.

- PONTEEEEE DO SACRIFÍCIO!!!

O cosmo de Aquiles explodia. Um imenso raio se elevava aos céus, onde nada se podia ver, pois a todos que olhassem aquele magnífico efeito, temporariamente ficariam cegos. E ao final, as únicas coisas que se prostravam naquela zona de embate, era a armadura de Cassiopeia e a armadura de Mandrágora, que em raios distintos, retornavam, de alguma forma, para seus respectivos locais.

Em Roma, Miguel olhava o céu, sem nada aparente. Baixava a cabeça com um riso enquanto cruzava os braços.

- Aprendeste a lição, caro Aquiles... Contudo, quando retornarás?... Sinto que Hades o trará de volta... Não é, Octavius? - Miguel virava-se para trás, olhando para um brilho prateado. - Ou devo dizer...

Offline Profile Goto Top
 
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=center]EPISÓDIO 3: BALTAZAR, UMA NOVA ESPERANÇA [/align]



[align=center]Capítulo IX – Apresentando o novo filho.[/align]


Baltazar. Este era o nome da nova criança que nascia em Âncona. Na capital, de mesmo nome, havia a Catedral de São Ciriaco, onde fora batizado por um padre cujo nome era Romeno. A data era 22 de Dezembro de 1517, contudo, por nascer muito próximo da virada do dia, não se sabia ao certo se havia nascido as 23h59 do dia 21, ou as 0h do dia 22, ficando, por conta do pai, dia 22.

O pai era pescador e cristão católico. Tinha cabelos loiros, quase brancos, e olhos azuis. Era de descendência nórdica inglesa, cuja família era bem espalhada, provavelmente por haver vários ancestrais de antigos saxões e soldados da época do Império Romano. Tinha sangue de cavaleiro e de guerreiro, contudo não havia documentos que o provassem, embora nunca importou-se, já que preferia a simplicidade da vida da pesca, deixando apenas as histórias de antigos guerreiros para as futuras gerações. Ele se chamava apenas de Ricardo, o Pescador, e a família estava em Âncona desde seu tatara tataravô, que segundo a história, antes de vir, havia enterrado a Espada e o Escudo da família em sua terra natal.

A mãe, dona de casa e italiana, tinha o nome Bianca, por conta dos cabelos escuros contrastarem com a pele branca com que havia nascido, amorenada pelo Sol. Ao contrário de Ricardo, não havia histórias de cavalaria para contar em sua família, que era bastante unida na região da península Itálica. Tem parentes comerciantes, contudo, por conta da religião, escolheu viver o modo mais simples de vida, cuidando apenas de seu marido, e agora, de seu pequeno filho.

Em Âncona não havia muito a que se falar. Era uma cidade, um Estado pertencente a Igreja que mantinha-se, até então, fora de guerras. Cuidava apenas do comércio e mantinha-se. A princípio, não haviam revoluções.

Voltando ao recém-nascido Baltazar, o nome fora dado por seus pais. Significa “Rei protegido pelo Deus Baal”, onde Baal, no hebraico, significa Senhor, termo muito usado para generalizar deuses, sendo eles assim chamados de senhores. Contudo, mesmo sendo citado na Bíblia com um tom referente aos pagãos, o pai via como Deus Senhor, ou Senhor Deus, crente que o Criador o protegeria.

De fato, algo foi um estopim para esse nome, pois o pai, que sentia algo além do comum, sentiu perto de si, no nascimento de seu filho, uma aura poderosa, que ao mesmo tempo que era severa, também era boa, pensando ser esta a aura de Deus que tocava-lhe o ombro, dando-lhe os parabéns. Se muito rezava, diziam que Ricardo vivia a agradecer pelo pouco e pelo muito que recebia do mar. Fazia diversas caridades, e quando podia, levava um prato de comida e água fresca para viajantes que necessitavam, fossem estrangeiros ou não.

O padre, Romeno, em vários momentos do dia recebia o pai de Baltazar, que após as pescas, trazia um peixe como oferta para a Igreja, uma vez que do dinheiro, juntava apenas o suficiente para comprar o que fosse necessário e um pouco para agradar a mulher, que muito amava.

Baltazar, de fato, era um garoto especial. Tinha a cabeça um pouco maior que o normal, mas nada que fosse consideravelmente diferente. Tão logo os cabelos cresciam, faziam volume suficiente para desviar este traço, não abdicando dos outros traços italianos e europeus. Tinha os cabelos loiros, mais escuros que os do pai. Os olhos eram azuis, e ficavam verdes quando caia a luz da tarde. Tinha um belo sorriso. Brincava bastante, e parecia aprender muito fácil, o que de fato acontecia.

Era de costume ensinar algo e ele lembrar. Para um bebê de praticamente dois anos, ele tinha quase que as capacidades de um de quatro ou cinco, conseguindo por algumas vezes falar várias coisas, mesmo que na maioria das vezes fosse desconexa.

Isso tinha um motivo: Baltazar tinha uma parte cerebral mais desenvolvida, o lóbulo temporal. Esta parte do cérebro é responsável pelo gerenciamento da memória e também pelos sentidos da audição. Isso lhe permite gravar e reaver informações assim como distinguir mais facilmente os sons que recebe, além de melhorar a linguagem e facilitar o aprendizado. Este desenvolvimento também trouxe-lhe uma peculiaridade. Apesar de só descobrir mais tarde, Baltazar poderia ser considerado um telepata*. Não que pudesse ouvir tudo, ver tudo e ler a mente. Apenas podia ouvir, por algumas vezes, os pensamentos das pessoas que estavam ao seu redor. E, tratando-se de ser ainda um bebê, agora com apenas dois anos, isso era um tanto quanto complicado para ele, como para seus pais.

Baltazar ouvia coisas, mas não tinha dominado a fala de forma que pudesse se comunicar. Saia correndo por vezes sozinho, fugindo de algo que não podia ver. A mente, que trabalhava rápido, onde o processamento visual também lhe era facilitado, parecia dizer que havia fantasmas por de trás das paredes. Isso gerou uma doença que será descrita conforme seus anos forem escritos nesta história. Mas se pode afirmar que desde pequeno ele começou a ter alucinações audíveis, facilitadas pela memória, que por vezes, fez tocar em seus ouvidos, mesmo que nada houvesse, o som de passos e respostas...


[spoiler=*]* Há uma pesquisa que relaciona o lóbulo temporal a telepatia, colocando como esta sendo um processo de transmissão e tradução de linguagem da carga elétrica gerada pelo cérebro ao pensar. Presto este pequeno esclarecimento para deixar o motivo de relacionar, na história, o desenvolvimento dessa parte do cérebro com a habilidade de telepatia.[/spoiler]


[align=center]Capítulo X – A ida de Baltazar a Roma: Iniciando a vida com um estranho. [/align]

Ano 1520. Era Janeiro, dia 15. Após algumas festividades com o novo ano os pais de Baltazar tratavam de cuidar do filho com amor e carinho. Já tinha dois anos completados no ano anterior. Andava, corria, brincava, falava algumas coisas. Mas ainda ficavam encabeçados com o que poderia estar acontecendo com o jovenzinho. Dizia ouvir coisas, mas ninguém nunca ouvia. Padre Romeno vinha constantemente a casa do garoto para expurgar possíveis demônios, mas nada disso tinha efeito. Pelo contrário, fazia aumentar as vozes que surgiam. Por vezes o garoto foi pego conversando sozinho, com os olhos fechados, olhando para a parede. O pai ficava a imaginar que o garoto falava com Deus, mas as conversas eram estranhas e muitas vezes falava mais como um bebê do que como uma criança.

Foi então que neste dia surgiu um homem, vestido de branco. Parecia ter um pouco de idade, mas era próximo da idade do pai de Baltazar. Este se chamava Jonas, e vinha de Roma. Possuía uma carta em mãos. Nela estava escrito algo em relação a um jovem que teria, no nome, a proteção de Deus. Ciente de muitas coisas, acabou por deparar-se em suas caminhadas com o nome Baltazar em meio a comentários estranhos e observações assustadoras.

Jonas tinha os cabelos escuros e curtos. Os olhos eram castanhos e tinha a pele amorenada. Não possuía qualquer sinal diferenciado, senão a cruz, mista de ferro, madeira e ouro, que carregava pendurada na cintura. Dizia ele que um homem, ancião, de Roma, mandou um recado que um jovem nasceria nesta cidade com capacidades fora da idade, e que portanto, deveria buscá-lo e trazer para o Vaticano. O pai criticou o fato de levar o garoto, ainda bebê, de suas mãos. Abraçou o filho com força, junto com a mãe. Jonas sentia pena, e compreendia. Mas dizia que o garoto era alguém especial, argumento que não foi suficiente.

O clérigo ficou pela cidade por uma semana, visitando Baltazar todos os dias, e passando o dia na casa. Ficava a observar o bebê com olhos atentos e profundos. Mantinha na mão sua cruz, segurada com firmeza. Parecia prestar atenção em coisas que aqueles que ali estavam não conseguiam.

Após muita insistência, Jonas enfim foi franco, e esclareceu o motivo, antes fazendo uma demonstração. Segurou a cruz e começou a rezar. Um sentimento nobre começou a encher os pais de Baltazar, até que ondulações começavam a surgir. Ondulações tais que logo tornaram-se visíveis aos olhos de Bianca e Ricardo. Era uma manifestação cósmica.

- Isto que veem, senhores, é a aura de meu santo espírito. Deus presenteou-me com este poder santo, e o filho de vós também foi afeiçoado. Vós que não tens o dom, não podem ver as nuances da aura de Baltazar, mas eu posso, e a todo momento que conversa ou diz ouvir coisas, sinto a aura dele elevar-se minimamente. Não sei ao certo quais habilidades tem este vosso filho. Mas em Roma, no Vaticano, onde há pessoas como eu, teu filho poderá desenvolver-se e usar este poder para curar as pessoas de fé cristã, e outros que julgar necessário... Devo dizer, que se não permitirem, a Igreja... Não... O mundo perderá um grande clérigo de dons angelicais...

Ricardo pediu um tempo a medida que curava sua surpresa. Jonas permitiu que se passasse mais alguns dias, tempo que se sucedeu um acidente. Ricardo havia ido pescar e sofreu um naufrágio. Bianca ficava esperando que seu marido retornasse, mas fazia já um dia inteiro. Foram três dias para o homem aparecer, cansado, pra não dizer exaurido de todas as forças, preso a um grande pedaço de madeira que boiou o corpo até de volta a praia. Descansou. Quando acordou, dissera ter visto uma luz e ouvido uma voz sublime. Não sabia quem era, nem o que era, mas parecia tê-lo ajudado. Havia sonhado com o filho, e com sua esposa. Havia sonhado com um anjo segurando duas fortes correntes que lhe envolveram e o amarraram, e que depois, o empurraram para a praia. O que de fato fora aquilo, não sabia dizer ao certo. Mas passou a entender sua dura escolha, e passou a conversar com Bianca.

No dia 30 de Janeiro, resolvidos, Bianca e Ricardo aceitam que levem o garoto para Roma, contudo, teriam de mandar cartas semanalmente referente ao aprendizado e a seu desenvolvimento. Com muitas lágrimas, Bianca e seu marido ficavam ali vendo seu filho partir com o clérigo.


[align=center]Capítulo XI – O duro caminho de um Clérigo [/align]

Depois de praticamente cinco dias de caminhadas, no dia 4 de Fevereiro de 1520, Baltazar e Jonas chegam em Roma. Neste dia muita coisa lhe é mostrada, embora tivesse ainda uma grande carência de seus pais, pois ainda era novo e não compreendia a situação em que estava. Ainda tinha pouco mais de dois anos, e mesmo com o talento que possuía, não era possível passar muita coisa, senão acostumar a rotina diária que trabalharia sua fé.

Lhe foram apresentados outras pessoas como Madre Ana, uma já senhora que dedica a vida para a reza, e parecia ser um boa pessoa. Outro era um cardeal chamado Pablo, que ficava junto do Papa Leão X, tomando, por algumas vezes, uma atenção especial para a criança.

Não era de fato um conhecimento total na Igreja a existência de Athena e seus cavaleiros. Dizia Jonas que nem todos os papas ficaram cientes do que ocorria por de trás dos panos da humanidade. Mas se podia perceber que uma parte limitada dos que viviam em Roma e trabalhavam no Vaticano tinham ligeiro, senão certo conhecimento.

Em 1521, nos primeiros meses do ano, Baltazar já tinha três anos de idade. Jonas ficava a testar sua progressão, percebendo seus dons. Contudo, algumas coisas pareciam irreais. Imaginava se aquelas habilidades despertas tão precocemente havia feito dano a mente do jovenzinho. Procurou por alguns especialistas que não foram muito precisos. Alguns, inclusive, diziam que falava com Deus, quando não, com o Demônio, o que tornou necessário sair dos braços do Vaticano, ficando apenas na cidade, mantendo contato com pessoas específicas.

Jonas era um Bispo. Se dizia pupilo de um dos Cardeais, cargo que definia aqueles que eram conselheiros do Papa. Segundo este, a roda sempre gira em extremos nos Papados, sempre guiados por sua fé que por vezes eram deturpadas por emoções próprias. Este cardeal se chamava Miguel, pessoa tal que não entrava diretamente em questões e filosofava por diversas vezes sem abrir muitos comentários. Já tinha certa idade, mas parecia não enfraquecer com isso.

Então, ao final de 1521, Papa Leão X falecia. O novo assumia em 9 de Janeiro de 1522. Era ele Adriano VI. Baltazar, no ano anterior, tinha 3 anos completos e a mentalidade havia meio que fixado a uma criança de cinco anos, assim como suas habilidades para a fala e para escrever pequenas frases. Por conta da convivência havia aprendido a mesma palavra em Latim e Hebraico, além do Italiano. Mostrava-se curioso, tendo dias de grande ânimo e dias de grande anedonia. Isso acelerava e diminuía o ritmo de alguns estudos. Mas Jonas não sentiu que fosse um problema, já que iniciou tão cedo seu aprendizado.

Seguiu-se então sua alfabetização. Começou do início para que o garoto tivesse todos os detalhes. Desde a lógica dos números cardinais e romanos até o alfabeto italiano e hebraico, entonando os sons, ligando-os aos símbolos. Prosseguiu com frases e textos, com traduções. Introduziu ao Grego e ao Espanhol, tendo depois de algum tempo um pouco de Português. A proximidade destas línguas tornou possível sua compreensão, e passou a estudar tudo durante os próximos anos que se seguiam. E estes estudos não excluíram o cosmo...

Como dito, Jonas ficava sempre observando a oscilação cósmica do jovenzinho Baltazar que hora ou outra se mostrava tenuemente. Nas rezas, nas orações, tratou de ensinar algumas coisas a cerca da alma e da energia que possuíam. Dizia que se a fé for grande, esse energia pode se realçar e manifestar-se aos outros a volta, e poderia ser usada para curar.

Com 6 anos, em 1524, algumas coisas já haviam acontecido. Em 14 de Setembro de 1523 Papa Adriano VI havia falecido, e em 19 de Dezembro havia assumido o Papa Clemente VII que precisou enfrentar as revoltas protestantes.
Baltazar, por conta de seu desenvolvimento, já tinha um certo controle, mesmo que não total, do cosmo que havia dentro de si. Mas o desenvolvimento dele permitiu acessar mais a capacidade de seu cérebro, ativando a telepatia, arcaicamente, quando nervoso ou exaltado, obviamente sem saber. De certa forma, algumas das imagens que o jovenzinho via diminuíram um tanto, assim como as vozes. Não havia mais tanta oscilação nas observações que Jonas fazia sob o garoto. Contudo ele ainda tinha fases.


[align=center]Capítulo XII – O assalto a Roma [/align]

Maio de 1527. Baltazar já tinha seus nove anos. Durante os anos anteriores lhe foi introduzida a língua francesa. Já consciente como um adolescente, apesar da ingenuidade de uma criança, o jovem Baltazar tinha um controle cósmico e havia desenvolvido o poder de curar com Jonas. Tudo, de certa forma, estava indo bem, relembrando Jonas a Baltazar que este poder era um dom, e deveria ser usado com sabedoria, além de que nem todos poderiam saber de seus feitos pois poderia trazer problemas. Isso se valeu por um tempo até o dia 5 de Agosto de 1526.

Nesta data Baltazar foi a uma missa com Jonas, e acabou por se exaltar sobre algo que o padre falava. Como Jonas lhe havia ensinado que o homem poderia ter um grande poder advindo de Deus para mudar a própria realidade e melhorar a vida que possuía, ao ouvir algumas coisas do Padre e “todos somos ínfimos, e só Deus poderia nos salvar”, o garoto correu ao altar e contestou-o.

Como fora algo fora da normalidade, além de contestar o padre, Jonas também fora ouvido por Inquisidores. O velho Miguel, pela primeira vez, se colocava no meio deles, junto do Papa Clemente VII, e mostrava um corte que possuía. Aproximou-se do garoto e pediu a ele que o auxiliasse. Ficou receoso, mas bastou que Baltazar olhasse para Jonas para se sentir confiante. Elevou seu cosmo e fez o ferimento do Cardeal se fechar. Este virou os olhos cegos para todos, mostrando a mão, e antes que qualquer um pudesse falar a palavra “Bruxaria”, Miguel disse:

- Vês?! Honremo-nos com a presença de um anjo enviado pelo Senhor! Não fez-me mau, apenas curou-me! Como podeis observar, não há mais ferimento! Deus não permitiria um demônio entre os santos da Igreja, ainda mais em Roma, onde está seu representante santíssimo Padre Clemente VII. Ele é um anjo, e tratemos ele como tal!

Miguel era um cego, homem velho, senão um dos mais, mas certamente o mais velho ali presente. Era conhecido pelo isolamento, por falar através de cartas escritas por ele. Dizem que perdera a visão material para ter a visão do espírito. O que se sabia sobre ele era que havia nascido no último século, e já não era tão novo. Fora cogitado, mas nunca se aceitou como Papa, recusando qualquer voto que lhe fosse dado. Preferia ficar como conselheiro, dizendo que assim teria tempo para ver aquilo que os homens comuns não podiam ver. Há quem diga que ele previa o futuro. A quem diga que falava com Deus e este lhe contava parte de seus segredos. Mas o fato é: Andava sozinho e sempre pensativo. Desde o dia desse julgamento, Baltazar fora chamado de “Che scendi di angeli”(que descende dos anjos), mantendo seu treinamento, em oculto, com Jonas, em um espaço especial onde pudesse ficar a vontade. Ao menos, até Maio de 1527, época que o clérigo havia recebido uma carta de Miguel para viajar e levar o jovem Baltazar. Fora nessa época que Carlos V tomava de assalto Roma por conta da política anti espanhola de Papa Clemente VII. Homem que havia se tornado rei da Espanha, além de muitos outros títulos por conta de avós e pais falecidos.

No tempo que ficou com Roma nas mãos, dizem que Carlos V mandou que procurassem o tal anjo. Mas nunca foi encontrado naquele lugar.


[align=center]Capítulo XIII – Para a França encontrar alguns amigos. [/align]

Francisco I da França era o Rei. Em 1526, em luta contra Carlos V, aliou-se aos príncipes italianos e ao Papa Clemente II formando a Liga de Cognac, que culminou no assalto a Roma no ano seguinte. Francisco I havia disputado com Carlos V o império de Maximiliano, sendo derrotado, tendo a volta de seu reino as terras de Carlos V.

Apesar de ser uma terra problemática, Jonas e Baltazar chegam nas terras francesas em 15 de Junho de 1527, após vários dias de caminhada. Foram a pé, passando como viajantes, subindo pela península itálica até as terras francesas. Durante a viagem Jonas fez Baltazar estudar, citando obras, textos, e pedindo que este traduzisse em outras línguas das quais estava estudando. Levava consigo livros, sete que não permitia que fossem jogados fora, nem deixados para trás. Apesar de ver apenas como livros, Baltazar via que ele marcava várias coisas enquanto o jovem ia dormir. Nestes momentos o clérigo estava sempre pensativo, e parecia conversar consigo mesmo, como se fizesse questões e fosse respondido.

Mais um ou dois dias de viagem. Jonas encontrava alguns amigos que eram apresentados para o jovem Baltazar que em mais alguns meses faria 10 anos. Jonas parecia demonstrar receio, e Baltazar, por algumas vezes, parecia entender que ouvia pensamentos. Mas era somente quando seu cosmo estava aceso, e quando forçava para focar um homem, ficando com algumas dores de cabeça logo após.

Então, junto de seu tutor, os homens, numa sala fechava, começavam a conversar sobre coisas mais diferentes do que Baltazar costumava ouvir. Percebia que não havia somente cristãos. Pareciam mais esclarecidos e mais filósofos. Foi neste momento que o garoto começou a ter contato com filosofias diferentes que traziam mitos orientais, deuses diferentes, entre outras informações. O homem chamado Kalil era um árabe, ou assim chamado, mouro. Era médico e testava os conhecimentos de Baltazar e suas habilidades. Ao analisar, olhou para Jonas com um suspiro. Dizia que iria ajudar o garoto a entender melhor o funcionamento do corpo, conhecimento tal muito restrito na Europa por conta da Igreja subverter muitos conhecimentos como heresia e bruxaria.

- Compreendo-te, Kalil... Contudo, já tenho livros comigo que poderiam tornar problemática a nossa viagem. Não pude trazer mais sem que trouxesse desconfiança. Nem todos em Roma são amigos... - Disse Jonas.

- Certo. Ele tem a técnica, mas falta a perícia. Usar esta aura dada pelo Arquiteto não tem eficácia se não for usada no ponto correto. - Disse Kalil.

O pequeno grupo, iluminado pela vela no centro da sala, começava a se focar no jovem garoto. Não que fossem de fato irmãos. Mas era um, de muitos berços, de algo que futuramente seria chamado de Maçonaria. Tal grupo tinha ligação com a Igreja por meio de alguns representantes. Não sabiam exatamente sobre Athena, mas sabiam sobre pessoas especiais que nasciam de tempos em tempos. Daqueles, apenas Jonas era um ferrenho cristão, que embora fosse esclarecido pelas outras fés e pelo mestre Miguel, tinha em seu coração Jesus Cristo. Ninguém ali de fato havia abandonado sua fé. Mas tinha consciência que o que formavam, discutindo suas doutrinas, religiões e fés, traziam esclarecimento as partes mais duvidosas de suas fés, tampando buracos que os fortalecia mental e espiritualmente.

Ling Pá era outro homem bem diferenciado do grupo. Budista, embora ocultamente, ele apreciava a arte e a filosofia. Apesar de Jonas dizer a Baltazar que um clérigo não portava armas, Ling ensinou ao jovem como mover um chicote. Era útil para se fazer algumas coisas, para andar a cavalo, para impedir laminas que pudesse encontrar pelo caminho. Tratou o jovem como um aprendiz, ensinando-o o pouco que pudesse para tornar o corpo forte e resistente, além de maleável. Não seria mestre pois era necessário treinar assiduamente, mas o jovem mostrava ter empenho e facilidade, mesmo que passasse por momentos de profundo desanimo, tempo em que falava sozinho por várias vezes, ouvia vozes, quando não via algumas sombras. Isso chamou a atenção do professor de história, um português chamado Manoel.

Manoel era um explorador, pesquisador e ocultamente cientista. Pesquisava mitos, escrevia livros, que nunca eram publicados para que não tivesse o desprazer de ser julgado pela Santa Inquisição e colocassem toda a pesquisa no chamado Index. Era o contador de histórias do grupo, que dizia buscar provas que existiam monstros por baixo dos oceanos e terras escondidas como Lemúria e Atlantis, dizendo inclusive ter conversado e aprendido algumas coisas com um lemuriano em suas viagens para a Índia, embora muitos duvidassem. Acreditava que o homem ainda tinha muito a descobrir, e que Deus dava-lhe a mão todas as vezes que saia para suas empreitadas. Ele tinha ciência que poderiam haver descobertas escondidas pela Igreja. Embora Jonas trouxesse algumas vezes livros que haviam sido roubados, Manoel é um furtivo ladrão de conhecimento, que, segundos as palavras dele, não tivera a cabeça cortada ou o corpo queimado pela fogueira porque Deus cuidava para que não fosse reconhecido. Navegou pelo Mediterrâneo, e participava de uma expedição ou outra para a África, cortando as terras. Era hábil com a espada, manejando-a em vários estilos europeus. Ele parava para observar o garoto, pensando se este não teria algo diferenciado além dos dons chamados divinos. Ficou a observar o garoto por diversas vezes, contando-lhe lendas quando não ficava a medir a cabeça do jovem. Fazia perguntas como a descendência, a origem, entre outras coisas. Após conversar com Jonas, tratou de fazer o garoto treinar e encontrar o meio pelo qual fazia um básico de telepatia, descobrir qual era o botão que ligava tal habilidade após descobrir que ele lia sua mente vez ou outra, sem saber como. Forçava a mente do jovem, principalmente em suas depressões, o que gerou vários conflitos, vencendo o garoto pela insistência. Não conseguiam muita evolução, mas Baltazar havia aprendido que precisava se concentrar em seus ouvidos e na pessoa para conseguir ouvir algo, que muitas vezes vinha como um rangido ou um ruído estridente, o que lhe fazia a cabeça doer.

Desta forma, com personalidades tão específicas e talentos especiais próprios, Baltazar estudou e treinou. Desenvolveu a forma de seu cosmo e começou a entender como sua mente funcionava. Aprendeu as outras filosofias, e compreendeu o que era de fato a Fé e a Doutrina, onde seu próprio desenvolvimento se mostrou rápido, embora bastante trabalhoso.

1530 foi o ano que Papa Clemente VII se conciliou com Carlos V. Coroou-o Imperador e Rei da Itália em Bolonha, e tornou Fernandinho, irmão de Carlos V, Rei de Roma. Em troca, Carlos V devolveu os territórios papais que havia conquistado e tomou Florença, entregando-a novamente aos Medicis, que a haviam perdido.

Em 1531 Jonas recebia uma carta de seu mestre Miguel. Ele olhava para Baltazar com um tanto de pesar. Já próximo ao aniversário de 14 anos do, agora jovem, Baltazar, teria de fazer um teste...


[align=center]Capítulo XIV – A mente de Baltazar. [/align]

A mente de Baltazar era diferencia em seu desenvolvimento e também na sua formação. Por conta de desenvolvimentos específicos em certas áreas, Baltazar teve um rápido desenvolvimento, passando a frente da idade em alguns aspectos, enquanto em outros era uma criança normal.

Para ele a linguagem era fácil pelo simples fato da memorização. Memorizar e ligar coisas era algo tranquilo a ser feito, o que fez rapidamente assimilar palavras, significados e suas traduções para outras línguas. A audição não era em si melhor no quesito de ouvir. A verdadeira função melhorada pela sua característica cerebral era a capacidade de processamento do que ouvia, podendo facilmente distinguir sons, que se unindo a característica da memorização torna-se fácil reconhecer aquilo que ouve.

Com o apoio cósmico, que foi desenvolvido por Jonas e mais tarde por Manoel, a telepatia incluiu-se na facilidade. Talvez não tivesse a mesma capacidade mental que possuía um lemuriano, talvez até se conhecesse um, lhe seria melhor adaptado a tal habilidade. Contudo, conseguiu desenvolvê-la arcaicamente, podendo em alguns momentos ouvir o que as pessoas ao redor pensam.

Obviamente, tratando-se de uma criança que pouco entendia o mundo e pouco sabia, ou tinha capacidade, para se comunicar, passou por maus bocados na infância até conseguir dizer o que estava ouvindo. Isso gerou alucinações. Alucinações tais que, além de de fato ouvir coisas, muitas vezes sua mente reproduzia aquilo que já havia ouvido.

Conforme esses problemas foram ocorrendo, e a ignorância dos pais também em auxiliá-lo, acabou por desenvolver uma bipolaridade. Ao contrário do que muitos imaginam hoje, e que antigamente nem sequer era um diagnóstico, as fases de mudança não são rápidas, ao menos não na maioria dos casos. Normalmente poderiam perdurar por dias, semanas ou meses, bastando uma chave inconsciente, seja ela uma lembrança, um sentimento ou algo de marcante.

A bipolaridade tem dois estados: O Maníaco, onde a euforia pode fazer tentar escrever um livro num único dia, e normalmente apresentam Autoestima elevada, necessidade de sono diminuída (sentindo-se repousada com 3 a 5 horas de sono), verborragia, fuga de ideias, distratibilidade, inquietude, impulsividade, impaciência e irritabilidade. O outro é o Depressivo, onde podem chegar ao extremo de cometer suicídio, e normalmente apresentam estado deprimido, anedonia, sensação de inutilidade, culpa excessiva, dificuldade de concentração, fadiga, distúrbios de sono, distúrbio psicomotor, distúrbio alimentar, e a comum idealização suicida.

Mas Baltazar não passava por todos estes efeitos. Ao menos, não até o momento em que esteve com Jonas. Além de que, o jovem aprendiz tinha duas bases muito poderosas que combatiam os traumas, mesmo que fosse apenas externamente. A primeira era a busca de suas razões. Tanto pela personalidade como também por conta de que a parte desenvolvida em seu cérebro fazia-o questionar. Não bastavam dizer que fora Deus ou obra do destino. Tinha de haver um porquê. E estes porquês eram dados por Jonas, levando a sua segunda base: A Fé. Não era uma fé cega e ignorante. Ela baseava-se na moral e na ética. Tinha poder em dizer que Deus fez algo para que fosse descoberto pelo homem; que se o mundo era gerido por leis, estas foram criadas pela consciência divina para que o homem aprendesse a lidar com elas para que criasse e moldasse o próprio mundo. Aprendeu que o homem era uma centelha divina, que comparado ao mito grego do Amor e do Caos, Deus seria o tal Amor que moldou o Caos criando o mundo onde vivemos, além de outros muitos mundos que poderiam existir dessa mesma forma.

E com estas crenças o jovem garoto tinha em mente que poderia mudar aquilo que via, que poderia debater se era real ou irreal o que escutava, possibilitando que ignorasse muitas coisas. O único problema era vez ou outra ignorar o que era real, ignorar pessoas que realmente falavam com ele, ouvindo aquilo que não existia e dando atenção aquilo que existia.

Para outros, que acreditam nele como um verdadeiro descendente dos anjos, diziam que ele ouvia as pragas do demônio que tentava rodear aqueles que estavam a volta, para então salvaguardá-los, quando não outros anjos, para receber conselhos ou mensagens vindas de Deus. Nada que não pudesse ser verdade, mas que também pudesse ser provado.

Com praticamente 14 anos formados, cheio de estudiosos e filósofos a sua volta, e uma capacidade especial de reter algumas informações, o jovem poderia se considerar um homem feito para aquela época. Bastaria compreender isso.



[align=center]Capítulo XV – O Teste de Jonas[/align]

[YOUTUBE]http://www.youtube.com/watch?v=a4SKrGYMp7A[/YOUTUBE]

20 de Dezembro de 1531. Era uma manhã de inverno. Jonas havia recebido uma carta de seu mestre Miguel, dizendo que Baltazar deveria passar um teste na forma que constava no verso. Com o sucesso se tornaria um Clérigo, mas não obtendo sucesso, deveria ser morto, fato que não foi contado para o jovem.

Baltazar se preparava. Não havia dicas, menções, nem nada do tipo. Os outros que o acompanhavam também não tinham a menor ideia do que se passava, mas estariam lá para ver o resultado.

Então, fora da cidade onde se encontravam, no meio de caminhos ordinários onde passavam viajantes, adentrando a floresta e chegando a uma clareira, iniciou-se o teste de Baltazar. Não havia ferramentas. Não haviam livros para lhe prestar auxílio. Só ele, uma batina, e uma cruz feita de madeira.

- Diga-me, Baltazar... QUEM É DEUS?! - Jonas nunca fora agressivo com as palavras, mas seu aspecto havia mudado. Uma aura era visível em seu corpo e nela havia um grande pesar. Os outros companheiros presentes ficavam surpresos, imaginando onde aquilo levaria.

- Deus é o Criador do mundo! O Ser Perfeito! Aquele que... - O jovem era interrompido, sendo pego pela gola e tirado do chão. Jonas o olhava com seriedade.

- CALA-TE ESTÚPIDO! QUEM É DEUS?! FALES A VERDADE!! - Baltazar ficou acuado com a reação de seu mestre, mas voltou a responder. - Deus é Deus! O Amor da Humanidade onde se espelha as boas ações! Ele é... - Baltazar era jogado contra o solo. Ling Pá se levantava. Manoel o segurava, olhando-o e fazendo um sinal negativo com a cabeça.

- Deus... Deus... Deus... NÃO DIGA ASNEIRAS, JOVEM TOLO!! FALE A SUA VERDADE!! - Jonas se aproximava o chutando no estomago. Baltazar fazia um expressão descontente, e levanta-se, pegando a cruz que possuía. - Ensinaste me que Deus é o Ser do Bem! E assim Ele é! O Criador do mundo!

- IMBECÍL, É TUDO MENTIRA!! NADA DISSO É SENÃO MENTIRAS PARA DÉBEIS COMO TU!! COMO TENS CORAGEM DE PROFERIR TANTAS BESTEIRAS?! - Jonas empurrava Baltazar, que o olhava nos olhos. Fazia o que havia aprendido com Manoel, forçando sua mente em seus ouvidos para ouvir aquele que focava com os olhos, mas Jonas não demonstrava e parecia estar ciente que Baltazar pudesse tentar algo do tipo, não havendo mais que suas perguntas em mente.

- Por que tu estas a agir de tal forma, Jonas?! - Baltazar perguntava, e recebia um tapa que lhe fazia virar o rosto em resposta. Ling Pá rangia os dentes. Manoel engolia seco e Kalil cruzava os braços com uma sobrancelha erguia. Ao contrário dos outros dois, aquele homem parecia entender o que se passava.

Baltazar... Seu sangue começava a fervilhar, ele olhava para Jonas com os punhos que se fechavam. A energia cósmica elevou-se enquanto o choro começava a tomar-lhe. Mas segurou. Seus punhos relaxaram. O jovem ajoelhou-se e sentou sobre as pernas. - Se tu crês que não sou bom aprendiz, faça o que deveis fazer... Deus é testemunha de meu esforço e de minha dedicação. E se estás a fazer isso por Ele, algo certo deve estar escrito nas entrelinhas que não posso ver... - Disse o jovem, segurando firmemente a cruz que carregava. (1º teste – Fidelidade)

Jonas o olhou de cima. Começou a rodeá-lo. Manoel e Ling Pa pensaram em fazer algo, mas Kalil esticou o braço os impedindo, fazendo apenas um olhar de rabo de olho, voltando a atenção para os dois clérigos enquanto alisava a barba que tinha.

- Baltazar... Deus não tem poder algum... - Jonas pegava uma adaga, fazendo um corte na própria mão e mostrava o sangue – Sou um de seus servos, e Ele não protege meu corpo desta lamina. VEJA!

- Deus deu o livre arbítrio. Se feristes a ti mesmo, foi porque quisestes. Contudo, Deus trouxe anjos ao mundo para que pudessem dar uma nova chance àqueles que achava justo... - Falou o garoto, elevando a energia que possuía, fazendo fechar o corte com a habilidade que havia aprendido com Jonas.

Jonas olhava com repúdio, cortando-se por mais uma vez. Soltava mais blasfêmias e novamente Baltazar o curava. Jonas pegava a cruz da mão de Baltazar. (2º teste – Perseverança)

- É NISTO QUE TENS FÉ? É POR ISSO QUE FAZES ESTAS TOLICES?? - Jonas jogava a cruz contra o chão, e o garoto o olhava, já quase não aguentando o choro que lhe corroía. No momento que tentava pegar a cruz, Jonas pisava em sua mão, ferindo-a enquanto a esmagava. - REALMENTE ÉS UM INÚTIL!! TENS FÉ NUM PEDAÇO DE MADEIRA APODRECIDA!

- NÃO!... - Baltazar segurou a cruz com firmeza, sentindo a dor. - Fora a cruz que tu me destes quando vim para cá... Meu apego por ela é uma lembrança, mas o que ela representa é infinitamente maior e poderoso! Queime quantas cruzes quiser, mas Deus sempre será Deus. Estes pedaços de madeira serão sempre uma lembrança, e nada mais que isso. (3º teste – Significado (Discernimento))

Jonas mostrava irritar-se, chutando o rosto de Baltazar, fazendo-o cair para trás. O clérigo se aproximava. - Falas de Deus, mas sabes tanto ou mais coisas que não deveria! HEREGE!!

- A Fé cabe a cada pessoa! A doutrina será ditada pela Igreja! Mas todo aquele que tiver amor por Deus, terá o céu garantido!

- BLASFÊMIA!! - Jonas chutava Baltazar, uma, duas vezes. - NÃO SERVES PARA SER CLÉRIGO, COM TAL PENSAMENTO!!

- Ninguém pode mandar no coração do homem, senão Deus... Argh... Mas como podes mandar alguém a fogueira se seu coração é bom?... A doutrina a qualquer um pode ser ensinada... Mas a Fé dependerá do espírito! (4º teste – Sapiência)

Jonas o olhava. Baltazar cuspia um pouco de sangue enquanto derrubava lágrimas. Jonas o pegava pelo pescoço, levantando-o, olhando-o nos olhos. - Tu venderias tua alma para o demônio, Baltazar? RESPONDA!

- NUNCA!! Argh!! - Jonas apertava mais o pescoço do jovem.

- Ele te dará Ouro, Baltazar! Ele te dará Poder! Venda tua alma para o demônio, ESTÚPIDO!!

- NÃO!! Mesmo que dessem-me um reino!! MAIS VALE O PÃO SECO E JUSTO DE DEUS, QUE A COROA DE OURO DE UMA DAS CABEÇAS!!!Argh!... DO DEMÔNIO!!!!

Baltazar era jogado no chão enquanto sentia Jonas ficar pior naquele momento. Quase lhe era uma alma negra em volta do corpo. Kalil olhava preocupado, mas mantinha-se firme, prestando atenção do que acontecia. Manoel e Ling Pa perguntavam-lhe o que estava acontecendo. A única resposta era um cruel “shhh”...

- Tu, por teu mestre, e por Deus, venderá a alma ao demônio e fará o Império!!

- O Império feito pelo demônio, não é um império feito por Deus! Prefiro morrer faminto a beber uma gota de vinho da videira do demônio!

- A IGREJA TIROU-LHE DOS PAIS!!

- E FEZ UM NOVO SALVADOR PARA OS HOMENS!!! - Baltazar se levantou, seu cosmo elevou-se queimando e derretendo a neve a volta. - DEMÔNIO ALGUM HAVERÁ DE VENCER-ME!! (5º Teste – Integridade)

- Tu venderias tua alma para o demônio para o bem da humanidade, Baltazar? RESPONDA!

- Se como Cristo, devo perecer para a salvação do Homem! Fazê-lo ei sem qualquer arrependimento!!

- Serias usado como carniça, senão para macular outros homens!

- Vendi a alma, mas não significa que cederei meu corpo para causar o mau!

- E se no contrato estiver!?

- Eu... Eu... EMPUNHAREI A ESPADA DE FOGO DE MIGUEL ARCANJO!! E FAREI O DEMÔNIO VOLTAR PARA O INFERNO!! MESMO QUE MEU CORPO E ALMA QUEIME NO PROCESSO!! O DEMÔNIO NUNCA VENCERÁ!! SE ESTA É A ÚNICA ALMA A SER SALVA, ENTÃO ESTA SE SALVARÁ!!! (6º Teste – Sacrifício)

Jonas então, como Jesus que transformou a água em vinho, transformou o cosmo pesado em vil numa aura angelical. Ele olhou para Baltazar, que se mostrava ofegante e confuso com seu mestre.

- Baltazar... - Voltou a uma entonação paterna. - Quando firme está de suas palavras?

O garoto chorava, caia ajoelhado e olhava para Jonas e para o céu, com as mãos sujas de terra, assim como a batina que usava. - Firme... Como a vontade e as ações de nosso Deus, em toda sua Sabedoria... Tenho por mim como juramento... (7º Teste – Resoluto (Firmeza))


Jonas abraçava Baltazar, e este enfim deixava-se esmorecer. Os três homens se levantavam. Manoel coçava a cabeça, procurando entender. Ling Pa balançava a cabeça, imaginando que ocidentais eram loucos. Kalil ria levemente com satisfação, vendo o sucesso do garoto. Jonas se afastava um pouco do garoto e olhava para os três homens. - Eu vos apresento Baltazar! - Jonas virou-se para o jovem. - Baltazar... Jura, com deligência, desempenhar seu papel, desempenhar as funções do sacerdócio, respeitando e obedecendo seus superiores religiosos?

- Jonas? - Baltazar o olhava, e depois para os três homens. Kalil fez um sinal para que seguisse em frente. - Juro...

Jonas então colocava as mãos sobre os ombros de Baltazar, tomando silêncio e elevando sua aura pacífica.

[align=center]- Veni Sancte Spíritus reple tuórum corda fidélium,
et tu amóris in eis ignem accénde.
Emítte Spíritum tuum et creabúntur.
Et renovábis faciem terrae.
Oremus:
Dominus,
qui corda fidélium Sancti Spíritus illustratióne docuisti da nobis in eódem Spíritu recta sápere,
et de ejus semper consolatióne gaudére.
Per christum Dóminum nostrum.
Amen. [/align]

[spoiler=Tradução]Vinde Espírito santo,
enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso
Amor e enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra.
Oremos:
Ó Deus que instruíste os corações dos vossos fiéis,
com a luz do Espírito Santo,
fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos da sua consolação.
Por Cristo Senhor Nosso.
Amém. [/spoiler]

Após a oração, Jonas pedia para que Manoel trouxesse a bolsa que havia trazido. Com a licença de Baltazar, tirava dele a batina imunda, e lhe dava outra branca como a neve do inverno. Ajoelhado, Baltazar recebia uma estola e uma casula. Lava-lhe as mãos, que limpas, recebiam o crisma (óleo). E então lhe era entregue uma taça e uma patena (prato) banhada em ouro com as quais presidiria a eucaristia. Colocando vinho na taça e a hóstia na patena, faziam a transubstanciação. Feita a Oração Eucarística, Baltazar era ordenado padre. Kalil, Manoel e Ling Pa prestavam seus parabéns.

- Agora tu és um padre ungido, Baltazar. Por 12 anos estivemos juntos, e tu hoje es um homem. Jovem, mas um homem. Tens o dever de seguir com teu juramento. E lembra-te sempre as palavras que disseste a mim hoje. Passaste por um teste onde mostrou-me sua Fidelidade, Perseverança, o Significado ou Discernimento, a Sapiência, a Integridade, o Sacrifício, e mostrou-se Resoluto. Tens muito ainda para viver. E sabeis disso. Miguel terá, a partir de hoje, olhos atentos em ti. Sejais um exemplo para todos aqueles que abandonaram o caminho. Tu es irmão. Volte a tua casa. Mostra aos teus pais o que tornastes. Ide em paz!

- Mas Jonas! Vaz embora?! - Perguntou Baltazar

- Temo dizer que sim, pois Roma necessita de meus serviços. Seguiremos viagem juntos por mais um tempo, receio que não nos encontraremos mais, ao menos, até que Deus o queira.

Enfim, após um reunião filosófica e um pouco de vinho entre todos, faziam uma oração para o Grande Arquiteto, Deus. No dia seguinte, Jonas e Baltazar iam embora, assim como os outros, cada um para sua região. Jonas então seguiria para Roma, e Baltazar para Âncona, ver sua família. Jonas deixava com seu ex aprendiz alguns livros, e dizia que a sabedoria vinha de todas formas, e as oportunidades deveriam ser procuradas.

Offline Profile Goto Top
 
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=center]EPISÓDIO 4: BALTAZAR, CLÉRIGO E INQUISIDOR [/align]

[align=center][YOUTUBE]http://www.youtube.com/watch?v=Fs_AgCTovik[/YOUTUBE][/align]


[align=center]Capítulo XVI – Voltando para as origens.[/align]

Era dia 10 de Janeiro de 1532. Baltazar havia retornado para sua cidade de origem. Âncona ainda era a mesma cidade de sempre. Apesar de muita coisa ter acontecido entre Papas e Reinos, nada havia mudado.

O Clérigo andava com confiança, com uma aura pacífica, vestindo sua batina, deixando as outras coisas que havia ganho guardadas numa bolsa, onde também se encontravam os livros de seu tutor, Jonas. Baseado em cartas e comerciantes, o jovem seguiu para sua velha e antiga casa.

Quando a viu, voltou todas as lembranças para si como que a chave de um bau. Lembrava-se do rosto de sua mãe. Lembrava-se do rosto de seu pai. Mesmo muitos detalhes lhe fugissem, a sensação era conhecida. Abria um sorriso enquanto as lágrimas de felicidade vinham a mente. Como poderia ter aguentado ficar tanto tempo fora de casa? Tinha pouco mais que dois anos, mas ainda se lembrava do carinho. Se lembrava da força de seu pai e da delicadeza de sua mãe. Correu... Correu levando consigo o vento.

- Pai!! Mãe!!... PAI!!! MÃE!!! - Corria o garoto, aproximando-se da porta de madeira. Bateu por três vezes, sem ouvir ninguém. Não havia mais ninguém em casa? Pensou ele. Tentou abrir a maçaneta, que parecia dura, como se estivesse enferrujada. - Pai? Mãe? - A porta se abriu com um ranger. Havia muitas teias de aranha. Uma das panelas ainda estava no fogão junto a um tempero que parecia queimado. A lenha estava toda utilizada, em cinzas. As lágrimas começavam a ficar tristes. Mas ainda tinha esperança. Seus pais tinham de estar lá!

Baltazar andou pela casa, mexendo nos armários. Muita coisa estava estragada ou seca. A gordura usada para guardar carne mostrava-se inutilizada por anos. Saia correndo para fora, procurando o barco. Não havia mais barco. Apenas um tronco velho preso à areia. Aproximou-se. A corda estava desgastada pelo tempo, desfeita na ponta que vivia em contato com a água salgada do mar. Seu coração começava a doer. Colocava a mão sobre ele enquanto as lágrimas aumentavam, e ajoelhava-se, segurando a cruz.

- Por que?... Por que, meu Deus?... Por que levaste os pais de teu humilde servo?... Entendo que possa ser uma provação, mas não poderias ter deixado que os visse ao menos mais uma vez?... Pai... Mãe...

Baltazar agarrava a areia molhada da praia. Mantinha a cabeça baixa enquanto chorava em silêncio. Tentava parar, olhando para o mar, como se esperasse alguma coisa, mas nada acontecia. A dor voltava, continuava chorando...

- Filho? - Um homem de grande idade se aproximava do jovem Baltazar, tocando-lhe o ombro. Ele virava o rosto.

- Por que?... - Baltazar agarrava-se a batina do padre. Era Romeno, já mais velho, que colocava a mão em sua cabeça, sentindo pena do garoto.

- Deus tem muitos mistérios... Muitas provações... Seus pais também sofreram muito com sua partida... A luz que havia na casa havia se perdido... Iluminava-se apenas quando recebia alguma carta vinda de Roma... Mas era temporário... Não acalentava a dor que tinham no peito... Sua mãe adoeceu após algumas semanas... Seu pai não pescava mais com tanto afinco, trazendo cada vez menos para casa... Trazia para Igreja um pouco, dizendo que era para que Deus cuidasse bem de seu filho e o mantivesse forte... Sofreram muito... Baltazar... Seu pai pegou tuberculose, e ainda sim cuidava de sua mãe... Levou-a junto dele para a pesca, para que pudesse olhá-la sempre... Mas infelizmente, não voltaram do mar... A água que fervia havia secado. O tempero queimou-se. A lenha fez suas últimas brasas... As pessoas preferiram não mexer na casa... Não sabiam qual seria a reação de alguém que ali chegasse... Apesar de estar nas terras da Igreja, eu falei a todos que ainda havia um descendente, e ele retornaria...

- Dá a casa para a Igreja... - Baltazar levantava-se, enxugando as lágrimas e respirando fundo. - Dá à Igreja... A Deus pertence este humilde servo. A Deus pertencerá esta casa. Que ela seja santificada mais uma vez, e sirva de asilo aos viajantes... Não poderei manter-me aqui...

Romeno baixou a cabeça em sinal respeitoso. Abraçou-o com um dos braços e levou para a igreja. Lá oraram pela vida de Bianca e Ricardo por mais uma vez. Baltazar limpou a alma da tristeza por seis dias, e no sétimo decidiu procurar seu caminho. Escreveu uma carta, encaminhando-a a Roma, para Jonas, atestando o ocorrido.

Junto do padre Romeno começou a limpar a casa de seus antigos pais. Ficou em silêncio por muito tempo, encontrando o quarto e uma pequena cama. Podia ouvir o choro de bebê e ver o sorriso de sua mãe enquanto ouvia a voz de seu pai trazendo a felicidade em sua voz. Talvez não fosse uma lembrança. Talvez fosse uma montagem de sua mente. O fato era que os sentimentos naquele lugar eram fortes, e não conseguia vencê-los por muito tempo. Varria o chão chorando. Tirava a poeira dos móveis, encontrando um desenho na parede. Lembrava de seu pai riscando o desenho com um objeto pontudo, embora não lembrasse o que era. Respirou fundo, pedindo que Romeno terminasse aquele local...



[align=center]Capítulo XVII – Uma luz trazida pela Lua.[/align]


23 de Janeiro. Baltazar já havia terminado de limpar a casa de seus antigos pais e a usava ainda um pouco apenas para que se estabelecesse. Esperava uma resposta de Roma para ver qual seria sua próxima missão. Neste dia passou pela taverna, onde fora bem recebido. O taverneiro, já ciente da história do jovem, servia-lhe uma taça de seu melhor vinho. Quando questionado, dizia que a bebida ajudava a esquecer algumas coisas. O jovem sorriu por uma vez em dias, e aceitou a oferta, comprando algo para que pudesse comer.

Então apareceu um homem. Um senhor de pouca idade trajando roupas de couro e algodão. Sentava-se ao lado do Clérigo, no balcão, parecendo preocupado. Virou-se para o jovem garoto, pedindo sua benção, percebendo sua juventude após receber em sua testa o sinal da cruz. O homem inquiriu-lhe, e Baltazar explicou que fora para a Igreja muito cedo, aprendendo muitas coisas em Roma e na França, com seu antigo tutor e Bispo, Jonas. O homem se apresentou como Giuseph, um mercador que havia se estabelecido na cidade há alguns anos, antes do saque feito a Roma por Carlos V.

- Você é o anjo? - Perguntou Giuseph, após algumas outras perguntas. Contudo, fora bem discreto. Baltazar sorriu de leve. - Dizem... Mas a verdade é que nasci com um dom... - Baltazar tocou o pulso do homem, elevando a aura sutilmente. Espantado, o homem e olhou, pegando o pulso com a outra mão. - Como sabia?

- Nasci com alguns dons que com algum esforço, posso curar, e também ver o que se passa aqui – Apontou a cabeça. - Mas nada como imaginas... Vejo somente o que tu pensas no momento...

O homem achou inacreditável. Suspirou fundo, pensativo. - Posso lhe fazer um pedido?

- Digas o que queres, e direi se posso fazê-lo. - Respondeu Baltazar.

- Quero que ensine minha filha, Luna, os seus conhecimentos... Casei com uma pagã, e a amo, mas viajo muito. Gostaria que passasse a doutrina da Igreja para minha filha, para que tenha o mínimo. Posso pagar-lhe com moedas de ouro.

- Aguardo uma carta de Roma, senhor. Farei para ti de graça. Mas não tema a origem de tua consorte. Se ela tem bom coração, entender-te há.

- Pois bem... Levarei Luna a sua casa.

- Permita-me ir a tua. Não seria bem visto deixar uma moça sozinha com um clérigo. Inclusive, será melhor para que mostre-me a tua esposa, e não haja infortúnios...

- Esperava que dissesse isso, jovem clérigo. Moro há vinte quadras deste local, para o norte. Pergunte por Giuseph Mercador, e não ficará a deriva.

- Amanhã pela manhã, caro Giuseph. Arrumarei as coisas para que eu possa passar para ela meus conhecimentos.

Os dois se cumprimentaram. Baltazar terminava de se alimentar, e Giuseph, de beber. No dia seguinte Baltazar levou alguns de seus livros para que pudesse dar início a algumas matérias para a filha de Giuseph. Passou as vinte quadras da taverna, em direção ao norte. Perguntou a pessoas que se encontravam na rua e logo encontrou a casa. Bateu na porta por três vezes e uma mulher, de pele bronzeada pelo Sol, cabelos pretos e ondulados, olhos castanhos claros, quase que alaranjados, o recebeu.

- Bom dia, senhora. Tu serias a consorte de Giuseph, Héstia?

A senhora o olhou, percebendo que era um clérigo. Seus olhos meio que voltaram-se para dentro da casa, retornando o foco para Baltazar em seguida.

- Sim, bom homem. Entre. Giuseph avisou-me de sua chegada. - Ela escancarou a porta e moveu o corpo para o lado, ficando junto a ela. Baltazar entrou e olhou o lugar. Havia plantas penduradas por todos lados. Um pequeno altar com um santo e velas, havendo junto um pouco de terra, folhas, incenso e um pouco de água em uma tigela. Mais acima uma cruz com Cristo, e abaixo do altar, uma pequena prateleira onde se encontrava uma Bíblia. Imaginou que Giuseph e Héstia haviam conseguido unir suas fés em um espaço. Via como bom, e apesar de ter elementos pagãos junto aos elementos cristãos, parecia que não teria problemas, desde que não o procurassem.

Giuseph então se apresentou, com roupas mais banais. Uma leve camisa, calça e sandálias. - Bem vindo, Baltazar! Aquele que descende dos anjos! - Falou exaltando Baltazar.

Héstia olhou com curiosidade e um pouco de apreensão. Giuseph não havia sido assim tão espontâneo na taverna, mas o fazia em casa. Talvez quisesse surpreender a mulher com seu achado. Ele se aproximava da mulher de traços delicados, pegando as mãos finas dela com suas mãos grossas. - Deixe ele lhe mostrar uma coisa...

Héstia o olhou séria, mas seu marido insistiu, mostrando o pequeno corte, quase cicatrizado que ela tinha nos dedos. Baltazar pediu perdão, e se aproximou, pegando a mão da jovem senhora com leveza. - Tu acreditas em Deus e neste humilde servo?

- Acredito, mas... - O jovem clérigo elevou sua aura, mostrando ao redor do corpo uma silhueta branca. O ferimento se fechava e cicatrizava por completo. Baltazar olhava para Héstia, que o olhava séria e surpresa. Ela retirou levemente a mão. O clérigo olhou-a nos olhos.

- Vou chamar Luna... - Héstia retirou-se. Giuseph coçava a cabeça e levava Baltazar para a mesa. - Ela não está acostumada com isso, nem tem a fé cristã que eu tenho. Mas por favor, não sinta-se indesejado nesta casa. Ela precisa se acostumar com as pessoas. - Disse o homem com suas calças largas.

- Eu compreendo. Também, mesmo que seja um clérigo, não é comum que estes de fato curem as pessoas, embora, eu só usei o que ela tinha. Como diria nosso mestre “Eu não o curei. Tua fé te curou”. Tua esposa tem um espírito forte, senhor Giuseph. A princípio, pelo que vejo, escolheste muito bem.

- Sim sim. Ela cuida de mim e de minha filha como nenhuma outra mulher. Preza pela casa, e não sinto medo de deixá-la sozinha dois ou três dias sozinha. Sou um homem de sorte, e faço questão de tratá-la como a mais preciosa das mais preciosas joias! - Giuseph riu levemente, sentando à mesa. Baltazar também se sentava quando Héstia retornava com uma garota de aproximadamente dez anos, cabelos compridos e escuros, lisos como os cabelos do pai, de olhos castanhos e uma pele alva. - Olá minha princesa! Este será seu professor, Padre Baltazar! Ele é um anjo... - Sussurrou a última parte. A garota abria um sorriso, e ia para trás da saia da mãe, ficando apenas com um olho a vista.

- Nunca vi ninguém loiro assim. Você é daqui? - Perguntava Luna. Baltazar respondia. - Nasci aqui em Âncona, numa velha casa que será entregue a Igreja.

Luna sorria. Um doce e leve sorriso de criança, ostentando muito de sua mãe na aparência. Era linda, ainda jovem, e Baltazar simpatizava com a pequena conforme os dias iam se passando. Já poderiam se considerar amigos, aprendiz e mestre, e Giuseph apoiava isto. Aos poucos Héstia também começava a conversar com Baltazar. Sentia mais confiança, vendo que o jovem não era apenas um garoto com alguns dons, mas praticamente um homem, antecipado por filosofias e dores além da idade que tinha.

Giuseph, como dito, era um mercador. Vendia tudo que pudesse. Dizia que se tivesse tempo para convencer as pessoas, faria comprar até o ar que respira próximo a venda que possuía. Conversar era um talento, e seu carisma era grande, conhecendo muitas pessoas, desde pequenos pescadores até alguns nobres.

Héstia era pagã. Aceitou vir com Giuseph por seu amor a ele. Tivera muitos problemas no início, mas conseguiram manter-se unidos. Era um tanto receosa, pois já viu parte da família ser queimada na fogueira, além das histórias de inquisidores como Torquemada, que quase levou sua avó, já falecida pela peste. Dominava bastante a manipulação de ervas, conhecimento que foi recebido alegremente por Baltazar, trocado por outros que havia aprendido com Kalil. Desde esse momento, tiveram boas relações.

Luna tinha dez anos. Educada pela mãe, sabia de ervas quase tanto quanto a mãe. Fazia ritos para cada coisa que ia fazer, usando incensos e velas. Acreditava, como a mãe, que a limpeza física e espiritual de um ambiente proporcionava paz não só ao corpo, mas também ao espírito, além de chamar boas energias para aquilo que iria fazer. Era doce e meiga. Tinha um sorriso peculiar que atraia muito Baltazar. Seu ânimo era grande, e deixou o jovem clérigo muito feliz, vendo uma nova luz no caminho. Convivendo com ela, percebeu muito do amor que perdeu ao deixar a própria casa para cumprir os anseios do destino dado por Deus. Nela focou um tanto de sua felicidade, curando seus pensamentos suicidas, seus desânimos e suas insônias. Esquecera inclusive da carta que havia mandado a Roma. Tratou de vir a casa de Giuseph como se lá fosse ficar sempre. Passou inclusive a ensinar mais coisas além da doutrina. Ensinava-lhe filosofia e o teologia, ensinava-lhe matemática, ensinava—lhe basicamente algumas línguas e um tanto de história. Héstia e Giuseph aprovavam, e o mercador fazia questão que almoçasse e jantasse em sua casa, embora o jovem não se esbaldasse de forma alguma com os alimentos oferecidos, comendo somente o que lhe era suficiente.
A casa enfeitava-se com alguns desenhos. Baltazar lhe ensinava uma caligrafia especial, que lhe permitira enfeitar livros. Fê-lo com os do pai, deixando sempre um pequeno símbolo de amor ao final de cada página.

Pelos dias e tardes, Baltazar, Luna e seus pais seguiram nesta rotina...


[align=center]Capítulo XVIII – Os 7 livros de Jonas e a Carta de Roma.[/align]

Durante o tempo que Baltazar instruiu Luna, o clérigo foi levando consigo os livros que Jonas havia lhe dado para mostrar e auxiliar a jovem a estudar. Cada livro tinha um tema específico: Filosofia Antiga, Matemática, Arte da Guerra, Livros Apócrifos, Artes e Literatura, Biologia, e o último de Teoria e Teologia Pagã, abordando os ditos sobre Deus e Deuses, sincretismo e origens. Deveras, alguns deles proibidos, podendo inclusive condenar apenas por saber da existência, quem dirá então da leitura. Mas, Jonas havia lhe dado e deixado sob própria responsabilidade. Baltazar entendia que passar tais pensamentos para frente poderia, certamente, ser um problema, mas lendo e relendo os livros pôde perceber algumas coisas diferentes. Haviam várias marcações grosseiras, muitas sem um nexo. Mas as analisou e teve a curiosidade de juntá-las, formando algumas frases. Lembrou-se nesse momento de Jonas, que assiduamente, passava dias e noites estudando em cima destes livros, faltando dia ou outro nas reuniões do grupo da “loja”, onde Baltazar acabava por ir sozinho. Começou a percorrer os outros livros. Também tinha marcações. Mas a medida que as juntava, as palavras mostravam não fazer sentido uma com a outra. Teria, talvez, se enganado?
Deixou um pouco de lado, focando-se na jovem que durante o ano de estudos havia completado onze anos. Mas sonhando, começou a se lembrar dos livros. Sonhava com eles. Ouvia e via seus lábios se mexendo. A sonoridade das palavras. Acordou numa noite chutando o cobertor para o alto, correndo atrás dos livros. Pegava uma das frases e a lia em voz alta. As palavras tinha sonoridade parecida em línguas diferentes, tomando significados diferentes. Algumas palavras pareciam criar meia de uma ou duas. Foi ai que entendeu que os livros estavam criptografados, mas o que Jonas queria passar para Baltazar? Recebia várias cartas de Roma. Algumas lia por diversas vezes e queimava. Outras ficava a colocar ao lado dos livros e a fazer anotações nestes sem um propósito específico enquanto que o filho do pescador se retirava para suas orações e reuniões. Alguém, talvez, quisesse passar algo por meio Jonas? Lembrava-se do velho Miguel a quem Jonas sempre mencionava como mestre. Mas não tinha como ter certeza. Passou a noite em claro, dormindo apenas três horas, ficando a raciocinar em cima dos livros.

No outro dia de manhã, o clérigo recebia uma visita de Romeno na casa de seus pais. Tinha em mãos uma carta, que por um momento fez Baltazar respirar fundo. Guardou-a sem abri-la. Passou a conversar um pouco com o padre, que comentava sobre os pais do jovem, trazendo um pequeno colar de ouro. O jovem clérigo o pegava, e ficava a encará-lo. Não tinha tantas lembranças para que pudesse definir o que era aquele colar. Romeno contava que era um presente de Ricardo para Bianca, comprado por ele e entregue a Romeno com um pedido: que o padre o abençoasse, para então dar a mulher. Mas naquele dia a mulher havia falecido, e Ricardo não voltou para buscá-lo. Baltazar o segurou e guardou, fechando os olhos. Os pensamentos pareciam lhe trazer o desânimo, mas deixou-se inexpressivo.

- Tenho de conversar com Luna e seus pais... - Baltazar fazia um cumprimento, curvando o tronco, e saia, levando consigo os livros.

Na casa de Giuseph, Baltazar abria a carta revelando a todos a mensagem que vinha de Roma. Ela o convidava a ser Inquisidor da Espanha. Luna entristeceu-se, e Giuseph cruzou os braços, pensativo.

- Demorou tanto que pensei que não viria mais... - Disse Giuseph.

- Roma tem seus motivos... Fiz um juramento e devo cumpri-lo... - Respondeu Baltazar.

- Eu compreendo, clérigo. Mas Luna ficou tão animada com a aprendizagem que eu não gostaria de tirar isso dela... - Giuseph.

- Confesso que também fiquei surpresa. Mas estava claro desde o início, não? Até receber a resposta de Roma. - Héstia.

Ficaram todos a meditar sobre aquela ordem. Não que por conta disso Baltazar deixaria de ser o que era, mas pelo bem que sentia estar fazendo ali, gostaria de ficar.

Passou-se alguns dias, entre estudos e conversas. Giuseph havia conversado com Héstia sobre Baltazar levar Luna consigo. O Clérigo, a princípio, não aceitava a separação da jovem de sua família, e nem Héstia queria deixar a filha fora de seus olhos, ao menos, tão nova. A decisão firmou-se apenas quando Luna trouxe consigo um baralho e os jogou sobre a mesa. Era um tarô, onde ela leu as cartas sobre o futuro de Baltazar, e o viu com dificuldades muitas vezes, mas mostrava-se, em sua leitura, grandes conquistas. O clérigo a ouviu e percebia que ela lhe tinha muito carinho. Olhou para Giuseph, e percebeu que queria ficar com a filha, mas temia que os poucos costumes pagãos levassem-na para a fogueira, preferindo que estivesse viva com alguém de confiança. Héstia sentia o coração apertar. Ficou um dia calada e depois aceitou, com muita hesitação.

Baltazar e Luna receberam um cavalo da Igreja, e partiram para a viagem. Héstia estava na cozinha, olhando-os pela janela. Chorava intensamente enquanto pegava as cartas. Giuseph ficava na porta, olhando a filha partir. Abraçou a esposa.

- Ela viu o futuro dele, Giuseph... - Embaralhava as cartas, fechando os olhos. Sacava uma com a leveza das mãos.

- Sim, e foi bom, não foi?

- Ela não viu o dela, Giuseph...

Héstia tirava uma carta enquanto tentava segurar o choro. Não para Baltazar, nem para a viagem que fariam. Não era pra Giuseph, nem para ela. Não era para Roma, nem para os reis da Espanha. Era para a filha, que muito amava. Seus olhos caíram em lágrimas, levando a mão a boca, sentindo uma imensa dor. Giuseph a abraçava, vendo a carta. A abraçava forte.

- Eles ficarão bem... Eles ficarão bem... Um Anjo está com ela... Meu amor...

[align=center][spoiler=Carta]Posted Image
A MORTE[/spoiler]
[/align]



[align=center]Capítulo XIX – O novo Inquisidor da Espanha.[/align]

Baltazar e Luna cavalgaram para a Espanha. Levaram os livros e seus conhecimentos. Levaram sua fé, e também o amor que tinham por Deus. Levaram comida para a viagem, e não trataram apenas de caminhar e olhar a paisagem. O tempo era aproveitado por conversas onde o clérigo citava trechos para que Luna lesse e interpretasse, falando em alto e bom som as sílabas, passando para uma ou outra língua que tivesse aprendido com ele. Isso auxiliou fixar seus conhecimentos e também a adquirir novos.

Durante a noite, Baltazar continuava a montar os pedaços daquilo que seu tutor queria lhe passar. Luna cozinhava algo para que comecem e parecia ter um tanto de prazer em fazer aquilo enquanto o clérigo prosseguia com os próprios estudos.

Os empecilhos para descriptografar aquilo eram simples de entender, mas difíceis de serem executados. As línguas se misturavam a todo momento, assim como algumas partes davam pistas de seu prosseguimento em outro livro, precisando, por vezes, ficar com os sete livros abertos para percorrê-los.

Para o auxílio, num oitavo livro era escrito a mensagem de Jonas. Haviam vários rabiscos para correções feitas, pois além da lógica, precisava seguir seus instintos, imaginando o que o Jonas faria naquele momento. Essa passou a ser a rotina de Baltazar e Luna durante a viagem, onde ela dormia e acordava com Baltazar em cima dos livros, já que três horas lhe eram suficientes para o sono.

Nas andanças encontraram pessoas sofridas e ladrões. Luna viu, pela primeira vez, um clérigo que sabia manipular um chicote, colocando os ladrões de joelhos. Atenta, sem saber o que aconteceria, via apenas o clérigo curar seus opressores e dar-lhes uma moeda ou um pouco de comida. Isso quando não sentava para conversar e ouvir a história destes homens, sofridos.

A aura de Baltazar, apesar de boa, não impedia os malefícios. Mas quando conquistava a porta do coração dos homens, lhes fazia sentir melhor. Ele mesmo acabou por jogar nas línguas aquilo que ouvira desde muito tempo atrás “Aqueles que descende dos anjos”, começando sua fama pelo terreno espanhol que em poucos locais faziam ideia de sua existência, mas não acreditavam...

Em 20 de Janeiro de 1533 os dois chegam em Madri. Naquela década os turcos haviam avançado mais uma vez para a guerra contra os cristãos, desta vez por terra. Contudo, Carlos V, com o apoio do Papa Clemente VII, conseguiu impedir a invasão, mantendo-a no Mediterrâneo, atacando as em suas próprias águas, mas os turcos havia fugido.

Baltazar fazia contato com a nobreza, apresentando Luna como sua aprendiz. Apesar da estranheza de alguns, tanto pela garota ao seu lado, como pela juventude, a carta de Roma era verídica, analisada por documentários e sacerdotes locais. Lhe davam comida e um abrigo bem simples, a pedido do clérigo. Mantinham-se na cidade, fora de castelos. Gostava, como Jonas, de ver as pessoas que estavam sob a tutela do reino espanhol. Com um local fixo era mais fácil guardas as próprias coisas e ser encontrado, tratando de enviar e receber cartas, contendo relatórios.

A partir daí começaram seus julgamentos...


[align=center]Capítulo XX – Uma pequena pausa para falarmos do Demônio.[/align]


Baltazar tinha um certo poder cósmico que lhe era suficiente para os trabalhos que desempenhava. Tinha consigo os anseios de um cristão e a reflexão da Justiça para fazer seus julgamentos. Trazia Luna sempre consigo, que o via pregar, mesmo fora das igrejas, além de falar com as pessoas em público, e usar um pouco da energia que tinha dentro dele.

Luna, mesmo que minimamente, podia ver a aura de Baltazar. Era mais sensível a ela do que as outras pessoas que sentiam passivamente aquilo que o clérigo passava pela energia que ele ostentava. Talvez fosse ela apenas uma portadora do cosmo, ou então tivesse alguma herança sensitiva pagã vinda de sua mãe. O fato é: Ela compreendia Baltazar mais do que as pessoas que o rodeavam por ser Clérigo, Inquisidor e um Homem Bom.

Apesar do jovem não perceber, mesmo antes de dormir a garota via o empenho do cristão em cima dos livros. O via reler tudo o que descriptografava, vendo, a cada dia, a compreensão do clérigo atingir novos níveis. Ela tinha esse carinho por ele, e gostava muito do rapaz, e por isso havia decidido ir com ele.

Baltazar também estimava muito a pequena criança que aos poucos se tornava uma adolescente. Cuidava dela como uma filha, mas a tinha muito mais do que isso. Cuidava dela com um amor e um grande carinho, como se ela fosse Lúcifer, que quando ainda bom, era o anjo mais querido de Deus dentre todos os outros. A tinha como seu braço direito e apoio, e conversava muito com ela sobre filosofia, deixando para pegar nos próprios estudos apenas quando chegava o entardecer.

Durante os dias, muito foi aprendendo. Conforme os textos se alongavam, entendia que os livros de Jonas falavam do princípio criador divino, ou o que poderia ser chamado pelos gregos de Alquimia. Esse era o fenômeno de transformar as coisas já existentes em outras, possibilitando moldar o aspecto físico. E usando sua aura, Baltazar tentava transformar o ar a sua volta usando meditações enquanto que a própria Fé, crente na inexistência de tal poder, fazia erguer a aura. E nestes momentos começou a entender também o aspecto material de sua energia...

E assim, sentindo Luna e Baltazar, o demônio, há muito tempo morto, retornava para aquelas terras para vigiar as novas formas que se mostravam naquele lugar onde uma vez poderia chamar de próprio.

As sombras de Baltazar aumentavam vez ou outra. Seus ouvidos distinguiam sons estranhos, e muito mais fortes do se lembrava surgir em sua infância. O que diabos estava acontecendo?
”Olá, Anjo... Baltazar...” – Ouvia Baltazar, percebendo as palavras lentas e pesadas.

- Quem és? Onde estás?

”Eu sou alguém que um dia foi como a ti...”

- És um espírito descarnado? O que fazes no mundo dos vivos? Fostes impedido pelo demônio? Serias uma alma vil?

”Não... Eu sirvo ao Deus que tem nas mãos a Vida! E a Morte!... E este deu-me uma nova chance... Quereis conhecê-lo? Baltazar...”

- Tua voz não toca ao som das trombetas divinas! Pareces mais falar daquele que ostenta o fogo, do que Aquele que ostenta o céu!

”Não temais, meu jovem... Fui também inquisidor em minha primeira vida... Senão o maior, um dos maiores servos de Deus...”

- Então porque tens a aura tão fria e pesada, santo espírito?

”Pois não pude terminar a missão que recebi... E venho a ti, para auxiliar a cumprir a sua, que um dia foi minha, e assim poder descansar para o mundo prometido...”

- Como podeis ajudar-me, espírito? Por qual nome devo chamá-lo?

”Chamai de Tomás, este que será teu humilde amigo, e se permitirdes, mestre...”

- Quanto podeis ensinar-me?

”Tudo que tenho comigo... Percebo que em ti há uma grande aura, clérigo...”

- Descendente dos anjos, falam por mim. E devo assim apresentar-me para que não confundam com as maldades dos bruxos!

”Pensei que aclamavas por orgulho, mas é sábia sua decisão... Os bons não costumam... Ter bons fins... Imagino que Cristo, se nascesse hoje, estaria novamente crucificado pelos homens que temem até mesmo os atos de bondade...”

- Dizeis que há mais como eu?

”Muitos... E muitos nem percebem o dom, ou acabam por morrer por ele.”

Baltazar sentia uma aura fria invadir-lhe o corpo e sair. Sua mente começou a doer, o que o fez levar as mãos na cabeça, segurando-a. Seu cosmo se elevava sozinho, como se não o dominasse naquele instante. E num segundo seguinte, tudo parava, com exceção da voz.

”Precisas melhorar o poder de tua mente, Baltazar... Vou ensinar te algo que custou muitos anos de treino solitário. Para um juiz, que buscará a verdade, tal habilidade será de grande auxílio... Mas não podeis falar sobre isso a ninguém... Da forma que presto te auxílio, outros virão para tua ruína...”

- Eu compreendo, santo espírito! Mas o que queres dizer com isto?

”Deveras tu ainda és jovem para conhecer os segredos do mundo, mesmo tendo contigo tais livros dados por Roma!... Deveis ter conquistado muita confiança para isso! HA!... A mente humana tem uma profundidade que desconheces... Um espírito trouxe-me ensinamentos e conhecimentos, e tu, que tens o dom, e também uma mente, fisicamente mais capaz, há de conquistar mais controle...”

- Falas de ouvir o pensamentos dos homens?

”Sim... Baltazar... Ouvir o pensamento dos homens, assim como vasculhar cada lembrança herege que tenha teus julgados!... Muitos salvei e levei ao juízo utilizando tal poder!”

- Teu tom é de abuso, Tomás!

”Não há abuso que se faça para a justa condenação seguindo as leis de Deus! O errado é errado. O certo é certo!... Se pudesses pintar em tons de vermelho cada ser que aqui vive, de acordo com seu pecado, Baltazar... Achas que seria uma abuso? Ou lhe mostraria quem pode ser salvo, e quem há de perecer nas chamas?”

- Certamente, auxiliaria a todos, e até para os próprios verificarem as próprias almas...

”Pois então, concordais comigo!”

- Mas... - Era interrompido.

”Ensinarei te coisas para que possas trazer o arrependimento, e ver as mentes malignas e pecadoras que encontrarás em tua dura jornada!... Tens um chicote, CLÉRIGO?”

- Sim... Ganhei de um amigo, e se mostrou útil para evitar pessoas e...

”HA!... Já o compreendo, Baltazar... O chicote representa a justiça e o julgamento... Será por deveras útil...”

- Não devo usar um chicote, como clérigo, para julgar...

”HA!... Não diga tal asneira!... Os que merecem passar pelo infortúnio de tua sentença, ão de passar por ela! O chicote não será mais que um instrumento que se tornará simbolo...”

- Espere! O único simbolo que carrego de justiça, é a santa cruz, espírito!

”Ainda és jovem... Mas compreenderás conforme o tempo mostrar te a face oculta dos homens...”

E assim a sombra parecia ter sumido, assim como os sons. Baltazar preocupou-se, relembrando as palavras do tal espírito, sentindo em seu íntimo que não viria a ser uma coisa boa. Mas ele lhe ensinaria a dominar melhor seus dons. Então, o teria do lado até que pudesse prosseguir sozinho.


[align=center]Capítulo XXI – Luna[/align]

Luna é a aprendiz de Baltazar, e com ele vive em seus trajetos.

Desde a primeira vez que viu o homem adentrando a casa, teve curiosidade em conhecê-lo. Ela tinha dez anos, e o primeiro ano de aprendizado foi muito bem aproveitado. Gostava de seus elogios e de fazer as coisas que Baltazar pedia, pois muita coisa vinha a mente que nunca sequer saberia por sua mãe e seu pai.

Amava-os também. O pai, apesar de sempre preocupado com o dinheiro e a manutenção da casa, era alguém de muita confiança. Quando vinha em casa, dava-lhe total atenção e a levava para brincar e conhecer novos amigos no mercado. A mãe, que sempre a manteve ao lado, ensinou-a desde pequena pequenos rituais caseiros, para a boa convivência. Ensinou-a tarô, e também a como manter uma casa. A cozinhar e tirar pó. A ajeitar coisas e costurar coisas. De fato, Baltazar não poderia ter uma aprendiz melhor que poderia, também, acabar por lhe ensinar coisas.

Falante e animada, embora quando parasse, parecia transparecer a calma de um luar, Luna sempre comentava alguma coisa com Baltazar, quando não consigo mesma. Tentou algumas vezes ensinar o clérigo a cozinhar, mas ele se metia em tantos pensamentos filosóficos que ficava a queimar algumas coisas ora ou outra.

Pequena e curiosa, perguntava muitas coisas sobre Deus, e as diferenças religiosas. Dizia Baltazar que Deus é aquele que pegou a areia em que andavam, construiu a natureza, fez o homem, e deixou que este vivesse. Deixou muitos mistérios, e muitos criaram lendas. Mas a verdade de fato, tinha de ser buscado no coração. E essa lição ela levava em seus pensamentos, entendendo em pouco tempo o que o jovem clérigo queria dizer. Não importava a doutrina que seguisse. Importava apenas a Fé em Deus.

Luna não tinha um claro desenvolvimento cósmico, mas parecia ser mais sensível a ele que qualquer outro humano comum. Gostava de olhar Baltazar, pois ele tinha uma aura que a reconfortava. Gostava de vê-lo estudar, e muitas vezes fingia dormir mais cedo para que pudesse ver mais claramente a aura do clérigo se desenvolvendo enquanto ele estudava.


[align=center]Capítulo XXII – Treinando com um Espírito Demoníaco[/align]

Não era possível ver, nem saber quem falava com ele. Muitas vezes perguntava para Luna, mas esta dizia não ouvir nada. Pensava ser alucinações, mas ele respondia, e por pior que o fosse, ainda lhe ensinava coisas. Não era possível ser apenas uma ilusão. A não ser que o livro despertasse algo em sua mente, não havia como. Os avisos de seus instintos não aquietavam quando Tomás estava presente. Algo no íntimo parecia dizer que algo daria errado. Mas Baltazar não desistiu. Com este se envolveu e conversou durante o dia, quando não o fazia também a noite. Luna começava a reclamar da falta de atenção dada a ela por algumas vezes, vezes tal que o espírito desaparecia e Baltazar voltava a se entreter com a jovem garota, treinando.

A telepatia era um dom natural de seu desenvolvimento cerebral. Mas usar incorretamente o cosmo em cima dele sobrecarregava, gerando as tais dores de cabeça. Tomás lhe auxiliou a doutrinar a aura e focá-la e canalizá-la da forma que deveria, inclusive para que criasse um fluxo com a mente do foco e a prendesse, podendo vasculhar o pensamento e não só ouvi-lo.

Começou assim, analisando um a um, cruzando olhares que por algumas vezes assustavam as pessoas ao redor. Mas estava aprendendo a manipular o cosmo de uma forma que não sabia que poderia. Não sabia que a aura era tão poderosa a esse ponto. Percebia que o dito “Sois a Imagem e Semelhança de Deus” era real, e trazia consigo a essência divina do espírito santo. O ânimo aumentava a cada dia, dormindo apenas três horas e se sentindo bem. Os livros que dia a dia ia descriptografando também lhe trazia novas observações. Ficava ora ou outra mais fácil. A vontade de terminar aquilo num único dia era presente a todo instante, mas não deixou-se errar. Cada linha, cada parágrafo, cada página. Lia-as e as praticava. O que poderia fazer com o ar que respirava? O que poderia fazer com pedras, madeira e ferro? Muito tempo ainda precisaria treinar para conquistar seus propósitos, e enquanto ia, treinaria sua mente com Tomás...

20 de Junho de 1533. Cabañas de la Sagra, próximo de Toledo.

”Vamos! Vamos Clérigo!... Tens mais poder para isso do pensas!!”

- Argh! Minha cabeça está estourando!

”Se não forçardes tua mente, não forçarás teus limites! Curar, apenas, não lhe auxiliará no teu propósito!”

Baltazar via a sombra a frente, e a encava nos olhos. Tentava penetrá-la, mas não conseguia. Vez ou outra recebia algo, que mais lhe parecia uma motivação para continuar.

- Como sei que está funcionando?

”Não saberás até conquistar a medida correta do controle!... Vamos! Se sabes tão bem curar com tuas mãos, sabes também focar a aura em sua mente e lançá-la!... Mente limpa!... Cesse suas dúvidas!... Se sou eu um demônio, não serias correto verificar minhas artemanhas?... Se crês tanto em Deus, peçais força para adentardes minha mente!... Vamos! Descendentes dos santos! Mostre-me teu poder!!”

- Arrr... É mais... Difícil... Do que... Parece...

”Difícil é crer que um homem suportou por nós todos os pecados da humanidade, e ainda foi crucificado pela mesma humanidade que protegeu!... Se dás valor a esta dor e ato, deves esquecer a dor de sua mente!...”

- Simmmm... Arrrrr!!

O clérigo tentava. Forçava a mente até onde não fosse mais possível suportar. Cansava, mas o Espírito lhe fazia retomar. Luna seguia com os estudos, escrevendo em papeis enquanto via Baltazar conversar com o tal espírito, onde ela, todas as vezes, buscava em suas cartas algo que falasse sobre o tal ser, e nunca vinha algo bom. Comunicava-se várias vezes com Baltazar, que se mostrava receptivo a conversa, mas nunca a decisão de esquecer aquilo. Parecia começar a viciar nos livros e na sede de conhecimento, embora falasse que só precisava descobrir mais um pouco.

Então chegava um padre e batia na porta da casa. O espírito sumia, Luna atendia e pegava uma carta. Era um pedido para se dirigisse a Toledo. Rumores estavam se espalhando, e ele deveria verificar suspeitas de bruxaria. Conversando com Luna, seguiram viagem alguns dias depois.


[align=center]Capítulo XXIII – A crise de Toledo[/align]

28 de Julho de 1533. Estavam em Toledo. Havia muitos rumores, mas nada constatado. Baltazar precisava investigar um crime de bruxaria, o que lhe deixou receoso, tanto por Luna, como também por se lembrar das palavras do espírito Tomás, que diziam haver tantos outros como ele, mas nem todos praticariam o bem.

Passou pela cidade buscando informações. Apesar de muitos informarem, a maioria deixava a porta entre aberta, ou simplesmente baixavam a cabeça sussurrando palavras. Evitavam aparecer, tornando mais complicado. Mas isso iniciava a ideia de uma má impressão. Conforme prosseguiu a busca pelas redondezas, ouvia boatos e comentários entre nobres e servos. Seus passos levaram para um local em específico. Um lugar que diziam alguns que lá trabalharam, possuir horários e locais bem determinados. Não que não fosse comum haver tal coisa na nobreza, mas os servos eram constantemente vigiados para não adentrar em locais e fazer comentários, além de um ar estranho percorrer o lugar e ouvirem sons vez ou outra quando todos estavam reunidos ou em afazeres.

15 de Agosto de 1533. Sem aviso, Baltazar chegou na tal morada. Sentia vir a presença do santo espírito lhe observar. Luna percebia mais uma vez, começando a esperar o pior. Mas nada aconteceu naquele momento. Em passos firmes o clérigo bateu à porta, e prontamente foi atendimento, embora percebesse a hesitação por parte do mordomo.

- Sou Baltazar... Permitas que eu adentre tua morada...

- Um momento, vossa santidade...

O barulho de pequenas trancas, e um pouco de atraso para abrir a porta. Tudo indicava que algo estava acontecendo por lá. Adentrava a morava, e era servido de chá, assim como Luna. Ela olhava com curiosidade, vendo como viviam os nobres.

- Ouvi rumores que há algo aqui... Poderias explicar-me?

- Não, vossa santidade. Nada de mau ocorre nesta casa. Há algum problema? - Perguntava o Mordomo, movendo os olhos.

“Percebas a hesitação... Os olhos não mentem... Jonas ensinou-o bem, Baltazar... Fostes treinado para ser Inquisidor, pelo vejo...”

O Espírito lia a mente do jovem Baltazar, e falava com ele mesmo que naquele momento não pudesse ser respondido. Luna olhava ao redor, e o espírito a olhava, começando assim a se mover.

- Vamos sentar em conversar, caro senhor...

Baltazar andava passando pelo mordomo. Este tentava guiá-lo, mas o clérigo seguia para onde queria, observando as ações do homem cujos olhos mostravam preocupação. Olhava para cima, vendo escadas. Depois olhava para o mordemo. - Leve-me lá em cima...

- Ham, receio que não deva, vossa santidade. Esta casa é deveras católica e religiosa. Não há demônios aqui.

- E quem falou em demônios, caro senhor? - O clérigo ia em direção do mordomo.

”Tens mesmo que usar as duras formas? Leias a mente dele, e verificarás a verdade...”

- Tu sabes mais do que falas... Devo dizer te que não sinto aura obscura. Mas deves mostrar-me a verdade...

- Não... Sentes? - Perguntou pausado e retoricamente.

”Baltazar... Eles estão lá em cima... São portadores de energia...” – O espírito era interrompido por um grito. Uma mulher descia correndo como nunca, gritando “Bruxo!”, e saia da casa antes que pudesse ser impedida. Baltazar, ao ver a cena, correu para os aposentos acima. O mordomo tentaria impedi-lo, mas o Clérigo era esguio e rápido.

No andar a cima, uma porta aberta. Já pegando a cruz ele correu em direção a ela e parou, com surpresa, na entrada. As mãos baixaram, o mordomo parou ao lado. Tentaria tirar Baltazar de lá não percebesse as ações que o Clérigo faria.

- São crianças... Como Luna...

Os gêmeos olhavam sem muito entendimento. O que haviam feito de errado? O clérigo se aproximou deles, vendo os olhos arroxeados. Os pais dos dois jovens, que ali se encontravam, já se posicionaram a frente das crianças.

- Mesmo que venhas por Deus, não podeis fazer mau a minhas crianças! - Falou Filipe, o pai dos gêmeos.

- Estes são aqueles que os rumores tratam com tanto receio?... Não sinto-lhes o mau...

- Houve uma profecia – Disse o mordomo – Que diz que o demônio nasceria com cabelos de fogo e olhos distintos. Parte dela se cumpriu...

- E por isso, os mantivemos em segredo... Até agora. - Falou Filipe.

”Baltazar..... São simples crianças, mas não baixe sua guarda. Podem agir de alguma forma não convencional.... Já vi garotos como estes usarem a energia para matar um grupo inteiro de homens...”

Luna chegava logo depois e olhava as duas crianças. Os olhos e cabelos da jovem contrastavam com os outros dois, embora tivessem a mesma idade. O Clérigo se aproximou mais do garoto, que estava mais próximo. Ajoelhou-se, ficando à altura, mesmo que os pais estivessem ali ao lado, com receio.

- Qual o seu nome?

- Zenon. E esta é minha irmã, Luzia.

Ambos tinham uma inocência. Tanto nas ações, como no olhar. Luzia voltou a tocar a harpa, e assim o Clérigo pôde ver a emanação cósmica da jovem, fluindo com a música. Tomás percebeu um problema que poderia vir a ocorrer no futuro. Ficou hesitante, mas falou para o clérigo.

”Baltazar... Neles há o fruto proibido! Deveis puni-los antes que cresçam!”

- Não tenho argumentos para que possa puni-los!

- Punir? - Perguntou o mordomo preocupando-se em oníssono com os pais. Luna olhou para Baltazar.

- É o espírito mau, não é Balt? É ele que está falando coisas para você. - Falou Luna.

- Ora! Não há demônios aqui! Há duas crianças com dons herdados de santos! Quem fez tal tosca profecia? Sou o Inquisidor Baltazar, e nada vejo além almas puras com uma manifestação de cor diferenciada no olhar! E que ainda sim, mostram a inocência e a bondade, inclusive em tão bela melodia!

- A avó deles... Uma católica ferrenha como deve ser a ti, padre. - Falou o Mordomo.

”TOLO! Tais seres podem crescer e se tornar aquilo que há de pior! Pense como os bruxos que após o aprendizado fazem absurdos quando crescem e amplificam seus poderes!”

- Sem crime, sem culpa! Não havendo provas além de meras palavras, não há o que ser feito!

Os pais se aliviam um tanto, pois eram as palavras do Inquisidor Espanhol. Contudo, o mordomo olhava para o homem com estranheza. Falava ele sozinho? Aproximou-se das crianças e Luna olhava para Baltazar, que começava a manifestar a energia de seu corpo, esboçando uma aura branca. O mordomo se impressionava, assim como os pais que o olhavam. Zenon e Luzia pareciam menos surpresos, pois entendiam aquilo como algo normal, e podiam sentir. Luzia percebia os ânimos exaltados, e continuava a tocar uma música de paz. Mas eis que do lado de fora começava a se juntarem pessoas e mais pessoas. Palavras começavam a virar gritos. Uma presença agressiva que parecia convocar o anjo da morte.

O clérigo parou para ouvi-las. Pela primeira vez ouvia uma manifestação exaltada. Ficou receoso, mas sendo o que era, precisaria enfrentar.

- Deus! O que faremos? - Perguntou o mordomo, pensando na casa e nas várias formas de escape que poderia arranjar junto dos gêmeos. Baltazar olhou para eles e respirou fundo. Os pais dos gêmeos começavam a juntar coisas, até que Filipe decidia sair dos aposentos.

- Fiquem aqui dentro. Irei tentar controlá-los.

”Tens mesmo certeza que o farás com a cordialidade que pensas?”

Baltazar não respondia. Olhou para Luna, pedindo que ficasse ali. Desceu as escadas e seguiu para a porta da mansão, abriu-a, pegou a cruz e falou:

- Filhos de Deus. Sinto a sede de sangue. O que fazeis à porta desta casa com tal sentimento de violência?!

A mulher mais a frente gritava para Baltazar.

- Há bruxos!! O demônio se encontra nessa casa, e nós vamos queimá-lo!!!

- Quem sois vós para julgar se a alma de um humano está sob o poder de Satanás?!

As pessoas gritaram com íra e sede no olhar. Tinham fogo nas mãos e começavam a avançar em direção a morada. Baltazar olhava com receio, segurando firme a cruz que carregava.

- Parem todos agora! - Gritava o Clérigo, mas os homens e mulheres não paravam de avançar. Baltazar recuava um passo.

“Use teu poder, Baltazar...” – Falou Tomás, numa entonação onde quase começava a rir.

- Não será necessário – Sussurrou o Clérigo. - Não há bruxos aqui, e se houver, haverá o julgamento justo! Portanto, voltem às suas casas!

“Tu serás linchado... Use o chicote...”

- Um padre tem a palavra, a cruz e a Bíblia como arma, não devo!

As tochas começavam a se aproximar dele e da morava. Algumas plantas que estavam mais próximas dos homens, começavam a ser incendiadas.

“VAMOS BALTAZAR!” – Gritou Tomás, percebendo que o Clérigo não teria sucesso.

- EU, BALTAZAR, INQUISIDOR DA ESPANHA, ORDENO QUE PAREM!! - Gritou Baltazar, já demonstrando mais preocupação e um tanto de íra. Suas mãos tremiam, embora seu pé se firmava, mesmo que hesitante.

“...” – Tomás nada falava, dando apenas uma expressão de aguardar sentado. Então, para o sorriso malígno do espírito, que não demonstrava-o para Baltazar, um homem jogava um pedra em seu encarnado aprendiz. O cosmo do jovem se elevou e o chicote usou amarrando no pescoço do homem e o jogando de face contra o chão, praticamente aos próprios pés.

- EU, BALTAZAR, INQUISIDOR E SANTO, ORDENO QUE SE AFASTEM DESTA CASA!! - O cosmo quase tomava um aspecto negro, e ascendia junto com Tomás, que estava ao seu lado. O silêncio se fez quase como mágica. - TODOS OS PRESENTES, AJOELHEM E REZEM POR SEUS PECADOS, E PEÇAM A DEUS QUE SUAS ALMAS NÃO SEJAM LEVADAS PARA O INFERNO!! - Aguardou, vendo a lentidão das pessoas que resistiam. - EU MANDEI AJOELHAR!!

Baltazar estalava o chicote, e todos se ajoelhavam rapidamente, com medo da presença que se fazia. Luna o olhava com hesitação, atrás da porta para onde se escondeu. As pessoas começavam a rezar, colocando as tochas no solo e as apagando.

”Tu tens a s almas destes seres! Faça o sermão!”

- PECADORES IMUNDOS! OUSAM DESRESPEITAR E TACAR UMA PEDRA CONTRA O INQUISIDOR DA SANTA IGREJA?! OUSAM DESRESPEITAR AQUELE QUE DESCENDE DOS ANJOS, QUE OUVINDO A DEUS, VEIO PARA LHES AUXILIAR?! - Olhou friamente para o homem aos pés que o olhava com temor - TU QUE LANÇASTE A PEDRA!! DEVES ROGAR POR NOSSA SENHORA MIL VEZES A RITMO DE REZA, E AJOELHADO!! E DEPOIS SETECENTAS E SETENTA E SETE VEZES O PAI NOSSO!! DEUS É MINHA TESTEMUNHA E TERÁ OS OLHOS SOBRE VC!! COMECE AGORA... QUANTO AOS OUTROS, FICARÃO AJOELHADOS ATÉ QUE ESTE FAÇA METADE DAS REZAS!!! AQUELES QUE SAIREM ANTES, TERÃO UM BOM AGUARDO NAS PORTAS DO INFERNO!!

“HA!... Perfeito, jovem Santo!... Os homens em fúria são como animais! Se não os dominar, eles o devoram! Fizeste bem...”

A aura de Baltazar se tornava branca mais uma vez, quando Tomás se afastava, e assim ia para dentro enquanto ouvia as rezas. O Mordomo estava com os garotos e fazia um agradecimento enquanto Luna aparecia atrás dele, segurando seu manto, com uma expressão triste. Baltazar evitava olhar para ela. O mordomo e os gêmeos reuniam as próprias coisas e partiam com uma sacola de dinheiro que os pais lhes havia dado. O Clérigo ficava na casa e sentava-se, esperando as pessoas terminarem seu castigo, fechando os olhos, e meditando. Coisa que o fez por segundos quando o calor do fogo começou a ocupar a casa.

- TOLOS!!! TOLOS!!! DEUS FALOU COMIGO E DISSE QUE SÃOS FILHOS DO DEMÔNIO!! ESQUEÇAM O MALDITO PADRE!! QUEIMEM OS PINHOS DE SATANÁS!!! - Filipe e Isabel foram a porta, trancando-a. O grito era da avó dos gêmeos que começava a espalhar tochas ao redor da casa.

- Luna! - Baltazar pegou a jovem e gritou a Filipe e Isabel. - Vamos embora!!

- Não! - Disse Filipe - Esta criança o tem como pai! Leve-a para longe enquanto seguramos as portas! Se os impedirmos, irão pensar que todos estamos aqui dentro!!

- Mas... - Baltazar ficou a pensar, a raciocinar o que faria.

- FILIPE E ISABEL!! EU LHES FALEI!! VOCÊS E SEUS FILHOS RECEBERAM A MALDIÇÃO NO MOMENTO QUE CONSUMARAM SEU CASAMENTO!! NÃO RESPEITARAM E TIVERAM OS FILHOS DE UMA UNIÃO DEMONÍACA!!! QUEIMEM PELO FOGO!!!

Tochas eram lançadas para dentro, que com carpetes e tapetes se incendiavam ainda mais rapidamente. O fogo alcançava o teto. Os dois pais estavam sentados no chão, segurando as portas com as costas. Depois de um tempo não haviam mais batidas, apenas o estalo de chamas. Luna começava a chorar.

- O que estás esperando clérigo?! SALVA TUA VIDA, E A DESSA CRIANÇA!!

Baltazar olhou para os dois que pegavam e entrelaçavam os dedos um do outro. Uma tora caía no meio deles. O Clérigo respirou fundo e os olhou.

- Deus, abençoe tal amor... - E assim saiu com lágrimas nos olhos. Afinal não havia conseguido parar os homens da forma que queria. Correu para o fundo, desviando de vigas em chamas, levando Luna consigo. Subiu para o outro andar e então passou as janelas para o telhado. Lá sacou o chicote e procurou uma árvore ou algo que pudesse se amarrar. Por algum motivo, ninguém o via, como se estivesse oculto numa sombra. Com esforço conseguiu balançar até uma árvore, segurando-se depois no tronco que partiu, fazendo-os cair sobre uma moita. Dolorido, via se Luna estava bem, mostrando-se inconsciente pela fumaça. Segurando-lhe a boca, levou-lhe ar aos pulmões, como Kalil lhe havia ensinado. Ela voltou, abraçando-o forte e assim foram embora daquela região até um lugar que pudessem descansar.

Offline Profile Goto Top
 
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=center]Capítulo XXIV – O Fogo se eleva. A Luz da Lua se esvai.[/align]

Alguns anos se passaram...
Enfim o coração de Baltazar havia sido moldado por Tomás, que o fez entender como funcionava o coração dos homens. A crise em Toledo foi a chave para que visse quão os homens poderiam se tornar imperdoáveis assassinos, não importasse quem falasse. Bastava alguém que com a mesma medida, senão um tanto menos, possibilitasse e desse coragem ao Homem de cumprir suas vontades.

Por isso Baltazar havia entendido que precisava ser forte e fazer cumprir suas palavras, mesmo que usasse da força. Diria Maquiavel num passado bem próximo em um livro que mais tardar ficaria famoso, onde em algum momento se questionava sobre ser amado ou temido. A resposta havia sido “...bem, a primeira alternativa é a ideal, sobretudo quando está associado ao respeito por parte dos súditos. Mas ser temido é mais seguro, ainda mais um príncipe novo, que não pode seguir todos os preceitos a que são obrigados os homens considerados de bem. Deve-se saber enveredar pela trilha do mal, se isso lhe for conveniente, ainda que sem esquecer de manter as aparências. ” “os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que lhes dedica amor do que a quem lhes inspira temor”

“Um rei precisa ser amado e temido. Mas, se por algum motivo tiverdes de escolher entre um deles, deverás ser temido, para que assim sejas respeitado.” – Disse Tomás, quando falava de Deus, ensinando algumas coisas ao jovem Inquisidor.

E sua fama, por estes moldes, se fizeram no calor de seus julgamentos. Luna o acompanhou por todas as vezes, parando por muitas vezes a pensar e questionar-se coisas. Os anos que se passavam a iam tornando mulher. Mulher que tinha desejos e ambições, que questionava e tentava entender, que apesar do clérigo não perceber, cego pela própria missão imposta e pelos feitios do que ela chamava de “Santo Demônio” em contraste ao “Santo Espírito” que Baltazar cunhava, começava a entender o que era o amor e paixão, consagrando-a em seus sonhos, e dormindo abraçada ao lado do homem que nunca se entregava. Lembrava-se a todo momento do ato de salvá-la com um beijo, em Toledo, que para ele não seria nada além de um procedimento ensinado por Kalil, ao menos, em suas falas, muito combinadas com a mudança de humor e de expressão. Afinal, ele não podia. Era um padre consagrado, e havia feito um juramento.

Embora por muitas vezes se afastasse da garota, acabava por no fim ceder a suas carícias, embora nada fizesse em troca. O espírito ainda lhe alertava, mas Baltazar mantinha em si o cuidado, ficando numa corda bamba onde o estresse já fazia ter vários fios brancos em meio aos fios loiros.

De todo modo, seu treinamento prosseguiu. A telepatia lhe era facilmente controlada, conseguindo prender o pensamento que queria e vasculhá-lo, embora não permitisse ver toda a mente. E os livros de Jonas, cada página em seu avanço se tornava algo mais esclarecido. Enfim conseguia fazer o ar incinerar-se e os objetos sólidos aquecerem ao ponto de alguns queimarem ou derreterem. Tinha na mente um desenvolvimento arcaico do que seria o princípio de formação do caos em algo organizado. O Princípio da Criação. Ou então, Alquimia ou Transmutação Material. Fora tentando manipular os materiais que conseguiu descobrir que os aquecendo, poderia incendiá-los, fazendo isso com o ar, muito mais fácil que qualquer outro material sólido.

Tratou de exibir estes poderes em seus julgamentos. Arrastar com um chicote e queimar o corpo numa fogueira tornou-se um hábito de Baltazar que percebia na mente dos outros o medo, fazendo assim sua devoção. Tratou de levar não só homens comuns, como nobres e também clérigos. Independente de serem padres, bispos ou algo maior na hierarquia católica, o clérigo não temia levar estes em seu julgamento, observando suas mentes e fazendo perguntas chave para sua confissão.

Muito não entenderam, ou não entendiam suas ações. Eram banhadas pelo sentimento de injustiça que nada mais era que uma admiração maior a um ou outro, fazendo a mesma pena para os mesmos atos pesar mais para um que para outro nos corações. Isso, contudo, não existia em Baltazar. O crime tinha uma punição, e esta seria executada. Não havia misericórdia, nem perdão. Fazia jus ao Crime X Punição. A balança se igualava ao máximo para todos os que cruzassem seus caminhos. Tomás lhe dava ressalvas, mas o espírito justiceiro do garoto tornou-se incontrolável para ele. E isso, como o dito Santo Espírito havia mencionado, atraiu maus olhos para sua pessoa. Olhos que detinham mais poder que o padre, que se dizia descendente dos anjos.

Aos poucos sua fama de um anjo justiceiro, que tratava com o fogo da espada de Miguel Arcanjo os seus julgados começou a mudar para a fama de um anjo demoníaco, que invocava as chamas do inferno para levar as almas para o mundo de satanás. Fama tal que viera com força após Baltazar começar a queimar igrejas inteiras com seus poderes, dizendo “Se esta construção sagrada não foi deturpada pelo demônio, que se mantenha. Mas se ela sustenta o Mau e brinca com a fé de Deus, então, que se queime por inteira numa fornalha divina!”, e assim, invocando focos de chamas, o cavaleiro colocava uma construção inteira a baixo por conta do fogo.

O ano, 1537. Dia 29 de Dezembro. Baltazar já tinha 20 anos e grande parte do cabelo já se mostrava um loiro esbranquiçado. Seus olhos já transmitiam o pesar de suas ações, assim como o da revolta. A justiça dos homens era muito diferente da justiça divina, que fazia jus a causa. E neste dia, com Luna ao seu lado, o clérigo era Inquirido e Julgado pelo clero espanhol.

- Tu não és anjo! Tu és demônio! Queimastes igrejas e padres! Como declaras?

- Inocente da morte de Santos!... Culpado da morte de pedófilos, hipócritas, assassinos, e outros adjetivos que poderia citar nesta audiência para os tais padres e igrejas que falastes. Menos, Santas...

- BLASFÊMIA!

As vozes se exaltavam. Baltazar sabia que aquilo poderia vir a tornar-se perigoso. Mas Luna, que sempre a acompanhou, ficava com ele, um passo a trás.

- Falas dos santos, mas andas a todo momento com uma mulher! E dizem que fala com alguém que não existe! Tu és louco! Estás corrompido pelo demônio! E ousa falar contra os santos padres e bispos dessa Igreja!

- Ela é filha de um mercador, a quem jurei cuidar, e o faço desde então. Nunca a tratei como diz, pois fiz um juramento. Juramento tal, que tu, Verme, Infame, Hipócrita e Maculador de corpos cristãos, não faz jus!!!

Baltazar podia ver a mente daqueles que o julgavam. Eram todos podres e mereciam o fogo. Todos tinham algum pecado, salvando-se alguns, que merecesse a fogueira. Um outro falava em tom agressivo.

- Demônio!!!

- Pedófilo de crianças!! - Disse Baltazar.

- Blasfêmia!! - Disse o segundo.

- Assassino de descendentes mouros!! - Respondeu Baltazar.

E a cada um que falava, um resposta em respeito aos crimes cometidos. Tanto a raiva como o medo começaram a aumentar naquele momento. Uma vontade de destruir Baltazar, e o medo que este fazia revelando seus crimes.

- Não tens provas!! - Disse o inquisidor chefe do clero.

- Olhais em tuas gavetas os roubos, as moedas doadas por cristãos! Posso ver teus pecados! Deus deu-me o dom de ler vossos pecados! Almas pútridas!!

Luna começava a tremer, uma má sensação. Os guardas sentiam a hostilidade, e do lado de fora se preparavam. Sem mais argumentos, ou o que o fosse, começavam a gritar – CULPADO! CULPADO!! PRENDAM!! CORTEM-LHE A CABEÇA!! E QUEIMEM A HEREGE, QUE ATUA COMO PAGÃ!! ASSINO AQUI O DOCUMENTO DE EXCOMUNGAÇÃO DESTE INFAME!!

Aquilo tudo começava a sair do controle. Os guardas vinham para levar Baltazar, mas Luna nada tinha haver com aquilo. Quando a seguraram e a derrubaram contra o solo, ouviu o pensamento de um ou outro guarda falando de abusos. Seu coração bateu forte. Seu estresse subiu a um nível incontrolável. Fora dali, numa vila isolada, em Pozuelo de Alrcón, há alguns quilómetros de Madri, Baltazar sentia sua mente travar e invocar chamas para onde olhasse. Não era uma única, mas invocava tantas que parecia convocar chamas no local inteiro, queimando todos os guardas para que soltasse a jovem Luna. Alguns conseguiam fugir, inclusive membros do julgamento, mas a maioria pereceu queimada enquanto a estrutura ruía. Fechando os olhos, Baltazar corria com Luna enquanto sua cabeça doía. Por algumas vezes chamas surgiam no caminho até correrem por tempo suficiente para se afastarem. Muitos soldados vieram atrás dele, mas preferiram retornar para auxiliar a Igreja que fazia pular as chamas para outras casas, acabando por levar a vila inteira no final.

Finalmente a salvos, Baltazar sentava-se e Luna ao seu lado, lhe abraçando, se mostrando doente. Ele a olhava, vendo em seu corpo um corte feito por uma seta. O sangue tinha algo misturado, e mostrava-se um veneno. Ficou a beira de enlouquecer. Elevava sua energia para curá-la, mas não conseguia fazê-lo corretamente. Não conseguia concentrar-se.

- Luna... Luna!... Por favor... Não vá embora, Luna! - Suas mãos tremiam enquanto a jovem garota levava as dela no rosto de Baltazar. Ela trazia o rosto dele para perto, e dizia ao clérigo. - Você não é mais um padre, Baltazar... - E assim ela aproximava os lábios, lhe dando um beijo carinhoso que perdurou tempo suficiente para que pegasse o tarô e soltasse as cartas, restando apenas uma: A Carta que simbolizava o clérigo, “O Chicóte”, que era significado da justiça e do julgamento. Ela permaneceu beijando-o até que enfim suas mãos caíram, deixando a carta com Baltazar. Ele ainda mantinha os olhos fechados, e soltava todas as lágrimas quando os abriu. Abraçou-a, trouxe-a para perto de si e ficou ali pela noite até que começasse a cavar. Milhares de sombras começavam a rondá-lo, várias vozes, muitas de lembranças. Ele gritava com elas enquanto abriu uma cova funda e larga o suficiente para colocar a garota. Deitou-a na terra, tirando as roupas que havia ganho de Jonas, assim como as peças de ouro, e as colocou ao lado do corpo da jovem que teria naquela data entre 14 e 15 anos, ficando apenas com a batina. Rezou por seu espírito, beijou-lhe a face enquanto segurava-lhe as mãos. Beijou-lhe os lábios, derrubando sobre ela suas lágrimas salgadas.

- Que Deus leve tua alma, e a trate melhor do que eu a tratei. É tudo culpa minha... Luna... - E assim ele saiu da cova, empurrando a terra e colocando pedras em cima. Amarrou duas peças de madeira onde em uma esculpiu com as unhas “Iaceo una innocens, et sacerdos anima” (Jaz uma inocente, e a alma de um Clérigo). Terminava de chorar quando novamente surgia Tomás.

”Tens a liberdade, agora... Sois melhor que estes infames... Porque ainda choras?”

- Saias daqui, antes que queime-o também!

Logo uma aura negra surgia, e de lá vinha uma sombra. Um tipo de veste que sequer conhecia. Uma armadura incomum que trazia a forma de um demônio.

- O que quereis com isto?!

”Tu ainda te iludes... A verdadeira face de Deus, aquele que controla a vida de a morte! Aceite este presente, e venha comigo para o mundo dos mortos, Baltazar!”

- Quem sois vós de fato?! Quem sois?! Não aceirei tal infame e demoníaco presente! A quem serves de fato? QUEM?!!

”Ao verdadeiro Deus, que ainda conhecerás!!”

- Não! Só há uma Deus! Tu és um demônio de satanás! Aprendi tudo contigo! E tu me ensinou a ser um demônio!! Saias daqui, maldito! SAIAS E NÃO VOLTE MAIS!!

E assim saiu rindo o espírito com seu presente, a armadura de um espectro celeste. Imaginava o espírito, que era nada mais que uma ilusão criada por Tomás de Torquemada, o Espectro de Mandrágora, Estrela Celeste da Maldade, vivo na Terra como um Caído, que Baltazar estivesse pronto para assumir seu posto, mas agora somente o observaria de longe, usando suas ilusões para misturarem-se as alucinações do ex-clérigo. Um dia se reencontrariam...



[align=center]EPISÓDIO 5: QUEDA E ASCENÇÃO [/align]


[align=center]Capítulo XXV – Da Inglaterra a Portugal[/align]

Baltazar caminhou por dias e navegou, fugindo de homens que o caçavam. Levava consigo somente os livros, onde acabou por chegar na dita Inglaterra, nas proximidades de Eastbourn. Rei Henrique VIII era quem dominava a região, e havia fundado a dita Igreja Anglicana.
Naquele reino, apesar de muitas mudanças, ainda havia católicos. O rei tinha o catolicismo em seu espírito, embora quisesse cumprir com seus anseios. No momento, todos andavam “em paz”, embora o movimento protestante fosse bem forte e os clérigos da Igreja tinham de assistir as missas não católicas. O rei, protegendo sua coroa, ainda lidava com inimigos religiosos.

Nestas terras, Baltazar havia chego em 13 de Janeiro de 1538. Ficava a caminhar, tendo como teto o céu e como paredes as árvores. Nunca prostrou-se tanto nos livros como a partir do momento em que sentiu seu coração morrer junto a morte de Luna. Buscava algo que falasse de tempo ou ressurreição. Falava em suicídio, tinha insônia e por isso treinava debaixo do Sol e debaixo da Lua, dentro de lagos e amarrado de cabeça para baixo, torturando-se, as vezes tentando se matar e impedindo-se, acordando vivo após longos sonos. O corpo que nunca teve um ferimento agora estava marcado de cicatrizes, feridas, cortes e queimaduras. Vozes lhe falavam para tirar a própria vida. Seres surgiam lhe entregando facas e qualquer que fosse a arma, mas a morte só traria alívio ao sofrimento, e o sofrimento pela eternidade que vivesse seria sua punição...

De dia fazia sua mente ir além dos limites com suas habilidades, sem mais cuidados ou respeito próprio. A noite, abusava do corpo e o amarrava de cabeça para baixo quando não mais aguentasse. Sentir o sangue na garganta era para lembrar aquele que derramou inutilmente, e para lembrar que causou a morte de sua querida Luna. Tentar soltar-se pela manhã era para lembrar que a fé nunca poderia ser menor que a vontade do corpo. E seus dias de loucura prosseguiram tentando encontrar no livro de Jonas algo que falasse em ressurreição, até que finalmente quase conseguir se matar...

...Outra alucinação? Um anjo se aproximava e lhe dizia:“ Baltazar... Eu sou Gabriel, o mensageiro... Sua dor é compreensível... Porém não chegou sua hora... Deve trilhar o caminho do amor e da sabedoria... Procure por Miguel... Sua busca pelo autoconhecimento, pelo desenvolvimento e semelhança ao Criador lhe trará o que precisa para combater o mal que se ergue contra a humanidade ao lado deste arcanjo... Os corruptos hoje são o seu menor problema... A morte se aproxima mais uma vez da humanidade... Você tem uma missão e quando for a hora seus pecados serão julgados por Aquele, Único que pode julgar... Busque Deus e procure por Miguel...”. Baltazar ria. Ria no sonho, como um louco até se engasgar e sentir a garganta cheia.

Então acordava. Tossia como nunca, tirando a água de dentro dos pulmões. Virava-se para facilitar e sentia a pedra quente em que estava deitado. Porém era noite, então o que havia acontecido? O Clérigo excomungado se levantava com dificuldade. Seu corpo estava dolorido. Luzes se aproximavam e ele pensou em fugir, porém não tinha mais tanta força. Um jovem com uma lança e um senhor carregando uma luz se aproximavam. Baltazar tinha nos pés uma corda arrebentada, e caia de joelhos adormecendo pela exaustão.

Quando acordava sentia-se novo e disposto. Estava numa cama de palha e era visitado por uma jovem garota. Ela trazia comida e se assemelhava muito a Luna, o que lhe deu um novo e grande pesar. Ele procurou a carta que ela lhe tinha dado e a olhou com tristeza. Baltazar agradecia e logo abandonava o lugar, uma pequena terra que seguia com os rios para o porto em Eastbourn. Voltava para onde estavam seus pertences, alguns minutos de caminhada rio acima. O livro que havia escrito com as criptografias era aberto mais uma vez. O Arcanjo Gabriel lhe havia visitado, segundo ele, e agora tinha uma responsabilidade divina, ou ao menos assim acreditava. Continuava seus estudos quando a jovem vinha ao alcance de sua visão. Ele buscava entender, acessando-lhe a mente como fazia com seus julgados. Aparentemente o pai da jovem queria que ajudasse o filho. Ele foi ao socorro. Uma viga de uma velha construção para armazenar caixas de mercadorias havia caído e o rapaz estava machucado. Baltazar aproximava-se da estrutura. Qualquer coisa errada que fizesse faria desmoronar em cima do rapaz. Mas fazendo alguns cálculos de cabeça apoiou uma coisa aqui e outro ali. Retirou um caibro e tudo fez um barulho nada confiável. Porém abriu espaço para o rapaz sair. Seu pé estava torcido e nada mais. O rapaz e a jovem agradeceram, assim como o senhor que o havia solicitado. Então Baltazar seguiu com eles para comer alguma coisa. Ao menos poderia ajudar alguém, pensava ele.

O Clérigo contou parte de sua história. O senhor pediu que ficasse e este aceitou em troca de serviços. Pela noite treinava com uma pedra, uma pequena barra de metal e outra de madeira. Ele ficava tentando moldá-los ou criar fogo, mas só ficavam quentes. Teve sucesso apenas com a madeira, que criou brasas. A garota o via todas as noites pela fechadura, e viu o que ele estava conseguindo fazer. Ela se perguntava como ele conseguia, até questioná-lo pessoalmente. Dizia ele que havia encontrado uma mensagem de Deus e junto a mensagem, Satanás. Ele lhe ensinou a dominar o poder do espírito, mas só o auxiliou para crescer e servi-lo.

Ficou por lá um tanto, fugido da península Ibérica. Tinha saudade das terras conhecidas, até que o inevitável aconteceu. A queima dos mosteiros...

Rei Henrique VIII decidiu expurgar de uma única vez seus inimigos religiosos. Aumentou a perseguição destes e fez derrubar igrejas e fechar mosteiros. Baltazar, católico de espírito, mesmo que excomungado, que andou em muitas viagens, precisava iniciar outra. Agradecia a aquelas pessoas que lhe haviam sido boas, foi embora para Portugal em 5 de Março de 1538.

Já em Portugal, reencontra um velho conhecido. Manoel.

Manoel estava dentro de projetos da coroa portuguesa, e fazia viagens para a conquista de colônias para o reino. Num bar, ao conversarem, o português convidava o jovem para uma viagem até angola. Apesar que informar ao homem que ele não era mais um clérigo, Manoel quis levá-lo para auxiliar no contato com os africanos, percebendo-o distante. Tentaria animá-lo com uma viagem para fora daquelas terras que todos conheciam e cheia de conflitos entre reinos.

Baltazar aceitou a viagem, partindo junto de Manoel para Angola em 3 de Julho de 1538.


[align=center]Capítulo XXVI – O Inquisidor vira Rei[/align]

Em 14 de Julho de 1538, Baltazar e Manoel chegam em Angola. Uma colônia portuguesa, que ainda enfrentava problemas com a população africana. Ora ou outra apareciam tanto colonos como africanos mortos, e isso se tornava complicado.

O local em que estavam era o reino do Ndongo. Portugal aos pouco influía a cultura portuguesa e europeia, enviando padres cultos para a região. Baltazar foi instruído, e apesar de crer ser errado, auxiliou neste lento processo de cristianização. Isso lhe fez refrescar um tanto a memória de seus antigos ensinamentos antes de ser inquisidor. Contudo via os abusos, via as coisas que rondavam e espreitavam os africanos, percebendo a exploração que se ia fazendo. Foi nesse momento que acabou por conhecer um homem chamado Xoloni. Ele falava bem português, já tendo certa idade, e ainda falava a língua angolana. Tinha na média dos 45 anos, bem velho para a época, os cabelos pretos e barbas já estavam esbranquiçados, contrastando com a pele escura. Dizia ele a dita Angola possuía muitos reinos. Que os costumes havia se modificado com a chegada dos portugueses. Seu pai e avô haviam presenciado a chegada dos primeiros, que até então faziam contato, e que aos poucos começavam a dominar o local. Xoloni acabou por virar seu amigo quando percebeu algo não muito bom rodeando o jovem.

Um dos padres que estavam na Espanha na época de seu julgamento estava ali. Constantemente mandava cartas para a europa, e parecia observar Baltazar. Um dia o reconheceu, e o acusou, chamando-o de demônio. Contava como queimou igrejas e levou outros clérigos para a fogueira. Isso se tornou uma complicação, e naquele momento, se Baltazar mostrasse seus poderes, poderia ser morto. Alguns soldados lhe viam para prender, já cientes. Com o chicote, o clérigo tentava impedir as armas, o tal chicote logo havia sido cortado por uma combatente experiente. Xoloni o ajudou a fugir, levando-o para terras mais distantes da colônia, ficando entre as matas num pequeno vilarejo que ainda mantinha seus costumes. Manoel, que também conhecia o Xoloni, a noite, saia em busca de Baltazar, encontrando-o.

- Baltazar! - Chamava Manoel. Baltazar estava com Xoloni, aprendendo a língua angolana. Os dois voltavam a atenção para o português. - Que bom que está a salvo!... Creio que não me contou coisas! Era tu o demônio espanhol que desapareceu num mar de chamas, botando fogo num igreja, e assim queimando o vilarejo?

- Sim, Manoel... Tive um julgamento arbitrário, feito por homens de má índole que queriam minha cabeça por começar a afetar seu sistema. Fui ainda manipulado por um demônio que ajudou-me a desenvolver minhas habilidades apenas para servir em seus propósitos.

Uma fogueira se ascendia perto de Manoel, e rapidamente se apagava por só queimar o ar que estava ali próximo. O português olhou com surpresa. Baltazar continuou.

- Os livros de Jonas tinham uma mensagem e ensinaram-me algumas coisas. Contudo, não sei mais se é a espada de fogo de Miguel Arcanjo, ou então as chamas oriundas do inferno... - Xoloni levantou-se e cruzou os braços.

- Fez para cumprir a justiça, não? Você é diferente daqueles que tem justiça pela religião que os cerca. Mas deve entender uma coisa, amigo. A pena pode ser paga, assim como a sua, com boas ações. Julgar homens não tão simples. Teria o mesmo peso um homem que se sempre foi bom e outro que sempre foi neutro num mesmo crime? Não faria mais bem deixar o primeiro vivo para prosseguir com sua bondade e pagar o crime com estas ações, ao invés de enforcá-lo como faria com o segundo? Se chegar a entender isso, jovem, será o mais justo de todos os homens...

Xoloni então se retirou para dormir. Manoel aproximava-se de Baltazar que havia ficado pensativo. Ouvia suas lembranças em que Tomás aparecia e lhe falava coisas. Ouvia a voz de Luna. E cada vez que estas coisas lhe vinham a mente, mais difícil era usar seus poderes e elevar sua energia. Sentia-se profundamente culpado, e não conseguia acessar o universo que havia dentro de si. O termo que futuramente conheceria como 7º sentido começa a se tornar algo intangível para o ex clérigo, onde até mesmo seus poderes de cura começavam a perder o efeito que tinham.

- Não sei a dor que seu passado lhe causa. Mas sua expressão é a de um cão derrotado esperando que alguém o chute para a vala. Eu lhe trouxe isto... - Manoel entregava-lhe a bolsa de Baltazar e mais um enrolado de couro. - Tem paixão por estes livros, e com todo respeito, acabei por ler um pouco do que você escreveu. Se pode realmente fazer tudo o que colocou nestas palavras, é melhor que se levante... Não é mais um clérigo, então, precisará aprender a se defender...

Manoel então foi embora. Baltazar ficou a pensar, encarando a bolsa e decidindo desenrolar o couro que trazia consigo. Nele havia uma espada enrolada por uma corrente de elos mais curtos. Poderia ser usada como um chicote, mas a força seria muito mais necessária, principalmente para erguer a espada. Segurou-a e a levantou a frente do nariz. Sentiu algo de bom recair sobre ele, como se um véu de seda fosse jogado sobre a cabeça. Lembrou-se de seu pai, e por algum motivo montou a fisionomia de seu avô e de outros que nunca havia conhecido. A lamina reluzia seu reflexo com as chamas. Estava com os cabelos compridos, e o loiro havia esbranquiçado bastante. Tinha barba, e seu semblante já mostrava sofrimento de uma vida inteira. Parou para contar a própria idade. Estava com 20 anos e naquele ano iria fazer 21. Havia corrido tanto atrás de sua missão que esqueceu-se de festividades. Não aproveitou tudo que poderia com Luna. Qual seria seu objetivo, agora? Feriu-se tanto que as marcas das amarras, de cortes e outras formas mais de cicatrizes, que seu corpo estava marcado. Como viveria para a justiça, não sendo um clérigo, e ainda sim sendo religioso como era? As chamas que estavam em suas costas soltavam fagulhas acima da cabeça no reflexo feito pela lamina. Parecia uma coroa... Sim... Um rei dita as leis e segue a Deus. Os que lutam trazem consigo a marca de suas batalhas. Um rei... Ele seria um rei... Mas a quem protegeria, e de quem protegeria?...

- Protegerei os homens desta terra, e lutarei contra aqueles tentam dominá-la...

Baltazar então cravou a espada no solo, lembrando-se dos templários. Pegou a corrente e começou a manipulá-la, parecendo estar começando novamente. Mas já tinha o conhecimento de como funcionava. Bastava pegar o jeito de fazer o mesmo com a corrente que tinha alguma vezes mais o peso do chicote que detinha anteriormente. Ficava com a carta de Luna em seu bolso, e buscava se aperfeiçoar para ela, que sorria no momento que o via treinar com Ling Pá.

Após dormir e espantar os demônios com orações, Manoel se mostrava presente, vendo a nova rotina do jovem. Rindo da ideia de Baltazar, enquanto Xoloni ficava quieto, começou a ensinar-lhe a manipular também a espada. Como era italiano, lhe ensinou este molde. Começavam sempre com a “pose do falcão”, pose que intimidava levando a espada para o alto, deixando um pé a frente e outro atrás, mantendo o peso a frente. O interesse, além da intimidação, era usar o peso da lamina para defender-se e atacar no momento seguinte, usando o balanço da lamina. Não tardou para que aprendesse o método, e conforme seus braços engrossavam, assim como suas pernas. Conforme seu peito inflava como a de um guerreiro, Baltazar ia ficando pronto para a batalha que se seguiria.

15 de Março de 1539. Baltazar enfim havia terminado o treinamento e manipulava a espada com perfeição. A corrente já não era tão pesada e se movia em duros golpes. Manoel lhe havia trazido uma malha para vestir-se e proteger-se das laminas inimigas. Mal sabiam que mais alguns os observavam, e haveria um ataque. Xoloni parabenizava Baltazar pela nova conquista, mas tinha o peso no olhar. Sentia que haveria mais sangue naquele lugar. Baltazar pensava que se não unisse todos para vencer, não haveria possibilidade. Transcorreria mortes a todo o momento, e assim seria como um remédio sem efeito. De toda forma, o ex clérigo começou a conversar com outros angolanos até que a hora havia chegado.

Arcabuzes, espadas e vários soldados. Um ataque a até então escondida vila. Baltazar seguia para o embate, usando as técnicas ensinadas por Manoel. Conseguiu vencer um ou dois homens até que as baixas começaram a aparecer. O clérigo usava a corrente para prender e lançar um homem contra vários, mas se permanecesse daquela forma, não conseguiria. Xoloni corria tentando ajudar algumas pessoas que ficavam caídas e feridas. Mas era certo de ser atacado e morto por um dos soldados. Soldado este que se aproximou e foi envolto por um ar de fogo e começou a correr tentando fugir das chamas que lhe queimavam o corpo. E foi assim que Baltazar, recebendo a atenção de manipular seus poderes, elevando seu cosmo ao ponto de criar uma chama cósmica, viva, que queimava sozinha apenas usando sua energia vital, que muitos dos homens caíram e começaram a correr. Contudo o lugar já não era mais seguro, e começava a entrar em chamas. Todos eram levados de lá para um outro espaço. E quando sentados, vendo o que Baltazar poderia fazer, os ânimos de revolta se elevaram, querendo-o como alguém que lideraria aquela tribo a frente dos portugueses. E assim, eleito comandante, orquestrou o ataque a colonia portuguesa onde avançou com mérito, expurgando uma parcela dos homens para fora do continente.

Em meio a batalha o Ex clérigo teve o prazer que encontrar o homem que havia lhe colocado naquela posição, e assim começou a atacá-lo. Um clérigo que nem sequer sabia empunhar uma faca. Este era o oponente de Baltazar, que preparava um golpe para levar aquele a morte. A lamina vinha a garganta do clérigo português, e assim Baltazar viu a mente do homem que o acusou de demônio. Perguntou, antes que a lamina lhe arrancasse a cabeça, quantas coisas boas havia feito. De fato o português projetou o assassinato de várias pessoas, mas com isso manteve o dinheiro que recebia da nobreza para levar aos mosteiros e lares de crianças que necessitavam de ajuda. Baltazar o olhou, tirando a espada de seu pescoço e disse – Tu não matarás mais, mas manterás tuas boas ações! Tua vida ficou pelo fio de minha espada, e agora me pertence. Farás cumprir minha ordem. Viverás e cuidarás daqueles que precisam de ti... Isso não pagará teu crime, mas é suficiente para que devas viver por meu julgamento, pois a morte ainda virá a ti. - E assim se retirou, vendo as chamas que se faziam.

Após a vitória Baltazar falava que haviam conseguido expurgar do continente alguns dos inimigos em Luanda, mas viriam mais e precisavam de um rei. A tribo o elegeu, e o agradeceu. Xoloni, contudo, não foi visto, e assim, para evitar conflitos muito grandes com a coroa portuguesa, Baltazar adentrou a mata e criou seu feudo. Os anos que se seguiram foram de batalhas e conquistas. Não se permitiu buscar mais terras do que precisava, nem permitiu que outros em seu nome o fizesse. Contudo ainda queria que alguém daquele povo assumisse, mas enquanto vivo todos o desejavam, e assim precisou eleger pessoas. Manoel assistia todo o desenvolvimento. Não entrava profundamente na guerra, ficava a espreita. Auxiliava Baltazar no que fosse preciso, mas o fim, o sonho de lutar contra uma potência, certamente ia se acabar.

1541. Dia 1 de Junho, praticamente dois anos de reinado, Baltazar perde o feudo. Uma tropa portuguesa vinha por Luanda e avançou até seus domínios. Muito mais poderosa, armada e ofensiva, o rei é deposto a margem de muito sangue. Manoel também havia se retirado, voltando a outras colonias portuguesas. Baltazar rendeu-se após ver a quantidade de mortos, inocentes pela falsa visão religiosa que tinham. O que Xoloni havia dito era verdade, haveria muito sangue derramado de uma vez, e assim o foi. Pronto para ser enforcado, Baltazar ficou numa cela. Alguém o havia libertado na noite, pois a viu aberta, e assim, correndo como nunca, levando seus pertences que havia sido deixados sobre uma mesa na prisão, ele seguiu rumo ao norte.



[align=center]Capítulo XXVII – Diké, Octavius e Baltazar[/align]


Diké é a deusa da Justiça. Simbolizada por uma mulher que segura uma balança desequilibrada com a mão esquerda e uma espada com a mão direita. Filha de Zeus, irmã de Athena, Diké é aquela que faz o julgamento de acordo com as leis divinas.

Havia alguns anos que a deusa observava os homens. Uma grande revolução religiosa e moral havia se formado após a queda de Roma e a ascensão da Igreja Católica Apostólica Romana. O criador se tornou Deus, e os deuses se tornaram Santos e Anjos.

Os homens faziam seus julgamentos, muitos, traiçoeiros e políticos. Então chegou a Inquisição para tornar mais ameno, mas não conseguiu evitar as mãos por trás de manipuladores.

Dado momento teve de observar a Espanha, e assim o futuro inquisidor, Torquemada. Era ferrenhamente religioso, assim como seus preconceitos. Fez seus julgamentos com base naquilo que queria. A deusa, ao mesmo tempo que o observava, prestou atenção em um cavaleiro, Octavius. Tinha também um tanto de fé católica, mas seu modo de lidar com as coisas eram diferenciais. Buscava algo além da justiça humana. Queria entender a justiça divina, e o fizera enquanto vivo, buscando e lutando contra aquilo que pensava ser errado. Em um momento os dois se enfrentaram, levando consigo a curiosidade de Diké que percebeu poderes além. Ele faria uma reencarnação para que pudesse enfrentar Torquemada mais uma vez, e assim o fez após despertar o 8º sentido durante sua morte, nascendo em Baltazar. A mesma cidade, os mesmos costumes pesqueiros.

O nível dos espectros de Hades haviam aumentado e momento a momento iam nascendo receptáculos em lugares distantes. Diké queria ajudar Athena, pois sabia que a humanidade não poderia evoluir a prática de sua justiça nas mãos do tio. Por isso a alma de Octavius se mostrou importante, e preparou um destino para provar que o receptáculo de tal alma fosse deveras verdadeiramente justo, ou que assumisse verdadeiramente a busca pela justiça ideal.

Mas como faria para tentar a bondade de um homem? Teria de lhe causar as maiores desgraças, teria de ser chamado para o desvio, e suportar e manter-se no caminho correto, apesar das adversidades. Não era de seu plano Torquemada aparecer, mas o espectro foi um bônus que ensinou muito ao futuro cavaleiro. A recusa da súplice, ao descobri-lo como um ser maligno, foi um bom primeiro teste. Manter-se vivo com a dor no peito, foi o segundo teste bem efetuado, pois a pena deveria ser coerente ao crime, e sofrer uma vida pela vida que tirou de outra, carregando a sina que criou, talvez fosse o mais justo.

Em seguida, na África, aprendeu a complexidade do julgamento e da justiça. Não bastava julgar o crime sem ver quem era a pessoa. Um homem tem seus male feitos, mas também suas benfeitorias. Como equilibrar tal coisa numa balança? Um homem que mata pela liberdade do próprio povo, como seria julgado? Os fins justificariam os meios?

Estas dúvidas, estes aprendizados se valeram para Baltazar tornar-se seu receptáculo? De certo valiam. Mas seria ele capaz de lutar contra a própria organização religiosa, que muito defendia? Este seria o teste final para recebê-la em seu corpo...


[align=center]Capítulo XXVIII – Cruzando o Deserto[/align]

Baltazar seguia rumando para o norte. Passou por países de muitas florestas até acabar encontrando o maior assassino da África, o Deserto. Homens que lá viviam tinham um estilo, um modo e uma forma de sobreviver às terras áridas. Baltazar não deixava seus livros, nem a espada, nem a corrente. Era o peso de suas habilidades e de seu conhecimento. Tinha de viver com eles, sendo apenas um.

Levava consigo água, que em pouquíssimos dias acabava. Via dunas e mais dunas de areia, quando não algum oásis que não existia. Sua boca começava a secar. Seu estomago a murchar. Mesmo caminhando a noite e guiando-se pelas estrelas, o Sol da manhã o impedia de dormir, quando não ficava acordado pela insônia. Finalmente havia desmaiado. Respirava a areia do rosto. Era o fim. Foi clérigo, e excomungado. Foi rei, e foi dominado. Se considerava um homem, mas perdeu o amor de sua vida, e portanto, não se considera sequer feliz pelo destino que havia arrumado. Um nada morrer no nada. Seria assim...

...Seria assim se não fosse um velho amigo lhe encontrar. Kalil, o mouro que vez ou outra comerciava na França, estava passando com seus amigos comerciantes pelo deserto. Com eles Baltazar pôde se alimentar, beber água e recuperar-se. Diria Kalil com as barbas ficando brancas “Quem diria encontrar aquele jovem garoto barbado desta forma”. Quando puderam, riram. Contaram um pouco da história que havia se passado. Rumavam em direção ao Egito, e Baltazar os acompanhou. Kalil lhe ensinava um pouco do idioma árabe para que pudesse ao menos se comunicar para pedir uma coisa ou outra. Um básico para sobreviver e não falar asneiras, diria Kalil, numa conversa.

Mais alguns dias se passaram. Baltazar finalmente terminava o livro, não encontrando nada que falasse de ressurreição. Técnicas e mais técnicas de desenvolvimento, e a habilidade em si. Ao menos foi aquilo que havia descoberto descriptografando os livros. Kalil questionava sua situação. O jovem falava sobre suas acensões e quedas. Situações que havia passado e quanto havia mudado. Kalil fazia uma expressão séria até conseguir tirar a informação que Baltazar fazia mais coisas que manejar uma espada e um chicote.

Chegavam ao Cairo com a caravana. Baltazar era o único a portar uma roupa cristã, por assim dizer, e estava tão surrada pelo tempo que só poderia ser chamado de trapos. Kalil lhe deu roupas novas, e na cidade puderam tomar um banho. Vestido com seus novos trajes, era um tanto quanto peculiar com seus olhos e cabelos, chamando um tanto de atenção. Kalil fazia sua defesa, dizendo que era um amigo e não faria mal. Conversas e mais conversas. Um pouco de bebida. Logo Baltazar estava conversando e rindo com os otomanos a quem os cristãos tanto combatiam. Começava a entender sua cultura e o modo de vida mais na versão prática que na versão teórica, aprendida há muito tempo atrás e explicada por Kalil. Nas histórias Kalil falou de Baltazar, e este das várias histórias que tinha para contar. No final terminaram num círculo de velas, Baltazar, e um chicote. Com uma garrafa em mãos, enquanto bebia, ria e tentava apagar as velas com o chicote. Muito habilidoso, havia conseguido enquanto os outros falavam não acreditar em meio a brincadeira. Porém todos se silenciaram quando as velas se acenderam novamente. O loiro riu e voltou a apagar as velas com o chicote. Alguns questionamentos começavam a ficar mais sérios. Mas antes que pudesse criar qualquer problema, Baltazar ia embora. A única coisa que o impediu, contudo, foi um dos sacerdotes querer que fizesse uma apresentação ao sultão, Jawad.

Ficou um tanto nervoso, mas Kalil lhe orientou a fazer. Pediu apenas uma semana para se preparar, e assim, na presença de Kedar, Kadin e o sultão Jawad, entre outras pessoas presentes, Baltazar se apresentou com calças folgadas, além sapatos vermelhos e uma camisa aberta no peito. Na cabeça estava um típico turbante, também vermelho.

Estavam no salão, e assim, pegando o chicote, homens, auxiliares de Kalil, colocavam velas que criavam um círculo. Começavam a tocar pequenos tambores e Baltazar respirou fundo. Começava a estalar e enrolar-se no chicote. Sem soubesse, perceberia uma forma oriental de fazê-la. Então começava a estalar o chicote próximo as velas. Cada estalo fazia uma vela acender, impressionando muito, e talvez chamando a atenção de Jawad e Kedar que detinham uma certa ciência de habilidades diferentes. Contudo, tudo que Baltazar fazia parecer plausível quando se dizia que as velas tinham um gás combustível que se acendia com as faíscas geradas por pequenas pedras existentes na ponta do chicote. Até então, uma maestria peculiar.

Baltazar girava e pulava, rodando o chicote sobre as mãos e pés. Uma vela que pulava outra, deixando uma sequencia de velas acesas e apagadas. Então, jogando o chicote para Kalil, e este lhe jogando uma corrente, começou movimentos mais brutos usando o peso das correntes. Fazia a corrente estalar e voltar estalando no lado oposto. Baltazar virava o corpo terminando por apagar todas as velas, acoplando depois uma lamina na ponta da corrente e fazendo vários movimentos circulares e rápidos, cortando as velas na diagonal, uma pela direita e outra pela esquerda, formando dentes. Baltazar foi aplaudido, e este agradeceu. Contudo mais coisas continuavam, fazendo rodar mantos que começavam a circular Baltazar e se aproximar de Jawad e Kedar. Embora não pudesse entender as palavras vindas em sua mente, entendeu a imagem de seus pensamentos.

- Cuidado!! - Gritou Baltazar lançando a corrente que enrolava-se em um dos homens, amarrando-lhe o pescoço e então o jogando contra o solo. Kalil levantou-se e pediu as armas. Kedar e Jawad se levantavam, percebendo pequenos dardos virem contra suas faces, mas que foram mau lançados, atingindo as paredes por conta da ação do ex clérigo. Os guardas sacavam suas espadas, o grupo assassino havia matado rapidamente aqueles que avançavam. Um deles pegou Baltazar pelas costas, e lhe cravaria o dardo não fosse Kalil cortar-lhe a cabeça. As mulheres correram. Kedar se moveu rapidamente atacando e matando alguns dos inimigos, como era esperado de um chefe de guarda. Baltazar os ia enrolando nas correntes.

- Por que estão nos atacando?

- Por que fomos pagos pelos cristãos! - Dizia um dos assassinos presos, que se soltava logo em seguida.

Por um momento Baltazar havia parado e pensado. Seria uma ordem da Igreja? Ou dos reis? Não era clérigo, mas seu coração ainda o era. Salvaria os mouros? O que seria justo naquele momento? Aqueles viviam em paz, assim como aqueles que viviam em angola antes dos portugueses. Não poderia deixar mais sangue escorrer por conta da religião. Sua aura elevou-se. Marcou a posição de cada homem e invocou as chamas. Kedar, que as controlava, viu elas ascenderem na roupa dos inimigos. Moldou-as e as fez envolver apenas aqueles homens. Logo os soldados de Kedar e Jawad finalizavam seus assassinos. Baltazar fez o sinal da cruz, e imediatamente as lanças foram para sua garganta, apontando-lhe. Jawad lhe questionava. Baltazar soltava as correntes.

- Fui clérigo e Inquisidor. Excomungado por minha justiça. Não tratei o clero, nem nobres, diferente dos modos que tratei um pobre. Não persegui religião, nem pessoas específicas. Fui atrás apenas daqueles que cometeram crimes. Não estou do lado de uma batalha que seja desnecessária.

Kalil traduziu as palavras do jovem, e as lanças foram baixadas por a permissão de Kedar. Ele o havia agradecido pela ajuda, e Jawad entendeu que tudo aquilo era fruto dos tempos de guerra e conquista por conta religiosa e domínio. Viu no coração do jovem algo bom, e o liberou. Kalil e a caravana partiram, e Baltazar foi deixado no porto do Cairo, vendo nas águas a imagem de anjos que lhe apontavam um destino. Para onde iria agora? Dormiu. E foi dormindo que sentiu um sono melhor que um que jamais havia sentido. Uma aura brilhante adentrava seu corpo e o fazia sentir-se melhor. A partir daquele momento, Diké estava com o jovem Baltazar...

Offline Profile Goto Top
 
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=center]EPISÓDIO 6: HORA DE VIRAR CAVALEIRO[/align]

[align=center]Capítulo XXIX – Aquiles, um antigo Cavaleiro.[/align]

Crotonia – Estados da Igreja. 11 de Dezembro de 1541.

Baltazar chega na Península Itálica, em Crotonia, uma cidade portuária. Lá, tendo consigo seus livros, sua espada e sua corrente, seguia caminhando para um local que fosse mais isolado. Ninguém o reconhecia como clérigo. Ninguém o reconhecia como rei. Ninguém o reconhecia como anjo ou como demônio. Era apenas um homem jovem de cabelos compridos sem qualquer distinção, senão as bolsas que levava.

Havia pensando em ficar com Kalil e a caravana, mas não sentia ser ali o seu lugar, embora tivesse agregado a batalha para seu íntimo. Rezava a Deus esperando uma resposta, mas nada acontecia. Sentia-se bem, embora muitas sensações lhe fossem estranhas. Ouvia vozes. Ouvia choros. Ouvia pessoas já falecidas. Não conseguia distinguir o que era ilusão do que era realidade. Sua mente lhe pregava peças, vendo-se conversar com alguém que nem sequer estava ao seu lado.

Por mais uma noite dormiu. Em seus sonhos Gabriel Arcanjo parecia surgir por mais uma vez até que lhe fossem tiradas as asas. E ao invés de um mundo bíblico, um mundo grego se formava trazendo uma espada que se empunhava em chamas. Chamas estas que eram douradas e uma voz falando de perseguir a justiça. Em sua mente apenas vinha o Arcanjo Miguel, com suas asas e a espada de fogo. O que aquilo significaria? O que teria significado tudo o que passou? Lutou contra os ideais, lutou contra a própria cultura, lutou contra a própria religião e contra os religiosos que sustentavam e davam vida as crenças. Não sabia ao certo o que havia se tornado. Tinha tanto o poder de curar, como o poder de inflamar as coisas. O que faria?

No outro dia, ao lado do corpo, caído no chão, uma pequena estátua grega com a imagem de uma mulher junto a um anjo. Ambos tinham elmos e seguravam uma espada. A mulher também tinha um escudo, e o homem asas. Junto a eles uma outra mulher, com características hindus, aparentemente iluminada. Abaixo deles, Satanás, na forma de um anjo caído com asas de morcego e chifres. O que aquilo significaria? Reconhecia Miguel, mas e os outros dois? Foi então que surgiu um outro homem que lhe ensinaria muito: Aquiles...

- Se pergunta quem é o inimigo, e quem é o aliado, meu caro? - Perguntou um homem de aparentes 30 anos. Tinha o corpo típico de um guerreiro.

- Apenas muitas experiências que tornaram o caminho confuso... - Baltazar levantou-se, segurando a imagem que provavelmente havia ficado ao seu lado durante o sono.

- Deveras... Não tem um bom semblante... - Estendeu a mão para que o auxiliasse. Baltazar o olhou. Sentia-se estranho, apesar de tudo. Levantou-se com o auxílio.

- Chamo-me Baltazar, de Âncona. E tu, quem serias? - Não queria, não estava com vontade. Não tentou ler a mente daquele homem que por algum motivo lhe parecia conhecido.

- Aquiles, o Ancião do ar. - Disse com um sorriso.

- Hahahaha, não me entenda mal, mas não mesmo que tenhas cara de próximos 30 anos, não tens idade para ser um ancião. Hahaha! - Baltazar era ainda novo. Tinha 23 anos, embora seus cabelos já haviam se esbranquiçado bastante pelo estresse.

- Hahaha, compreendo seu entendimento. Mas o tempo é algo estranho. Tenho em mim um conhecimento quase secular, e costumo... - Aquiles surgia às costas de Baltazar, colocando a mão em seu ombro. - Sumir e aparecer de repente...

Baltazar perdeu um pouco a graça e virou-se com um tanto de espanto. Nenhum homem comum era capaz de fazer aquilo. Com quantos mais cruzaria? Com quantos mais teria feita sua vida? Quantos descendentes de anjos, conscientes, aprendizes, demônios e seres teriam controle de tal força divina? O ex clérigo travou o olhar no homem que fugiu ao foco e deu-lhe um abraço, dizendo.

- Sei que passou por maus bocados, mas precisaremos conversar sobre aquilo que questiona. Este artefato que segura tem um significado, e hoje lhe apresentarei, se aceitar, o que busca há muito tempo, mestre...

- Mestre? - Baltazar tentou por mais uma vez, mas não obteve sucesso. Algo o impedia. Algo bloqueava. Quem era aquele homem? O que ele iria lhe mostrar?

- Ora, você é um mestre, não é? Correntes, uma espada, o semblante vivido. Quantos já ensinou? - Perguntava Aquiles.

- Uma... Uma única garota que por minhas ações recebeu a morte... E não posso morrer pois viver com isto é meu castigo... Morrer só me faria feliz neste momento... - Baltazar respirava fundo, vendo as sombras que se formavam. A voz de Luna, a voz de Tomás. Estariam ali? Não, não estariam, mas conseguia ouvi-los. Mas por quê? Por quê os ouvia? Conseguia ouvir os mortos? Conseguia ouvir tudo além do que pensava que ouvia? E os gritos? E as vozes? E as sombras que passavam por seu corpo e olhavam para trás buscando-lhe? As pessoas que levou para as chamas. As pessoas com quem conversou. E os anjos? Gabriel lhe falava para buscar Miguel. Onde estaria Miguel Arcanjo neste mundo? O que estaria acontecendo? Tomás havia lhe ensinado mais do que pensava? Tinha algo mais em sua mente do que poderia compreender? Sua cabeça doía com tantas questões, sem falar da culpa. A morte de sua cara aprendiz, Luna. Nem sequer avisou seus pais. Nem sequer conseguiria encará-los. Enterrou com ela seu espírito de clérigo, embora seu coração ainda mantivesse seus juramentos. O beijo que havia recebido dela era o único beijo que tinha, o único toque que havia recebido nos lábios. A única pessoa que ficou ao seu lado, dando sua vida. A única pessoa que o amou, e até então também descobriu que a amava. Um amor que de pai e irmão quis ser algo mais, mas agora, não mais o destino lhe daria chances disso acontecer...

Sentiu o toque de Aquiles.

- Muitas provações... Mas este é o fim de suas dúvidas e o começo de certezas. Por favor, venha comigo, mestre... - Baltazar via que Aquiles ainda insistia em lhe chamar de mestre. Mesmo explicando o motivo, a palavra tinha uma entonação muito mais carinhosa e carregava mais peso do tempo do que ele poderia compreender. Seguiu-o indo para um lugar isolado. Um lugar próximo a praia onde poderia ver o Mar Jônico, um pequeno braço do Mar Mediterrâneo que banhava o sul da Península Itálica. Durante a caminhada o ex rei e clérigo ficava a prestar atenção na estátua com a imagem dos três seres e de satanás.

- Há uma lenda que diz que o catolicismo contou apenas parte da história. As outras duas figuras que você vê é Athena, deusa Grega da Guerra Justa, e que hoje posso dizer da Humnaidade e da Esperança. E a outra é Marishi-Ten, uma deusa que representa a personificação de vários antepassados hindus, principalmente a Marici, que significa Luz ou Miragem. Deidificada da miragem e portanto do invisível, era invocada para escapar de inimigos. No Japão, com o budismo, esse conceito foi ressaltado, passando a ser a padroeira dos guerreiros. Tornou-se a deusa das artes marciais. E há muito mais além disso. Se lhe interessar, há de poder pesquisar numa biblioteca que futuramente poderia lhe mostrar. - Aquiles sorriu, sentando-se e olhando para o mar.

- Mais deuses...Defendi o meu... Defendi de outros... Convivi com outras culturas. Convivi com pessoas que por alguns seriam mortos e por outros venerados... O que diabos há de concreto? Eu já não sei se vejo algo além do Criador. O restante para mim não tem mais relevância. Procuro nas pessoas o melhor que podem dar, e coloco como Criador todos os nomes que possam aparecer. Já ouvi falarem que nos tempos mais antigos Cristo derrotou Hades e libertou as almas do inferno... Depois se tornou o inferno de fogo de satanás... Tudo para mim foi um sincretismo, Zeus, Apollo, Rá, Anubis, Brahma, Alá...

- Se Athena reencarnou em Cristo, não duvido que ele o tenha feito... Ao menos com os que estavam lá nessa época.

- Mas que diabos está falando?

- Hahahaha... Pois sim, você é católico, deveras estranho ouvir algo como isso, mas você já ouviu falar que a Igreja tem alguns mitos?

- Jonas me falava a todo mundo da descendência angelical. Da semelhança de nós com Deus, o que nos torna deuses, ou então, parte dele, de sua existência.

- Não, não... Falo de uma guerra que acontece além das guerras humanas, uma guerra santa...

- De guerras santas, temos muitos exemplos! Mas não deixam de ser humanas.

- Não esta que estou lhe falando. Quem é o papa atual? Paulo III? Se não engano-me, ele tem alguns contatos com o Santuário, efetivamente falando.

- Santuário? Se eu ao menos entendesse o que estás dizendo, eu poderia chamar de blasfêmia. Contudo, toda organização tem seus mistérios. Os livros que possuo são proibidos, e o que escrevi, uma agressão à doutrina. Explique tudo de uma vez, Aquiles. - Falou Baltazar já um tanto cansado.

- Eu ia fazer aos poucos para que a compreensão lhe fosse melhor, mas já que prefere assim... A Igreja é uma organização religiosa, de fato. Contudo, alguns de seus membros sabem o que se passa por trás dos panos. E mesmo os Papas sendo o que são, nem todos tem ciência do que acontece, alguns pela ferrenha fé que levaria tudo a perder, outros por não ser necessário. Mas boa parte deles tem ciência do que há, alguns até antes de estarem lá em cima. E por isso o papado as vezes transita entre amigos e inimigos. Filósofos e manipuladores. Aconteceu no século passado e acontece neste também.

- E o que acontece atrás dos panos?

- Athena... Pode lhe parecer estranho, faça o sincretismo se quiser, mas ela existe e de tempos em tempos ela surge reencarnada num corpo humano, nos auxiliando a lutar contra o deus da morte.

- Thanatos?

- Este serve a ele. Hades é o deus que enfrentamos. Mas Thanatos está por ai, fazendo o serviço que lhe cabe. - Aquiles sabia algumas coisas em relação aos deuses. Mas um “sim” e um “não” poderia mudar vidas inteiras. Não poderia dizer tudo que sabia. E Miguel o orientava a manter alguns segredos até que ”pessoas passem por experiências necessárias.” “Tudo tem um tempo correto para acontecer.” Dizia o arcebispo.

- Está querendo dizer-me que os deuses gregos existem e que estão guerreando? Ha! Eu não consigo acreditar em tal coisa!

- Baltazar, se sei bem, você discutiu muito filosofia e fé, além da doutrina. Então sabe que a fé é uma, a realidade, contudo, pode ser outra. Não estou dizendo que o Deus que acredita não existe, apenas que é mais complexo do que isso. Odin, inclusive, já deu as caras por vez ou outra. Não sei se ele se envolverá agora...

- Sim, sim, mas é difícil engolir tal história. Preferia considerar os deuses anjos e arcanjos do que deuses gregos. E só o admito por sentir confiança em tua voz. Contudo, como eu poderia entender isso sem que me mostrasse?

- Permita-me treiná-lo, e o farei.

- Hum... Não tenho mais nada a perder... Só espero que Deus compreenda minha situação...

- Se ele é quem escreve o destino dos homens, então suas linhas são tortas, mas concretas. Venha comigo...

Começaram a caminhar. Aquiles falava sobre Athena e o Santuário, apresentando detalhes e mais detalhes que lhe seriam uteis, e talvez até excessivos. Mas que formavam uma imagem que aos poucos ia tornando as coisas compreensivas, embora não conclusivas. Ainda era complicado para um homem de ferrenha fé católica, que foi inquisidor e julgou homens, de que outros deuses, além é claro, do Criador, realmente existiam e estavam na terra. Mas se tudo era uma questão de crer ou não, por que não poderia ser verdade?

Após várias explicações Aquiles começou a testar os poderes de Baltazar. Era perceptível a telepatia, que embora limitada, era poderosa para um ser humano. Imaginava por que não a desenvolveu mais, ou talvez a tivesse desenvolvido e algo a restringisse. Iria auxiliá-lo, de toda forma.

Baltazar também tinha uma aura bem presente. Dizia ter desenvolvido com Jonas, mas foi aprimorada por um demônio chamado Tomás. De qualquer forma, conseguia dois efeitos poderosos, embora ainda fracos para certos tipos de humanos. O primeiro era uma aura de paz, desenvolvida quando Clérigo e Inquisidor. A outra era uma aura hierárquica, que se fazia mostrar-se superior e intimidador ao inimigo, desenvolvida um tanto quando inquisidor e outro tanto quando Rei, em Angola, onde ficou por dois anos estabelecendo seus julgamentos e travando batalhas.

Outra manipulação cósmica eram as ilusões. Com a telepatia e imaginações caóticas, além de alucinações, Baltazar havia dito que as desenvolveu buscar fazer temer o homem e seus pecados. Um efeito que poderia se tornar uma técnica esmagadora assim que treinada.

A penúltima era a cura. Ensinada por Jonas e aprimorada por Kalil. Não era forte para juntar ossos em segundos, mas era poderosa ao pondo de avaliar a fé e condicionar a energia do indivíduo para se ajudar. Ou seja, algo que dependeria muito da confiança daqueles que auxiliasse, e do próprio estado.

E por último, mas não menos importante, e finalizando o leque de habilidades, a tal transmutação. Habilidade que se constituía em moldar e transmutar elementos onde o treinamento para aquecê-los criou a habilidade de fazer gases entrarem em ignição. Esta habilidade Baltazar mostrou como havia conseguido, embora a mente lhe doesse. Quando não estava bem, as coisas pareciam mais difíceis. Aquiles disse que o auxiliaria e leu os tais livros e aquele que o ex clérigo havia escrito. Iriam começar um treinamento, mas só mais tarde. Antes, por curiosidade, Aquiles levou o loiro para uma sala de meditação. Começaram a conversar sobre o espírito do jovem iniciando um monólogo.

Dizia não importar os sentimentos que se tinha. Culpa, medo ou vergonha. Tais sentimentos não faziam mau, apenas provavam que se estava vivo. Contudo, se muito contidos, geravam traumas que fortaleciam um tipo de bloqueio natural que todo ser humano possui. Dizia, como na Caballa, que o homem possui chakras, ou como ali chamavam, Kiklos. Explicava que seriam portões de grades que tampam uma piscina de energia que roda dentro do espírito e faz circular pelo corpo. Quando se tinha um trauma sentimental, ou algo muito intenso ao ponto de carregar por muito tempo, era como se colocasse uma placa de madeira em cima dessa grade, impedindo o fluxo. Em contrário, abrir essa grade não significa tirar todo o mau sentimento, mas impedir que lhe causa dano, meio que alcançaria pela aceitação e posterior renovação de sua visão.

Aquiles dizia isso enquanto sondava o espírito do jovem, que até então havia se deitado. Como suspeitava, culpa, medo e vergonha eram seus maiores pesares, e embora tivesse conseguido liberá-los há muito tempo atrás, talvez na época que fosse inquisidor, nestes últimos anos seu psicológico o abalou tanto que os trancou novamente, ficando apenas aberto o que correspondia ao Amor e a Verdade. Amor, porque entendeu o que significa amar ao próximo e a amar alguém de fato, sem qualquer pesar, levando suas ações a tentar dar mesmo àqueles que não poderiam retribuir. A Verdade, pois sempre buscou a justiça, buscando o fato e desvencilhando dele as mentiras e meias verdades, não praticando a mentira. Isso, em sua vida, contribuiu para sua evolução.

Lhe explicado, passou para a próxima fase...




[align=center]Capítulo XXX – Um treinamento árduo.[/align]


1542. Baltazar estudava como um clérigo, filosofava como um religioso, julgava como um rei, lutava como um guerreiro circense, manipulava o cosmo como um mago, e o moldava como um ilusionista. Era hora de trazer todas estas características e torná-lo Cavaleiro, e para isso Aquiles teve colocar a fé perdida de Baltazar para a direção correta.

Falou-lhe de Lemúria e Atlântis (ou Atlântida). Falou que tais seres existiam, embora o homem não os conhecesse. Mostrou conhecimentos que havia aprendido para o futuro rei sobre o cosmos, coisas não ditas nem divulgadas pela Igreja, presa em entrelinhas que foram ressaltadas. A Criação se tornou algo mais complexa do que parecia. Mais profunda. Isso incentivou sua curiosidade, levando o jovem de seu estado depressivo para o estado maníaco da bipolaridade. Voltava a falar constantemente, voltava a ter ideias que imediatamente puxavam outras.

- Deus! Como podeis esconder tanto e dar tão pouco tempo?! - Expressava Baltazar em seu livro cujas folhas já se tinham todas escritas. O treinamento se seguiu: Um homem precisava ter o corpo e a mente poderosa, principalmente para alguém que ia lidar com a mente de usuários. Aquiles fazia parecer fácil, amarrando correntes e puxando rochas de toneladas pela areia da praia, o jovem tentava puxá-las, sem sucesso. Aquiles sabia que o rapaz tinha grande desenvolvimento intelectual e espiritual. Um desempenho físico para uma guerreiro que deseja ser ágil. Mas este desempenho era simples. Precisava ter o cosmo elevado e explodindo constantemente numa batalha. E assim começou a ser treinado, segurando rochas e rochas sobre as costas. Puxando-as com correntes fortalecidas e empurrando-as de um lado a outro. Conforme ia evoluindo e a barba crescendo, seu físico mostrava-se a de um espartano misto a um nórdico onde os fios de barba lhe atingiam o peito.

Baltazar se estranhava. Seu corpo tomava uma forma que nunca imaginaria. Não era como de um homem que levantava mulheres com os braços. Eram braços que levantavam o céu e pernas que rasgavam a terra. Não era parruda como “homens-armários”, mas o corpo tinha um visível destaque entre os de sua estatura. Treinou a força que virava explosão, e a explosão que virava velocidade, coisa que ia ocorrendo conforme seus treinamentos de adaptação passavam a ser de aperfeiçoamento. Muito do que Ling Pa havia-lhe ensinado se usou, e as correntes, leves como uma pluma, faziam zunir os elos próximo aos ouvidos enquanto que a espada movia-se como a pena que corria em seus livros. Sua felicidade enfim retornava. Via-se como um cruzado, ou ainda, como um Paladino. Foi assim que sua aura tornou-se prata, ao invés de branca, e conquistou lampejos dourados que realçaram seu aspecto divino. Escreveu um código de conduta o qual deveria seguir baseado nos aspectos morais divinos que conhecia.

E foi durante este treinamento que o primeiro obstáculo foi rompido. O Kíklo do Fogo, bloqueado pela vergonha, se abriu. A força de vontade havia lhe voltado e com grande intensidade. Não tinha porque envergonhar-se de quem era ou do que foi. Aquilo que passou foi necessário para chegar no agora, e este é o que importava no momento.

1543. Aquiles continuou focando na resistência física do futuro cavaleiro e no seu aprimoramento. Era necessário que o corpo se acostumasse a grandes investidas além da própria manipulação cósmica. Faziam lutas corpo a corpo, com e sem correntes, as vezes treinando com a espada ao qual Aquiles acabou por aprender com Baltazar, que embora não fosse o maior dos mestres, a manipulava muito bem.

Após um momento fatídico, o futuro cavaleiro foi levado para o Santuário, onde poderia conhecer suas características. O primeiro local foi o Vilarejo Rodório, onde havia um pequeno comércio e familiares, alguns de cavaleiros. Baltazar percebia um tanto de tristeza, mas Aquiles não falava o motivo. O homem tinha em mente que uma invasão havia acontecido dias antes, e houvera várias mortes. Tinha ciência que deveria ter vindo combater junto aos outros, de engajar Baltazar em uma armadura. Mas não era o momento. Como Miguel uma vez lhe disse, tudo a seu tempo. Baltazar teria o tempo dele, e não deveria preocupar-se com algo que já ocorreu, mesmo que viesse a saber visitando o Santuário. Prosseguiram caminhando.

Mais adiante, passando pelas montanhas, uma entrada que levava ao Santuário. Via-se o relógio de fogo, que ostentava os signos do zodíaco. Então, o local almejado por Aquiles, o Coliseu. Lugar onde treinavam os futuros cavaleiros. Este foi o lugar onde tomou a primeira grande surra! Praticamente um teste de provação onde avaliava a determinação do cavaleiro. Os outros aprendizes assistiam a batalha.

…Um golpe bem dado no estomago fazia Baltazar voar para o outro lado da arena. Os aprendizes se levantavam gritando. O jovem levantava-se com dor e erguia o corpo.

- Atacais de forma covarde!... - Baltazar.

- Não vou levá-lo para jantar, Mestre Baltazar... - Aquiles ria. - Nem seus inimigos!

Baltazar avançava contra aquele que lhe ensinava. E assim a luta se seguiu. Apesar de parecer um treino, Aquiles tacava com golpes poderosos, e Baltazar os sentia como se estivesse tendo a vida esvaindo. A luta não acalentava, e aparentemente não pareica ensinar muita coisa. Parecia apenas testar algo que ele não sabia ao certo o que era. O Aquiles queria que ele provasse naquela batalha? Seu corpo doía, e ele começava a responder a altura. Nisso Aquiles aumentou a força e a intensidade dos golpes.

- Diga, Mestre Baltazar, o que Deus lhe disse quando entrou nesta batalha? - Aplicava um soco contra o rosto de seu aprendiz.

- Eu não tive chance de perguntar a ele! - Segurava o punho, quase sentindo a mão desintegrar. Subia uma joelhada na altura do queixo.

- Deus disse que irá morrer pelas minhas mãos! - Aquiles esquivava virando o rosto e o cosmo se elevava estourando no peito de Baltazar.

- Mas que diabos está falando?! Argh! - Baltazar voava e fazia um mortal de costas, colocando os pés no chão onde deslizava criando duas pequenas valetas. Elevava o cosmo e avançava contra Aquiles concentrando a energia no punho. - Se falas de destino, tenho meu livro a ser seguido!

- Nele está escrito que vai morrer! Permitirá?! - Aquiles segurava o punho e abria um sorriso. Uma rajada cósmica fazia os ventos levarem Baltazar para o alto enqanto lhe corta a pele.

- Ele deu o livre arbítrio para fazer minhas escolhas! - Aquiles surgia no alto e aplicava um chute contra o aprendiz, lançando-o contra o solo junto a outra rajada cósmica.

- Não respondeu minha pergunta!...

A luta prosseguia de forma selvagem. O corpo de Baltazar tinha tantos hematomas que sequer sentia seu corpo ser atingido. O rosto estava deformado, talvez uma costela quebrada e vários músculos doloridos que mal lhe respondiam. Aquiles pisava no peito, apertando-o. Olhava para Baltazar com o semblante da morte.

- Vou matá-lo agora, Mestre Baltazar... - Aquiles elevava o punho, cocnentrando nele grande parte de seu cosmo.

- … - Baltazar fechou os olhos e ficou a esperar. Aquiles efetuou o ataque. O sangue vinha ao braço. O sangue do aprendiz... O ex clérigo havia movido a cabeça para o lado, tendo um filete de sangue saindo pelo pescoço. Aquiles o olhava e ouvia o som de um sino. O kyklo da terra de seu aprendiz.

- Não importa o que Deus colocou para mim. Já morri uma vez e entendo que o corpo é apenas uma carcaça. Senti o vazio que é o corpo e sei que ele é apenas uma ferramenta para habitar este mundo profano... - Baltazar agarrava o braço de Aquiles. - Derrube-o mil vezes. Enquanto meu espírito for forte, por mais que sofra, meu corpo não parecerá. Prometi a Luna sobreviver ao mundo. Jurei pagar a pena de ser aquele que causou-lhe a morte. E viverei enquanto houver um suspiro que seja.

A chama do cosmo de Baltazar se elevou de uma vez. Uma rajada de energia violenta que lançou Aquiles para os ares, levando-o o outro lado da arena. Aquiles sorriu. Enfim uma resposta... Enfim mais um kíklo desbloqueado. Enfim virava-se chamando Baltazar para outro lugar. Este andava confuso, quase se arrastando, e assim que pôde parar chegaram a uma fonte, a Fonte de Athena. La pediu auxilio a alguns homens e mulheres que trabalhavam, cuidando de ambos, principalmente do aprendiz. A água dava uma sensação prazerosa e sentia-se um cosmo pacífico e maternal. Sentia algo diferente do que sempre sentiu.

- Esta é a Fonte de Athena. A sensação que você tem é da deusa que aqui habita. Quando se tornar cavaleiro, talvez consiga vê-la pessoalmente após passar pelas 12 casas... - Aquiles.

Passaram um pouco menos de uma semana até que Baltazar se recuperasse. Apesar de poder, não usou seus poderes de cura para agilizar seus ferimentos. Dizia que o aprendizado vinha com marcas, e a deixaria para lembrar as próprias palavras.

Voltando ao caminho, lhe foi mostrado as 12 casas. Contou Aquiles que após as 12 casas havia uma biblioteca e também o salão do mestre. A estátua de Athena era visível logo atrás do dito salão. Falava sobre Star Hill, e onde ficava a Masmorra. Fez questão de mostrar ao jovem o cemitério onde os guardas, perceptíveis aos dois, permitiram a entrada. Lá o futuro cavaleiro pôde ver e sentir o ar que carregava o local. Embora triste, tinha grande fonte de fé. Um grande amor. Diferente dos radicais religiosos, parecia um sentimental palpável. Ali Baltazar começava a entender quem era Athena e assim começaram seus questionamentos, coisa que Aquiles cultivava há algum tempo, percebendo que Baltazar era muito melhor compreensível pelas sensações que por palavras.

Ficaram um tanto no Santuário. Retornam para a Península Itálica. Lá Aquiles começa a puxar um assunto doloroso: Luna. Baltazar o evitava. Não conseguia perdoar-se pela morte dela. Preferia não pensar, muito embora sempre se lembrava de sua voz e o beijo que havia dado como despedida. Ainda lembrava-se da flecha que havia a atingido. Imaginava que a flecha era para ele, que fugia dos homens que lhe consideravam um demônio. E Aquiles, percebendo que ele ainda não estava pronto, prosseguiu com os treinos, começando fazer e refazer as técnicas, auxiliando-o.

Contudo, nem Aquiles estava ponto para as técnicas que Baltazar detinha. Como Inquisidor, auxiliado e treinado por Tomás, que se mostrou um espírito demoníaco, suas técnicas visavam atacar a mente do usuário e buscar nela seus pecados e e mal feitos, trazendo todos à tona e fazendo a vítima sofrer de forma intensa. Um golpe psicolúdico que poderia derrubar qualquer homem comum. Isso fez com que o antigo cavaleiro questionasse o tal Tomás, guardando respostas para si enquanto as analisava. De toda forma, ensinou ao jovem uma técnica que o auxiliaria como um suporte, o qual, modificado por Baltazar, tomou o nome de Archangelus. Também lhe auxiliou com suas habilidades, auxiliando-o a amplificar o efeito de cosmo criando a habilidade Submissão, trazendo à tona o poder “herdado e dado por Deus de reinar”. Uma habilidade ativa que momento ou outro lhe seria muito útil.

1544 e os anos que se seguiram... Baltazar continuou a treinar e a estudar. Aquiles tentava lhe fazer vencer a culpa que tinha, passando por várias tentativas e falhas. Baltazar se ocupava com seu poder curativo e a leitura de verdades. O fazia com a própria mente, buscando as próprias lembranças. Lembrava do espírito e da veste purpura que ele havia lhe apresentado. Lembrava dos homens inocentes que matou e dos farsantes que queimou quando lançou as chamas. Lembrava das próprias falas, da própria voz. E logo lembrava-se de Luna. Como perder a culpa que sentia? Ele era culpado por sua morte, não era? Demorou, demorou bastante tempo para entender que não poderia fazer nada para auxiliá-la. O livro de Jonas já havia se acabado há bastante tempo, embora tivesse tentado interpretá-lo de outras formas, levando a coisas incompreensivas e desconexas. Analisava seu passado...

Era feliz com Jonas e Luna. Seu treinamento, seu desenvolvimento e aperfeiçoamento. Não era tão bom como era agora. Não tão experiente. Mas avaliava o que tinha. Tinha o poder que hoje não detém mais. Não tinha vergonha, medo ou culpa. Culpa que veio pela morte de Luna. Medo da vida, tentando o suicídio mesmo que se proibisse. Vergonha de parecer estar do lado contrário ao que havia aprendido, auxiliando pessoas contra reis coroados pela Igreja. E embora tivesse entendido que hoje era um paladino e que lutaria pela vida que tinha, visando praticar o bem, ao lado da Igreja ou não, a culpa lhe era dolorosa e massacrava o peito.

Passou por um grande período de meditação. Tentava entender o que havia acontecido até surgir uma sombra. Só pôde ouvir uma voz chamando por seu nome e um poderoso vendaval cósmico. Quando percebeu estavam em uma colina e uma sombra o olhava...


[align=center]Capítulo XXXI – Um acordo de Sombras.[/align]

… Nas proximidades de Heinstein, estava Baltazar junto a uma sombra. Sombra que há muito tempo não via. O paladino, vendo-se livre, elevava o cosmo prateado de lampejos dourados.

- Tu novamente! O que queres comigo, demônio!?

- Chamas de demônio aquele que te ensinou tudo que sabeis hoje? Eu disse a ti, sirvo ao verdadeiro Deus, e hoje hei de provar-te! - Falava o tal espírito.

- Provar-me como?

- Assim... - O espírito virava uma sombra negra que tomava a forma de círculo. Dentro dele saiu um homem de próximos 60 anos. Em seus olhos estavam a vivência e um pouco de loucura. Mas nada que afetasse a personalidade forte e convicta. Ele havia trazido Baltazar para aquele local, usando o vôo de sua súplice, somando com seus ventos cósmicos. - … Como vês, eu ressurgi... Ha!

- Tu és...

- Tomás de Torquemada! Inquisidor Espanhol no século XV! Ressuscitado pelo Deus que detém em suas mãos a vida e a morte! Deus que você serviu até então, Baltazar... - Aproximou-se Torquemada de Baltazar.

- Engana-te, Tomás! Me foi contada toda a história! O Deus que serves hoje deseja destruir o mundo e matar toda a humanidade! Não há esperança num ser como este! - Falou Baltazar, tentando esclarecer o espectro.

- Se não há esperança nele, não há esperança em Deus... - Torquemada olhou no fundo dos olhos do paladino. - Deus deseja que o homem faça suas próprias escolhas, contudo fica este responsável por suas ações. Deus então seleciona aqueles que merecem viver no paraíso, e deixa que os pecadores paguem por seus pecados. Este é o Deus que sirvo, Baltazar...

- Mas este é... - Baltazar fechava os olhos, tentando raciocinar aquilo que ouvia. A cabeça lhe doía. Quem era tal Deus? Por que tão parecido com o Deus da Bíblia? Deveria se apoiar em quem?

- Percebe a semelhança?... Sim Baltazar... Vou lhe apresentar a primeira dama, minha cara Eva, que podeis chamar de Pandora...

Torquemada o levou para o castelo. Um imenso castelo de inúmeros aposentos. Um ar sinistro se sentia ao seu redor, e Baltazar olhava os detalhes com atenção. O velho caminhava a frente tão firme como um jovem, coisa que o paladino reparou muito bem.

O Inquisidor se aproximava dos portões cujos esqueletos resguardavam. Ele anunciava sua presença e os portões foram abertos. Frente a entrada, poucos passos foram dados. Há alguns metros de Pandora, ele se anunciava, antes ajoelhando-se e fazendo com que Baltazar também o fizesse.

- Embaixatriz... Trago comigo um conhecido para que possa usufruir de tua presença. Incomodo-a?

A voz era severa, e muito respeitosa. Encarava o chão, em subserviência. Baltazar olhava ao redor e repousava o olhar em Pandora.

Baltazar logo poderia notar que não eram apenas eles que estavam no Salão, uma outra espectro também encontrava-se lá, uma jovem muito singular, e que parecia dirigir-lhe um olhar cercado de malícia. Quem seria ela? A embaixatriz, no entanto, era diferente. Uma mulher de aspeito nobre, recatado, porém envolta em uma sagacidade que apenas as mais desenvolvidas mentes poderiam evitar. Suas palavras, no entanto, eram gentis, quase que maternas, como era esperado de uma embaixatriz.

- Senhor Torquemada, diante de minha presença estão dois admirados espectros. A mocinha prontamente aguardar-me-á para que continuemos nossa conversa em particular. Agora, senhor, não incomodais vossa senhora. Encontro-me desfrutando de tão abençoado dia em Heinstein, cercada pela paz e pelo conforto em saber que tão dedicadas criaturas retornam a seu berço. O que viestes fazer em meu Salão? - depois, olhou para Baltazar - E tu, por favor, diga-me a tua graça.

Torquemada abriu um leve sorriso. Conhecia a peça que se encontrava presente naquele salão e olhava friamente para ela. A malícia, em todas as suas formas, era perceptível ao Inquisidor Espanhol, e não era muito bem vista por ele. Contudo, não era com ela que iria ter. Era com Pandora.
- Apresentar-te aquele que não pude trazer anos atrás, portando a inestimável súplice.

Baltazar ouvia com atenção. O olhar malicioso. Olhar que conheceu e viu muitas vezes, mas não com tamanha força. Virou o olhar rapidamente para a mulher de cabelos negros que tanto se assemelhava a sua querida Luna. Perdeu-se por um segundo, engolindo seco, ouvindo vozes e vendo sombras se moverem. Sombras que eram de sua mente. Respondeu.

- Sou Baltazar, de Âncona... Ex clérigo... Ex Inquisidor... E ex Rei...

O pesar nas palavras mostrava o passado doloroso. Olhava diretamente naquela figura que tinha palavras maternais. Apesar de parecida fisicamente, não era Luna. Pandora tão prontamente disse aquelas palavras e a misteriosa garota saíra dali. A mulher olhou para ambos e fez uma leve mesura diante deles, então, respondeu-lhes, ainda na cortês e nobre serenidade que portava.

- Senhor Torquemada, acaso comparas minha humilde pessoa a nosso senhor? Não sou aquela a quem prometeste trazer um novo portador, e sim a Hades. Se o nobre Baltazar aceitar, logo poderá seguir até o Submundo, onde será bem recebido, porém, tu sabes, como um vivo, é necessário que tenha sua súplice. Tu te encarregarás desta tarefa? - então, novamente, dirigiu-se a Baltazar - É uma honra conhecer-te, nobre. Sou Pandora, a primeira mulher e embaixatriz do Submundo, bem como a serva mais leal de nosso senhor.

Torquemada moveu os olhos para Pandora. Uma expressão levemente vazia misto um pequeno humor que tinha naturalmente. A voz novamente montou as palavras respeitosamente.

- Ha! Deveras correta, cara Eva... Contudo, tenho te respeito que não observo em muitos que a tratam por aqui. Não sois mera porteira, nem guardiã de portas de reles madeira. Sois como o Papa no mundo dos homens, e a ti tenho todo e servil respeito! Ei de encarregar-me da tarefa de buscar a súplice por mais uma vez a este gentil homem, mas tenho te um favor, minha Embaixatriz. O coração de Baltazar encontra-se dividido pela dúvida. Terias, em tuas santas palavras, algo que convencesse o fervil coração deste jovem?

Baltazar olhava para Torquemada com um certo receio. Ele o escolhia, mas melhor do que poderia pensar, Pandora lhe dava a escolha de seguir ou não por aquele caminho. Impressão que talvez fosse errônea ou concreta, mas que de um modo ou outro poderia sanar suas dúvidas.

- Senhora... Ouço em outros campos que as escolhas de seu senhor, Hades, não é a melhor e mais benéfica a humanidade. Ouvi que queria, ele, levar todos aos portões do inferno e queimar-lhes da alma aos ossos. O que há de véritas por tais cortinas?... - Baltazar suava. Uma inocência ou então ingenuidade. De toda forma, precisava de respostas. A mulher deu as costas para ambos, dirigindo a seu assento, sem deixar transparecer a expressão pensativa em sua face. Então, acomodou-se. Ponderou por uns instantes e retomou o diálogo:

- Nobre, tu conheces todos os pecados cometidos pela humanidade, estou certa? - tendo uma afirmativa por parte dele, prosseguiu - Cada pecado que nos cerca em vida exige um determinado tempo para ser completamente apagado de nós. Hades é o guardião do Mundo dos Mortos, e seu objetivo é levar toda a humanidade para a salvação, salvação esta que só lhes pode ser concedida após a morte. Tu vês, até a mais pura das criaturas precisou descer ao inferno para redimir-se, e nosso senhor apenas cuida de seu processo de purificação. Compreendes até aqui?

- Sim - Respondia Baltazar ouvindo a mulher. Prestava atenção na explicação enquanto pensava nas pessoas que levou para a fogueira. Mas também lembrou-se de sua maturidade nos julgamentos. Torquemada virou o rosto para seu antigo pupilo e acrescentou antes que ele perguntasse algo a Pandora.

- Vês? Hades não é Satanás, tão pouco diferente daquele que chamávamos de Javé... A purificação da alma vem desde o antigo testamento, assim como os castigos divinos aos pecadores. A guerra que cá verás é apenas o apocalipse onde o Senhor virá e levará aqueles que merecem a vida eterna no paraíso e trará aos outros seu vil e cultivado destino...

Torquemada aquietou-se por mais uma vez. Baltazar continuou a pensar. Seu corpo tremia por dentro. Tudo até então fazia sentido e uma certa lógica. Fechava e abria os olhos, voltando os olhos azuis para Pandora.

- Compreendo, gentil senhora... Mas como será tal processo, e como fará, Hades, com aqueles que pecaram por necessidade? Pude ver em muitos o sacrifício. Uma escolha necessária para realizar algo maior que o pecado que maculou a alma. Entendo, desde jovem, a não questionar as ações de Deus, mas tenho em mim esta dúvida...

Até então tudo estava tranquilo. Mas Baltazar estava apreensivo. Tudo lhe parecia dizer para sair daquele lugar. Seria o medo da morte? Não... Fosse qual fosse o resultado, ao menos faria a escolha correta.

- Mesmo que seja por motivo maior, - iniciou Pandora - ainda assim é um pecado, e é necessário que a alma seja purificada, pois não há retorno se a alma já fora maculada.

A matriarca deixou o salão por uns minutos, deixando Baltazar e Torquemada esperando. Apesar de tudo, Baltazar sabia que não estavam sozinhos, sentia como se fosse observado pelas sombras, e também podia ouvir os risos e gritos das almas que se encontravam perdidas naquele castelo. Porém, antes que pudesse exteriorizar essas sensações, a mulher retornava, trazendo um manuscrito em suas mãos.

- Não é feito desta forma, meu caro, mas este escritor chegou bem próximo da realidade.

O manuscrito tinha como título "A Divina Comédia", escrita por Dante Alighieri. Pandora murmurou algo como "ele conseguiu adivinhar, mas agora está vivenciando", porém, Baltazar não conseguira distinguir o que realmente a dama havia dito. O manuscrito parou nas mãos do aprendiz, para que este pudesse fazer uma ideia do que realmente era a purificação.

- Como tu sabes, alguns pensam nesse rito como um castigo, porém, existem pessoas aqui que podem contar a ti em primeira mão como é a experiência de redimir-se de seus pecados. Eu mesma poderia dizê-lo. Hoje, sou uma serva leal a Hades, pois ele me redimiu de ter trazido os males ao mundo.

Torquemada olhava para Baltazar, que se sentia um tanto quanto incomodado. Mas não havia problemas. O velho já havia explorado bastante a mente do jovem para compreendê-lo. Havia aguardado que a senhora voltasse, soltando mais uma de suas expressões Maquiavélicas. Logo que Pandora retornava com um manuscrito, ele olhou com um tanto de humor, e ao contrário de Baltazar, ele havia ouvido os murmúrios, abrindo um sorriso de canto.

Baltazar pegou o manuscrito e o encarou. Olhou Pandora como se pedisse licença, abrindo os escritos. Folheou-o, lendo pequenos trechos. Um homem que descia para o inferno e buscava sua musa. Passava pelos círculos do inferno, onde cada um havia um pecado específico a pagar. Respirou fundo.

- Posso tê-lo comigo para ler?... - Baltazar fechou os olhos e pensou por um segundo - Essa é a justiça divina, e a entendo bem. Antigamente a cumpria literalmente, como Torquemada ensinou-me. Levava as almas para o inferno em montes de fogo. Hoje entendo que a morte virá hora ou outra. Como rei, fiz cumprir as boas ações, fiscalizando para que não houvesse mais prática do mal. E assim deixei que a morte os levasse no tempo escrito para que pagassem por aquilo que haviam feito. - Baltazar era um homem puro, que ao invés de punir, se sacrifica para auxiliar. É o homem que mesmo tendo um deus nas mãos, se prostraria e pediria perdão, e ainda sim, se este o atacasse, defenderia aquele que protege. Basicamente nunca levantaria a mão para Deus, mas se lançaria na frente de seu punho para proteger alguém.

A embaixatriz assentiu, pedindo apenas para que ele lhe fosse devolvido na primeira oportunidade. - Algo mais desejais desta senhora?

Baltazar fechou o manuscrito. Assentiu com a cabeça. Guardou-o junto aos braços. Ficou pensativo. Tudo lhe parecia lógico. Tudo voltava a própria crença religiosa. Mas não sentia que aquilo era certo. Torquemada tomou a frente numa reverência.

- Minha senhora, agradeço tuas sábias e gentis palavras. Irei ter com Baltazar. Se houver algo que seja necessário, chamai e virei a tua presença! - Torquemada levantava-se, mantendo a cabeça baixa. Baltazar o olhava e o imitava. De certa forma perdido. Pandora os liberava e então seguiam para fora.

Lá começavam a conversar. Torquemada insistia, convicto, mas via a dúvida emocional em seu antigo pupilo. Talvez fosse necessário uma nova demonstração. Se a lógica já havia tomado sua mente, a sensação da súplice lhe faria ver como era servir ao deus do mundo dos mortos. Deixou-o por um momento, mal sabendo que alguém espreitava.

Essa era a deixa para que aquela espectro se aproximasse. Baltazar fora surpreendido por ela, e a mulher fitava-o, parecendo interessada. Porém, suas próximas palavras soariam ao mesmo tempo gentis e debochadas.

- Criança, responda-me com sinceridade: quantos anos acha que tenho?

Baltazar virava-se. O cosmo elevava-se num prata com lampejos dourados, destacando nas sombras que se faziam na região. Vendo a mesma mulher que antes estivera no salão, encarou-a numa pose mais defensiva.

- Torquemada é nascido no século passado, aparentando 60 anos, embora ande como um jovem atleta em sua melhor forma. Creio que não posso responder tua pergunta. - Disse Baltazar que analisava-a, percebendo a silhueta da mulher. Linda e cheia de malícia, perceptível aos olhos azuis do jovem de pouco mais de 20 anos.

- Ora, sou ainda mais antiga que esta alma, venho de uma guerra anterior a esta que agora se iniciou... ups. - Ela aparentava ter dito algo que não deveria.

Baltazar olhava para ela, encarando-a nos olhos.

- Guerra? A guerra que Torquemada fala? - Olhou-a buscando tentar entender o que ela queria dizer com aquilo.

- Não sei de qual guerra ele fala, sei da guerra que acontece. Uma guerra entre deuses. Nosso senhor não é o único deus, creio que saiba disso. Ele é apenas um entre tantos outros, mas é o mais justo. O seu Deus é um outro deus, que serve a três religiões diferentes. Ele trouxe seu filho à Terra pelo ventre da Virgem Maria, e os homens, egoístas como são, tomaram a palavra deste deus como sendo a única. Ele é o deus da bondade, como dizem, mas sabe ser cruel também. Fui uma das vítimas que ele tão cruelmente deixou jogada à própria sorte. Eu não serviria a um homem que me abandona...

Ela parecia falar sério, e conforme falava a raiva vinha a seus olhos. Era a demonstração suficiente de que ela, apesar de tudo, ainda possuía em si uma espécie de humanidade, mas era uma alma desencaminhada. Será que Hades desencaminhava seus seguidores? Era este o meio de conseguir a purificação?

- Vi Pandora em sua melhor forma. Como tu podes ostentar tanta ira após a purificação? Lembras um anjo caído, servente ao demônio! - Baltazar fechou os olhos. A situação, o ar que sentiu fez reanimar sua convicção na bondade de Deus. Viu-se como clérigo naquele momento, e fez a defesa de seu Deus.

- Deus não abandona Homem algum. Ele tem o braço voltado para todos! Tens de levar a Ele o teu para pegar tua mão! Não importam os santos, que por meio, auxilie aqueles que solicitam! Ninguém tem mais do que pode carregar! Eu carrego a minha cruz, e mantenho-me íntegro a fé que possuo! Se fizeste o mesmo, receberás o céu!... Que dor sentis a ponto de desviar-te?

Baltazar focava os olhos da mulher, buscava entrar em sua mente para revelar seu passado. O que ela sentia? Pelo que tinha passado? Parecia uma ira secular alimentada por anos. Quem era aquela? A mulher jogou-lhe uma espécie de caderno para ele.

- Mais uma leitura para você, Baltazar. Conheça quem fui em vida. Se ainda achar seu deus tão justo, venha me procurar, pois não vejo justiça em levar uma mulher tão devota a ser humilhada da forma que fui. Leia até a noite em que tive de fugir de casa.

Baltazar o pegou no ar. Olhou nos olhos dela. Abriu o diário parando em uma das várias páginas. Olhou novamente para ela e começou a ler dinamicamente passando linhas em segundos. Levou a mão à boca enquanto os olhos corriam como loucos. Não tardou em chegar no seguinte trecho:

"Tomou-me como o animal toma a sua presa, parecia desejar a carne como se nada mais estivesse dentro dela, como se fosse a caça desprovida de alma. Usava meu corpo para fins sádicos, chamava-me das mais terríveis ofensas, e eu rezava a Deus para que aquilo parasse. Implorei para morrer, cheguei a chorar lágrimas de sangue. Nada acontecia, era somente dor. Naquele momento, eu soube, havia sido abandonada por Deus e pelos anjos. Quando o monstro terminou de deleitar-se com meu corpo, deixou-me naquele quarto sombrio, sequer olhou para meus olhos, cheios de dor, raiva culpa... sim, culpa. O que eu havia feito para merecer aquilo? O que tinha em meus olhos que, ao se cruzarem com os dele, despertou tal desejo? Por fim, a dúvida que nunca sai de minha mente: Por que Deus deixou que aquilo me acontecesse? Meu corpo fora marcado por unhas, dentes, parafina, fogo... e coisas que sequer tenho coragem de mencionar. A primeira noite de uma mulher... sempre me disseram que era algo horrível, mas... não que era um rito monstruoso e torturante. Não, não acredito que seja. Foi algo incomum..."

Um péssimo sentimento lhe fez sentir. A aura baixou, quase eliminada. Fechou o diário enquanto seus olhos se mantiveram fechados. Então os abriu lentamente, encarando a mulher a sua frente. Não tinha argumentos. O que dizer àquela alma que sofreu o pior castigo que uma jovem mulher poderia sofrer naquele tempo? Como restauraria sublime fé em alguém que a resguardou até o momento de ser envenenada com a ação monstruosa de um homem? Ela interrompia seus pensamentos...

- Já vi que chegou aos meus dezesseis, creio que não leu o resto, pela forma como me olhou. Eu mesma não me lembro bem, porém, a continuação do diário diz que meu “noivo” fez um escândalo que me fez ser excomungada e odiada pela sociedade pacata em que vivia. Então, para parar de envergonhar minha família, forjei minha morte e parti para longe, onde encontrei abrigo nos braços de gentis pessoas, e um deles foi Hades, cuja mão estendeu-se para mim de forma tão solícita que sequer ouso questioná-lo. Ele é um deus bom, nunca vi dúvidas nisso, mas seus métodos não são ortodoxos. Conheça mais o mundo, criança, é o que lhe digo. Assim que conhecer a verdadeira maldade, venha conversar comigo. Enquanto isso, eu estarei a seu lado, pronta para ensiná-lo mais a respeito da verdadeira corrupção, daquela que liberta, daquela que purifica. E antes que me pergunte: eu não fui purificada. Assim que cumprir meus anos de servidão, serei purificada. Até lá... - ela pausou, e não fez menção de retomar a fala, apenas pegou seu diário de volta. - Isso não é coisa para uma criança ler.

Baltazar ouviu. Ouviu como uma marreta arrebata a rocha e a transforma em pó e cascalho. Mas tinha a bondade e a consciência. Não importava o crime. Homens tinham a carne e a centelha divina em suas almas, e essa centelha precisava ser alimentada para que pudesse, os homens, sobreviver a todo o mau espalhado no coração de outros. Ele pegou a mão dela, ao mesmo tempo com força e delicadeza. Seus olhos voltaram-se para o dela. Não mais inocentes ou ingênuos. Quantos mais não havia explorado a mente? Quantos mais não havia visto, como um filme, o crime premeditado em suas mentes? Falou a ela com um tom mais vivido do que poderia transparecer.

- Não sois a única sofredora de tais crimes. Ouso dizer que não foi a pior, e também não foi a última vez. Assassinos, covardes, violadores de ventres, maníacos, psicopatas... Quantos não testemunhei os pensamentos e a corrupção da carne. Vivi por anos o que pessoas não teriam em vidas. Tive meus próprios empecilhos... O que fizeste depois de tudo? Vingaste teu violador? Talvez não seja necessário ler o restante de teu diário para dizer quanto mal praticou após seu infortúnio. Quantos não fizeram o mesmo que tu. Porém tu tens o conhecimento da morte, o que torna teu crime maior... Não a culpo, mas como seria tua vida se a tivesse retomado de outra forma? Torquemada citava um homem chamado Maquiavel... Os fins justificaram teus meios? Surgi em tua presença por Deus, e por Deus ei de fazer-te entender! Salvar-te-ei de tal amargura e rancor! Teu corpo, embora violado, não torna tua alma vil! Sois vítima dos Homens, não de Deus! Hei de mostrar isto a ti e recuperarás a bondade da criança que eras, os sonhos que tinhas! Como prometido a meu mestre, Jonas, hei de trazer a paz a todas as almas que carecem de fé!

Baltazar soltava a mulher, mantendo seus olhos focados nos dela. Um olhar profundo e fundo que buscava enxergar-lhe a alma. Era visto que ele tinha um bom coração, mas a espectro poderia ver isso? A moça sorriu. Parecia que as palavras surtiram certo efeito, mas não o que o homem desejava.

A moça sorriu. Parecia que as palavras surtiram certo efeito, mas não o que o homem desejava.

- Baltazar, o que fiz depois não foi o fruto somente de meus infortúnios, os homens fazem o que querem, e é por isso que Deus para mim não passa de uma figura cruel que nos ignora, e outros deuses fazem o seu trabalho. É só ver o caso de Odisseu, Athena o auxiliou, não Deus. É só ver Medusa: Athena a puniu, não Deus. É só ver Sísifo: ele tentou enganar Thanatos e Hades, não conseguiu... e foi punido por eles, não por Deus. Deus só está presente quando muito lhe interessa, como no caso de seu filho, que também visitou a Mansão dos Mortos. Não existem homens santos, Torquemada mesmo é um homem mau, Baltazar... Ele é um velho mau que se faz de mensageiro de Deus. Então, você é bom... por isso, Heinstein ainda não é o lugar certo para você. Vamos ensinar o Baltazar a viver a maldade, podemos? Vou prepará-lo da maneira mais adequada: anos de vivência. Enquanto isso, vá embora, é o melhor que faz a mim e a você mesmo. - A mulher aproximou-se dele e o beijou. O toque de seus lábios e de suas mãos era frio, porém, algo invadia a mente do homem, uma espécie de prazer. Aquele beijo era bom, de certa forma. Então, ela prosseguiu com seu adeus. - Você me pertence, Baltazar. - E assim ela foi embora.

O paladino a viu seguir seu caminho. A sensação do beijo ainda ficou em seus lábios. Não conseguia definir o que havia sido aquilo. Mas estava convicto que salvaria aquela alma. Não mais em vista, nem Torquemada, Baltazar rumou para a direção oposta ao castelo. Não tardou para encontrar Aquiles, que o levou de volta...


[align=center]Capítulo XXXII – Últimos Anos[/align]

- Então pergunto, Baltazar. O que prefere? Dar aos homens a oportunidade de evoluir, aprendendo com os próprios erros, e dar-lhe a esperança? ou selecionar e deixar à terra apenas aqueles perfeitos que duvido ser mais que um único porcento de toda a humanidade? - Aquiles cruzou os braços e olhou para o tal paladino. - E tenha em mente. Hades não é o tal Criador. Então não se sinta forçado a escolhê-lo por tal semelhança...

Esse foi o fim de uma discussão. Athena e Hades. Não havia mau ou bom. Apenas visões diferentes, e ainda sim não tinha certeza sobre o pensamento de um ou outro. Contudo, em suas visitas ao Santuário todos tinham a mesma ideia sobre Athena, uns chamando de inocente, outros de esperança, mas todos falavam de sua bondade, ao contrário de Hades, que ouviu Torquemada e a espectro com quem teve uma pequena e rápida conversa. Precisava decidir, e o fez.

1545. Fevereiro, dia 5. Baltazar meditava sobre suas escolhas. Meditava sobre sua vida. Meditava sobre a mulher que encontrou. Meditava sobre o passado e sobre Luna. Estava convicto que a morte era para todos os seres vivos naquele mundo. Conversou com Aquiles. Desenvolveu um novo golpe: Face da Salvação. Se a Face do Oculto trazia todos os maus atos, pecados e seres vitimados para colocar seus sentimentos naquele que os induziu, a Face da Salvação trazia todos os milagres, a fé, as caridades e auxílios que teria feito. Se um induzia a loucura e o arrependimento, o outro induzia a fé e a esperança.

Com Aquiles, Baltazar aprimorou sua técnica. A culpa aos poucos lhe sumia, sentindo-se novamente com um objetivo concreto. Treinou sua cosmo energia, sua telepatia, seu corpo e suas habilidades. Treinou e estudou mais. Leu o manuscrito de Pandora, entendendo o que seria o inferno que num futuro não tão breve enfrentaria, se não morresse antes.

Contudo, era sempre vigiado por uma sombra. E no término de seu destino como aprendiz, ao desbloquear seu 5º Kíklo, despertando a proximidade da força do 7º sentido, buscando entender o aspecto material que moldava com sua habilidade de transmutação, chegou o inverno.

Offline Profile Goto Top
 
Kondoo
Member Avatar
O Aríete
NPCs -ADMs

[align=center]Capítulo XXXIII – O Retorno de Tomás: A Luta Final[/align]

20 de Dezembro de 1548. O inverno intensificava no sul da Península Itálica. A umidade do Mediterrâneo fazia nevoar a região praiana onde Baltazar treinava com Aquiles, que conquistou de volta seu poder de alguns anos atrás, antes que bloquear seus kíklos abertos com traumas.

- 20 de Dezembro... Esta data é familiar, Aquiles, Cavaleiro de Bronze de Cassiopéia?

- 20 de Dezembro de 1482... Matou meu mestre e quase fez o mesmo comigo... Tomás de Torquemada, Espectro de Mandrágora, Estrela Celeste da Maldade...

Os ânimos se afloravam. Baltazar ouvia a voz que vinha na penumbra ostentando uma armadura. A súplice que tanto falava ser o presente que queria dar para seu antigo pupilo. Aquiles se colocava a frente do paladino que apenas encarava.

- Baltazar... Baltazar... - Falava Tomás com a voz severa. - Finalmente retomou o poder que tinha... Podes novamente vestir o presente que Deus tem guardado para ti.

- Hades não é meu Deus, nem o teu, Torquemada. A semelhança lhe engana. Ele o cega fazendo pensar que... - Tomás o interrompia.

- Cala-te! Já ouvi tais asneiras uma vez! Não há necessidade de ouvi-las novamente... - Virou o olhar para Aquiles – Não é cãozinho?

- Torquemada, tu me ensinaste bem. Contudo não é este o meu caminho. Tenho pela humanidade a esperança! E ao contrário do que pensas, nem todos os servos de Hades são santos! Nem todos são como Pandora!

- Hahahaha! - Torquemada ria. - Deveras... Há tantos assassinos quanto os quais queimei, assim como aquela que o observa desde a visita a Heinstein... Mas estes são necessários para o plano maior. Lembras de Maquiavel? Ha! O Fim valerá a pena todo o sacrifício, e neste fim, todos serão limpos de seus pecados! Somente os puros viverão nesta terra, e terei meu lugar neste paraíso!

Baltazar usava sua habilidade mental para adentrar a mente de Torquemada. Ele o impedia prontamente e expandia o cosmo de forma a lançar os outros dois para longe. - Tentais mesmo fazer isso, Baltazar? Ha! Tolo!... E tu, cãozinho? Onde está tua armadura?

- Aguardando um novo cavaleiro! - Levantou Aquiles tranquilamente. Baltazar fazia o mesmo e falava:

- Ainda podes melhorar e arrepender-te!

- Falas como o antigo mestre deste cão que o acompanha, Baltazar! Deves ter ficado tempo demasiado ao lado dele! Se não fosse Luna e este miserável herege, já serias um Juiz no submundo! - Afirmou Torquemada.

- Hahahaha... Tanto conheces o espírito, e não vês, Torquemada? Não vês quem treinaste? - Ironizou Aquiles. Baltazar ainda raciocinava as palavras de Tomás. Este ficou a pensar um segundo.

- O cristão atheniense... Ora ora... Ha! - Cruzava os braços enquanto olhava os olhos de Baltazar. - Sois a reencarnação de Octavius... Tamanho o tempo, não percebi tal semelhança... Imaginei que tivesse descido ao inferno no tempo que meu corpo pútrido se tornava vivo, mas vejo que sequer viu a sombra do inferno... Ha!... Isso explica muita coisa a cerca de ti, Baltazar. Mas quase o trouxe para verdade, e ficaste em dúvida por diversas vezes... Se não fosse aquela pirralha... Fico apenas curioso... Como este cãozinho conseguiu manter sua juventude? Assinaste com o diabo? Ha!

Baltazar ouvia com atenção, mas ignorava os dizeres a não ser aquilo que se referia a Luna. Seus punhos fecharam enquanto seu cosmo se elevou.

- Luna era uma boa alma!... O que tu tens haver com ela?! - Questionou Baltazar.

- Simples... Aproveitei seu naufrágio para tirá-la do caminho... Nada que uma seta envenenada não pudesse cumprir o serviço. Contudo, imaginei que virias para mim, mas fugiste...

- Mas o que?! Tu és um demônio maldito! Como ousa tirar a alma de um ser que nenhum mal fez a ti! - O cosmo de Baltazar se elevava com grande força. As correntes que levava consigo se moveram, começando a ser envoltas de chamas. - Passei pelo inferno graças a ti! Contudo, Deus trouxe a mim pessoas que muito ensinaram-me e fizeram restaurar a fé! Como a espada de Miguel Arcanjo, queimarás eternamente!

- Baltazar, não! - Gritou Aquiles.

- Saeviter Catena!!

As correntes se moveram rapidamente na direção de Torquemada, contudo, este se esquivava e começava a voar como um míssil – Não tens força contra mim, Baltazar! Não teve na outra vida, nem terá nesta! - Tomás lançou-se na direção do paladino enquanto criava poderosas garras. Baltazar o olhou, cruzando os braços a frente. Chamas imensas se criaram a frente do paladino e Torquemada foi pego pelas chamas que o perseguiam enquanto tentava desviar delas. - Maldito miserável!

Torquemada expandiu a energia, livrando-se e protegendo-se das chamas invocadas pelo paladino. Enfureceu-se um tanto, mas sorriu. As chamas eram a principal arma de um Inquisidor. - Desenvolveste bem teu novo golpe... Diga-me, quantos queimou durante seu treinamento? Ainda te dói a mente?

- Ignore-o, Baltazar... Ele foi pego de surpresa...

A batalha prosseguiu. Aquiles e Baltazar não tinham armadura para proteger-lhes o corpo, tornando os golpes de Torquemada quase que fatais a sobrevivência. Outra vez o inquisidor usou contra eles sua Face Demoníaca, que teve menos efeito que o esperado. Aquiles estava mais forte que tempos atrás. Torquemava havia desenvolvido seu poder tornando-se santo, mas não esperava que Aquiles tivesse também alcançado tal patamar de força. Foi derrotado por sorte no século XV, assim acreditava. Ver tal homem, forte como ele, era um tanto quanto preocupante. Mas detinha a sapúri, e eles, nada.

Baltazar era quem mais sofria com os golpes. O sangue jorrava de seu corpo com vários ferimentos. A espada que tentou usar, mundana, quebrou-se em várias partes quando chocou-se com a súplice de Mandrágora. Hora foi que Baltazar e Aquiles, percebendo que poderia perecer mais uma vez na mão do espectro, usaram suas técnicas especiais. As correntes envolviam Baltazar da mesma forma que envolviam Aquiles. Era a técnica Archangelus onde Baltazar tomava a forma de um arcanjo, carregando consigo uma espada e uma corrente de ponta clava. Já Aquiles carregava duas poderosas clavas, e tinha a imagem de uma armadura próxima a forma de Cassiopeia.

Houve então uma virada de jogo. Baltazar, manipulando a espada de fogo criada por ele defendia-se das garras do espectro. Aquiles fazia seu ataque valer amarrando Torquemada, inutilizando um membro ou outro quando o paladino aplicava seus ataques massivos. E por mais uma vez, vendo-se em desvantagem, o pólen de Mandrágora subia pelo ar, atingindo os dois servos athenienses. Aos poucos seus corpos foram ficando fadigados. Um ataque poderoso havia feito ambos caírem, levando Baltazar a inconsciência.

[align=center][YOUTUBE]https://www.youtube.com/watch?v=PwtWSNXStEc[/YOUTUBE][/align]

Mais uma vez a cena de um século atrás se repetia. Torquemada pisava no peito de Baltazar e o olhava com um sorriso demoníaco, virando a cabeça para Aquiles que respirava com dificuldade.

- É impressão minha, ou tenho um dejavú?... Muhuhuhahahahaha!!!

Aquiles lançava a corrente que se amarrava à perna de Torquemada. Puxava-o. - Já o mataste uma vez... Ugh... Não permitirei que o faças novamente... Não enquanto eu estiver vivo!...

- Já que insistes...

Torquemada se aproximava de Aquiles e crava-lhe as garras no peito, erguendo o corpo como se fosse um boneco preso a um gancho. O espectro ria até sentir uma emanação cósmica diferente e acima da dele. Mais santa e com um aspecto mais divino. - Mas que diabos?!

- Sois tolo, Torquemada. Hades não faz a justiça. Faz apenas o que lhe cabe pelo ciúme da humanidade habitar tão verdes campos, e nem todos aproveitarem como ele gostaria... - Baltazar levantava-se com os olhos azuis tomando uma cor dourada junto aos cabelos que brilhavam como o Sol de Apollo. Duas vozes se faziam, a de Baltazar e uma feminina, firme como a de um juiz, clara como o som de um martelo, implacável como a sentença divina.

- Quem és tu? Que luz é esta?!

- Eu sou Diké, A Deusa da Justiça... Baltazar entende a sentença divina a todos os atos de crueldade! Contudo, todo homem tem o direito de viver e tentar melhorar! Isso é a Justiça Divina! Isso é o que é assegurado por Athena! Isso é o que eu, Diké, defendo! E você, Tomás de Torquemada, há de tomar seu castigo merecido por todas as suas ações durante a vida, e também durante a morte! Não pecarás mais em meu nome, e no que representa meu arquétipo! Tu és mera ferramenta de desejos egoístas, e terás aqui teu fim!

Uma espada de fogo se fez acima da cabeça de Baltazar enquanto o braço se levantava. O simbolo de uma balança pendendo até que se igualasse moldava o cosmo que se misturava ao do futuro cavaleiro. Torquemada soltava o corpo, surpreendendo-se. Elevava o cosmo de súbito, criando na mão uma centelha de energia. A espada de fogo se moveu com agilidade, atingindo a súplice que tentava reagir a lamina. O espectro, de nível não superior mas próximo a deusa, atacou seu peito, cravando as garras.

- Morra agora, ser vil!

- Marca Demoníaca!! AaaaaaaAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!

O corpo de Torquemada era queimado e caía no solo enquanto Diké voltava a ficar dormente no corpo do paladino. Um súbito brilho que após a cegueira mostrou o jovem cavaleiro deitado...


[align=center][YOUTUBE]https://www.youtube.com/watch?v=RfabJ—2xbg[/YOUTUBE][/align]


Aquiles tinha a mão no peito, caído, sentindo o sangue escorrer. Sangue que ia se tornando uma luz azul. Aos poucos sua pele começava a dobrar, enrugando como se envelhecesse alguns anos em segundos. O ferimento se fechou e ele respirou fundo até que pudesse olhar Baltazar. Baltazar estava caído mas vivo, contudo uma forma negra começava a rodeá-lo, elevando seu corpo. Seus olhos iam ficando negros assim como a energia que começava a rodeá-lo. O sangue se mostrou nos furos da roupa que ele vestia, e o sangue, tomando uma cor negra, começava a se mover por cima da pele, queimando as partes das roupas por onde passava, imitando as veias e os caminhos de ondas de energia. O antigo cavaleiro olhava aquilo com surpresa e temor. Estaria Baltazar sendo possuído? Os cabelos loiros se tornam um azul fúnebre enquanto a pele ficava branca como a de um cadáver. O sangue cobria-lhe os braços e as pernas, subindo até a cabeça, desenhando-lhe as expressões. Da boca começou a sair uma luz branca, assim como nos ouvidos e nariz. Os olhos negros ficavam brancos emanando a mesma luz. Um vento começou a soprar com intensidade em meio a névoa que se fazia no local. Os trapos balançavam enquanto abaixo dos pés de Baltazar um pentagrama era desenhado, junto a novos símbolos arcaicos. Uma luz negra levantou-se tocando os pés de Baltazar, misturando-se ao sangue de mesma cor. No corpo do paladino começavam surgir simbolos e mais simbolos desenhados pelo líquido que antes lhe dava a vida. Aquiles tentava se aproximar, mas era lançado para trás com uma força descomunal. Vários círculos começaram então a rodear o paladino, começando a girar, concêntricos. O sangue negro começava a se tornar vermelho e a queimar como fogo, ostentando brasas ardentes onde se via na expressão de Baltazar um grito silencioso. As linhas iam desaparecendo, indo para as costas. Os círculos diminuíam e voltavam-se também às costas do futuro cavaleiro assimilando-se a pele. A energia negra se tornava fogo, queimando a areia e a tornando vidro, que se despedaçava com o calor. Baltazar então caiu junto ao desaparecimento da aura de chamas, de face ao chão, com o ferimento fechado, e as costas soltando uma pequena fumaça da marca que lhe havia sido criada. Marca que ia sumindo conforme o vapor subia, deixando a marca demoníaca em seu espírito. Marca que transpassaria para a pele cada vez que seu cosmo se elevasse acima de seus limites, causando um milagre.

Aquiles mais uma vez se aproximava, tocando Baltazar com a mão, que queimou como se pegasse no próprio fogo. Febril, o paladino gemia como se passasse por um terrível pesadelo, criando a sua volta um calor que incendiava vez ou outra, como se invocasse seus poderes.

[align=center]Posted Image[/align]


[align=center]Capítulo XXXIV – Enfim, Cavaleiro! (O Capítulo Demoníaco)[/align]


Aquiles havia levado Baltazar para a morada que dormiam. Mal puderam a ver a cena que se desenrolava pelas costas...

...Torquemada, com a carne seca e queimada, movia-se rastejando pelo chão, já em seu fim, embora não acreditasse. Afinal, considerava-se um fiel servidor de Hades, e teria por ele a vida eterna no paraíso.

- Ha!... Ainda... Vou... Encontrá-lo... Baltazar! - Ria com uma risada fúnebre e seca, ríspida como a de um velho que abraçava a morte em seu leito. Ele abria a mão vendo o anel. Anel que continha o sangue de Baltazar e o ligava a marca implantada no corpo e no espírito do futuro cavaleiro.

[align=center]Posted Image[/align]

- Não, não vai, huhuhu... - Uma outra presença se colocava presente. A mesma mulher que há algum tempo havia encontrado Baltazar. Ela pegava o anel da mão de Torquemada e abria um leve sorriso. Dava-lhe uma piscadela, colocando o tal anel no dedo.

- Ora, sua vadia! Verme promíscuo! Devolva-me este anel, ou arrancarei de teu dedo levando teu braço junto!

Torquemada fazia um novo esforço, agarrando a perna da mulher, a segurando. Ela sorria de canto para ele, abaixando o tronco, encarando-o com olhos maliciosos. Movia o indicador frente ao rosto, balançando-o em negativa conforme falava.

- Na-não, velhinho tolo... - Erguia-se – Hades já lhe deu uma segunda chance, então tire essa mão nojenta de minha perna.

A mulher levantava a perna e a descia pisando na cabeça do velho. A cabeça era esmagada e a mulher prosseguia seu caminho, olhando para o anel. O corpo de Torquemada, morto, começava a virar pó que subia com o vento, abandonando-lhe os ossos. A súplice, tomando a cor púrpura, transformava-se em um pólen violeta, retornando ao local que lhe era devido. De Torquemada, só os ossos ficavam naquele local, e ainda se partiam, desmoronando o esqueleto.

...

No outro dia, Baltazar e Aquiles haviam descansado. Nada havia sido-lhe contado sobre Diké. Apenas dizia Aquiles que Torquemada havia feito algo ao espírito de Baltazar. Este perguntava sobre seu passado, e a resposta havia sido “Você não é Octavius. Você é Baltazar, e nunca se esqueça disso”. E assim, no dia 29 de Dezembro de 1548, Aquiles deu a ele as últimas palavras:


- Seu treinamento está completo, Baltazar. Suas habilidades foram plenamente desenvolvidas, você é um cavaleiro completo e tem capacidade para se tornar ainda mais se continuar seu treinamento. Confie em Athena e defenda com ela a esperança da humanidade. Respeite seus superiores. E trate com bondade seus subordinados. Tenha Fé em suas capacidades. E Fé nos que o cercam. Apresente-se ao Grande Mestre na 13º casa. Conheça Athena, se lhe for permitido. E antes de entrar em alguma casa, peça licença. Não conheci todos os cavaleiros. Confesso até que os que conheço não vi pessoalmente, mas acompanhei de perto com meus olhos. Mathra é o atual cavaleiro da 6º casa, o cavaleiro de Virgem. Peço que ouça-o. Ambos buscam a redenção, então poderá aprender algumas coisas com ele. E se possível, aprenda algo com todos os outros, pois fizeram muito para chegar lá. Afinal, só existem doze cavaleiros de ouro. Encontre sua armadura. Será um dos vinte e quatro cavaleiros de prata. Boa sorte.”[/i]
Aquiles então elevou o cosmo e sua imagem começou a desaparecer. A presença cósmica deixou o local e Baltazar respirou fundo. Vendo Aquiles sumir daquela maneira fazia-o pensar se era uma alucinação ou algo do tipo.

Baltazar, com suas roupas e suas correntes de treino, seguiu em direção ao Santuário pegando um barco até a Grécia, subindo o terreno pelas praias gregas. A noite caía e o horário se avançava. Não estava cansado, contudo. Estava ansioso para desempenhar seu papel nos planos divinos.
Passou algum tempo até que chegasse em Rodório, e lá ele pôde ver o caos...

Homens, treinados e extremamente violentos, atacavam algumas pessoas que chegavam no humilde vilarejo, pois não tinham ciência da evacuação feita pelo cavaleiro de ouro, Kondoo de Áries. Baltazar tirou o capuz ao ver o desespero das pessoas. Aqueles não pareciam espectros, não tinham um aura negra e carregada de morte. Tinham um aura violenta carregada de sangue e desejo de guerra.

- Diabolus (Diabos)! Que seres são estes? - Correu em direção a eles, soltando a corrente. - Parem com esta chacina! Ou terei de tirár-lhes a alma de teus receptáculos carnais!

Baltazar foi atacado por um grupo que lhe zombava as palavras, avançando com um afinco tal que nem sua aura de paz fez-lhes hesitar no ataque.

- Não tereis a piedade deste santo pecador! Vós sereis punidos pelas correntes justas! Saeviter Catena!

E assim os braços de Baltazar se elevaram e as correntes, criando um círculo a sua volta, atacaram todos os lados onde havia alguma agressão, lançando os soldados de Ares para o alto, tirando-lhes a vida com um único ataque. E enquanto se defendia, mais pessoas inocentes eram atacadas. Baltazar avançou para perto delas, pedindo para viessem a um único lugar para se protegerem. Outro grupo avançou contra o paladino, e este novamente lançou as correntes, os amarrando com elas.

- Arrependais de teus pecados, e eu vós libertarei de serem mártires de guerra!

O futuro cavaleiro começou a ler-lhes a mente, e ai viu o quão intrínseco estava o anseio pelo sangue. Eles não iam se arrepender, e antes que pudesse cumprir sua sentença, o grupo agarrou-lhe as correntes e lançaram Baltazar para o outro lado, desprotegendo os inocentes. Pela perícia, caiu de pé, mas foi puxado novamente e teve as correntes quebradas.

- Vós sois corruptos pelo sangue. Tão impregnada estão vossas almas que não há salvação da sentença divina. Quebrais minhas correntes, então sofrerão pelas chamas do divino arcanjo!

E com um único olhar o grupo virou uma única chama, ascendida pelo paladino, outrora inquisidor. Os guerreiros gritavam, mas continuavam o ataque. Baltazar intensificou as chamas, tornando-as quentes o suficiente para que chegasse rapidamente aos músculos. Sua cabeça começava a doer um tanto, e mais inimigos avançavam. Ele olhou para os inocentes que se protegiam atrás dos cadáveres inimigos, logo atrás dele.

-Não temais, caros irmãos! A mão do Senhor Protetor há de mantê-los vivos pela minha força! Por Deus... Por Athena... Não deixarei que suas almas inocentes sucumbam à fúria de seres malignos dignos do inferno do caído Lúcifer! Em minha mente herdei as chamas da espada do arcanjo, e não serão estes demônios que a farão cair!

As pessoas lhe depositavam fé, e assim, recebendo um tanto do cosmo não desperto daquelas pessoas, Baltazar avançou contra o grupo, segurando os pedaços de corrente que ainda tinha. Mentalizou a luz divina sobre suas costas e fechou os olhos, sentindo o calor de seu coração arder pelo anseio da justiça. Sentia, mais que outrora, que estava desempenhando aquilo que deveria: lutar contra o mau, junto de Athena. E foi nesta hora, na casa de Áries: Uma luz dourada e prateada, de grande força, se misturou e liberou a armadura de Cefeu, que em meio ao trajeto, viajando como um raio pelo céu até Rodório, tomou outra coloração com o cosmo do Paladino.

Baltazar corria em direção ao inimigo. Sentiu seu corpo flutuar por um momento enquanto algo juntava-se ao seu corpo. Suas pernas ficavam mais fortalecidas, seus punhos mais fortes, seu peitoral mais protegido e os cabelos ficavam mais organizados. Moveu os braços para frente, num impulso. As correntes moveram-se de uma forma muito mais receptiva ao comando, e pareciam ter vida própria. Além de avançar contra o grupo, elas se estendiam para além de seu alcance comum, e atacavam outros inimigos além do alcance dos olhos. Rapidamente, vários dos guerreiros de Ares haviam caído, alguns no segundo anterior de fazer uma vítima.

O então cavaleiro parou. Olhou para si. A armadura de Cefeu havia se tornado branca, com adornos dourados, ressaltando o aspecto angelical de seu cosmo, equipando-se muito bem ao seu corpo. E logo atrás um homem o encarava, com surpresa no olhar, mas um sorriso, como se estivesse satisfeito pelo que havia visto. Era o lemuriano que anteriormente estava nas escadarias, e Baltazar o via pela primeira vez naquele momento, enquanto o cosmo baixava e a armadura voltava a sua tonalidade azul.

- Certamente a armadura sentiu urgência em achar um novo portador, só não pensava que seria tão rápido. Você fez toda essa bagunça sozinho? - Vincenzo falava.

Cefeu olhou diretamente para o homem que o inquiria. Segurando firmemente as correntes, ele respondeu. - Com o Divino olhando por minhas costas, Athena emprestando-me sua força, e estes inocentes tendo em mim a fé, não há inimigo que não pereça pela justa sentença. Sou Baltazar, clérigo excomungado, ex rei, mas fiel servente de Deus, intitulando-me Paladino. Aquiles, meu mestre, auxiliou-me em encontrar meu destino. E cá estou, pronto para bem servir na luta contra Hades e fazer seus santos caídos verem a verdade que os cega!

- Ora, conhece a respeito de Hades e seu exército de mortos! Seu mestre deve tê-lo ensinado bem, Baltazar. Bem, toda a ajuda é bem-vinda, meu caro. Se ajudar este velho a arrumar a bagunça que fez, ficarei feliz em levá-lo ao Santuário. - Vincenzo.

- Digamos que conheci quase a fundo os lados desta batalha. - Baltazar abria um gentil sorriso enquanto a armadura branca se tornava azul conforme o cosmo do cavaleiro diminuía. - Auxiliarei... Quem são estes carniçais? Busquei neles a humanidade, e só vi um puro anseio pelo sangue... - Baltazar se aproximava de um dos caídos, ajoelhando-se e lhe fazendo o sinal da cruz na testa.

- Digamos que... - o homem dava um meio sorriso - que você não conheceu a fundo todos os lados dessa guerra, Baltazar....

Baltazar levantava-se olhando para Vincenzo. Olhou-o nos olhos e fez uma expressão de pensamento antes de responder.

- Há mais inimigos, além de Hades... - Lembrava-se da espectra e a pequena conversa que tiveram, falando de outros deuses além daqueles se ouvia muita falar entre as duas facções. - Quem é o outro que ataca o Santuário?...

- Apressemo-nos aqui, Baltazar. Levá-lo-ei para alguém mais adequado que este homem aqui, não sou o melhor para dar tais explicações, você vê.

- Compreendo. Onde levaremos os corpos para que tenham uma digna vala? - Olhou para o homem, percebendo a ausência de sobrancelhas e a faixa na testa. Lembrava-se de algumas descrições de Aquiles, mas ainda pouco dava atenção a isso.

- Não há cemitérios aqui para homens assim, achemos uma clareira.

- Então que achemos uma clareira e façamos a vala para estes homens... - Respirou fundo e ficou a pensar. Como teriam ficado de tal forma estes homens? Que deus grego teria os feito sanguinários de tal forma?

Baltazar e Vincenzo buscaram um local para colocar os corpos daqueles que atacaram o Santuário. Numa clareira começaram a cavar uma única vala onde colocariam os corpos enfileirados. Logo os soterraria e por costume, Baltazar colocava uma cruz sobre a vala, escrevendo com uma lamina qualquer “Εδώ βρίσκονται οι άνδρες που έζησαν από τον πόλεμο.”(Aqui jaz homens que viveram pela guerra). Deixaram o local. Tão logo fosse possível Vincenzo apresentaria o cavaleiro ao homem que lhe explicaria tudo sobre a guerra.

[spoiler=A Manifestação do Cosmo de Baltazar]A Marca:
[spoiler=Anel]Posted Image[/spoiler]

Ritualizado por Torquemada, contido o sangue de Baltazar, sempre que este elevar seus poderes ao pico, o vermelho do anel começará a mesclar entre um escuro e um claro, sem uma uniformidade concreta. Quando atingir o 7º sentido, o vermelho sangue exaltará em meio a uma pequena mancha negra que irá se posicionar em um ponto do anel, como que a seta de uma bussola. Aquele que tiver o anel poderá saber a direção exata que se encontra o cavaleiro. [/spoiler]



[align=right]HISTÓRICO DA ARMADURA (Súplice de MANDRÁGORA)[/align]

Nome do Usuário: Tomás de Torquemada
Período de uso: 31/10/1450 a 20/12/1548
Histórico resumido: Nascido em Ávila, adentrou no seminário onde começou a escalar a hierarquia da Igreja. Se tornou Inquisidor e tratou de julgar inúmeros homens e mulheres. Tinha o serviço de encontrar no meio dos pecadores alguém que portasse o cosmo desperto e pudesse servir Hades, matando aqueles que não o serviam. Matou Octavius, cavaleiro de prata de Cefeu, em 20 de Dezembro de 1482. Morreu em 16 de Setembro de 1498, pelas mãos de Aquiles, cavaleiro de bronze de Cassiopeia. Retornou como Caído, continuando com seu trabalho, encontrando Baltazar, o qual treinou e ensinou, mas que fugiu quando ia receber a súplice. Reencontrou-o mais tarde, treinado como Atheniense, e tentou convertê-lo a Hades, sem total sucesso. Enfrentou Aquiles e Baltazar e faleceu, não antes de marcar a alma de Baltazar, em 20 de Dezembro de 1548, ligando a alma do cavaleiro a um anel que foi tomado por uma espectro, que lhe deu o golpe final no leito de morte.
Situação Atual:Falecido, tendo o corpo pulverizado e deixado os ossos a sorte na areia das praias de Crotônia (Sul da Península Itálica). Quanto a armadura, se encontra em Heinstein aguardando novo portador.



[align=right]HISTÓRICO DA ARMADURA (Bronze de CASSIOPEIA)[/align]

Nome do Usuário: Magnus Burbon, O Burguês
Período de uso: 02/01/1461 a 18/03/1468
Histórico resumido: Magnus era um espanhol, do reino de Castela, que se tornou cavaleiro depois dos 20 anos. Descendência burguesa, testemunhava as várias ações da Igreja, buscando quem fosse seus autores, buscando por espectros que estivessem envolvidos para reunir informações para o Santuário, usando o comércio e noitadas para adquirir informações importantes. Foi morto por Torquemada de Mandrágora em uma luta covarde, onde foi torturado, castigado e morto pelas técnicas variadas do espectro celeste, que não lhe deu chance de defesa, tratando de tornar a noite do cavaleiro bem mais lenta. Magnus foi quem treinou Octavius, O Cristão, que tinha capacidade de lhe superar em poder, e o fez, tomando a armadura de Cefeu, momento tal que não pôde presenciar por conta da morte.
Situação Atual:Falecido. A armadura foi levada para a Ilha de Andrômeda, onde foi restaurada e aguardou novo portador. Seu corpo foi levado para o Santuário.


Nome do Usuário: Aquiles, O Órfão
Período de uso: 02/01/1439 a 16/07/1498
Histórico resumido: Orfão, foi cuidado por Octavius que o treinou para ser cavaleiro. Assumiu a armadura de Cassiopeia e viu seu mestre morrer nas mãos do espectro de Mandrágora em 20 de Dezembro de 1482. Foi salvo por uma luz e depois cuidado por Miguel, Clérigo de Roma, que tinha aparentes poderes sobrenaturais, apesar da cegueira. Sumiu e abandonou a armadura de Cassiopeia após matar Torquemada de Mandrágora em 16 de Setembro de 1498, quase extinguindo a própria vida. Acreditasse que passou o tempo junto de Miguel, aprendendo uma habilidade que o mantinha vivo com um corpo jovem, mas que não poderia sangrar muito, com o risco de morrer. Retornou para treinar Baltazar, ciente que ele era a reencarnação de Octavius, O Cristão. Testemunhou os poderes de Diké em seu pupilo, mas nada lhe contou. Após matarem Torquemada, em 29 de Dezembro de 1548, sumiu sem destino aparente.
Situação Atual:Não se sabe ao certo. Apenas sabe-se que está vivo. Acreditasse que retornou a se encontrar com Miguel, Clérigo de Roma e usa de alguma técnica para manter sua juventude.



[align=right]HISTÓRICO DA ARMADURA (Prata de CEFEU[/align]

Nome do Usuário: Octavius, O Cristão
Período de uso: 25/03/1468 a 20/12/1482
Histórico resumido: Nasceu em Âncona, na Península Itálica, filho de um pescador saxão e uma grega. Foi treinado por Magnus, O Burguês, falecido tempo depois pelas mãos de Torquemada de Mandrágora. Era cristão, mas defendia Athena pela causa pelo bem da humanidade. Era observado por Diké, uma vez que presava a Justiça acima de tudo. Treinou Aquiles para ser cavaleiro. Lutou ao seu lado contra Torquemada, falecendo em 20 de Dezembro de 1482.
Situação Atual:Seu corpo foi enterrado no Santuário. A alma está reencarnada em Baltazar, O Paladino.


Nome do Usuário: Baltazar, O Paladino
Período de uso: 01/01/1549 a XX/XX/XXXX
Histórico resumido: Nasceu em Âncona, na Península Itálica, filho de um pescador saxão e uma grega. Tinha loucuras incompreensíveis que logo chamaram a atenção das pessoas. Recebeu uma visita e foi para a Igreja quando bem pequeno, e lá aprendeu a maior parte de sua filosofia e manipulação cósmica. Seguiu viagem com um tutor, Jonas, para a França, onde conheceu uma loja Maçonica e pessoas importantes. Recebeu o clericato. Retornou a Âncona para rever os pais, mas já haviam falecido. Começou a instruir uma jovem, filha de um cristão e uma pagã, chamada Luna. Foi convidado para ser Inquisidor, e levou a jovem consigo nas viagens pela Espanha. Foi treinado pelo que chamava de espírito, que na verdade era o Espectro Torquemada de Mandrágora. Luna faleceu durante um embate e Baltazar ficou perdido, excomungado pela Igreja. Viajou para a Inglaterra onde houve perseguições aos católicos. Foi para Portugal, e Manoel, um amigo maçom, o levou para Angola, onde começou a brigar contra os portugueses que colonizavam a região, criando um feudo e tornando-se Rei. Foi derrotado, pedindo a bandeira branca uma vez que viu sangue desnecessário. Fugiu para o norte, quase morrendo no deserto. Encontrou Kalil, outro amigo maçom, que estava uma caravana e o levou para o Cairo, no Egito. Auxiliaram o sultão local e seguiu sozinho para a Península Itálica. Aquiles, O Órfão, começou a lhe treinar. Foi reencontrado por Torquemada que o levou a Heinstein, onde conversou com Pandora, quase tornando-se um Espectro, conhecendo outro que jurou auxiliar. Reencontrou Aquiles e definiu sua posição. Lutou ao seu lado contra Torquemada de Mandrágora, vencendo-o, sem saber exatamente como. Com Aquiles, tentou ver o que havia acontecido com seu corpo, mas Aquiles não conseguia descobrir o que havia ocorrido. Seguiu para a Grécia, chegando ao vilarejo que era atacado por servos de Ares. Os derrubou e matou, conhecendo Vincenzo, e depois auxiliou com os corpos.
Situação Atual:Após enfrentar os soldados de Ares, deseja subir as 12 casas e se apresentar ao Grande Mestre.


Offline Profile Goto Top
 
1 user reading this topic (1 Guest and 0 Anonymous)
ZetaBoards - Free Forum Hosting
Free Forums with no limits on posts or members.
Learn More · Register Now
« Previous Topic · Facção Athena (Cavaleiros de Prata) · Next Topic »
Locked Topic


Theme by James... of the ZBTZ and themeszetaboards.com